
QUANDO CHEGA A HORA
Zibia Gasparetto
Ditado pelo esprito Lucius
Editora Vida e Conscincia



Prlogo

    Nico era um menino gil, esperto, sempre atento e disposto a tirar proveito de tudo quanto acontecesse ao seu redor. Se via alguma mulher com pacotes, oferecia-se 
para carreg-Ios; se algum estava se mudando, l ia ele oferecer-se para ajudar. Quando no tinha nada para fazer, costumava ficar na porta dos armazns observando 
as pessoas,  espera de poder ser til. Uns nqueis aqui, outros ali, ele sempre conseguia juntar algum dinheiro com o qual comprava os cadernos para a escola e 
ainda sobrava um pouco para a entrada da matin do domingo no cinema onde muitas vezes trabalhava como lanterninha quando o dinheiro no dava para comprar o ingresso. 
Quando ia ajudar nas mudanas, ganhava muitos objetos, e os levava para casa, onde sempre tinham alguma utilidade.
    Aos nove anos, Nico era o segundo filho entre cinco irmos de uma famlia muito pobre. O pai no era muito dado ao trabalho e gastava suas tardes no bar da esquina 
jogando baralho com os amigos. Era a mulher Ernestina, lavando roupas para fora, quem mantinha a famlia. Quando algum lhe dizia:
    - Por que o Jacinto no trabalha?
    Ela respondia resignada:
    - Ele no pode. Tem um problema de sade. No serve pra nada. E muitas vezes a pessoa retrucava:
    - Qual nada, Dona Ernestina. Ele  preguioso! Ah, se fosse o meu marido! Teria que se virar! Onde j se viu?
    Ernestina dava de ombros e no respondia. Estava habituada quela vida. Casara-se muito cedo: ele, com trinta anos; ela, com treze. Seu pai lhe dissera:
    - Voc vai casar com ele. J acertamos tudo.
    - Mas, pai, eu nem conheo ele direito!
    - Fica conhecendo, ora essa! Ele  um bom partido. Um homem que j tem um pedao de terra, tudo plantado, tem fartura. Sabia que a terra  dele? O pai j passou 
tudo pra ele. Voc vai ficar bem.
    Ela obedeceu. Como no obedecer? Educada de maneira dura, jamais podia dizer no aos pais. Durante o primeiro ano de casamento, quando o pai de Jacinto ainda 
estava vivo, tudo foi muito bom. Ela era bem tratada, no lhe faltava nada.
    
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    Quando nasceu o primeiro filho, deram uma festa: mataram um leito, fizeram bolo, abriram um garrafo de vinho.
    A vida parecia-lhe fcil, at o dia em que o pai de Jacinto ficou doente. Sua esposa tratou dele, levaram-no ao mdico da cidade, mas nada deu jeito. Ele morreu. 
Depois disso, tudo foi se modificando. Dona Edinete, sem o marido, ficou triste, deu para beber, ficando fechada no quarto por dias e dias. Ernestina teve de assumir 
a direo da casa.
    Muitas vezes tentou fazer com que Jacinto cuidasse da plantao, mas ele alegava que se sentia mal, que no gostava do cabo da enxada e que sua sade era delicada.
    Apesar da sade delicada, ele conseguia um filho por ano e logo ela estava com cinco filhos. Como ele no cuidava da plantao, o mato comeou a crescer, e Ernestina 
no dava conta de cuidar da famlia e tambm da plantao. Quando muito, conseguia criar as galinhas e aproveitar as frutas que cultivavam no pomar.
    Teve de aprender. No queria mais filhos. Foi procurar um curandeiro, que lhe deu alguns remdios com os quais evitava engravidar. Foi ento que comeou a pegar 
roupas de fora para lavar. No tinha dinheiro para mandar os meninos  escola. Mas Nico queria aprender a ler. J o mais velho, Jos, no se importava. Ficava jogando 
bola o dia inteiro, no ajudava nem a olhar os irmos. Era Nilce, um ano mais nova que Nico, quem tomava conta dos pequenos enquanto Ernestina cuidava da roupa.
    Era Nico quem a ajudava mais. Alm das coisas que ganhava das pessoas, conseguia comprar po e at caf.
    - Quando eu crescer, me, vou ganhar muito dinheiro e morar na cidade. Voc vai ver!
    Ela ria, balanava a cabea e no respondia.
    Quem nasce pobre morre pobre!, pensava. Mas no falava isso para ele. Para qu? Era uma criana, e no tinha de conhecer a dureza da vida antes do tempo.
    Ele continuava sempre bem-disposto, alegre, procurando aproveitar o tempo de forma lucrativa. Enquanto seu irmo se divertia nadando na lagoa ou jogando bola 
com os amigos, Nico perambulava em busca de uma oportunidade pelas ruas de Sertozinho, pequena cidade do interior de So Paulo, onde viviam.
    As pessoas gostavam dele, sempre alegre e disposto a ajudar. Muitas vezes lhe davam guloseimas, alguns at mandando alguma coisa para sua famlia.
    - Ele nem parece filho do Jacinto! - diziam as comadres.
    
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    - Ele puxou a me. Ela, sim,  mulher trabalhadeira! No sei como sustenta aquele vagabundo do marido.
    - E a sogra, ento? Um horror! Vive envergonhando todo mundo. Outro dia ela bebeu e saiu pra rua semidespida. Precisou Ernestina pegar ela  fora e levar pra 
dentro. Uma vergonha! Se no fosse a Aurora ajudar, nem sei o que tinha acontecido. Ela ia acabar tirando a roupa toda na rua!
    - Coitada da Ernestina! Uma mulher to sria, to educada!
    Nico chegou em casa tarde e perguntou:
    - Me, ainda tem janta?
    Ela foi  cozinha e respondeu:
    - Deixei um prato pra voc no fogo. Por que veio to tarde?
    - Fui ajudar o Seu Aurlio. Ele pegou um servio na manso.
    - Na manso?
    - . Sabia que vo reformar? Gente muito rica da capital. Vo se mudar assim que estiver pronta.
    - Tem certeza?
    - Tenho. O Seu Aurlio foi contratado para cuidar do jardim e ele pediu para eu ajudar. Vai pagar bem.  que eles tm pressa de aprontar tudo, e tem muito trabalho 
l.
    - Por que ser que eles querem vir morar aqui no interior? Gente rica e da cidade!
    - No sei. O que sei  que veio muita gente de So Paulo e esto trabalhando para aprontar tudo. Voc precisava ver o rebulio. Tem pedreiro, carpinteiro, pintor, 
tudo. Fiquei louco de vontade de entrar na manso.
    -  melhor no. Dizem que  assombrada.
    - No acredito. Isso  conversa do povo.
    - Est fechada desde que o coronel morreu. O Nestor jura que viu
    a alma dele vagando por l.
    - Bobagem. O povo  ignorante, fala demais.
    Uma voz vinda de trs de Nico interrompeu a conversa:
    - Olha s quem fala! O que voc sabe da vida?
    Nico voltou-se. Jacinto estava na porta olhando-o provocador.
    Os dois no se davam bem. Nico escapava do pai sempre que podia. Tinha sua prpria opinio sobre ele e no gostava de exp-Ia. Achava-o preguioso e envergonhava-se 
de v-lo no bar jogando enquanto sua me trabalhava duro para conseguir algum dinheiro.
    
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    Apesar de no dizer nada, seu olhar irritava o pai. A esperteza do menino, sempre bem-disposto, trabalhando o dia inteiro, incomodava-o. Parecia-lhe que ele 
fazia isso s para irrit-lo. Por que ele no era como Jos? Esse, sim, era um menino como os outros.
    Nico no respondeu. Apanhou o prato e foi comer no quintal. Gostava de sentar-se em um caixote que colocara sob uma mangueira. A noite estava estrelada e ele 
gostava de olhar para o cu, imaginando o que haveria atrs daquele manto de estrelas.
    Seria o paraso mesmo, como dizia o vigrio? Seriam outros mundos, como ele vira naquela revista que ganhara outro dia? Enquanto comia, pensava: eles falavam 
em discos voadores. E se um disco voador do outro mundo descesse em seu quintal, o apanhasse e levasse para conhecer outros planetas?
    Sentiu um arrepio de medo, mas ao mesmo tempo empolgou-se.
    Que aventura! Ele iria, com certeza. No teria nem um pouco de medo.
    Acabou de comer, mas ficou ainda algum tempo olhando o cu, imaginando como seriam suas aventuras nesses mundos desconhecidos.
    Sua me chamou-o para dormir. Ele obedeceu. Prometera estar na manso antes das sete da manh para ajudar Aurlio com o jardim. Esse era um trabalho que ele 
conhecia bem. Havia algum tempo ele cultivava um pedao de terra, plantando algumas verduras que vendia, e o dinheiro ajudava-o a manter-se na escola.
    Entrou, colocou o prato na pia, lavou-o, enxugou-o e guardou-o. Depois, lavou o rosto e foi se deitar. Mas ainda ficou algum tempo imaginando sua viagem em um 
disco voador e sua aventura em outros planetas. Em meio aos seres criados por sua fantasia, ele finalmente conseguiu adormecer.
    
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    Captulo 1
    
    O galo cantou e Nico pulou da cama. Foi ao banheiro, lavou-se, penteou os cabelos, trocou de roupa e foi  cozinha. Era muito cedo, mas Ernestina j havia coado 
o caf. O menino apanhou uma caneca e serviu-se direto do coador, adoou o caf, e, apanhando um pedao de po, foi sentar-se embaixo da mangueira.
    Enquanto tomava o caf, aspirava com prazer o cheiro gostoso das plantas, olhando o cu que o amanhecer matizava, criando caprichosos desenhos. Ele gostava de 
ver o dia clarear, de sentir a brisa fresca e o silncio apenas quebrado pelo chilrear dos pssaros.
    Enquanto os outros dormiam, ele podia usufruir da calma e da companhia da me, que, como ele, madrugava. Ernestina pegou sua caneca de caf e aproximou-se.
    -  cedo ainda. Podia ter dormido mais.
    - No quero perder a hora. Sente um pouco aqui.
    Afastou-se para que ela se acomodasse. Ficaram silenciosos tomando o caf. Gostavam de ficar assim, lado a lado, sem conversar.
    De repente, Nico indagou:
    - Voc conheceu o coronel?
    - No. Tua av contava que ele era muito bravo. Mandou a filha embora de casa, prendeu a mulher no quarto e nunca mais deixou sair. 
    - Por que ser que ele fez isso?
    - Foi briga. A filha se meteu com um colono e ficou esperando filho. O coronel expulsou ela, e a me queria ir atrs. Ento ele prendeu ela.
    - E o moo?
    - Ningum sabe. O coronel mandou matar, e ele fugiu que nunca mais ningum soube dele.
    - E depois?
    - A moa sumiu. Alguns dizem que ela voltou e que ele mandou prender ela tambm; outros, que ela morreu quando o filho nasceu. Mas ningum sabe ao certo. A mulher 
do coronel morreu dez anos depois e ele ficou sozinho na manso. Diziam que ele no estava bom da cabea e que a alma da mulher vinha atormentar ele pra se vingar. 
Ele andava pelos jardins falando sozinho, brigando com todo mundo, um horror.
    - Ele ficou louco?
    
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    - Dizem que sim. Foi de ruindade. Deu um trabalho danado, no queria morrer de jeito nenhum. Foi preciso o vigrio rezar muito, pedir pra ele fechar os olhos. 
J no falava coisa com coisa e no morria, estava velho, magro, acabado. Dizem que nem a morte queria levar ele.
    - Se todos morreram e ningum sabe da filha nem do neto dele,
    quem ficou sendo dono da manso quando ele morreu?
    - Um irmo que morava na cidade. Eles no se davam, mas ele herdou tudo. Era da lei.
    - Eles nunca vieram na manso?
    - Vieram. Foi a que as coisas comearam a acontecer. Eles arrumaram tudo, pintaram e vieram passar as frias. A famlia inteira. Mas logo os empregados comearam 
a ver as almas penadas e contaram pra todo mundo.
    - Ser verdade mesmo?
    - Eu acredito. Apesar do emprego ser bom, deles pagarem bem, ningum quis ficar l. Eles acabaram indo embora antes do tempo. Depois disso, tentaram voltar algumas 
vezes, mas os fantasmas expulsaram todos.
    - No acredito nessas coisas.
    - Eu no desafio. Cruz credo! Deus nos livre! - disse Ernestina, persignando-se.
    - E voc, que vai l,  melhor respeitar. A casa  assombrada mesmo, e os fantasmas no querem que ningum more na casa. Por mim voc no ia.
    - Pois eu vou. No tenho medo dessas coisas.
    - Ento no entra na manso. Fica s no jardim. Se acontecer alguma coisa, fica fcil sair correndo.
    Nico sorriu malicioso:
    - Se algum fantasma aparecer, vou perguntar o que ele quer. 
    - Deus nos livre! J pensou se ele vem atrs de voc?
    - Eu arranjo uma cruz e o espanto. O vigrio disse que  assim que se espantam as almas que vm atormentar.
    Ernestina balanou a cabea negativamente:
    - No confie nisso, no. Sei de casos que a cruz no valeu de nada.
    - O vigrio est mentindo?
    - Isso no. Mas j percebi que ele no sabe de tudo. Tem coisas que ele pensa de um jeito e so de outro.
    - Nesse caso ele no devia ser vigrio.
    - Ele entende das coisas da religio, mas fora disso  um homem como os outros. Tem suas fraquezas. Ns precisamos entender. Ele no  um santo.
    
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    Nico ficou calado pensando. Santo devia ser mais sbio, conhecer todos os segredos da vida. Devia saber o que haveria nas estrelas do cu e nos mundos que ele 
sonhava conhecer um dia.
    Ernestina levantou-se e foi at a cozinha. Nico ficou um pouco mais. Quando achou que era hora, deixou a caneca na pia e saiu rumo  manso. Era distante, e 
ele foi caminhando pensando em sua conversa com a me. No acreditava em fantasmas, mas, se a alma do coronel aparecesse, ele no teria medo. J que a cruz podia 
no adiantar nada, ele precisava pensar em outra coisa. Correr  que ele no correria. Se existisse alma do outro mundo mesmo, ele tentaria conversar e saber o que 
ela queria. Afinal ele nem conhecera as pessoas da famlia do coronel, no tinha nada com isso e no havia razo para que o fantasma dele o perseguisse.
    A manso, como era conhecida na cidade, era um casaro de uma antiga fazenda de caf que o proprietrio loteara, tendo ficado com a casa construda no meio de 
um terreno de trs mil metros quadrados, rodeada de um imenso jardim e um pequeno pomar, cercada por um muro alto que terminava em duas colunas em cima das quais 
havia duas esculturas de bronze voltadas para os portes de ferro trabalhado, a entrada principal. A outra, a de servio, ficava na rua de trs.
    Nico foi o primeiro a chegar. Deu uma volta para ver se Aurlio j havia chegado. Como no viu ningum, sentou-se na calada em frente ao porto principal, esperando. 
Seus olhos curiosos examinavam todos os detalhes da propriedade, tentando imaginar como teria sido a vida na manso antes de acontecer a desgraa da famlia.
    Pensava que era bobagem uma pessoa que possua uma casa to bela no saber aproveitar. Se aquela casa fosse sua, ele se sentiria muito feliz. No pensava no 
dinheiro que ela valia, mas na alegria de poder morar em um lugar to bonito, de acordar todos os dias naquele jardim maravilhoso. Era verdade que agora o jardim 
estava feio, as plantas secas, o mato crescendo livremente, mas ele podia ver as rvores e imaginar como teria sido.
    Aurlio chegou com mais um rapaz e arrancou Nico de seus devaneios. Vendo-o, o jardineiro sorriu satisfeito.
    - Chegou cedo - foi dizendo. - Assim  que eu gosto. Vamos comear logo e aproveitar o tempo.
    Dirigiu-se ao porto de ferro e tocou a sineta. Logo apareceu o caseiro, com as chaves. Depois dos cumprimentos, Aurlio tomou para os dois ajudantes:
    - Subam na caminhonete. Vamos descarregar tudo l dentro.
    
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    Sentado no banco da caminhonete, Nico sentia o corao bater forte. Finalmente estava entrando na manso. Quantas vezes havia parado em frente daqueles portes 
imaginando como seria l dentro? Agora poderia matar a curiosidade.
    A estrada saa dos portes em forma de um semicrculo que se fechava em frente  porta de entrada da casa, sobre a qual havia uma grande marquise de ferro trabalhado 
e de vidro, rematadas por algumas colunas sobre as quais havia acabamento de luminrias de ferro.
    Nico desejou que a caminhonete passasse por baixo daquela cobertura. Ele queria ver melhor a porta de entrada, mas Aurlio no fez a curva, continuou indo at 
parar nos fundos, em frente s acomodaes de fora.
    Descarregaram a caminhonete e Aurlio foi avisado de que logo o engenheiro estaria chegando para mostrar a planta de como os jardins deveriam ser.
    Como eles queriam iniciar logo, Aurlio determinou que comeassem a tirar o mato de perto dos muros.
    O engenheiro chegou acompanhado de outros homens e chamou Aurlio para conversar. Eles tinham pressa. Ele deveria arranjar mais gente. Achava pouco os trs. 
O jardineiro ficou de arranjar mais dois ajudantes, garantindo que fariam o trabalho no tempo desejado.
    Logo comeou a movimentao dentro da casa, e Nico de vez em quando olhava curioso na tentativa de ver como era l. Percebendo a curiosidade, Aurlio comentou:
    - Voc est louquinho pra saber como  l. Se eu tiver jeito, quando for levo voc junto.
    - O senhor faz isso, Seu Aurlio? - respondeu o menino com os olhos brilhantes.
    - Claro. Mas, se a casa for assombrada, no vem reclamar depois.
    Quero ver se tem coragem mesmo.
    - Cruz credo! - comentou Maninho. - Eu  que no quero entrar l. Minha tia me avisou que  perigoso.
    Maninho era o apelido do outro jovem ajudante. Sobrinho da mulher de Aurlio, morava com eles para aprender o ofcio, j que sua famlia era da roa e muito 
pobre.
    Aurlio sorriu com ar de superioridade e contestou:
    - Isso  coisa de mulher! Deixa de ser covarde. Um homem precisa ser corajoso.
    - Eu no tenho medo - disse Nico. - No acredito em fantasmas.
    Estou curioso para ver como a casa  por dentro. Deve ser uma beleza!
    
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    - Est muito abandonada. Foi bonita mesmo.
    - O senhor conheceu a casa naquele tempo? - indagou Nico, entusiasmado.
    - Eu era criana, tinha a tua idade, mas ainda me lembro. Era uma beleza.
    - Conheceu a famlia do coronel? - continuou Nico.
    - Conheci. Mariinha era linda! Nunca vi moa igual. Onde passava, todo mundo suspirava. Cabelos negros, pele branca, olhos que pareciam duas jabuticabas. O corpo, 
ento, nem se fala. Era linda mesmo. Muito parecida com a me, Dona Mariquinha.
    - Minha me me contou que ela se tomou de amores por um colono e se perdeu.
    - Nem me fale... Que infelicidade! O coronel mandou ela embora de casa. Nunca mais ningum viu Dona Mariquinha. Quando morreu, Dona Salom, que foi vestir o 
corpo, contou pra minha me que nem parecia ela, de to acabada.
    - Ela tambm era bonita?
    - Era. Dava gosto ver. To elegante e delicada... Era gentil com todos.
    - J o coronel, sei que ele era o oposto - comentou Nico.
    - Era mesmo. Dizem que ele era ruim, mas no acredito. O povo inventa muito. Ele ajudou muitas famlias, inclusive a do meu av. Agora, que ele era severo, isso 
era. Se voc trabalhava direito, fazia o que ele queria, tinha tudo com ele. Mas, se fosse contra ele ou se o desafiasse, ento era melhor fugir do seu pedao.
    - Ele devia ser um homem muito feio.
    - Que nada. Era at bem-parecido. Mas por causa do desgosto foi ficando acabado. Ento, sim, enfeiou mesmo.
    - O Zeca da venda disse que um dia veio aqui trazer as compras do caseiro - contou Maninho. - Era de noite, porque ele teve que esperar o armazm fechar pra 
poder vir. O Seu Incio pediu que ele levasse as caixas pra dentro. Ele obedeceu e levou pra casa dele, que  aquela l do fundo. Quando ia saindo, ele resolveu 
espiar dentro da casa-grande. Foi at a janela e olhou. Ficou arrepiado. Viu a alma do coronel, do jeitinho que dizem que ele era, andando l. Ele quis gritar e 
no pde, mas mesmo assim o coronel viu ele e saiu correndo atrs. O Zeca conseguiu correr e passar pelo porto, sem esperar o caseiro trazer o dinheiro. Disse que 
nunca mais volta l.
    Aurlio riu gostosamente.
    
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    - Eu queria ver vocs correrem se ele aparecesse aqui agora.
    - Cruz credo, Seu Aurlio! - disse Maninho, persignando-se.
    O senhor no devia brincar com essas coisas.
    Nico ouvia e no se importava. Estava cansado de ouvir histrias de assombrao e nunca vira nenhuma. Comeava a desconfiar da veracidade delas.
    Por mais que Nico desejasse, o tempo foi passando sem que ele houvesse tido oportunidade de entrar na casa. Ainda assim no desanimou.
    Foi no dia seguinte que aconteceu. O sol estava a pino. Depois de os jardineiros trabalharem a manh toda, almoaram e estenderam-se debaixo das rvores para 
descansar um pouco.
    Enquanto Aurlio, Maninho e mais Incio, que se juntara a eles para agilizar o servio, descansavam, Nico levantou-se e circundou a casa, tentando ver, atravs 
das janelas entreabertas, o que havia dentro.
    - Menino, venha c.
    Nico olhou para o lado de onde vinha a voz. Na soleira estava o engenheiro contratado para reformar a casa. Nico aproximou-se correndo:
    - Sim, senhor.
    - Preciso de cigarros. Sabe onde vende?
    - Sei, sim, senhor. Na venda do Zeca. Se o senhor quiser, posso ir comprar.
    -  longe?
    - No, senhor. Trs quadras. Vou num p e volto no outro.
    O engenheiro sorriu satisfeito. Tirou uma nota do bolso, entregando-a a Nico juntamente com uma embalagem de cigarros vazia.
    - Compre dois maos, deste aqui.
    O menino apanhou o dinheiro e saiu correndo. Dentro de pouco tempo estava de volta e procurou pelo engenheiro.
    - Est l dentro - informou um pedreiro.
    Nico estremeceu de prazer. Rpido, entrou no saguo olhando tudo.
    No podia perder nenhum detalhe. Apesar de estar tudo remexido e fora do lugar, Nico deslumbrou-se com os desenhos do teto, com os ladrilhos do hall. Informado 
que o engenheiro estava no andar de cima, subiu as largas escadas de mrmore, admirando os vitrais coloridos que deixavam entrar a claridade. Uma vez em cima, entregou 
os maos de cigarro ao engenheiro, que satisfeito lhe deu duas moedas.
    - Obrigado, doutor - disse o menino sorrindo. - Se desejar mais alguma coisa,  s chamar. Terei gosto em ajudar.
    - Voc  esperto. Foi depressa mesmo.  parente de Aurlio?
    
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    - No, senhor. Ele me contrata para trabalhar quando precisa. O engenheiro olhou para ele e sorriu:
    - Est certo. Pode ir.
    - Se precisar de alguma coisa, pode me chamar.
    Nico foi saindo devagar. Seus olhos curiosos examinavam cada detalhe, imaginando como seriam os mveis que estavam cobertos e os quadros que haviam sido retirados 
e embalados cuidadosamente.
     noite, comentou com Ernestina:
    - Me, voc precisava ver que beleza! Cada sala grande, com muitas janelas! E o teto, ento? Cheio de desenhos em volta. As paredes estavam estragadas, manchadas, 
mas ainda assim lindas. Chelas de desenhos, cada sala de uma cor. Barras pintadas de ouro. Voc precisava ver.
    - Agora que j viu, v se fica do lado de fora. No gosto da idia
    de ver voc dentro daquela casa.
    - Bobagem, me. No tem nada l. Est chela de gente, e ningum viu nada.
    Ernestina sacudiu a cabea e no respondeu.
    Naquela noite, aps o jantar, Nico demorou-se embaixo da mangueira, mas no olhava o cu, como de hbito. Seu pensamento estava longe, tentando imaginar como 
era a manso nos tempos do coronel.
    Nos dias que se seguiram, Nico teve vrias oportunidades de entrar na casa da manso. O engenheiro, satisfeito com a presteza do menino, chamava-o quando precisava 
de pequenos servios ou de alguma informao sobre a cidade. Os outros que trabalhavam para ele tambm comearam a fazer o mesmo, o que fez com que Aurlio acabasse 
se queixando com o engenheiro.
    - Dr. Mrio, no tenho nada contra que ocupem o Nico, mas  que preciso dele pra acabar o servio no tempo certo.
    Por causa disso, Mrio conversou com seus auxiliares e combinaram entre si utilizar a ajuda do menino durante o horrio de almoo.
    Assim Nico pde entrar e sair da casa-grande muitas vezes, sempre atento a tudo quanto acontecia l, observando os detalhes. Certa vez, Mrio perguntou-lhe:
    - Quantos anos voc tem?
    - Nove.
    - Acho que tem trabalhado demais. No acho justo. No descansa nem na hora do almoo. Vou pedir aos homens que o deixem em paz. Nico inquietou-se:
    - Por favor, doutor! No faa isso! No me sinto cansado.
    
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    - Voc  ainda criana, estamos abusando de voc.
    - Nada disso. Eu gosto de entrar aqui. H muito tempo sonhava em conhecer esta casa por dentro. Agora que estou tendo essa oportunidade, no me mande embora!
    Mrio olhou-o admirado. Tinha observado que Nico olhava tudo com muito interesse.
    - No pretendo fazer isso. Voc gosta da casa?
    -  linda! Fico imaginando como ela era no tempo do coronel. O engenheiro sorriu.
    - Do que voc gosta mais?
    - Das janelas, da escada, dos vidros coloridos, dos desenhos das paredes.
    - Mesmo estando tudo to velho? - brincou ele, querendo ver aonde Nico queria chegar.
    - Se fosse minha, eu a derrubaria e construiria outra moderna no lugar.
    Nico sobressaltou-se:
    - Pois eu no... - calou-se encabulado. No queria aborrecer o engenheiro.
    Mrio riu gostosamente. Achava engraado que um menino pobre que provavelmente nunca havia sado daquela pequena cidade do interior soubesse apreciar uma obra 
de arte.
    - Se fosse sua, o que voc faria?
    Os olhos de Nico brilharam e seu rosto distendeu-se em um sorriso: - Se fosse minha, eu deixaria igualzinha ao que era no tempo do coronel. Ela ficaria do jeito 
que vi outro dia em uma revista. At os jardins eu faria como naquele tempo. As paredes, tudo. At o telhado...
    - O que  que tem o telhado?
    - Eu consertaria tudo e deixaria do jeito que ele era.
    - Hoje h muitas coisas modernas, mais bonitas. Por que voc gosta tanto dessa casa to velha?
    - No sei, no. Mas ela  a casa mais linda que j vi. Eu no ia gostar de v-la jogada no cho. Seria uma judiao desmanchar uma casa to linda!
    Mrio colocou as mos nos ombros de Nico, dizendo srio:
    - Eu tambm acho. Voc tem razo. Ela  uma obra de arte mesmo. Difcil de encontrar nos dias de hoje.
    - Quer dizer que no vai derrubar?
    - Estou aqui para fazer exatamente o mesmo que voc quer. Vou faz-Ia voltar a ser igualzinha ao que era antes.
    
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    Nico deu um salto de alegria:
    - Que bom! Logo vi que o senhor era um homem sbio.
    - Parece que voc tambm. Agora pode ir.
    - O senhor vai me deixar entrar aqui de vez em quando para olhar? - Claro. Voc ser meu convidado sempre que quiser.
    Admirado com a sensibilidade do menino, Mrio passou a conversar mais com ele, e a cada dia mais se surpreendia com sua inteligncia, lucidez e boa vontade. 
A princpio receara que lhe dando ateno ele abusasse, mas depois de algum tempo percebeu que ele nunca passava dos limites. Era discreto, educado, respeitoso e 
sabia manter-se em seu lugar.
    Percebendo seu interesse, Mrio muitas vezes o chamava, mostrando-lhe outras dependncias da casa. Nico fazia perguntas, querendo saber como se fazia isto ou 
aquilo, e Mrio, um apaixonado pela arte, sentia prazer em explicar-lhe.
    Um dia falou com Aurlio sobre Nico.
    -  um menino muito vivo e inteligente - comentou. - Como  a famlia dele?
    - Gente simples, doutor: o pai lavrador, a me lavadeira.
    -  surpreendente. Ele parece ter sede de aprender.
    - Isso  verdade. Ele plantou uma horta e trabalha pra poder ficar na escola.
    - Mas ele tem vindo o dia inteiro trabalhar. Est perdendo aula?
    - No, senhor. A escola est fechada at o ms que vem. Ele est de frias.
    - Seria uma pena um menino como ele no estudar. Tem tudo para fazer carreira.  muito esperto e trabalhador.
    - Todo mundo gosta dele na cidade.  um menino bom mesmo.
    - Pena que os pais no tm dinheiro para ele estudar na capital. 
    - No mesmo. O pai dele nem trabalha. Diz que  doente. O que a Dona Ernestina ganha lavando roupa mal d pra comida dos cinco filhos. So sete pessoas pra vestir 
e alimentar.
    Mrio balanou a cabea:
    -  pena. Esse menino merecia uma oportunidade. Os outros irmos so assim como ele?
    - Qual nada, doutor. O Z  mais velho e vive vadiando. No serve pra nada. Os outros trs so muito pequenos.
    O jardim ficou pronto dentro do prazo previsto, e Nico, alm do salrio que Aurlio lhe pagou, ganhou muitas gorjetas durante o perodo em que l trabalhou.
    
    25
    
No ltimo dia, depois que Mrio acertou as contas com Aurlio, Nico foi procur-lo.
    - Dr. Mrio, o jardim ficou pronto, mas eu queria continuar trabalhando. Ser que o senhor podia me dar alguma coisa para fazer? Qualquer servio serve.
- Suas aulas comeam depois de amanh. Voc precisa estudar.
- Eu vou para a escola de manh. Saio s onze horas. Depois tenho o dia inteiro livre.. Por favor, eu gosto de vir aqui e quero trabalhar. Tenho aprendido muito 
olhando os pedreiros e principalmente os pintores. Outro dia, Seu Cludio me deu aquele resto de tinta que sobrou e um pincel que ele no ia usar mais. Pintei a 
cozinha de minha me e ficou uma beleza! Eu queria que o senhor visse! A casa  fela, mas a parede ficou linda! Eu j sei pintar e posso aprender outras coisas.
Mrio sorriu. Era surpreendente a disposio do menino. 
- Tem certeza de que trabalhar aqui no vai prejudicar seus estudos?
- Tenho. Eu levanto cedo. Quando o galo canta, j estou de p. S vou para a escola s oito. Tenho muito tempo para fazer a lio e estudar.
- Nesse caso, pode vir.
Nico ficou radiante. A partir daquele dia, saa da escola, deixava os livros em casa, comia alguma fruta ou um pedao de po e ia para a manso. Tanto o engenheiro 
quanto o pintor e os outros que estavam trabalhando na casa se habituaram com a presena gil do menino, sempre disposto a dar urna mo, cheio de vontade de aprender. 
Dentro de pouco tempo ele se tomou to til que sua ajuda era disputada.
    Mrio gostava de conversar com ele sobre a decorao da casa, mostrando-lhe seus projetos, admirando-se do interesse dele e at das observaes inteligentes 
que fazia. O menino tinha gosto apurado e sabia diferenciar a verdadeira arte. O engenheiro perguntava-se como um menino pobre, sem herana cultural de famlia, 
podia ter tal sensibilidade? Nico possua aguado senso esttico e sabia exatamente o que seria mais adequado em cada lugar.
    Com a convivncia naqueles dois meses, Mrio afeioou-se ao menino, levando-o a almoar com ele no restaurante de vez em quando e mandando algumas guloseimas 
para sua famlia.
Nico admirava-o e olhava para ele com carinho. Um dia, depois de almoarem juntos, enquanto caminhavam, Nico disse-lhe srio:
- Quando crescer, vou ser igual ao senhor.
Mrio riu bem-humorado.
- Quer estudar engenharia, como eu?
    
    26
    
    - Quero. J decidi que  isso que vou fazer.
    - Ter de morar na cidade. Por aqui no h faculdade.
    - Se no fosse pela minha famlia, eu ia embora para a cidade desde j. Mas no quero deixar minha me. Sem mim ela no vai poder sustentar a casa.
    - Nesse caso, quando pensa fazer isso?
    - Depois que os meus irmos crescerem e puderem trabalhar. O Z um dia vai ter que aprender alguma coisa. Os outros tambm. Ento eu vou embora.
    - Voc diz isso, mas no sei se agentaria deixar sua famlia. Pare ce que gosta muito dela.
    - Gosto, sim. Mas eu vou, estudo, ganho muito dinheiro e volto para dar conforto e alegria para eles.
    Mrio olhou para Nico e comoveu-se. Ele tivera todo o conforto, pais ricos, e nada lhe faltara. Nunca tivera de se preocupar com a famlia. Tudo em sua vida 
viera fcil, sem que precisasse lutar para conseguir. Estudara por amor  arte, fazia de seu trabalho um prazer, j que restaurar e embelezar lugares era sua paixo. 
O que teria sido dele se houvesse nascido pobre igual a Nico?
    Olhando o rosto confiante do menino, ele comeou a pensar que talvez acabasse encontrando uma forma de ajud-lo a realizar seus projetos para o futuro.
    Passando o brao sobre os ombros do menino enquanto caminhavam, ele disse:
    - Voc est certo.  isso mesmo. Um dia voc vai conseguir.
    O menino balanou a cabea concordando e sorrindo com satisfao.
    Haviam chegado aos portes da manso e eles entraram para trabalhar.
    
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    Captulo 2
    
    A reforma da manso no ficou pronta no prazo estipulado, por mais que Mrio tenha se esforado. Alguns atrasos dos fornecedores, problemas inesperados na casa 
que precisaram de soluo mais demorada impediram que o cronograma de trabalho se cumprisse com exatido.
    Se para o engenheiro foi um transtorno, para Nico foi um prazer. Acompanhar passo a passo o decorrer da obra permitiu-lhe aprender muito. Saber como as coisas 
eram feitas fascinava-o, e, principalmente, ver as runas serem transformadas em beleza e conforto maravilhava-o. No pensava em outra coisa. Todos os seus pensamentos 
eram para o que estava acontecendo na manso.
    Ele j no ficava mais na porta do armazm  espera de algum trabalho. Depois da escola ia para a manso e l ficava at que o mandassem para casa.
    Uma manh, enquanto tomavam caf sob a mangueira, Ernestina considerou:
    - Me disseram que a manso j ficou pronta.
    - Quase, me. Faltam ainda algumas coisas.
    - A Dona Engrcia disse que o doutor engenheiro j fez at as malas pra voltar pra capital.
    - No  verdade. Ele s vai embora depois que os donos chegarem.
    - Como  que voc sabe?
    - O Dr. Mrio me disse. Ele quer entregar tudo funcionando direito. Por isso, s vai voltar para So Paulo quando os donos tiverem chegado. At agora no veio 
ningum.
    Ernestina olhou para o filho com um pouco de preocupao. Ele estava muito absorvido com a manso. S falava nisso, s pensava em ir l. Como ficaria quando 
tudo acabasse?
    - Eles vo vir logo, e a o trabalho vai acabar. Voc precisa pensar no que vai fazer depois que o doutor engenheiro for embora.
    - Vou sentir falta dele!  o homem mais inteligente e bom que eu conheci. Sabe fazer de tudo!
    - Ele  da cidade. Logo vai embora e nunca mais volta.
    - Ele disse que  amigo da famlia do Dr. Norberto. Vai vir muitas vezes para c.
    
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    Ernestina tomou um gole de caf e no respondeu. Compreendia a admirao de Nico. No sabia se havia sido bom o engenheiro dar tanta ateno ao menino. Quando 
ele fosse embora, seria difcil para Nico retomar a vida de sempre. Aquela convivncia o fizera conhecer coisas novas, descortinara oportunidades que ele nunca vira. 
Diante da triste realidade de suas vidas, ela temia que ele se desiludisse.
    Calou-se, porm. Ela tambm, na idade de Nico, havia sonhado com coisas maravilhosas. Com fadas e prncipes. Contudo, sua realidade tinha sido muito diferente. 
Agora, em meio s lutas de seu dia-a-dia, Ernestina perguntava-se muitas vezes qual teria sido seu destino se seus pais no a houvessem obrigado a casar-se com Jacinto.
    De vez em quando, deitada ao lado do marido na cama pobre, enquanto ele roncava sonoramente, ela reencontrava seus sonhos de moa, pensava no amor que nunca 
sentira e como seria poder amar e ser amada, como no filme a que assistira uma vez, quando Nico ia trabalhar de noite como lanterninha do cinema e conseguira uma 
entrada para ela.
    Depois disso, sem que nunca tivesse coragem de contar a ningum, quando ela acordava no meio da noite ou se levantava de madrugada, enquanto o marido dormia, 
imaginava-se vivendo uma aventura de amor como aquela! Esse desejo, esse sonho que guardava escondido de todos, fazia parecer ainda mais triste sua realidade, mas 
ao mesmo tempo era dele que ela tirava foras para continuar a cumprir suas funes com a famlia.
    - Me, o Dr. Mrio me perguntou se eu queria ir estudar na cidade. 
    - Ele no devia de perguntar essas coisas. Sabe que voc no tem como.
    - No tenho agora. Mas quando eu puder eu vou. Sei que um dia, quando eu for grande e todos j estiverem trabalhando, vai dar para ir.
    Ernestina olhou pensativa para o menino. Muitas vezes sentira que a pequena cidade onde residiam era pouco para Nico. Ela sabia que um dia ele no conseguiria 
mais conter sua necessidade de conhecimento e iria embora em busca de outros caminhos. No pensava em cont-Io. Mesmo sabendo que sentiria muita falta dele, gostaria 
que ele pudesse ter as oportunidades que ela no tivera. Por isso respondeu:
    - Se eu tivesse como, mandava voc amanh mesmo.
    - Sei, me. Mas eu no iria. No quero deixar vocs. O Z no ajuda; a Nilce, o Jaime e a Neusinha so muito pequenos. S eu posso ajudar voc.
    Ernestina passou a mo sobre os cabelos ondulados de Nico num gesto carinhoso.
    
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    - Voc me ajuda muito mesmo. Mas sabe de uma coisa? Eu ia me arranjar e ficar muito feliz em ver voc aprendendo coisas novas, estudando na cidade. A eu ia 
ficar muito orgulhosa quando voc estivesse estudado, bonito, ganhando muito dinheiro, e voltasse pra me visitar. Eu s queria ver a cara da Dona Edinete e do Jacinto!
    - O pai no ia ligar.
    - Ia mais  ficar com inveja. At o Z ia deixar a preguia e, quem sabe, se decidir a estudar e trabalhar um pouco.
    - Ele ainda  novo, me, no percebe como as coisas so. Logo ele vai querer ter mais dinheiro e ento vai comear a procurar o que fazer.
    - . Pode ser. Voc  mais novo do que ele e j entendeu.
    - As pessoas so diferentes, me.
    -  verdade.
    Naquela tarde, quando Nico foi at a manso, viu um movimento desusado. Um grande caminho estava parado em frente  porta principal da casa e vrios homens 
descarregavam mveis e caixas.
    Interessado, Nico entrou na casa. Mrio andava de um lado para o outro, determinando aonde cada coisa deveria ir. Havia tambm duas mulheres que iam e vinham, 
limpando, fazendo arrumao. Nico no as conhecia e deduziu que deveriam ter vindo da capital, porque eram muito diferentes das pessoas locais.
    Nos jardins, Aurlio e Maninho cuidavam das plantas e chamaram Nico para ajudar. Ele pegou a mangueira e comeou a molhar um dos canteiros enquanto Maninho afofava 
a terra e arrancava o mato.
    - Isto aqui est movimentado hoje - comentou Nico, curioso. 
    -  - respondeu Maninho. - Parece que os donos vo chegar amanh. As criadas j vieram pra deixar tudo em ordem.
    - Ser que vai dar tempo?
    - A nossa parte ficou pronta faz tempo. Estamos s conservando.
    Agora, l dentro, no sei.
    - Acho que vai. Est tudo uma beleza. Elas j esto arrumando as roupas dentro dos armrios, e o Zeca j trouxe as compras que fizeram no armazm do Seu Nestor.
    - Minha tia diz que eles no vo ficar muito tempo morando aqui.
    Que gastaram essa dinheirama  toa.
    - Bobagem. Eles vo vir para ficar.
    Maninho levantou a cabea e com um ar de incredulidade perguntou: - E o fantasma do coronel? Voc acha que ele vai deixar?
    Nico riu com gosto e respondeu:
    
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    - Qual nada! Essa histria  de gente ignorante. Cad ele esse tempo todo? Algum viu? Eu vim aqui todos os dias. Ele nunca apareceu.
    - Cruz credo, Nico! No desafia alma do outro mundo! Ele pode estar ouvindo e correr atrs da gente.
    - Pois eu no tenho medo. Se ele vier mesmo, eu falo com ele.
    - Ah ah ah! Isso eu queria ver!
    - Chega de palavrrio e vamos ao trabalho. Tem muita coisa ainda pra aguar e temos que aproveitar agora que o sol est indo embora interveio Aurlio.
    A noite j havia cado quando eles acabaram o jardim. Os trs olhavam embevecidos para os canteiros floridos. Estava tudo uma beleza!
    Dentro da casa, a azfama ainda continuava. Aurlio foi conversar com Mrio sobre o servio. Quando os donos chegassem, ele gostaria de continuar cuidando dos 
jardins.
    - Falarei com o Dr. Norberto. Pelo que sei, ele no vai trazer jardineiro. Se ele quiser, mando avisar.
    Os dois saram e Nico ficou.
    - Dr. Mrio, posso ajudar?
    - No est cansado?
    - No, senhor.
    - Paramos um pouco para comer alguma coisa. Voc j jantou?
    - No, senhor. Mas no precisa se preocupar. Minha me deixa meu prato no fogo. Eu como quando voltar.
    - Nada disso. Hoje voc janta comigo aqui. Sente um pouco a, enquanto elas aprontam a comida.
    Nico j se havia lavado, penteado os cabelos e se trocado. Sempre que ia trabalhar na manso, ele vestia um macaco de brim que ganhara do engenheiro e, ao terminar, 
tomava um banho e se trocava.
    Ele se sentou em um banquinho que estava ao lado e que servia de escada na arrumao.
    - Me disseram que o senhor vai embora e que j fez as malas.
    - No ainda. Ficarei mais trs ou quatro dias.
    Nico ficou silencioso por alguns segundos. Depois disse:
    - Vou sentir muito a sua falta.
    - Eu tambm vou sentir a sua. Temos sido bons companheiros, Nico.
    Em outros lugares que for trabalhar, no vou ter voc para me ajudar.
    - Se o senhor me chamasse, eu iria!
    Mrio riu bem-humorado.
    - Iria? E a famlia? E sua me?
    
    31
    
    - Hoje tive uma conversa com ela. - O que foi?
    - Ela me disse que, se eu pudesse ir estudar na cidade agora, ela ia se arranjar. Apesar da falta que eu iria fazer, ela ficaria muito feliz em saber que eu 
estava progredindo. E que um dia, quando eu viesse visit-Ia, estudado, ganhando muito dinheiro, ia ficar muito orgulhosa.
    - Sua me  uma mulher muito inteligente, Nico. Gosta muito de voc e coloca sua felicidade em primeiro lugar.
    Nico concordou satisfeito:
    - No tem no mundo mulher melhor do que ela!
    - Ela disse isso, mas eu no sei se voc teria coragem de ir embora agora.
    Nico balanou a cabea de um lado para o outro, e em seus olhos passou um brilho emotivo.
    - No sei, no. Eu ficaria dividido entre a vontade de ir e a vontade de ficar.
    - Para conseguir o que se quer,  preciso fora e coragem. Se voc for, poder melhorar sua vida, progredir e melhorar tambm a vida dos seus. Se ficar, sua 
vida poder continuar a ser como sempre foi e no poder fazer muito para si nem para sua famlia.
    - Pelo que o senhor diz, o melhor seria eu ir mesmo. Pode ser. Quem sabe um dia, se aparecer a oportunidade. Agora sou pequeno e no posso ir para a cidade sozinho. 
Quando eu crescer um pouco mais, vou me lembrar de suas palavras.
    - Para ser rico,  preciso no perder nenhuma das oportunidades que a vida nos oferecer.
    -  o que eu sempre fao. Todo trabalho que aparece eu pego.
    Mesmo quando no sei, tento aprender.
    -  por isso que voc sempre encontra trabalho.
    A empregada aproximou-se, dizendo:
    - Doutor, arrumei a mesa na copa. A mesa da sala de jantar est chela de louas.
    - Est bem, Maria. Ponha mais um prato. Nico vai jantar comigo. - Sim, senhor.
    Olhando o menino sentado  mesa, Mrio pensava: era de admirar que aquele moleque humilde soubesse se portar to bem.  mesa, ele mantinha uma postura educada, 
servindo-se delicadamente, usando guardanapo e faca corretamente, com uma dignidade e finura invejveis. Onde aprendera isso?
    
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    No se conteve e perguntou:
    - A famlia de sua me era da cidade?
    - No. Os meus avs so lavradores.
    - Ela morou na cidade, freqentou alguma escola?
    - No. Meu av a fez se casar quando tinha treze anos. Ela nunca esteve na escola. Eu a ensinei a ler e ela aprendeu depressa. Sempre penso que, se ela tivesse 
ido  escola, no precisaria lavar tanta roupa e ficar to cansada.
    -  verdade, Nico. A escola faz muita falta.
    Depois do jantar, eles foram para o andar de cima. Mrio queria verificar alguns detalhes em um dos quartos.
    - Este quarto  diferente dos outros - observou Nico.
    -  o quarto de Eurico. Ele tem sua idade.
    - ? Puxa, este quarto  dele? Deve ficar muito feliz por morar em um quarto to bonito.
    - Ele  muito doente, Nico. O Dr. Norberto faz tudo que pode
    para alegrar esse filho, mas ele no se entusiasma com nada.  fraco e triste. Passa a maior parte do tempo na cama.
    - Que pena! No poder aproveitar tudo isso...
    -  verdade.
    Havia um problema na parte eltrica: um abajur que no acendia. Mrio no conseguiu descobrir o que era. Tudo parecia estar direito, mas ele no acendia.
    - Vamos deixar, por hoje. Amanh trago o eletricista. Ele vai ter de dar jeito.
    - O Dr. Norberto tem muitos filhos?
    - Apenas dois, Eurico e Amelinha.
    - A casa tem seis quartos. Alguns vo sobrar.
    - Gente rica ocupa todo o espao da casa. No usa todos os quartos para dormir.
    - Eu vi que alguns no tm cama e fiquei pensando como seria.
    Mrio riu gostosamente.
    - O Dr. Norberto e a esposa vo ocupar dois, Amelinha um, Eurico um e dois so para hspedes.
    - O Dr. Norberto  mdico?
    - No, ele  advogado.
    - O povo no entende por que um homem estudado, rico, da cidade, vem morar aqui. Mas eu penso que, se tivesse uma casa como esta, no ia querer morar em outro 
lugar.
    
    33
    
    - Na cidade h casas melhores e mais bonitas do que esta. Eles vm para c por causa do clima. O mdico aconselhou por causa da sade de Eurico. S por isso.
    - Puxa! Ele deve gostar mesmo desse menino!
    - Adora. Tanto ele como Dona Eullia fazem de tudo para Eurico sarar. At na Europa eles o levaram.
    - E a Amelinha, tambm  doente?
    - No. Ela  como todo mundo.
    - O quarto dela tambm ficou muito bonito. S que tem muito babado. Vai dar muito trabalho quando for a hora de lavar as cortinas e as colchas.
    Mrio riu de novo. Nico tinha cada idia!
    - A eles vo chamar sua me para lavar tudo e ela vai ganhar mais dinheiro!
    Nico franziu a testa pensativo.
    - O que foi, no quer que ela ganhe mais dinheiro?
    - Eu queria que ela trabalhasse menos. Carrega cada bacia de roupa to pesada!
    Mrio ficou srio. No havia pensado nas dificuldades de Ernestina
    para lavar roupas de maneira to primitiva como fazia.
    - Voc gostaria de poder sustentar sua famlia s para que sua me pudesse trabalhar menos.
    - Isso mesmo.
    Mrio deu uma ltima olhada ao redor e disse:
    - Acabei por hoje. Vamos embora.
    Uma vez no jardim, Mrio tornou:
    - Vou lev-lo para casa. Tenho mesmo de passar por l.
    A noite estava escura e alguns relmpagos pressagiavam chuva. Nico subiu no carro e foram conversando animadamente. Ao chegarem perto de casa, Nico desceu quando 
os primeiros pingos da chuva comearam a cair.
    - Corra para no se molhar - gritou Mrio, acelerando o carro para chegar logo ao hotel.
    Nico entrou em casa e Ernestina disse:
    - No se molhou? Estava preocupada com voc. Vem a uma chuva danada.
    - No. O Dr. Mrio me trouxe, me. A chuva comeou agora. - Teu prato de comida est no fogo.
    - Obrigado, me, mas j jantei. Guarde para amanh, que eu como.
    
    34
    
    - Vocs ficaram na manso at agora?
    - Ficamos. Um abajur no acendia e o doutor fez de tudo, mas no adiantou.
    - Isso  coisa de eletricista.
    - Ele sabe. Mas quem comanda tudo  ele. No quer descuidar de nada. Quando o Dr. Norberto chegar, tudo tem que estar em ordem. - Ficou bonito mesmo?
    Nico suspirou.
    - Uma lindeza! Voc precisava ver o quarto do filho do Dr. Norberto. O doutor disse que ele tem a minha idade. S que ele  muito doente e vive triste. Os mdicos 
no do jeito na doena dele. Para ver se ele melhora  que eles esto vindo morar aqui. O Dr. Norberto e a Dona Eullia sofrem muito por causa da doena dele.
    Foi a vez de Ernestina suspirar.
    - Pra voc ver, meu filho. Eles tm dinheiro, mas o filho  doente.  prefervel ser pobre e com sade.
    -  prefervel ser rico e com sade. Mas, j que ele  doente,  prefervel ser rico mesmo. J pensou se ele fosse doente e pobre?
    - Voc tem mania de grandeza - tomou Jacinto, que aparecera na porta do quarto. - No enxerga o teu lugar. No devia estar andando por a no carro do engenheiro, 
amolando ele. Qualquer dia ele vai te dar um pontap e eu quero ver a tua cara!
    Nico no respondeu. Habituara-se a no ligar para as crticas constantes que o pai lhe fazia. Ernestina no gostou:
    - Deixa o menino. Ele estava trabalhando at agora.
    - Trabalhando! Imagine s! Uma criana. No sei como esse doutor tem tanta pacincia com ele.
    Ernestina olhou para ele com raiva. Queria gritar sua revolta, dizer que, se ele fosse trabalhador como Nico, ela estaria bem e no precisaria fazer tanto esforo 
para sustentar a famlia. Mas preferiu no dizer nada. De que adiantaria? Ela iria se irritar mais e implicar mais ainda com Nico. No ia resolver nada. Ela olhou 
para Nico e disse:
    - Vai se lavar antes de dormir.
    - Est bem.
    Nico tomou banho, entrou no quarto e deitou-se. Olhos abertos no escuro, enquanto ouvia Nilce cantarolar tentando fazer Neusinha dormir, ele pensava:
    Um dia ele teria seu prprio quarto, onde poderia acender a luz, ler revistas sem que ningum reclamasse. Comeou a imaginar como seria seu quarto, sua casa.
    
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    E, dando vazo  sua fantasia, todos os cmodos que idealizava eram parecidos com os da manso.
    A casa estava silenciosa, todos j estavam dormindo, porm Nico continuava pensando em seus sonhos, vendo-se rico, rodeado de todas as coisas de que ele gostava. 
Sua me, vestida como aquela mulher do retrato que ele vira na revista, bonita e alegre. Sua irm Nilce, Jaiminho e Neusinha eram lindos e educados. Em seus sonhos 
no estavam nem Jos nem Jacinto. s vezes ele achava que estava sendo injusto no os incluindo e tentava visualiz-Ios na riqueza, mas logo desistia. Por mais que 
desejasse, no conseguia v-los progredir.
    Era muito tarde quando finalmente conseguiu adormecer.
    
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    Captulo 3
    
    Alguns dias depois, Norberto chegou com a famlia. Mrio esperava-os na entrada da manso. Nico, no jardim com Aurlio, no perdia nada da movimentao.
    Os dois carros entraram no jardim e pararam na porta principal. Em um viajavam Norberto e a esposa, acompanhada de uma moa. No outro, os filhos, em companhia 
de uma jovem e o motorista.
    Nico olhou com curiosidade para as crianas. O menino era um pouco mais alto do que ele, mas muito magro e plido. A menina, um pouco menor, era bonita, corada 
e alegre.
    Dona Eullia desceu do carro e imediatamente foi para o lado do filho, perguntando:
    - Hilda, ele est bem?
    - Sim, senhora.
    - Est abatido. Parece cansado. Sente-se bem, meu filho?
    O menino fez que sim com a cabea, e ela continuou:
    - Leve-o para cima, Hilda. Lave suas mos e troque essa roupa, que deve estar empoeirada. Ele  alrgico a poeira, voc sabe.
    - No quero ir - reclamou ele. - Quero ver o jardim.
    Eullia abanou a cabea:
    - Nada disso. No agora. Vamos, Hilda, o que est esperando? Hilda pegou a mo do menino, dizendo com voz firme:
    - Vamos, Eurico. Sua me est mandando.
    Enquanto os empregados cuidavam da bagagem, Eullia entrava com o marido para ver como a casa havia ficado. A menina correu pelo jardim, aproveitando a distrao 
dos pais.
    Chegou perto de Nico, olhando-o com curiosidade:
    - Voc tambm mora aqui? - perguntou.
    - No. Tenho trabalhado no jardim.
    - Meu nome  Amlia, e o seu?
    - Nico.
    - Que engraado! Nico?
    O menino levantou a cabea um pouco irritado com o tom dela. - Meu nome  Antnio; Nico  s para os meus amigos.
    Ela o fitou com os olhos brilhando maliciosos. Depois riu dizendo:
    
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    - Pois eu gosto mais de Nico. Antnio  um nome muito bobo. Antes que Nico respondesse, uma das criadas chegou dizendo: - Amelinha, sua me est perguntando 
por voc. Quer que tome um banho e descanse um pouco da viagem.
    - Agora no. No estou cansada, e quero conhecer o resto do jardim.
    - Venha logo. Sua me no gosta de esperar. Quer servir o lanche logo mais, e voc tem que estar pronta.
    - Pois eu no vou. No quero e no vou.
    Quando a criada se aproximou irritada para peg-Ia, ela saiu correndo e Nico ficou olhando para as duas. Amelinha era rpida, e, embora a criada se esforasse, 
no conseguia alcan-Ia.
    - Venha. Chega. Vamos, Amelinha. Sua me vai ficar zangada. A menina ria e respondia:
    - Venha me pegar, se quiser.
    Nico divertia-se acompanhando as duas com o olhar, at que Norbert apareceu na porta. Imediatamente Amelinha obedeceu e acompanhou a criada.
    Aurlio chamou Nico, dizendo:
    - Vamos acabar de tirar o mato que falta. At l o sol ter diminudo e poderemos aguar tudo antes de irmos embora.
    Nico obedeceu prontamente. Enquanto arrancava os matinhos que teimavam em brotar no canteiro muito bem adubado, sua ateno estava ligada ao movimento do interior 
da casa, onde os criados iam e vinham, providenciando para que nada faltasse. De repente, Nico assustou-se. Alguma coisa bateu em suas costas. Ele olhou e viu que 
era um apontador de lpis. Imediatamente olhou para cima. Amelinha estava na janela. Ele         apanhou o apontador e mostrando-o a ela perguntou:
    -  seu?
    -  - respondeu ela. - Estava apontando meus lpis de cor e derrubei. Foi sem querer.
    - Vou entregar na cozinha.
    - Nada disso. Traga aqui em cima para mim.
    Nico olhou para suas roupas de trabalho e para seus ps sujos de terra e respondeu:
    - Estou com os ps cheios de terra, no posso entrar assim.
    - Ento guarde para mim. Depois, quando eu descer, irei busc-la. Nico concordou e, colocando o apontador no bolso, voltou ao trabalho. Contudo, sentia que Amelinha 
continuava na janela.
    
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    De vez em quando ele olhava para cima, e ela continuava l. At que ele ouviu a voz de Hilda chamando-a. Iam servir o lanche.
    Nico estava curioso para ver os arranjos da mesa e as deliciosas guloseimas que seriam servidas. Ele passara perto da porta da cozinha e sentira o cheiro gostoso 
dos bolos e do caf. Como no foi possvel chegar mais perto, teve de se conformar.
    No fim da tarde, lavou-se e trocou de roupa, como sempre fazia ao terminar o servio, embrulhando a roupa suja para lavar em casa. Aurlio dispensou-o, dizendo:
    - Pode ir, Nico.
    - Precisa de mim amanh?
    - Tem algumas mudas que precisamos tirar e replantar. Vou fazer isso  tarde, quando o sol estiver mais suave.
    - Posso vir assim que sair da escola.
    - Pode ser depois das duas. Vai dar tempo pra tudo.
    Quando Nico foi saindo, ainda pde ver de relance o lanche sendo servido ha copa e toda a famlia reunida ao redor da mesa. Mrio estava com eles, conversando 
animadamente.
    Como ele gostaria de poder ficar ali, ouvir tudo quanto eles diziam, ver como eles comiam, saber como era a vida das pessoas da cidade. Mas ele no podia. Teve 
de se conformar e ir para a casa.
    Na tarde do dia seguinte, Nico compareceu na hora combinada e Aurlio, satisfeito, colocou numa cesta vrias plantas para o menino separar as mudas. Nico aprendera 
a fazer isso to bem que Aurlio se habituara a dar-lhe essa tarefa. Sentado sob uma rvore, Nico, com gestos precisos e calmos, ia separando as mudas e colocando-as 
com cuidado em outra cesta. Estava quase terminando quando viu Hilda acompanhada de Amelinha e Eurico se aproximando.
    Amelinha parou junto dele, perguntando:
    - O que  isso?
    - Mudas para replantar.
    - Mudas de qu?
    - Margaridas. .
    Amelinha apanhou uma e revirou-a entre os dedos.
    - Parece um matinho. Acha que isso vai dar flor mesmo?
    Nico riu bem-humorado:
    Claro que vai. Nunca viu uma margarida?
    - J. Mas no sabia que nascia disso. Quero ver voc plantar. Vai fazer agora?
    
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    - S depois que o sol ficar fraco, seno elas vo morrer. Amelinha virou-se para Hilda, que parara e esperava por ela, e disse: - Est vendo? Voc diz que Eurico 
precisa tomar sol. Se faz mal para as plantas, faz mal para ns.
    - Deixe de bobagem, menina - respondeu Hilda sacudindo a cabea. - O sol da manh faz bem, o sol muito forte  que faz mal.
    - Como  que as pessoas ficam na praia o dia inteiro tomando sol? - Deixe de besteira. Vamos continuar.
    - Estou cansado - disse Eurico. - V buscar minha cadeira, que eu quero sentar um pouco aqui embaixo da rvore.
    - Voc precisa fazer exerccio - alegou Hilda. - Caminhar faz muito bem.
    - Estou cansado e no quero caminhar. V buscar minha cadeira. 
    Hilda suspirou contrariada, mas foi apanhar uma cadeira de preguia e abriu-a onde Eurico pediu, embaixo da rvore onde Nico trabalhava. O menino sentou-se e 
fechou os olhos.
    Nico olhou-o penalizado. Eurico parecia mesmo muito doente. A vitalidade que faltava a Eurico, Amelinha tinha-a de sobra. No parava um instante, perguntando 
sobre as plantas, o tempo que demoravam para dar flor, se margarida era cheirosa, se fora ele quem plantara tudo que havia naquele jardim.
    Nico respondia com naturalidade. Ele gostava da natureza. Falar sobre isso era-lhe fcil e ele discorria prazerosamente.
    - Hoje de manh havia um passarinho em minha janela. Se eu tivesse uma gaiola, poria miolo de po dentro e deixaria a porta aberta para ele entrar. Assim poderia 
v-lo e ouvi-lo cantando todos os dias.
    - Para isso no precisa prender. Deve ser horrvel ficar preso sem poder voar.
    - Mas ele foi embora e nunca mais o verei.
    - Se colocar gua, alpiste ou farelo para eles comerem, e se no assustar, eles estaro sempre por perto. Com o tempo, chegaro a comer na sua mo.
    - Eu queria que um passarinho viesse comer em minha mo! disse Amelinha, entusiasmada.
    Eurico abrira os olhos e ouvia a conversa com interesse. Nico continuou:
    - Na minha casa tem uma mangueira que eu coloquei um banco embaixo. Todos os dias eu levanto cedinho e tomo o meu caf ali, vendo o dia clarear. As migalhas 
de po caem no cho e tem algumas rolinhas que se acostumaram a comer comigo.
    
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    Sempre quando eu chego, elas vm cantando alegres, sobem em cima das minhas pernas, comem as migalhas. Eu estendo a mo e elas vm comer o meu po.
    Amelinha ouvia maravilhada.
    - Voc acha que elas viriam comer comigo tambm? - indagou a menina.
    - Se tiver pacincia de esperar e no assustar os passarinhos, eles vm. - Hilda, v buscar um pedao de po. Quero ver se eles vm aqui agora - disse Amelinha.
    - No  hora. No h nem passarinho aqui - respondeu ela. - Porque no tem comida nem gua - disse Nico. - Se eles descobrirem que tem, vo aparecer, pode ter 
certeza.
    - V, Hilda - insistiu Amelinha.
    Ela, que havia se sentado em um tronco de rvore que lhe servia de banco, levantou-se e lentamente dirigiu-se  cozinha.
    Estava acostumada a obedecer s ordens das crianas. Trabalhava para a famlia desde antes de Amelinha nascer, cuidando de Eurico, cuja sade delicada exigia 
ateno constante. Como no tinha famlia, quando o mdico recomendara uma mudana de clima para o menino, no se importara em mudar-se para o interior.
            Quando ela voltou com o pedao de po, Nico levantou-se e apanhou um pedao, dizendo.
            - Veja, vou mostrar como se faz.
            Ele caminhou uns dez passos, e Amelinha acompanhou-o com interesse.
            - Vamos comear daqui. No comeo eles no sabem que voc no vai prender eles. Precisa ganhar a confiana dos passarinhos.
            Enquanto falava, Nico ia esfarelando o po e aproximando-se da rvore.
            - Agora segure o po e esfarele em volta de voc.
            Amelinha obedeceu e foi esfarelando o po em volta deles, colocando sobre as pernas de Eurico. O menino, calado, observava.
    No demorou muito, alguns passarinhos se aproximaram, permanecendo h alguma distncia do lugar onde comeavam os farelos de po. Aos poucos, alguns mais ousados 
foram se aproximando e comearam a comer, saltitantes, olhando em volta com seus olhinhos geis e curiosos.
    Amelinha sustinha a respirao com medo de que eles se assustassem. Aos poucos foram se aproximando e, no vendo nenhuma reao das pessoas, foram se tornando 
mais ousados.
    
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    Alguns chegaram aos ps de Eurico e Amelinha, enquanto outros, mais cautelosos, olhavam a certa distncia.
    As crianas, fascinadas, nem se mexiam. At que um dos pssaros pousou na perna de Eurico, comendo as migalhas que havia. O menino, emocionado, seguia todos 
os seus movimentos. Foi muito rpido, mas foi o bastante para que os olhos dele se enchessem de lgrimas.
    Hilda, preocupada, levantou-se, aproximou-se dele e perguntou: - O que foi, no se sente bem?
    - Por que se intrometeu? Voc os espantou! - disse Eurico, indignado. - Por que no me deixa em paz?
    Hilda olhou assustada para ele. Eurico nunca a tratara daquele jeito. Ela colocou a mo em sua testa para ver se ele estava com febre.
    - Quero que v embora - disse Eurico com raiva. - Voc espantou os passarinhos.
    - Fiquei assustada com voc. Por que estava chorando?
    - No  de sua conta. Deixe-me em paz! - respondeu o menino. Hilda, indignada, retrucou:
    - Vamos entrar. Essa histria de passarinhos lhe fez mal. Voc no pode se emocionar.
    - Deixe-me - disse ele irritado. - V embora. No quero entrar agora.
    - Vou falar com sua me. Se voc piorar, no ser por minha culpa. No quer me obedecer.
    Ela se afastou contrariada e Amelinha aproximou-se do irmo, dizendo alegre:
    - Muito bem. Voc tem de fazer o que gosta. No pode aceitar tudo que ela quer. No  mais um beb.
    O menino fechou os olhos, dizendo:
    - Sim, mas acho que vou entrar mesmo. Sinto-me muito cansado. Nico aproximou-se dele, dizendo:
    - No fique triste por eles terem ido embora. Se voc quiser, amanh podemos fazer de novo. Voc j viu um beija-flor?
    - No - disse Eurico.
    - Ele fica parado no ar, enquanto tira o nctar da flor.  muito colorido,  lindo! Aqui tem muitos deles. Sei como atrair. Voc quer? Os olhos de Eurico brilharam 
ao responder:
    - Quero!
    - Ento descanse bastante para amanh ficar bem forte e poder ver os beija-flores.
    
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    Antes que ele respondesse, j Eullia e Hilda se aproximaram.
    - Voc est bem, meu filho?
    Eurico abriu os olhos devagar e respondeu:
    - S um pouco cansado.
    - No pode abusar, para no se sentir mal. Tem de obedecer Hilda. Ela sabe cuidar de voc muito bem.
    Eurico no respondeu. Levantou-se e vagarosamente dirigiu-se para dentro de casa acompanhado dos demais. Nico seguiu-os com os olhos, pensativo. Qual seria a 
doena de Eurico?
    Na manh do dia seguinte, enquanto tomavam o caf embaixo da mangueira, Nico disse para a me:
    - Ontem fiquei com pena do Eurico. Ele  to fraco... No pode andar um pouco que fica cansado. Dizem que ele  doente. O que ser que ele tem?
    - No sei. Esse povo da cidade  muito enjoado. Tem medo de tudo. Criana precisa engatinhar no cho, brincar com terra, aprender a viver. Os filhos de pobre 
so fortes e agentam tudo, at comer s feijo com farinha. Mas na cidade eles so cheios de nove-horas, e  isso que d.
    - No sei, no, me. No  isso, no. O Eurico tem doena mesmo.  plido, quase no sai da cama. O Dr. Norberto se mudou para a manso por causa dele. Os mdicos 
disseram que o clima daqui pode faz-lo melhorar.
    - Se fosse meu filho, levava logo no Seu Z das Rosas e pronto. Ele daria jeito. .o melhor curador desse interior.
    Nico calou-se pensativo. Seu Z sempre dera jeito nas doenas e problemas da famlia, mas Nico perguntava-se se ele poderia saber mais que os mdicos da cidade.
    - Os mdicos da cidade sabem das coisas - disse ele. - Estudam muito e conhecem todas as doenas. O Seu Z nunca saiu daqui e nunca estudou.
    Ernestina olhou para ele escandalizada:
    - No diga isso, Nico. Ele nunca estudou o que os mdicos estudaram, mas ele tem os guias, que sabem mais do que todos os mdicos da Terra.
    - Por que acha isso, me?
    - Por que esses guias so espritos de luz que Deus colocou pra ajudar a aliviar o sofrimento no mundo. E eles podem olhar dentro do corpo das pessoas e enxergar 
qual  o problema que elas tm.
    
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    Depois, mostram ao Seu Z e ensinam at o remdio. Que mdico da Terra pode fazer isso?
    Nico balanou a cabea admirado.
    - No tinha pensado nisso! Nesse caso eles podiam mesmo descobrir o que  que o Eurico tem e ensinar o remdio!
    Ernestina sacudiu a cabea:
    - Foi o que eu disse. Mas o difcil  fazer com que eles acreditem no Seu Z.
    - Vou falar com a Dona Eullia.
    - No faa isso, Nico. Gente da cidade no acredita nessas coisas da roa. Ela pode no gostar.
    - Eu queria tanto ver o Eurico melhorar! Morar em uma casa to bonita, ter um quarto to grande s para ele, poder comer tudo que quiser, sem poder aproveitar 
nada disso...  uma tristeza!
    - Minha me dizia que Deus d nozes a quem no tem dentes. Nico comeou a rir sem parar.
    - O que foi, menino? Eu disse alguma coisa engraada?
    - No, me.  que eu fiquei imaginando o Seu Joo jornaleiro tentando mastigar as nozes sem um dente na boca. Ia se machucar. Ernestina desatou a rir.
    - S voc mesmo pra dizer uma coisa dessas!
            Na tarde daquele mesmo dia, quando o sol j estava mais fraco e Nico regava as mudas de margaridas que Maninho havia plantado, Hilda aproximou-se dele:
    - Eurico quer falar com voc. Desde cedo no me d sossego. - J vou, Dona Hilda. Estou acabando.
    - Deixe isso, menino, e v logo.
    - Falta pouco. No vou demorar.
    - Ele est sentado perto da janela da sala.
    - Eu vou at l.
    Nico rapidamente acabou sua tarefa, lavou-se e foi at a janela onde Eurico, sentado do lado de dentro, o esperava.
    - Voc me chamou? - indagou curioso.
    - Chamei. Quero ver os beija-flores. Pode ser hoje?
    - Podemos tentar. Voc descansou bem?
    - Se eu for esperar estar descansado, nunca verei um beija-flor. - Voc est sempre cansado?- perguntou Nico, admirado.
    - Sempre. J me acostumei.
    Amelinha aproximou-se, dizendo alegre:
    
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    - Eu tambm quero ver os beija-flores.
    - Precisamos de um pouco de gua com acar e um pedao de po. Eurico levantou-se enquanto Amelinha correu  cozinha em busca do que Nico pedira. Quando voltou 
carregando o po em uma mo e a pequena vasilha com gua e acar, Hilda aproximou-se dizendo:
    - Vo a algum lugar?
    - Vamos com Nico ver os beija-flores - esclareceu a menina. - Est bem, eu vou com vocs. Eurico pode se sentir mal.
    Nico lembrou-se das palavras de sua me. Intimamente concordou com ela que gente da cidade tinha medo de tudo. Eurico iria s at o jardim. Se no se sentisse 
bem, era s voltar para casa.
    Ficou esperando do lado de fora. Quando eles saram, Nico tornou: - Vamos perto daquela trepadeira do caramancho. Est florida. Os trs acompanharam-no. L 
chegando, Nico colocou a vasilha com gua encaixada entre os galhos da trepadeira, depois espalhou os farelos de po ao redor.
    - Agora vamos entrar no caramancho e esper-Ios chegar.
    - Voc acha que eles vm? - perguntou Amelinha, interessada. - Vamos ver. Se eu tivesse alpiste, seria melhor. Mas eles gostam muito de gua com acar. Temos 
que esperar calados. No podemos fazer barulho.
    Entraram no caramancho, e comeou a espera. L dentro havia dois bancos e uma pequena mesa. Hilda fez sinal a Eurico que sentasse, mas ele nem ligou. Seus sentidos 
estavam todos na escuta. Alguns minutos se passaram sem que nada acontecesse. Os dois irmos olhavam para Nico e para fora na expectativa. Hilda no tirava os olhos 
de Eurico, com receio de que ele se sentisse mal. Por que ele no se sentava?
    Finalmente, Nico colocou o dedo nos lbios recomendando silncio. Os outros pssaros j haviam comido quase todo o farelo de po quando um beija-flor se aproximou. 
Por entre os galhos da trepadeira, os quatro seguiam todos os movimentos do irrequieto animal que voejava em crculos indo aos poucos se aproximando da vasilha com 
gua. Nico a havia colocado encaixada entre os galhos, inclinada para que ele pudesse beber com facilidade.
    Por fim, o pssaro encontrou a vasilha e batendo as asas permaneceu parado no ar enquanto bebia a gua. Eurico e Amelinha estavam fascinados. Olhos brilhantes, 
no perdiam nenhum movimento do beija-flor, que foi embora quando se fartou.
    - E ento - indagou Nico, contente. - Gostaram?
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    Puxa, que beleza! - disse Amelinha.
    - Como  que ele consegue parar no ar? - considerou Eurico, admirado.
    - Ele foi feito para isso - respondeu Nico com naturalidade.
    Na natureza tudo  perfeito. Cada coisa no seu lugar.
    - Ser que no vai vir outro? - indagou Eurico.
    - Agora chega por hoje - disse Hilda. - Voc nem sequer se sentou!
    Eles nem pareceram ouvir.
    - Vamos esperar outro! - pediu Amelinha.
    - O sol j se ps - disse Nico. - Eles foram procurar os ninhos para dormir.
    - To cedo? - perguntou Amelinha.
    - As aves dormem quando o sol se pe - esclareceu Nico.
    - Vai ver que tm medo da noite, como Eurico.
    - Eu durmo cedo porque fico cansado - rebateu o menino.
    - No fale assim com seu irmo, Amelinha. Ele  doente e precisa deitar cedo para descansar.
    - Os passarinhos precisam descansar como Eurico?
    - Eles dormem cedo porque a natureza os fez assim - respondeu Nico. - Para eles, dormir quando o sol se pe  o seu jeito de ser. Fazem isso por instinto.
    - Vamos entrar. Estou sentindo uma corrente de ar. A poeira pode levantar e fazer mal a Eurico - determinou Hilda.
    Caminhando de volta  casa, Nico disse:
    - O Seu Aurlio j foi embora e eu preciso ir.
    - No v, no. Fique mais um pouco - pediu Amelinha.
    - Ele tem de ir para casa. A me dele est esperando - lembrou Hilda.
    - Isso mesmo. Eu preciso ir - reforou Nico. Bem que ele gostaria de ficar, mas no queria abusar. Depois, era hora de jantar e sua me sempre dizia que ele 
no podia ficar na casa dos outros nessa hora para no incomodar.
    Quando chegaram  porta da casa, Eurico disse:
    - Amanh poderemos ver os beija-flores de novo?
    - Se voc quiser, depois que eu acabar o servio.
    - Precisa ser antes que o sol v embora - disse Amelinha. Nico sorriu ao responder:
    - No se preocupe. Vai dar tempo para tudo.
    
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            Nico foi embora e eles entraram. Amelinha correu para a me, que na sala se entretinha lendo uma revista.
            - Mame, voc tinha de ver! Nico  mgico! Sabe tudo de passarinho. O beija-flor  o mais lindo de todos!
            - E ele fica parado no ar! - comentou Eurico, que vinha mais atrs.
            Eullia olhou-o admirada. Seu filho nunca abria a boca para dar opinio. Nada conseguia tir-Io da indiferena. Levantou-se olhando-o com ateno. Pareceu-lhe 
ligeiramente corado. Virou-se para Hilda, dizendo:
    - Ele parece um pouco corado. Estar com febre?
    Imediatamente Hilda colocou a mo na testa do menino.
    - No parece, Dona Eullia. Por causa desses passarinhos eles no escutam nada. A senhora precisava ver. No caramancho, Eurico nem quis se sentar.
    O rosto de Eullia abrandou-se, e voltando-se para o filho perguntou: - Voc gostou de ver o beija-flor?
    - Gostei. Amanh quero ver de novo.
    - Nico disse que vai cham-Ios amanh - comentou Amelinha com entusiasmo. - Est vendo s, Hilda? Voc disse que os meninos da roa so caipiras e no sabem 
de nada. Nico sabe fazer coisas que eu nunca vi na cidade. Ele conhece tudo das plantas, das borboletas e at dos passarinhos.
    Eullia olhou para Hilda admirada e ela enrubesceu. Essa diabinha no precisava repetir um comentrio que ela fizera no dia da chegada, quando Amelinha quisera 
brincar com Nico e ela no havia deixado.
            - Eu s disse a eles que no deveriam esperar que um menino da roa soubesse brincar como os da cidade.
            - Ele sabe muito mais - disse Amelinha com entusiasmo. - Ele sabe atrair os passarinhos e eles vm comer em nossa mo. No , Eurico?
    - .
            - Bem, agora chega de conversa.  melhor irem tomar banho para se preparar para o jantar.
    Enquanto Hilda se afastava com os dois, Eullia acompanhou-os com olhar triste. Depois, sentou-se mas no abriu novamente a revista. Seu pensamento perdia-se 
nas lembranas.
    Filha mais velha de abastada famlia, ela recebera esmerada educao. Tocava piano, falava francs, diplomara-se como professora primria. Sua famlia tudo fez 
para que ela encontrasse um bom marido, e, quando Norberto, recm-formado em advocacia, comeou a freqentar a casa de sua tia, eles logo viram nele um timo pretendente 
para Eullia.
    
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    Moo elegante, bem-parecido, inteligente, rico, seria o marido ideal para ela. E, para coroar os sonhos deles, Norberto interessou-se por ela assim que a viu. 
Do interesse ao namoro, levou apenas um ms.
    Eullia, quando soube, no quis aceitar. Achava Norberto um bom partido, mas no gostava dele o suficiente para chegar ao casamento.
    Quando disse isso  me, esta foi categrica:
    - Como no gosta? Que bobagem  essa, menina? Voc j completou vinte anos e at agora nunca namorou. Quer ficar para titia? Depois, um partido como esse no 
aparece todos os dias. Voc tirou a sorte grande e no percebeu ainda!
    - Mas eu no o amo!
    - Isso  besteira. Quando me casei, tambm no amava seu pai. Estamos indo muito bem. O amor vem depois.
    - Mas eu no quero!
    - Deixe de histria. Voc vai se casar com ele e pronto. Eu e seu pai j decidimos. Logo vamos combinar tudo com a famlia.
    Eullia chorou mas obedeceu. No dia do noivado, depois do jantar de famlia, Norberto tomou-lhe o brao e levou-a ao jardim. Sentando-se com ela em um banco, 
segurou sua mo, beijando-a. Depois, tomou-a nos braos e beijou-lhe os lbios. Eullia comeou a chorar. Surpreendido, ele se afastou um pouco e perguntou:
    -O que foi? Ofendi-a de alguma forma?
    Ela meneou a cabea negativamente, mas continuou chorando. Todo o pranto que havia represado naqueles dias explodiu.
    - Eullia, voc me assusta! Aconteceu alguma coisa? Por que est chorando desse jeito?
    -No quero me casar. No estou preparada para o casamento.
    Ele passou a mo pelos cabelos, tentando conter a decepo. Sentiu-se irritado. Pouco havia conversado com ela, mas os pais tinham lhe garantido que ela o amava 
e que estava feliz com seu pedido. Tentou contornar:
    - Por que est pensando isso? J  uma moa. Sua me disse-me que voc nunca teve um namorado.
    - . Nunca namorei.
    Mais tarde Norberto procurou os pais de Eullia para uma explicao.
    - Eullia pareceu-me contrariada com nosso casamento. Pensei que ela me amasse. No posso me casar com uma mulher que no me ama.
    Enquanto o pai de Eullia conversava com o futuro genro, tentando convenc-Ia de que sua filha era tmida e que sentia vergonha de mostrar que estava apaixonado 
por ele, a me procurou por ela e repreendeu-a severamente.
    
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    - Mame, ele me beijou! - justificou-se ela.
    - O que esperava? So noivos agora. E depois do casamento ele vai querer muito mais. Voc ter de se esmerar para agrad-lo.  a mulher que tem de garantir a 
felicidade da famlia. Nunca mais faa o que fez hoje. Ele precisa pensar que voc o adora e que far qualquer coisa para deix-lo feliz!
    - Terei de mentir?
    A me olhou-a com ar de comiserao. Logo um moo bonito como aquele e ela com aquelas bobagens!
    - Pois minta. A mulher precisa aprender a viver bem. Se para sua felicidade tiver de mentir, que seja. Ser para uma boa causa. Daqui para a frente no s ter 
de aceitar o carinho dele como demonstrar amor, ser atenciosa, agradvel.
    Eullia fez o que pde para se acostumar. Norberto era um homem educado, de boa ndole, atencioso e que gostava de viver bem. Assim, depois de algum tempo de 
casamento, Eullia acostumou-se. Acabou respeitando o marido e sentindo-se feliz por desfrutar da vida a seu lado.
    Quando engravidou, foi uma festa. Norberto redobrou as atenes. Ter um filho era seu maior sonho. Eullia, que sempre fora saudvel, na gravidez teve vrios 
problemas de sade que a obrigaram a fazer repouso para no perder o beb..
    Quando o menino nasceu, apresentou um problema de RH negativo e sofreu uma ictercia perigosa, diferente das que ocorrem normalmente com os bebs. Seu sangue 
precisou ser todo trocado para que ele sobrevivesse. Sua sade delicada necessitou de muitos cuidados. Eurico era alrgico a muitas coisas. Para tomar qualquer medicamento, 
era preciso fazer testes cuidadosos.
    Eullia suspirou. Por que seu filho nascera daquele jeito? A princpio o marido a culpara dizendo que ela no se cuidara direito durante a gestao, uma vez 
que vivia doente. Esse assunto a revoltava. Ela sempre fora saudvel. Que culpa poderia ter de haver dado  luz uma criana doente?
    Quando ela engravidou de novo, Norberto no queria. Tinha receio de que tambm nascesse doente. Entretanto, surpreendentemente Eullia passou bastante bem daquela 
vez. Ligeiro enjo nos primeiros meses, mas depois tinha disposio, apetite, alegria, parecia at haver remoado.
    
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    Amelinha nasceu saudvel e forte. Seu choro encheu o quarto do hospital. Ela era o oposto do irmo. Corada, alegre, dormia bem, comia, sorria, era chela de vida 
e energia.
    Eullia no podia entender. Por que um era to diferente do outro se os pais eram os mesmos? s vezes, percebia que Norberto olhava para Amelinha com certa implicncia. 
Ela sabia que ele desejava filho homem e que no ligava para a menina. Talvez se perguntasse por que justamente Eurico nascera to debilitado enquanto Amelinha vendia 
sade e disposio.
    Desde que Eurico nascera, Norberto envidara todos os esforos para que ele se tornasse saudvel. Tudo que a medicina do Brasil e at do exterior podia oferecer 
ele procurou. Nenhum exame de Eurico indicava qualquer leso em seus rgos internos. Tudo parecia normal, entretanto ele continuava alrgico, debilitado, sem interesse 
pela vida. Por fim, um especialista de Viena que ele consultara dissera-lhe que era preciso estimular a sade, procurando um clima quente, j que ele piorava no 
inverno. Receitou fortificantes, ambiente alegre e tranqilo.
    Norberto comentou desanimado:
    - Como podemos fazer com que ele se alegre? No se interessa por nada! Ele precisa sair de So Paulo. Aquele clima instvel no serve para ele.
    - Talvez possamos ir para o interior - sugerira Eullia. - H cidades que tm bom clima.
    Norberto pensou um pouco e respondeu:
    - Acho que tem razo. H aquela casa antiga em Sertozinho que herdei de meu tio-av.
    - O coronel Firmino?
    - Sim.
    - Est fechada h muito tempo. Dizem que  assombrada. Norberto soltou uma gargalhada.
    - Que bobagem! Meu pai foi passar frias l quando criana e os criados inventaram essas histrias para assust-los. Vamos ver como est.  uma bela casa. O 
coronel Firmino ganhou muito dinheiro com o caf, mas, quando houve a crise, desistiu da fazenda. Loteou as terras, conservando apenas a casa. Ele no foi feliz 
l, mas nunca se mudou.
    - Houve uma tragdia. Sua me contou-me a histria.
    - O povo exagera. Gosta de fazer tragdia. Vamos ver a casa e o lugar. Se servir, mudamo-nos para l.
    - E seu escritrio?
    
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    - Ter de continuar aqui. Voc fica l com as crianas e irei todos os fins de semana. Precisamos nos sacrificar em favor da sade de Eurico.
    Eullia concordou. Ela se sentia muito s, mesmo estando ao lado do marido. Dedicava-se aos filhos para ver se conseguia preencher o vazio que sentia no corao. 
Levantou-se e foi at a cozinha para verificar como ia o jantar.
    
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    Captulo 4
    
    
    Hilda entrou no quarto de Eurico, abrindo as cortinas. Depois se aproximou do leito, dizendo:
    - Levante-se, Eurico. Est uma linda manh. Depois de tomar seu caf, vamos dar uma volta pelo jardim.
    O menino abriu os olhos sem muita disposio.
    - Vamos - insistiu ela, tentando entusiasm-Io. - O dia est to bonito!
    - Nico j chegou?
    Hilda surpreendeu-se. Eurico nunca perguntava por ningum.
    - Ele s vem depois do almoo.
    - Ento vou ficar dormindo. Acorde-me quando ele chegar.
    - Nada disso: Voc no pode ficar s na cama. Precisa reagir, tomar ar, andar.
    - No quero.
    - Vou buscar seu caf. Voc pode tom-Io na cama, mas depois vai se levantar e vamos passear um pouco.
    - S vou sair da cama para ir olhar os passarinhos com Nico. - Vamos ver. Vou buscar seu caf.
    Ela desceu e procurou Eullia.
    - O que foi, Hilda? Eurico no est bem?
    - No me pareceu mal. S que no quer se levantar. Disse que vai ficar na cama.
    - Ele precisa sair um pouco. O doutor disse que ele precisa fazer exerccios, seno acaba ficando cada vez mais fraco.
    - Foi o que eu disse, porm ele no quer ouvir. Disse que s vai se levantar quando Nico vier.
    - Nico? Ele disse isso?
    - Perguntou por ele assim que acordou.
    - Hum... Ele gosta desse menino. Nunca vi se interessar por ningum.
    -  mesmo. L em So Paulo, quando os meninos de Dona Albertina vinham nos visitar, ele se fechava no quarto. No gostava deles.
    - Eurico nunca quis conviver com outras crianas. Sempre foi assim. S tolera a irm, assim mesmo quando est bem.
    
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    -  essa histria de passarinhos. Ele ficou muito interessado. - No diga! Isso  muito bom. Precisamos trazer esse menino para brincar com ele. Vamos mandar 
busc-lo.
    - De manh ele est na escola.
    - Quero falar com ele. Avise-me quando chegar.
    Quando Nico chegou, Hilda foi logo dizendo que Eullia queria conversar com ele. Nico foi encontr-Ia na copa.
    - Licena, Dona Eullia.
    - Entre, Nico.
    Ele entrou e esperou.
    - Quero conversar com voc.
    - Sim, senhora. Estou ouvindo.
    - Eurico gostou muito de brincar com voc. Hoje cedo perguntou se voc j havia chegado.
    - Depois que eu acabar o servio posso brincar com ele.
    - O servio pode esperar. Eurico  um menino muito doente. No tem vontade de viver. No se interessa pelas coisas, como voc ou Amelinha. Viemos para c para 
ver se ele melhora.
    - Ele  um menino triste. Sofre de tristeza.
    Eullia surpreendeu-se:
    - No. Ele  doente. Est sempre indisposto. Por isso voc pensa que ele est triste.
    - Desculpe, Dona Eullia, mas eu acho que  a tristeza que o deixa doente.
    - Eurico  um menino muito querido, tem tudo de que precisa. Por que estaria triste? No h motivo.
    -  isso que eu tenho me perguntado. Com uma famlia to boa, uma casa to linda como esta, um quarto to bom, por que ser que ele  triste? Quando olho nos 
olhos do Eurico, sinto uma tristeza que vem do corao dele. Nunca reparou como os olhos dele so tristes?
    - Talvez por ser doente e no poder viver como os outros meninos. - No fique triste, Dona Eullia. O Eurico vai ficar bom, se Deus quiser.
    Eullia olhou para Nico comovida. Ele dissera aquilo com tanto carinho que ela se emocionou. Ficou silenciosa por alguns instantes, depois disse:
    - Voc  um bom menino, Nico. Eurico gosta de voc. Pela primeira.vez ele perguntou por uma pessoa. Desejo pedir-lhe que venha fazer companhia a ele todos os 
dias.
    
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    - Eu tambm gosto dele. Mas preciso trabalhar. Tenho que ajudar a minha me e pagar os livros da escola. Por isso, no posso ficar o tempo todo com ele. Mas, 
depois do horrio de trabalho, eu fico o quanto ele quiser.
    Eullia olhou-o admirada. Ele levava o trabalho a srio.
    - Nesse caso, vou falar com Aurlio para contratar outro ajudante e eu contrato voc. Vai ficar todo o tempo com Eurico.
    Nico sorriu:
    - Isso no  trabalho,  prazer. No gostaria de cobrar por isso.
    - Mas eu quero pagar. Se estou tirando voc de seu trabalho,  justo que eu pague. Depois, para mim, a felicidade de meu filho est acima de tudo. Pagaria muito 
mais do que seu salrio para dar alegria a ele. Aceite e ficarei muito grata.
    - Se  assim, eu aceito. Vou falar com o Seu Aurlio.
    - Eu mesma falo, pode deixar. Eurico hoje no quis sair da cama. Est l em cima deitado, esperando voc. Vou mandar dizer que j chegou. Voc j almoou?
    - Sim, senhora. Obrigado.
    Eullia chamou Hilda, dizendo:
    - Avise Eurico que Nico j chegou. Ele almoou?
    - No, senhora. No quis comer nada. No sei mais o que fazer para que ele tenha mais apetite. Vou falar com ele - disse, saindo da copa. Nico olhou para Eullia 
e, vendo-a triste, tornou:
    - Vai ver que ele tomou caf tarde. Quando eu no me levanto cedo, tomo caf tarde e no almoo.
            - Seria bom mesmo que ele se levantasse cedo, fosse andar um pouco no jardim. Por certo teria mais apetite.
    - Quando a minha irm Neusinha esteve com gripe, perdeu a vontade de comer, e a minha me levou-a no Seu Z das Rosas. Ele deu um remdio e ela comia o dia inteiro. 
Foi preciso a minha me parar, seno ela ia ficar uma balela.
    - Quem  Z das Rosas?
    -  o mdico da roa. Ele no tem diploma, mas sabe mais do que os mdicos da cidade. Ele reza, faz o remdio com as ervas e cura.
    - Ah! - fez Eullia.
    Ficou pensativa. Esse deveria ser o curandeiro do lugar. Coisas do interior, de gente simples. Seu filho fora tratado pelos mais renomados especialistas e nenhum 
conseguira cur-Io. No seria um curador da roa que iria faz-Io.
    
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    Vendo-a pensativa, Nico continuou:
    - Minha me disse que gente da cidade no acredita nos remdios da roa. Mas eu tenho visto o Seu Z curar muita coisa. Ele  bom mesmo.
    Eurico entrou na sala com Hilda.
    - Eu estava dizendo que ele precisava comer pelo menos um pouco antes de sair. Ficar sem almoo, onde j se viu?
    - Hilda tem razo, meu filho - reforou Eullia.
    - No tenho vontade.
    - Voc quer brincar com Nico? - indagou Eullia.
    - Quero ir ver os passarinhos.
    - Ele agora vai ficar com voc a tarde inteira. Vocs podero brincar do que quiserem.
    - Desde que no seja nada que tenha poeira - interveio Hilda. - Pode deixar, Dona Hilda. Vou tomar cuidado - prometeu Nico. - Por que no deixam para mais tarde? 
O sol agora est muito forte, pode fazer mal- pediu Hilda.
            - No se preocupe, Dona Hilda. Vamos ficar na sombra. Se o Eurico quiser, levamos a cadeira para o caramancho.
    Os dois saram e logo Amelinha, que brincava no jardim, os acompanhou alegremente. Nico carregava a cadeira e colocou-a na sombra, do lado de fora do caramancho.
            - Do que quer brincar? - perguntou Nico.
            - Gostei de ver os passarinhos - respondeu ele. - Voc acha
    que eles voltariam a comer em minha mo?
            - Acho. Mas ns podemos brincar de outras coisas tambm. Voc j viu um ninho de passarinho?
    - S no livro.
    - Eu tambm vi - comentou Amelinha.
    - Eles vo buscar a comida, levam no bico e depois, quando chegam no ninho, colocam na boca dos filhotes.
    - Eu queria ver isso - disse Eurico.
    - S que para isso voc precisava poder subir na rvore. Est vendo aquele galho ali naquela laranjeira?
    - Onde?
    - Ali em frente, bem na forquilha. L tem um ninho de passarinho. - Eu estou vendo - disse Amelinha.
    -  - concordou Eurico. - H passarinhos l?
    Sim. Como no podemos subir, vamos olhar todos os dias.
    
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    Os filhotes ainda so muito pequenos, por enquanto s comem, mas logo os pais deles vo ensinar a voar e ns podemos ver daqui mesmo.
    - Eles no nascem sabendo voar? - perguntou. Amelinha.
    - Eles nascem com o instinto de voar, mas precisam treinar e aprender. Ns tambm: nascemos com o instinto de andar, mas precisamos aprender.
    - Voc acha que daqui vamos poder ver quando eles forem comear a voar? - indagou Eurico.
    - Claro. s vezes eles caem, e ento ns podemos cuidar para que nenhum gato chegue primeiro.
    - Como voc faz isso? E se ele cair e um gato aparecer? - perguntou Eurico.
    - Voc o segura com delicadeza, mas tem que ser firme para ele no escapar. Depois o pe sobre um galho de rvore. Nessa hora, com certeza os pais dele vo estar 
em volta tentando ajudar e logo vo tomar conta dele.
    - Que engraado! - disse Amelinha. - Igual  gente. Eles tambm pensam, como ns?
    - Eles no pensam como ns, mas como passarinhos. Cada bicho tem o seu mundo, e vive de acordo com ele. Cachorro pensa como cachorro, porco pensa como porco, 
galinha pensa como galinha, passarinho pensa como passarinho.
    - Como  que sero os pensamentos de um cachorro? - perguntou Amelinha.
    - Uma vez eu li uma histria escrita como se fosse pelo cachorro.
    Ele falava de como via as pessoas, o mundo, os seus donos, tudo. Era uma beleza. Os cachorros devem pensar assim.
    - Como voc sabe, se nunca foi cachorro? - indagou Eurico.
    - Quando eu li, imaginei que era. Pensei: se eu fosse um cachorro, como eu ia ver as coisas? E percebi que a histria bem que podia ser verdade.
    - Voc sabe contar essa histria? - perguntou Amelinha.
    - Sei.
    - Ento conte - pediu Eurico.
    - ! Conte, conte - reforou Amelinha.
    Nico sentou-se no cho ao lado da cadeira de Eurico e comeou a contar a histria. Os dois ouviam com interesse e nem sequer percebiam que de vez em quando Hilda 
aparecia para ver o que estavam fazendo e entrava em seguida.
    
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    - E ento? - indagou Eullia em uma dessas entradas.
    - Eles esto l, conversando. Nico fala e os dois ouvem. Amelinha, como sempre, entusiasmada; Eurico, atento.
    - Vamos ver se ele se interessa por alguma coisa. Esse menino me parece muito bom.
    - Um menino da roa, Dona Eullia. S espero que os dois no peguem o sotaque do interior.
    - Nico fala muito bem. Nem parece que nasceu aqui. O Dr. Mrio gosta muito dele. Depois, Eurico parece gostar de sua companhia. S quero que ele se interesse 
pela vida.
    - Desculpe, Dona Eullia, mas ainda acho que um menino da roa no  companhia para Eurico. Ele no tem o mesmo nvel. Pode dar problemas de educao.
    - Bobagem, Hilda. At agora ele tem sido muito educado. Depois, nada mais me importa do que a sade de Eurico. Farei tudo para que ele fique bom, igual aos outros 
meninos de sua idade.
    Hilda baixou os olhos, dizendo:
    - A senhora  quem sabe. S quis alertar.
    Mela hora depois, Nico entrou na cozinha com Amelinha, que disse para a cozinheira:
    - Vamos fazer um piquenique. Precisamos de uma cesta com tudo. - Vou falar com a Dona Hilda.
    Logo Hilda apareceu na cozinha.
    - O que vocs querem?
    - Vamos fazer um piquenique. Voc j fez algum? - perguntou Amelinha.
    - No sei se ser bom. Comer fora de hora... Melhor no. Eullia apareceu na cozinha e Amelinha pediu:
    - Mame, ns queremos fazer um piquenique. Hilda no quer nos deixar.
    Eullia aproximou-se.
    - Se eles comerem agora, no tero fome ao jantar - justificou-se Hilda.
    Nico esclareceu:
    - Eu tive a idia do piquenique porque o Eurico no almoou, e assim ele poder comer pelo menos um pouco.
    - Eu nunca fiz piquenique. Quero fazer um - reclamou Amelinha. - Est bem - concordou Eullia. - Nico tem razo. Quem sabe assim Eurico come um pouco mais. O 
que querem levar?
    
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    - Vamos precisar de uma cesta, toalha, coisas dentro - disse Amelinha, entusiasmada.
    - No temos uma cesta - disse a empregada. - S aquela grandona das compras do mercado.
    - No faz mal, tornou Nico. - Hoje fazemos um tipo de piquenique, sem cesta. Amanh eu trago uma de casa com tudo e vamos fazer um como se deve.
    - Oba! - disse Amelinha. - Amanh vamos fazer outro! Que bom! E agora, o que vamos levar?
    - O que o Eurico gosta - disse Nico.
    - Ele no gosta de nada - disse Hilda, mal-humorada. - Ento vamos levar algumas bananas, po e queijo. - S? - perguntou Amelinha.
    -  bom demais - respondeu Nico.
    - Po, queijo, bananas vo deixar o Eurico ficar forte depressa. Depois, banana  uma fruta que voc pode inventar muitas formas de comer. J experimentou cortar 
quadradinho com a faca e ir comendo?
    - No - respondeu Amelinha.
    - Pois tem muito mais. Voc vai ver que esse piquenique vai ser muito bom.
    Quando eles saram segurando a sacola com o lanche que pediram, Eullia sacudiu a cabea admirada. Aquele menino tinha cada idia! Comer banana cortando em quadradinhos 
com a faca ela nunca havia feito. Seria bom mesmo?
    Curiosa, ia de vez em quando  janela observar os trs brincando. Estavam l h mais de trs horas e Eurico no se sentira cansado. Vrias vezes o vira em p, 
conversando, coisa rara. Ele nunca participava da conversa, ficava alheio.
    Passava das cinco e mela quando Hilda foi cham-Ios para tomar banho antes do jantar.
    -  cedo - disse Amelinha. - Ainda est claro.
    - No , no. O jantar ser servido s sete e vocs tm de estar prontos. Sua tia Liana chega hoje com seu pai. Ele no gosta de atrasos. Vamos embora.
    - Vou ficar mais um pouco - tornou Eurico, olhando-a desafiador. - Eu tambm - concordou Amelinha.
    - Nada disso. Olhem como vocs esto sujos. Meu Deus! Como foi que se sujaram desse jeito?
    - Ns sentamos na terra para o piquenique - esclareceu Amelinha.
    
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    - Eurico, que horror! Voc no pode fazer essas coisas. Onde j se viu? Vai ficar doente, com certeza!
    - Ele no vai ficar doente nada! - disse Amelinha. - Ele est muito bem!
    Hilda fulminou-a com os olhos. Seu rosto cobriu-se de um rubor de indignao.
    - Voc deveria tomar conta de seu irmo ao invs de deix-Io fazer o que no deve. Vou contar tudo para sua me. Se ele adoecer, no ser por minha culpa. Eu 
fui contra essa idia de piquenique desde o comeo. Vamos andando, seno vou chamar Dona Eullia.
    Nico levantou-se, juntando os objetos espalhados sobre a toalha e dizendo:
    - Vamos obedecer a Dona Hilda. Chega por hoje. Vamos entrar.
    - No quero que voc v embora. Ainda no  de noite! - reclamou Amelinha.
    - Vocs tm que tomar banho e se preparar para esperar a sua tia e o Dr. Norberto. Quando eles chegarem, vo ficar alegres vendo vocs arrumados e contentes.
    - Eu no vou me arrumar. Vou ficar no quarto e pronto - disse Eurico com raiva.
    - Se voc ficar no quarto, no vai ouvir a conversa deles e no vai saber as novidades da cidade. Se fosse eu, no ficaria no quarto. Ficaria junto para saber 
tudinho.
    - Eu vou ficar com eles! Tia Liana sempre traz presentes para ns.
    O que ser que vai trazer hoje?
    - Ela  aquela moa bonita que chegou com vocs no dia da mudana e foi embora dois dias depois? - indagou Nico.
    - .
    Eles foram andando de volta  casa, onde Eullia os esperava atenta.
    - Eles no queriam entrar, Dona Eullia. So quase seis horas, e o Dr. Norberto pode chegar a qualquer momento.
    - Estava to bom l fora! - comentou Amelinha. - Depois, eu no quero que Nico v embora. Pea para ele ficar, mame.
    - No seja egosta, minha filha. Nico tem outras obrigaes em casa. Ele se levanta muito cedo para ir  escola e tambm tem de estudar. No podemos abusar dele.
    - Eu quero que ele fique aqui - disse Eurico.
    Eullia olhou surpreendida para o filho. Ele nunca emitia opinio e muito menos pedia alguma coisa. Ficou sem saber o que dizer.
    
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    Olhou para Nico e perguntou:
    - Voc pode ficar mais um pouco, Nico? No tem de fazer lio ou estudar?
            - J fiz a lio de casa e posso ficar mais um pouco, at a hora do jantar.
    Eurico olhou para ele e convidou-o:
    - Venha at meu quarto. Eu achei uma revista que gostaria de lhe mostrar.
    Nico olhou para Hilda e Eullia sem saber o que fazer.
    - No adianta agora, Eurico - respondeu Hilda. - Voc vai tomar banho e se arrumar. Ele espera voc descer.
            - Se ele no subir, eu tambm no subo. No tomo banho nem me arrumo.
    Eullia olhou admirada para o filho. Ele sempre foi aptico e nunca se rebelava. Ficava prostrado e acabava sempre fazendo o que queria. Vendo-o plido e sem 
foras, ningum se atrevia a contrari-lo.
    - Est vendo s, Dona Eullia? Este menino s faz o que quer. Viu como est com a roupa suja? Sentaram-se na poeira. J pensou se ele passar mal?
    - V tomar banho, meu filho. Nico pode ir com voc. No h nada de mal ele lhe fazer companhia l em cima.
    - Eu tambm quero ficar no quarto de Eurico - tomou Amelinha.
    - Voc  menina. Eurico vai tomar banho e voc no pode ficar com ele. V para seu quarto, tome seu banho, arrume-se e depois poder ficar com eles - determinou 
Eullia.
    Hilda lanou um olhar de reprovao e subiu com eles. Eullia ficou pensativa. Era natural que Eurico desejasse ter um amigo. Pela primeira vez ele demonstrara 
interesse em algum. Isso era bom. Ela, quando tinha a idade dele, tinha uma amiga da qual nunca se separava. Estavam sempre juntas. Era promissor que finalmente 
ele desejasse se relacionar.
    Eullia teve o fio de seus pensamentos cortados pelo rudo de um carro que chegava. Saiu para receb-Ios.
    Norberto beijou-a delicadamente na face e Liana abraou-a com alegria.
    - Que bom v-la - disse.
    - Fizeram boa viagem?
    - Estava um calor sufocante - reclamou Norberto. - Mas afinal chegamos. Estou morto de sede e louco por um banho.
            - Vamos entrar - convidou Eullia.
    
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    Depois de servir gua fresca a ambos e Norberto subir para tomar seu banho, Eullia acompanhou Liana para o quarto de hspedes.
    - Ento, conseguiu resolver seus negcios em So Paulo?
    - Quase. Sabe que eles no queriam me dar a transferncia? Se no fosse a recomendao do Dr. Euclides, eu no teria conseguido.
    - Quer dizer que saiu?
    - Saiu. Vou lecionar em Ribeiro Preto.
    Eullia abraou-a contente.
    - Que bom! Assim terei companhia. Sabe como : Norberto passa a semana inteira longe e tenho me sentido muito sozinha.
    - Eu no via a hora de vir para c. Depois que mame morreu, tenho me sentido muito s. Fiquei indignada quando papai levou aquela mulher para nossa casa. Mesmo 
que vocs no tivessem me convidado para morar aqui, eu teria sado de casa, ido para algum lugar.
    - Agora ele pode at se casar com ela!
    - Deus nos livre! Depois de tudo! Se ele fizer isso, mame vai se revirar no tmulo.
    Eullia ficou pensativa por alguns segundos, depois disse:
    - Ela nunca o perdoou por ter se apaixonado por outra.
    - Sei disso.
    Eullia olhou sria para a irm e continuou:
    - No sei por que ela suportou.
    - Talvez para no se tornar uma desquitada!
    -  uma boa razo. Em nossa sociedade o adultrio para o homem  visto at como sinal de virilidade, mas a mulher desquitada sempre  olhada com maus olhos, 
mesmo sem ter culpa de nada.
    Os olhos verdes de Liana brilharam quando ela disse:
    - Ela pode ter feito isso por amor, por no querer a separao.
    - No tenho certeza se ela o amava tanto assim No creio muito no amor. O casamento  sempre um jogo de interesses. Eu era muito nova quando me casei, voc sabe 
que eu no amava Norberto. Foi para obedecer a mame. Mas agora, depois de treze anos de convivncia, aprendi a gostar dele. Tenho sentido muito sua falta depois 
que nos mudamos para c.  uma questo de costume.
    - Eu no teria obedecido se fosse voc. S vou me casar por amor. Os olhos de Eullia brilharam quando respondeu:
    - Esse  um sonho difcil de se realizar. Tem visto Mrio?
    - Ele me ligou algumas vezes, convidando para sair, mas eu estava sempre ocupada. Queria resolver tudo logo para voltar.
    
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    - Ele me parece interessado em voc. No se declarou?
    Liana sorriu e deu de ombros.
    - No. Acho que quis ser amvel comigo por eu estar sozinha em So Paulo. Quis ser atencioso, agradar Norberto.
    - Hum... Eu acho que no  nada disso. Ele olha para voc de um jeito...
    - Se estivesse interessado em mim, teria me procurado, insistido. - Pode no ter querido forar. Ele  muito educado.
    - Por causa disso  que eu acho que est apenas cumprindo as regras da boa educao.
    - No creio. Se ele pedir para namorar, voc vai aceitar?
    - No sei. Nunca pensei nisso.
    -  excelente pessoa, um bom partido, muito bem-parecido, elegante. Eu diria at que  um homem bonito.
    - No nego que  bonito. Mas no estou apaixonada por ele, se quer saber.
    Eullia riu bem-disposta e acrescentou:
    - Quer apostar como ele logo vir nos visitar?
    - O que  natural.  muito amigo de Norberto, fez um belo trabalho na reforma desta casa.
    -  verdade. Nenhum outro teria feito melhor. Restaurou tudo com perfeio. A casa no s ficou linda mas tambm muito confortvel.
    - Voc gosta daqui.
    - Gosto. Confesso que vim somente para ajudar Eurico. Mas agora estou apreciando muito o lugar.  calmo, sossegado, cheio de pssaros e flores. Depois, at Eurico 
est dando sinais de melhora. Isso para mim  o mais importante. A nica pena  que Norberto no pode ficar aqui o tempo todo.  muito cansativo para ele vir todos 
os fins de semana. Reparou como ele estava cansado quando chegaram?
    -  verdade. O calor estava muito forte e ele transpirou e reclamou o tempo todo. Est fazendo esse sacrifcio pelo bem-estar de Eurico. Se ele est melhor, 
est valendo a pena.
    - Est. J tem at um amigo: Nico.
    - Sei quem . Mrio fala nele com admirao.
    -  um menino muito prestativo e inteligente. Apesar de vir de uma famlia simples,  muito educado. Sabe portar-se.
    - timo.
    As duas continuaram conversando at quase a hora do jantar. Eullia saiu para cuidar de seus afazeres. 
    
    62
    
    Liana acompanhou-a at as escadas e na volta, ao passar pelo quarto de Eurico, ouviu risadas. Bateu delicadamente na porta e entrou.
    Nico estava com um pano colorido nas costas,  guisa de capa, e segurava uma vara na mo enquanto Amelinha, com uma coroa de flores na cabea e uma fita colorida 
na cintura, trazia nas mos um pedao de papel. Eurico, sentado em uma cadeira, assistia. Vendo-a entrar, eles ficaram parados.
    - No quero interromper - foi logo dizendo Liana. - Vim apenas dar um abrao.
    Amelinha correu para ela, abraando-a:
    - Que bom, tia!
    Depois de beij-Ia, Liana aproximou-se de Eurico, abraando-o e beijando-o na face.
    - Como vai? Est melhor?
    - Estou - respondeu ele sem entusiasmo.
    - Como vai, Nico?
    - Bem. E a senhora, fez boa viagem?
    - Muito boa, obrigada. Vocs brincavam e eu interrompi.
    - Estvamos representando para Eurico. Eu era a princesa Miriam, e Nico o rei. Ele no queria que eu me casasse com o prncipe. Ento ele deu trs coisas perigosas 
para o prncipe fazer. Ele s vai consentir no casamento se ele vencer as provas.
    - E o prncipe, quem ?
    - Bom, ele disse que deveria ser Eurico. Mas ele ainda no decidiu se quer. Se ele no quiser, vai ter de ser Nico mesmo. Ele vai ter de fazer os dois papis.
    - O Eurico vai fazer, sim - disse Nico. - Ele vai ser o heri, vencer todas as provas e se casar com a princesa! A o prprio rei vai ter que fazer o casamento.
    - Vai ter bolo de noiva e tudo! - disse Amelinha, contente.
    - O casamento no vai ser hoje - disse Nico. - Est quase na hora de jantar e eu tenho que ir embora. S fizemos o primeiro ato. Vamos continuar amanh.. Precisamos 
de tempo para preparar as roupas. Minha me sabe fazer roupas de papel crepom.
    - O da princesa tem de ser azul, da cor do cu! - disse Amelinha. - A coroa tem que ser dourada. Toda de ouro - completou Nico. - E a roupa do prncipe? - indagou 
Eurico.
    - Bom, ela pode ser da cor que voc gostar. Agora, as jias precisam ser brilhantes e a espada tem que ser de prata.
    
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    - Onde vo arranjar o material? - indagou Liana.
    - Vou pedir a mame para comprar o papel - disse Amelinha.
    - Eu tenho alguns colares e pulseiras que podero ser transformados em jias. Vocs querem?
    - Oba! - fez Amelinha com entusiasmo.
    - Que bom! - disse Nico. - J pensou, Eurico? Esse prncipe vai ficar mais bonito que o rei!
    - Acho que vou querer ser ele! - concordou Eurico.
    Depois de prometer arranjar material para eles fazerem as roupas da pea, Liana saiu e foi para o quarto. Estava bem impressionada com o que vira.
    - Puxa, se sua tia ajudar, poderemos fazer uma pea de verdade.
    - Como no teatro? - perguntou Amelinha, entusiasmada.
    - Bom, teatro eu no sei como , mas vi no cinema e no circo tambm. Podemos fazer tudo e depois representar de verdade.
    - No h ningum para assistir - tornou Amelinha.
    - Se a gente ensaiar bem, fizer tudo direitinho, podemos fazer uma apresentao para outras crianas da cidade. Isto , se a sua me deixar.
    - Puxa! Ser que eles vo querer assistir?
    - Claro que vo. Mas ainda  cedo para dizer. Vou escrever a histria toda no papel e depois vamos fazer as roupas, ensaiar. Quando estiver tudo pronto, veremos.
    - Voc precisa mesmo ser o prncipe, Eurico - disse Amelinha.
    Nico no vai poder ser os dois. Como  que ele vai fazer o casamento?
    - O Eurico vai fazer o prncipe, no  mesmo?
    - Vamos ver. Voc acha que eu vou acertar e vencer as provas?
    - Claro que vai. Estamos representando, e tudo  no faz-de-conta
    - Explicou Nico com entusiasmo. - Voc vai saber direitinho o que fazer. Vai ensaiar bastante.
    - Ser que eu vou poder?
    - Tenho certeza que vai - garantiu Nico com entusiasmo. - S que ns vamos guardar segredo. Vamos pedir para sua tia que no diga nada a ningum. Vamos fazer 
uma surpresa.
    - Oba! Eu adoro segredos! - disse Amelinha batendo palmas de alegria.
    - O que acha, Eurico?
    - Est certo.
    Nico aproximou-se, pegou a mo de Amelinha, colocou-a sobre a de Eurico e ps a sua em cima, dizendo:
    
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    - Nesse caso, vamos jurar. Este segredo vai ficar guardado e quem falar dele aos outros  um bobo. E, se isso acontecer, no vamos fazer mais nada.
    Os trs juraram solenemente.
    - Agora, sim - disse Nico -, estamos juntos de fato nessa pea. Hilda entrou no quarto dizendo:
    - Vamos descer. Est na hora do jantar.
    - Eu preciso ir - disse Nico, despedindo-se dos amigos que forosamente queriam que ele ficasse.
    - Amanh eu volto - prometeu ele.
    Desceram juntos e ele discretamente esgueirou-se pela cozinha e saiu. A tarde estava findando e o sol j havia desaparecido, deixando apenas os reflexos de seus 
raios no cu cor-de-rosa, onde o brilho plido das primeiras estrelas comeava a aparecer.
    Nico olhou para o cu e sorriu. Aquele era um minuto mgico da natureza, e ele pensou: o que haver l em cima, no cu, alm das estrelas?
    Deu asas  fantasia, mas dentro de seu corao ele sabia que, apesar de no poder comprovar, havia a certeza da grandiosidade da vida e ele sentia em tudo o 
poder de Deus.
    
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    Captulo 5
    
    
    A partir daquele dia, Nico passou a fazer parte da famlia de Eullia. Mal chegava da escola, colocava os livros sobre a cama e ia para a manso. Eurico apegou-se 
a ele de tal forma que no queria fazer nada enquanto Nico no aparecesse. Eullia procurava content-Io, uma vez que Nico exercia uma benfica atuao sobre o comportamento 
do menino. Ao lado dele, concordava em comer, mostrava-se mais animado, mais interessado nas coisas. Havia engordado, estava mais corado e no se cansava como antes.
    A princpio Nico, em obedincia  sua me, s ia para l depois de haver almoado. Mas Eullia pediu-lhe que fosse almoar com Eurico e assim ele passou a fazer 
suas refeies l.. Ela pagava todas as semanas a modesta quantia que lhe prometera, mas, sentindo-se grata pela dedicao de Nico, mandava alimentos e roupas para 
sua famlia.
    Com isso, eles deixaram de passar necessidade e Ernestina no precisou mais trabalhar tanto para manter a famlia. Jacinto, satisfeito com a proteo de Dona 
Eullia, interessou-se pelos servios que Nico prestava na manso, desejando explorar a situao.
    Ernestina foi categrica:
    - O Nico no vai fazer o que voc est dizendo.
    - Vai, sim. Dizem que o menino s come com o Nico e que a Dona Eullia est feliz com a melhora do filho. Vai dar pra ele o que ele quiser! Outra oportunidade 
dessas no vamos ter!
    Ernestina, enraivecida, olhou para o marido e seus olhos faiscavam quando respondeu:
    - No se mete com o Nico. A Dona Eullia  uma mulher muito boa. No vamos nos aproveitar da situao, no. No quero o meu filho fazendo uma coisa dessas!
    - Se eu quiser, ele faz! Tem que obedecer!
    Ernestina aproximou-se dele, dizendo com voz ameaadora:
    - No vou tolerar que faa isso! Deixa o menino em paz! Voc nunca se importou com ele.
    - Precisamos aproveitar a oportunidade. Ganhar dinheiro!
    - Por que no procura um servio pra fazer?  o jeito de ganhar dinheiro, no  explorando os outros. O que devia fazer  arranjar um trabalho.
    
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    Nossa terra est chela de mato, por que no planta pelo menos um pouco?
    Jacinto reclamou e foi saindo, e Ernestina suspirou, tentando conter a raiva. Por que se casara com um homem to preguioso? No ia deix-lo atrapalhar a vida 
de Nico. Queria que seu filho crescesse honesto, digno, respeitado pelas pessoas.
    Mas Jacinto no desistia, e quando Nico chegava ele logo aparecia, reclamando do dinheiro que o menino recebia na manso, at dos donativos generosos de Eullia.
    Nico escapava desgostoso. Por que o pai era daquele jeito? Dona Eullia no tinha nenhuma obrigao de sustentar sua famlia. Entretanto, mandava donativos porque 
tinha um bom corao. Como ele podia ser to ingrato? Era to bem tratado na manso que ele sentia at vergonha de receber o dinheiro que ela lhe pagava. Vrias 
vezes teve vontade de no receber. Mas sabia que o dinheiro era necessrio para as despesas de sua casa. Por isso, continha-se.
    Depois, ele gostava de Eurico, de Amelinha e das demais pessoas da casa. Com Norberto era mais retrado, uma vez que ele s aparecia nos fins de semana e havia 
at alguns em que ele no ia.
    De vez em quando Mrio aparecia para ver como estavam as coisas na manso. Abraava Nico com carinho, e o menino notara o interesse do engenheiro pela irm de 
Eullia. Mrio ficava emocionado quando ela chegava, fazia um jeito de quem deseja agradar, e Nico sabia que o engenheiro gostaria de namor-la.
    Liana tratava-o com ateno, mas no parecia estar apaixonada. Ela era muito bonita, e Nico torcia para que eles namorassem. Gostava de Mrio e queria que ele 
fosse feliz.
    Uma tarde, Eullia chamou Nico e pediu:
    - Gostaria muito de conversar com sua me. Ela poderia vir at aqui amanh?
    - Pode, sim, senhora. S que tem um problema...
    - Qual ?
    - Minha me tem medo de entrar aqui na manso.
    - Medo? De qu?
    Nico hesitou um pouco, depois respondeu:
    - A senhora no sabe, mas  que aqui... bom... as pessoas dizem... - O qu?
    - Que esta casa  assombrada.
    Eullia desatou a rir, depois perguntou:
    
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    - Isso  crendice! Sua me parece-me uma mulher inteligente. Ela acredita nessas coisas?
    - Sabe como , gente da roa acredita em almas do outro mundo.
    Depois, teve gente que viu a alma do coronel andando por aqui.
    - Bobagem. Ns estamos aqui h quase um ano e nunca vimos nada. Mas, se ela tem medo, no precisa entrar. Pea a ela para vir e vamos conversar no caramancho.
    No dia seguinte, Ernestina acompanhou Nico at o caramancho, onde Eullia a recebeu.
    - Entre, Ernestina. Como tem passado?
    - Bem, sim, senhora.
    - Sente-se aqui a meu lado. Obrigada por ter vindo. No fui  sua casa porque queria conversar a ss com voc. Pode ir, Nico, Eurico est esperando.
    Ernestina acomodou-se no banco e esperou. Eullia, depois que Nico se foi, comeou:
    - Gosto muito de seu filho.  um menino muito bom. E o mais importante  que Eurico est melhorando graas  dedicao dele. Chamei-a aqui para pedir-lhe um 
grande favor.
    - Pode falar, Dona Eullia.
    - Como sabe, meu filho  doente. Temos tentado de tudo para que ele fique bom. S agora, com a presena de Nico, ele comeou a melhorar um pouco. Espero que 
com o tempo de venha a sarar. Por enquanto, embora esteja melhor, no tem condies de ser como os outros meninos, de ir  escola, por exemplo. Entretanto, meu marido 
e eu achamos que ele precisa estudar. Minha irm que  professora, ensinou-o as primeiras letras. Alis, com grande dificuldade. No que ele no possa aprender. 
Isso no.  inteligente. Mas, como ele se sente mal, no se pode for-Io.
    - Certamente.
    - Fica cansado, no demonstra interesse pelos estudos. Para dizer a verdade, ele no se interessa por nada nesta vida. Agora, com Nico, ele comeou a se interessar 
por alguma coisa. Seu filho  muito inteligente e sabe como cativar.
    - Ele sempre foi assim. Todo mundo gosta desse menino.
    - Pois . Desejo propor-lhe uma coisa. Quero pagar os estudos de Nico at ele ficar moo. Pode escolher a carreira que quiser.
    O rosto de Ernestina iluminou-se e ela sorriu satisfeita:
    -  o sonho dele! Poder ir pra uma faculdade?
    
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    - Claro. O que ele quiser!
    Ernestina pegou a mo de Eullia e levou-a aos lbios entusiasmada: - Obrigada, Dona Eullia! A senhora no sabe o bem que est me fazendo. Vou ser grata pelo 
resto da vida. Posso lavar toda a roupa da sua casa de graa.
    Eullia sorriu:
    - No ser preciso! Ainda no acabei minha proposta. Quero que ele venha morar aqui!
    Ernestina surpreendeu-se:
    - Como? Morar aqui? Mas ele pode vir todos os dias. No precisa morar.
    -  que pretendo contratar professores que venham dar aulas aqui em casa. Quero que Nico saia da escola e venha estudar com Eurico. Para que tudo isso d certo, 
 preciso que ele venha morar aqui.
    Ernestina ficou um pouco inquieta. Nico era seu apoio em casa. Era com ele que conversava todas as manhs sob a mangueira. A casa iria ficar muito triste sem 
ele.
    Eullia prosseguiu:
    - No se preocupe, Ernestina. Nico poder ir ver a famlia sempre que quiser. No pretendo tirar seu filho de voc.  que ele representa para mim uma porta para 
a cura de meu filho. At agora nada deu resultado. Tenho esperana de que, se ele ficar com Eurico o tempo todo, estudando, brincando, vivendo, meu filho vai acabar 
melhorando. Por outro lado, gosto de seu filho e posso dar a ele uma carreira digna. Ele pode se formar, ganhar dinheiro, ajudar a famlia. Seria uma troca: ele 
me ajuda e eu os ajudo. Penso que todos ns vamos ficar satisfeitos.
    Apesar da tristeza que a separao causava, Ernestina sentia que no podia ser egosta. Nico tinha o direito de aproveitar aquela oportunidade. Por isso, respirou 
fundo e respondeu:
    - Da minha parte, concordo. A felicidade do Nico  tudo quanto desejo nesse mundo. Em todo caso, vamos perguntar a ele. Tenho medo que ele venha morar aqui...
    Teve vergonha de prosseguir. Eullia compreendeu e apressou-se a esclarecer:
    - Faz quase um ano que nos mudamos, e nunca vimos nada. Essa histria de assombrao  bobagem. Voc no acredita mesmo nisso, no ?
    - Eu acredito, sim. Tenho visto muitas coisas.
    - Pois aqui nunca vimos nada. No vai querer estragar a carreira de seu filho por causa de uma bobagem dessas.
    
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    - . Se a senhora garante que nunca viu nada... O povo fala muito mesmo. Seu marido tambm quer que o Nico venha morar aqui?
    - Quer. Ele tambm notou o quanto Eurico melhorou. Tambm acha que ele precisa da companhia de um menino da mesma idade. E seu marido? Vai concordar?
    - Deixa ele comigo. Sei como lidar.
    A criada apareceu trazendo uma bandeja com refrescos e alguns petiscos e deixou-a sobre a mesa. Eullia pediu:
    - Pea a Nico que venha aqui.
    Ela saiu e Eullia serviu o refresco e os docinhos para ambas. Quando Nico apareceu, ela lhe fez a proposta. Os olhos do menino brilharam de emoo, mas ele 
disse com delicadeza:
    - No posso aceitar o convite, Dona Eullia. No quero deixar a minha famlia.
    - Voc no vai deixar a famlia. Vai ficar aqui mais perto de Eurico, mas poder ir para casa ver sua me sempre que quiser.
    - Minha me precisa de mim e eu quero ficar com ela. Mas posso vir bem cedinho todos os dias, estudar com o Eurico, fazer tudo que a senhora quiser.
    Olhos brilhantes de emoo, Ernestina disse:
    - Eu quero muito ficar com voc, mas pense um pouco, meu filho!
    Voc vai poder estudar, se formar, ter tudo que sempre quis.
    - Voc quer que eu aceite, me?
    - Eu quero que voc seja feliz. Vou sentir a tua falta, mas voc vai me ver sempre.
    - Pode ir todos os dias, se quiser - prometeu Eullia.
    - Bom, se  assim... eu aceito!
    - Muito bem. Assim  que se fala. Tenho certeza de que no vai
    se arrepender. Vamos dar a boa notcia a Eurico e Amelinha.
    Nico abraou a me, dizendo comovido:
    - Vou ver voc todos os dias. Pode esperar. E, quando eu for grande, vou comprar uma casa linda como essa para voc morar com a famlia. Voc vai ver.
    Ernestina sorriu alegre. Seu filho ia se libertar daquela vida triste de pobreza. Um dia ele seria importante e ilustrado. Valia a pena o sacrifcio.
    No dia seguinte mesmo Nico mudou-se para a manso. Tinha pouca coisa: algumas peas de roupas, livros, alguns brinquedos que ele mesmo fizera. Seu irmo Jos 
olhou-o com inveja, mas no perdeu a chance de implicar:
    
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    - Vai servir de criado pra aqueles gr-finos, vai ser escravo deles. Eu  que no aceitava uma coisa dessas! Agora vou ficar com a cama s pra mim.
    Nilce queria saber como seria seu quarto na manso. Ele prometeu voltar para contar. Quando chegou  manso sobraando seus pacotes, Nico sentiu muita emoo. 
Ele ia morar naquela casa que tanto admirava! Nunca pensou que isso pudesse acontecer. Mas era verdade. Dali para a frente aquela seria sua casa!
    Eurico queria que Nico ficasse em seu quarto. Eullia no concordou: - Nico precisa ficar bem instalado. Em seu quarto no h cama nem guarda-roupas para ele. 
Nico vai ficar no quarto ao lado do de Manuel.
    Eurico no concordou:
    - Fica muito longe. Fora da casa. Quero Nico aqui, perto de mim. - J disse que no h lugar.
    Mas Eurico irritou-se, exigiu:
    - H lugar, sim. Mande pr a cama dele aqui.
    Eullia no queria outra pessoa dormindo no mesmo quarto. O mdico dissera que Eurico precisava ficar em um quarto bem arejado, e outra pessoa ali, respirando, 
poderia deixar o quarto abafado. Depois de alguma discusso, ela resolveu:
    - Vou desocupar o pequeno quarto ao lado e arrumar para Nico.
    Ele vai ficar bem perto,  s abrir a porta.
    Ela foi at a porta que ligava os dois quartos e abriu-a, dizendo. - Est vendo?  como se ele estivesse no mesmo quarto. Finalmente Eurico concordou. Ela guardara 
naquele pequeno quarto malas, objetos sem uso, fizera dele um pequeno depsito. Precisava esvazi-Io. Comearam a arrumao e ao anoitecer ele pde instalar-se. 
O aposento era pequeno, coube uma cama, um criado-mudo, uma cadeira e um pequeno guarda roupas.
    Nico estava maravilhado. No se cansava de olhar o abajur, o tapete ao lado da cama. Alisava a fina roupa de cama, o travesseiro macio, as toalhas de banho que 
Hilda trouxera, o sabonete perfumado, a escova e a pasta de dentes. Achou tudo lindo! Era a primeira vez que tinha um quarto s para ele!
    Eullia entrou dizendo:
    - O outro quarto era maior, mais arejado, mas Eurico  impossvel! - No se incomode, Dona Eullia. Eu adorei este quarto!
    - Amanh vou mandar colocar cortinas nessa janela e pedir a Liana que compre algumas roupas para voc.
    
    71
    
    - No precisa, no, senhora.
    - Precisa, sim. Voc agora mora em minha casa,  amigo de meus filhos. Deve se vestir como eles.
    Nico achava que no precisava, mas no se atreveu a recusar. Ele ia levar vida de rico! Assim ficaria conhecendo de perto como eles vivem.
    - Eu ainda preciso ir para a escola - esclareceu ele. - Estamos no fim do ano e, se eu no for mais, vou ser reprovado. Isso eu no quero.
    - Amanh irei com voc at l resolver tudo.
    - A senhora vai  minha escola?
    - Vou. Voc no vai perder nada. No vou deixar.
    Depois de arrumar cuidadosamente seus poucos pertences no guarda-roupas, seguido de perto por Amelinha, que curiosa queria ver tudo que ele trouxera, foram ficar 
com Eurico.
    Eullia olhava-os com satisfao. A presena constante de Nico haveria de levantar o nimo de seu filho e logo ele estaria curado. Contratara um professor para 
ensinar os trs. Liana oferecera-se, mas Eullia no queria dar-lhe esse trabalho. Ela j se cansava bastante na escola. Depois, achava que algum de fora seria 
levado mais a srio.
    Um amigo de Norberto em So Paulo indicara esse professor, principalmente porque ele era muito interessado em educao, tinha curso superior. Ele havia combinado 
com Norberto que acompanharia o currculo escolar e que, quando as crianas estivessem preparadas, poderiam submeter-se a um exame e conseguir o diploma.
    Norberto dissera-lhe que o professor Alberto era escritor, tinha alguns livros publicados, escrevia para um jornal de So Paulo, mas que desejava ir morar em 
um lugar sossegado no interior, onde continuaria a escrever. Sua renda era insuficiente para se manter, e ele aceitou o emprego que Norberto lhe oferecera.
    Viria com Norberto no fim de semana para ficar. Dormiria no quarto de hspedes at que encontrasse uma casa para alugar pelas vizinhanas. Durante a viagem, 
Norberto colocou-o a par dos problemas de Eurico, e Alberto interessou-se bastante.
    - Foi muito bom ele ter arranjado um amigo - disse.
    - , foi uma reao boa. Ele nunca havia se interessado por nada.
    Por isso, Eullia achou melhor que esse menino ficasse l em casa. Ele  muito pobre, mas bem-educado. Tem boa aparncia e minha esposa gosta muito dele.
    - Farei tudo para ajudar. Seu filho precisa tomar gosto pela vida. Tenho a impresso de que ele  muito triste.
    
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    - Por que diz isso? Ele tem tudo que um menino da idade dele poderia ter!
    - Mas no tem alegria de viver!
    - Por causa da doena. Sente-se muito mal.
    Alberto no respondeu. Norberto continuou:
    -  meu nico filho homem! Gostaria muito que ele fosse diferente! No sei por que aconteceu isso comigo!
    Alberto olhou seriamente para ele e respondeu:
    - Aceitar o que no pode modificar ajuda a conservar a paz.
    - , eu aceito. Que remdio? Esperava um menino vivo, inteligente, esperto, que praticasse esporte, que fosse meu orgulho. Eurico  o oposto disso. Mas  filho 
e no d para no ligar.
            - Ele venceu a morte e est lutando para sobreviver, recuperar a sade.
            - H momentos em que no sei se isso foi bom. Sinto-me to desanimado olhando para ele... H horas em que penso que ele nunca vai         sarar. Depois, 
Eullia vive triste, minha casa  um lugar sem alegria.
    - Mas o senhor tem uma menina, muito saudvel.
            - . Amlia  saudvel at demais. Fala pelos cotovelos, como toda mulher. Olhando para ela, fico pensando na injustia da vida. Um         to apagado 
e outro to vivo!
            Pelos olhos de Alberto passou um brilho de emoo, mas ele nada disse. Pensava em sua vida, nos problemas que carregava dentro do corao.
    Chegaram ao anoitecer, e Eullia recebeu-os com delicadeza, cercando-os de atenes. Simpatizou logo com os olhos escuros e profundos do professor. Sua figura 
elegante, seus cabelos castanhos ligeiramente ondulados, seu rosto moreno, seu queixo firme em que havia pequena covinha. Seus lbios abertos em um sorriso largo 
que mostrava dentes claros e bem distribudos tornavam-no um homem bonito. Alm disso, vestia-se muito bem. Quantos anos teria? Quando horas mais tarde perguntou 
ao marido, soube que beirava os trinta e cinco.
    O que teria um homem como ele ido fazer em uma cidade do interior? Norberto disse que. ele era escritor. Mas  primeira vista ele no lhe pareceu nem um pouco 
excntrico. Fazia votos de que ele se acostumasse e que tivesse pacincia com as crianas.
    lnstalou-o no quarto de hspedes j devidamente arrumado para esper-Ia, deixando-o  vontade para tomar um banho e descansar da viagem. Mandaria avisar quando 
o jantar fosse servido.
    Alberto no conheceu as crianas naquela noite. 
    
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    Por causa do cansao da viagem, o jantar foi servido um pouco mais tarde e as crianas j se haviam recolhido.
    Nico havia se deitado quando a porta do quarto se abriu e Eurico enfiou a cabea perguntando:
    - J est deitado?
    - Estou.
    - Estou sem sono. Vamos conversar.
    Nico levantou-se e foi at o quarto de Eurico, dizendo:
    - A Dona Eullia pediu para irmos dormir cedo. Disse que voc precisa descansar.
    - Ela disse. Mas no consigo dormir.
    Nico suspirou:
    - Ela pode brigar comigo. Dona Eullia  muito boa e s pensa no seu bem-estar. Melhor obedecer.
    - Ela no precisa saber. Vamos deixar acesa s a luzinha da noite. - Voc dorme de luz acesa?
    - No gosto de escuro. No consigo dormir agora. Voc vai ficar comigo?
    - Est bem. Vamos conversar at voc sentir sono. A eu vou para o meu quarto. Sobre o que quer falar?
    - Conte aquela histria do caador e da ona.
    Mal ele comeou a contar, a porta do quarto abriu-se e um vulto entrou. Os dois se assustaram, mas Amelinha sussurrou:
    - Eu sabia que vocs no estavam dormindo! Quero conversar tambm.
    - Melhor voc ir para seu quarto. Mame no pode saber - disse Eurico.
    - Eu posso guardar segredo! Ningum me viu.
    - Fale baixo e fique quieta. Estou sem sono. Nico est contando uma histria.
    - Voc est com medo de novo!
    -  nada! - negou ele nervoso.
    - Est, sim. Pensa que eu no sei? Vi como voc chora de medo. Eurico ia revidar, mas Nico interveio:
    - Ter medo no  nada de mais. Todo mundo tem: o rato do gato, o gato do cachorro, o cachorro da ona, a ona do caador...
    - Voc tambm tem medo? - indagou Eurico com interesse. - Claro que tenho.
    - De qu?
    
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    - De ficar embaixo de rvore quando tem trovoada.
    - Por qu? - perguntou Amelinha.
    - Porque rvore atrai raio. Se um raio pega uma pessoa, ela fica torradinha.
    - Que horror! Por que no pe pra-raios? - continuou a menina. - Porque isso  coisa da cidade. Aqui no usa.
    - Voc tem medo porque  criana. Gente grande no tem - comentou Amelinha.
    - Minha me tem medo de alma do outro mundo! - tomou Nico. Ela riu:
    - Hilda diz que isso  coisa de gente da roa.
    - No , no. Eu tambm tenho medo deles - disse Eurico. Depois, dirigindo-se a Nico: - Voc no?
    - Eu no. Se me aparecesse uma alma penada agora, eu conversaria com ela. Dizem que as almas voltam quando querem alguma coisa. Quando a gente ouve e faz o que 
pedem, elas vo embora. Se aparecesse uma alma aqui...
    - Voc ia correr de medo! - disse Amelinha.
    - Ia nada. Encarava ela e perguntava o que ela queria. O Dr. Mrio me disse que tem mais medo de gente viva do que de morto.
    - Por qu? - fez Amelinha.
    - Porque o morto s assusta e no pode fazer nada; j os vivos roubam, matam. Eu prefiro encontrar uma alma penada do que um ladro - completou Nico.
    - Chega de falar nisso! - reclamou Eurico. - No gosto desses assuntos. Estou todo arrepiado! Depois acabo sonhando com eles.
    - Voc sonha com alma do outro mundo? - perguntou Nico, admirado.
    - Ele acha que tem gente no quarto. Hilda disse que o medo o faz ver coisas.
    - Vamos falar de outra coisa. No vai continuar a histria? Nico reiniciou a narrativa e logo Eurico bocejou, dizendo:
    - Estou com sono, quero dormir. V para seu quarto, Amelinha. Cada um foi para seu quarto. Dali a alguns minutos, Eurico apareceu novamente no quarto de Nico.
    - Voc est com sono? - indagou.
    - Um pouco.
    - Eu disse aquilo para Amelinha ir embora. As mulheres no sabem guardar segredo. Quero contar-lhe uma coisa.
    
    75
    
    - Um segredo?
    - Sim. Sabe por que eu durmo com a luzinha acesa? - perguntou ele sentando-se na cama.
    Nico balanou a cabea negativamente. Ele prosseguiu:
    - Porque, quando eu apago tudo, as almas do outro mundo vm me atormentar.
    Nico, que estava deitado, sentou-se na cama.
    - Como sabe? No  uma iluso? O que a Dona Hilda disse  verdade. O medo faz voc ver coisas que no existem.
    - Se voc visse o que eu vi, no duvidaria.
    - O que foi que voc viu?
    - Muitas coisas. Quando eu apago a luz, os vultos comeam a aparecer. Uma mulher zangada, um homem que ameaa me bater com um chicote.
    - Quando a luz fica acesa voc no v nada?
    - Bem menos. s vezes, mesmo com a luzinha eles aparecem. Ento acendo tudo. A eles somem. So eles que no me deixam dormir. - Voc no contou isso para a 
sua me?
    - Contei muitas vezes. Mas cada vez que eu contava ela me levava ao mdico e ele me receitava um monte de remdios. Eu tomava e me sentia muito mal. Ento achei 
melhor no contar mais. Eles no acreditam mesmo. No quero tomar aqueles remdios que me deixavam tonto, porque a as almas penadas me atormentam ainda mais.
    Impressionado, Nico balanou a cabea.
    - Essa histria  esquisita. Ser mesmo? Voc jura que viu?
    - Juro.
    - Sua me pode morrer seca se estiver mentindo?
    Eurico no titubeou:
    - Pode.
    Nico passou a mo pelos cabelos:
    - Ento  verdade mesmo! Eu acredito.
    - No vai contar para ningum?
    - No. S se voc deixar. Nunca perguntou o que eles queriam? . - Deus me livre! D para saber s vendo a cara deles!
    - Voc no reza? Pode esconjur-Ios com uma orao!
    - As que eu sei nunca deram certo. Depois, fico com tanto medo, suando, a cabea roda, d um enjo.  horrvel.
    - Pois eu no tenho medo. Agora estou aqui. Quando eles aparecerem, voc me chama. Eu vou conversar.
    
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    - Voc  forte. Por isso eu quis que ficasse comigo em meu quarto. - A Dona Eullia no quer. No vamos abusar. Eu fico at voc pegar no sono. Depois volto 
para o meu quarto. Se precisar, voc me chama. Est bem assim?
    - Est. Voc  meu amigo mesmo!
    Nico levantou-se e acompanhou Eurico at a cama com boa vontade. Depois deitou-se a seu lado, dizendo:
    - Vou ficar acordado. Pode dormir sossegado.
    Eurico sorriu contente. Depois de poucos instantes estava dormindo. Nico esperou-o ressonar um pouco. Depois, procurando no fazer rudo, foi para sua cama. 
Custou a dormir. A histria de Eurico no lhe saa da cabea. Comeava a achar que sua me tinha razo dizendo que ele no tinha nenhuma doena, que precisava ir 
ao curador. Mas Eullia no iria deixar, ela no acreditava em almas do outro mundo!
    
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    Captulo 6
    
    No dia seguinte pela manh, aps o caf, as crianas foram apresentadas ao professor. Combinaram que logo aps o almoo ele faria uma avaliao de seus conhecimentos. 
Pediu que cada um levasse os cadernos que possuam. Amelinha, at eles se mudarem para Sertozinho, estudara em um bom colgio. Eurico, entretanto, nunca tivera 
essa possibilidade. Aprendera a ler com ajuda da tia e de professores particulares, entre uma crise e outra, o que dificultava a aprendizagem. Ele era inteligente, 
aprendia com facilidade, entretanto no tinha entusiasmo, vivia indisposto e os mdicos aconselhavam a no o forar.
    Alberto reuniu-se com eles em pequena sala que Eullia preparara para esse fim, tendo colocado nela uma mesa, cadeiras, um quadro-negro e um armrio com material 
escolar.
    Depois de duas horas com eles, dispensou-os. Antes de sair, Nico quis saber se no corria o risco de perder o ano. Eullia havia procurado a escola e conversado 
com a diretora, que, percebendo o interesse de Eullia em ajudar Nico a fazer carreira, concordou que ele estudasse fora, havendo prometido ela mesma submeter os 
trs aos exames no fim do ano. Era um caso especial e ela queria ajudar tanto Nico quanto o menino doente.
    - Se levar a srio os estudos, voc vai passar. - Vou estudar muito, o senhor vai ver. Alberto sorriu.
    - Vamos ver isso.
    Quando as crianas saram, ele procurou Eullia.
    - J conversei com as crianas e anotei alguns dados para a primeira avaliao. Pretendo ir falar  diretora da escola para acertar o currculo. Como a senhora 
sabe, os trs esto em diferentes estgios. Nico est no terceiro ano, Amlia no segundo. Quanto a Eurico, penso que ele poder encaixar-se no segundo ano com Amlia. 
Vamos ver.
    - Acha que ele tem possibilidade de acompanhar um currculo escolar? So vrias matrias, e no sei se ele conseguir.
    -  um menino inteligente.
    - Muito. Mas doente. Meu marido j deve ter-lhe contado. Nasceu assim. At hoje no conseguimos saber por qu. Cansa-se  toa.
    
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    No se entusiasma com as coisas. No sente motivao. Era at pior: nem conversava, vivia calado, triste, no se alimentava direito. Quando percebemos que ele 
gostava da companhia de Nico, tratamos de aproxim-los para ver se assim ele se interessaria mais pela vida.
    - Nico pareceu-me um menino muito vivo, educado, inteligente e interessado em aprender.
    -  um menino bom e muito dedicado. Nem parece filho de pais to humildes.
    - H pais que, embora de origem humilde, sabem educar bem os filhos. No tm instruo, mas possuem sensibilidade, sabem conversar com eles e tm um bom senso 
prtico. Isso  o mais importante em se tratando de boa educao.
    -  verdade. A me dele  uma mulher admirvel. Tem um marido preguioso, que no trabalha. Ela sustenta a casa lavando roupas para fora. Nico ajuda-a prestando 
pequenos servios. Ele  muito trabalhador. Quando conversei com ela, fiquei impressionada. Ela sabe portar-se, e tem muito bom corao.
    - Sabe orientar o filho. Ele fala nela com muito carinho.
    - Eu notei isso. S aceitou mudar-se para c depois que ela garantiu que no ficaria triste sem ele e que ele poderia v-la quando quisesse. - Esse menino tem 
alguma coisa especial. Percebi logo no primeiro instante.
    - Especial? Como assim?
    Alberto no quis dizer o que estava pensando. Retrucou apenas: - Tem olhos expressivos, atitudes seguras.
    - De fato. Quando pensa comear as aulas?
    - O mais rpido possvel. Vou pegar o currculo, conhecer os livros.
    Ento montarei a disciplina das aulas. Vamos precisar de material especfico alm dos livros.
    - No se preocupe. Faa a lista, que Liana trar tudo de Ribeiro Preto.
    Quando ele saiu, Eullia ficou pensativa. Os mdicos haviam-lhe dito que ser:ia bom criar Eurico igual a qualquer outra criana, sem mimos ou concesses. Como 
fazer isso se no podiam for-lo? Suspirou triste.
    A atitude discreta e segura do professor granjeara-lhe a simpatia.
    Era educado e tranqilo.
    Nos dias que se seguiram, Eullia verificou com satisfao que no se enganara. Ele sabia lidar com as crianas, e era com prazer que elas se reuniam para estudar. 
Sua forma de lecionar era muito diferente dos professores que ela conhecera.
    
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    Contava-Ihes histrias engraadas, faziam pesquisas da natureza ao ar livre, cantavam canes conhecidas cujas letras haviam sido reescritas por ele de acordo 
com a matria que pretendia ensinar.
    A princpio Eullia temeu que ele estivesse sendo condescendente demais, uma vez que se misturava com as crianas, falando como elas, brincando e parecendo tambm 
um menino. Mas logo comeou a perceber que eles, alm de gostar das aulas, estavam aprendendo com facilidade. Eurico tornou-se mais comunicativo e nunca se queixou 
de mal-estar durante a aula.
    Uma noite conversara com Liana a respeito.
    - Ele parece um menino. No impe nada. Ser que est certo?
    Um professor deveria ser mais circunspecto. Voc quando d aulas no age assim.
    - No. Aprendi que  preciso impor respeito aos alunos, conservando a seriedade para que eles no tomem liberdade demais.
    - Ento! O professor Alberto no  assim. As crianas adoram, mas no ser uma maneira errada de ensinar?
    Liana balanou a cabea pensativa. Depois disse:
    - Para dizer a verdade, apesar de todo o respeito que tento impor  classe, eles sempre abusam de mim. Falo com seriedade, dou castigo, mas eles nem ligam. Continuam 
indisciplinados. s vezes tenho at de apelar para o diretor. Eles esto abusando muito dele? Amelinha  muito safada.
    - Por incrvel que possa parecer, eles esto muito comportados. Estou admirada. Adoram as aulas. At Eurico estava cantando a tabuada do sete de cor.
    - Cantando?
    - . Ele colocou a tabuada numa marchinha de carnaval, ficaram batucando em um pandeiro, cantando, e logo todos sabiam tudo muito bem. Liana sorriu alegre:
    - Que engenhoso! Vou pedir-lhe que me ensine a fazer isso. Por mais que eu tente que eles decorem as tabuadas, sempre engasgam. - Acha ento que ele est certo?
    - Ensinar  uma arte. Se as crianas esto aprendendo, est tudo bem. Naquela noite mesmo, aps o jantar, Liana procurou conversar com Alberto sobre seus mtodos 
de ensino:
    - Eullia contou-me que suas aulas so sempre muito movimentadas e que as crianas esto indo muito bem.
    
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    Gostaria que me falasse a respeito. Apesar de fazer tudo que aprendi, meus alunos no tm aproveitado como eu gostaria.
    Alberto sorriu, um pouco sem jeito:
    - No cursei o magistrio como voc. Sou autodidata. Tenho minhas prprias idias sobre o assunto.
    - Gostaria de ouvir.
    - Eu procuro ensinar da forma como eu gostaria de ter aprendido. - Como assim?
            - Quando eu era menino, a escola era para mim um lugar sem graa, que eu freqentava por imposio de minha me e por obrigao. Ela me dizia: "Se no 
estudar, voc no ser ningum na vida. Vai morrer de fome". Eu detestava aquelas horas que passava l. Fazia as lies como quem se desembaraa de algo ruim, contando 
os pontos para poder passar de ano. Meus pais haviam se conformado, dizendo que eu no era muito inteligente, mas que se conseguisse me formar estava bom.
    - Muitos de meus alunos so assim mesmo.
    - Sempre gostei de ler. Com o passar dos anos, acabei descobrindo que gostava de estudar, descobrir como as coisas so feitas ou acontecem. Percebi que tinha 
inteligncia para aprender qualquer coisa que me interessasse. Notei tambm que minha falta de interesse na escola era falta de motivao, pela forma impositiva 
dos professores, impingindo regras rgidas, tratando os assuntos de maneira fria e distante. Quando resolvi lecionar, repensei o assunto. As pessoas no so iguais. 
Para passar a elas o conhecimento e despertar-lhes o interesse pela matria a ser ensinada,  preciso usar a linguagem delas, aproximar-se o mais possvel de sua 
idade mental, e, o que  mais importante, transformar as matrias em vivncia.
    Liana estava admirada. Nunca ouvira semelhante teoria. Apesar de tudo, reconhecia que tinha uma certa lgica. Se isso funcionasse mesmo, revolucionaria toda 
a didtica e os mtodos de ensino.
    - As matrias so subjetivas. Como transform-las em vivncia?
            - Engana-se. Todas as coisas que existem, e ns estudamos o mundo que nos rodela, suas leis fsicas e at os valores morais, so matrias vivas que podem 
e devem ser experienciadas.
    -  preciso ser muito criativo. Eu no saberia fazer isso!
    -  fcil. Tenho certeza de que, se experimentar, ficar fascinada. - Em todo caso, a idia de musicar as tabuadas foi brilhante. Alberto sorriu e seus olhos 
brilharam alegres.
    - Eles aprenderam logo. Cantar  um enorme prazer.
    
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    Por que no aprender com prazer? A curiosidade, a ansiedade de saber vive dentro de cada um de ns. O que nos desagrada e dificulta a aprendizagem  a forma 
sem graa de fazer isso. Mudando esse conceito, a dificuldade desaparece. Liana admirou-se das idias do professor e mais tarde, ao recolher-se, comentou com Eullia, 
que ouvira toda a conversa com interesse:
    - Esse homem  um sbio. De onde ele veio? Como Norberto o descobriu?
    -  escritor. Tem livros publicados.
    - Gostaria de l-los. Escreve a respeito de qu?
    - No sei. Norberto no disse.
    Liana foi deitar-se pensativa. Decidiu que no dia seguinte iria conversar um pouco com as crianas e perceber como eles estavam nos estudos.
    Naquele fim de semana, quando Norberto chegou, encontrou a famlia muito bem. Eullia foi logo contando os progressos de Eurico, que assistia s aulas regularmente 
e estava aprendendo sem maiores dificuldades.
    - Ainda bem - considerou Norberto. - Passei a semana toda pensando se havia sido bom eu deixar um desconhecido aqui em casa enquanto eu estava ausente.
    - No precisava se preocupar. O professor  discreto e  um cavalheiro. Tem se portado educadamente. Depois, j encontrou casa. S ficar mais alguns dias, enquanto 
o proprietrio a est pintando.
    - timo. Ele me foi muito bem recomendado.  um homem respeitado e tem posio social definida.
    -  solteiro?
    - Acho que sim. Por que pergunta?
    - Curiosidade.
    - Se fosse casado, teria se mudado com a famlia, no lhe parece? - . Certamente.
    No jantar, a conversa fluiu animada com Norberto contando as notcias da capital, trocando idias com o professor. As crianas, como de hbito, comiam em silncio 
enquanto as duas mulheres ouviam com interesse.
    Aps a sobremesa, as crianas tiveram permisso para se recolher enquanto os demais sentaram-se na sala para o caf e mais um pouquinho de prosa antes de dormir. 
Passava das dez quando o professor se recolheu.
    Liana foi para o quarto e o casal tambm.
    Liana acordou no meio da noite com sede. Tentou ignorar e dormir novamente, porm a sensao de sede no a deixava dormir. Levantou-se e resolveu ir at a copa, 
onde havia um filtro. 
    
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    No acendeu a luz e procurou no fazer rudo para no incomodar. A noite era clara e ela podia enxergar muito bem o caminho.
    Na copa, apanhou um copo, levou-o ao filtro e abriu a torneira. Foi quando ouviu rudo de passos. Algum teria se levantado? Fechou a torneira, tomou a gua 
com prazer, deixou o copo em cima da pia. Como no visse ningum se aproximar, foi at a porta da copa, olhou e abriu os olhos assustada. Parado em frente  escada 
que ia ao pavimento superior estava um homem de idade, forte, cabelos brancos, botas e largo chapu na cabea.
    Seria um ladro? No parecia. Por onde teria entrado? Algum teria deixado alguma porta aberta? Ela precisava chamar algum, avisar Norberto, mas eles estavam 
todos no andar de cima e ela teria de passar por ele.
    Foi nessa hora que ele olhou para ela. Liana no se conteve:
    - O que est fazendo aqui? Como entrou?
    Como ele no respondesse, ela repetiu:
    - O que est fazendo aqui no meio da noite?
    Ele deu alguns passos em direo a ela, que recuou assustada. Havia algo nele que a intimidava. Quando ele estava bem perto, disse com voz rouca:
    - Estou em minha casa. Finalmente voc voltou! Tambm veio me cobrar? S que desta vez voc no vai mais me deixar!
    Aproximou o rosto do rosto de Liana, olhos brilhantes de rancor, e ela assustada comeou a gritar e gritou mais ainda depois que o viu desvanecer-se diante de 
seus olhos. Cobriu o rosto com as mos e continuou gritando, sem poder sair do lugar.
    Em poucos segundos todas as luzes da casa se acenderam e o professor, Eulha e Norberto estavam diante dela. Eullia abraou-a aflita:
    - Calma, Liana! Estamos aqui. Calma! O que foi?
    Liana abriu os olhos e, vendo-os, foi se acalmando. Seu corpo tremia, e ela mal conseguia suster o copo com gua que Eullia lhe colocou entre as mos.
    - Vamos, beba um pouco. Calma. Est tudo bem.
    Quando ela conseguiu falar, contou em poucas palavras o que havia acontecido.
    - Voc sonhou - disse Norberto. - Levantou-se ainda adormecida e sonhou.
    - Eu no estava dormindo! Estava at bem acordada. Senti sede e vim tomar um copo de gua. Ele estava bem ali, em frente  escada.
    
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    - Como era ele? - indagou o professor.
    - Um homem de idade, forte, cabelos brancos, usava botas de cano alto, como essas de montaria, e um chapu de obas largas na cabea. O pior foi que, quando lhe 
perguntei por que estava aqui, ele me disse que esta casa era dele.
    - Vamos perguntar aos criados se eles conheceram algum assim - sugeriu o professor.
    Norberto interveio:
    -  absurdo. Mesmo que houvessem conhecido, aqui no havia ningum quando chegamos. Depois, as portas estavam bem fechadas, eu mesmo verifiquei antes de dormir.
    - Quando eu gritei de medo, ele sumiu diante de meus olhos e desapareceu.
    - O que prova que, se voc no estava dormindo, teve uma alucinao - disse Norberto.
    - Eu. tenho certeza do que vi. Era uma pessoa. Ele estava aqui repetiu Liana.
    - Agora ele j se foi. No precisa ter medo - disse o professor. - E se ele voltar? - perguntou Liana.
    - As portas esto todas fechadas. No h ningum aqui. Pode ir dormir sossegada: ningum entrou nem vai entrar. As crianas podem assustar-se. Eurico j  medroso 
sem acontecer nada - tomou Norberto.
    - Mandei Hilda ficar com eles. Acho que nem ouviram. Esto dormindo.
    A custo Liana concordou em ir para o quarto e Eullia ficou com ela algum tempo at que estivesse melhor. Sentindo-se mais calma, ela disse:
    - V dormir, Eullia. Agora j estou bem. Deixarei a luz acesa. V descansar.
    - Se sentir alguma coisa, pode me chamar.
    - Est bem.
    Apesar de fazer-se de forte, Liana no conseguiu dormir direito.
    Sentia sono, mas, quando estava quase adormecida, estremecia de susto e acordava. O dia j estava amanhecendo quando ela finalmente conseguiu dormir.
    Na manh seguinte, o assunto j era do conhecimento dos criados, que comentavam abertamente. Entrando na cozinha, Eullia ouviu Maria dizer:
    - Foi a alma do coronel Firmino que voltou. Bem que tinham me avisado.
    
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    - O Maninho me contou que essa casa era assombrada. Eu no acreditei, mas agora... - respondeu Joana, a criada que viera de So Paulo com a famlia.
    Eullia no se conteve:
    - Vocs esto inventando histrias. Liana teve um pesadelo. Foi s isso. No quero que assustem as crianas com idias disparatadas.
    - Ela descreveu direitinho o coronel Firmino. Minha av conheceu ele e me contou como era - respondeu Maria. - Foi a alma dele que apareceu aqui, tenho certeza.
    - Quem morre no volta mais. Deixe de ser boba. Se continuar repetindo isso, serei forada a despedi-Ia. Eurico  medroso, e se ele se impressionar pode piorar. 
Liana teve um pesadelo e eu no quero ouvir mais ningum falando em alma do outro mundo.
    - Sim, senhora. No vou falar mais nada - garantiu Maria. Quando Eullia saiu da cozinha, ela disse baixinho para Joana: - Mas que era ele, isso era.
    - Melhor no comentar.
    - Ele pode aparecer de novo.
    - Cruz credo! Nem me fale!
    Calaram-se, porque Hilda acabara de entrar.
    Os meninos haviam tomado o caf e se reunido na sala de aula  espera do professor.
    - Vocs ouviram os gritos ontem  noite? - perguntou Eurico. - Eu ouvi - respondeu Nico. - Me levantei e ia ver o que era quando a Dona Hilda apareceu e disse 
que no era nada de mais. Me mandou dormir.
    - Foi tia Liana. Acho que ela estava com medo - tornou Eurico. - Ela viu alma do outro mundo - contou Amelinha.
    Os dois se interessaram:
    - Viu?
    - Onde?
    Amelinha, observando o interesse deles, fez uma pausa para valorizar mais o que ia dizer, depois considerou:
    - A alma do coronel. Eu ouvi Maria contando para Joana que ela gritou porque viu a alma dele.
    - Como  que ela sabe? J o viu? - indagou Nico.
    - A av dela, que o conheceu, contou como ele era - respondeu Amelinha, satisfeita por dar a novidade.
    - Ento foi por isso. A Liana se assustou.
    
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    - Eu ia descer, mas Hilda entrou logo e no deixou. Ela nunca me permite fazer o que quero - tornou Eurico.
    - Ela quis proteger a gente. E se a alma penada ainda estivesse l!
    Voc ia ficar com medo - respondeu Nico.
    - Ia. Mas agora ela tambm viu e eles iam acreditar em mim.
            O professor, que entrara na sala e ouvira parte da conversa deles, aproximou-se dizendo:
    - Esto comentando sobre o que aconteceu esta noite?
    - Sim - respondeu Nico.
    - Ouvi Maria dizer que tia Liana viu alma do outro mundo - explicou Amelinha.
            - E por isso ela ia acreditar em Eurico. Voc tambm tem tido esses pesadelos? - indagou o professor dirigindo-se ao menino.
            - Melhor no falar nisso. Sempre que eu falo, eles me levam ao mdico e tenho de tomar remdios que me deixam tonto.
            - Ele  medroso - interveio Amelinha. - Dorme de luz acesa, chora de medo.
    Alberto aproximou-se de Eurico e sentou-se a seu lado, dizendo:
            - No precisa ter medo de mim. No vou mand-lo ao mdico. O que Amelinha est dizendo  verdade? Voc sente medo do qu?
            - Essa linguaruda no sabe guardar segredo. No vou contar nada perto dela.
    - Se voc pedir para ela no contar, tenho certeza de que ela vai atender. Amelinha  uma menina muito inteligente, vai respeitar sua vontade. Afinal o segredo 
 seu. Se dividir com ela,  porque confia. Voltando-se para a menina, perguntou: - Ele pode confiar em voc! Sabe guardar um segredo?
    - Sei.
            - Foi o que pensei. Dividir um segredo  uma grande prova de amizade e de confiana. Ele pode no ser muito importante para quem escuta, mas sempre  
muito importante para quem conta. Por causa disso, sempre que algum confia em ns um segredo, devemos guard-lo e nunca falar dele a ningum - explicou Alberto.
            - Eu entendi. Se algum me contar alguma coisa e pedir segredo, no vou contar a ningum - respondeu Amelinha.
            - Nesse caso, Eurico, voc pode contar do que  que tem medo disse o professor.
            - Nico sabe guardar segredo. Ele j sabe de tudo. Mas vocs tm de jurar que no vo contar para Hilda, para mame ou papai.
    
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    Depois que os dois juraram, ele continuou:
    - Tenho medo de algumas pessoas que aparecem em meu quarto durante a noite.
    - Aparecem como? - perguntou Alberto.
    - Aparecem. Um homem velho, de botas e chapu, uma mulher com um chicote. Eles brigam. s vezes querem que eu v embora. Dizem que a casa  deles. A eu acendo 
a luz e eles desaparecem.
    Alberto estava srio. Eurico descrevera o mesmo homem que Liana vira. Seria mesmo o esprito do coronel Firmino, como ouvira os criados comentar? Em todo caso, 
tudo levava a crer que o esprito dele estava mesmo andando por ali.
    Ele acreditava na sobrevivncia da alma aps a morte. Estudara o assunto e sabia que os espritos em determinadas circunstncias podiam voltar e ser vistos por 
pessoas que possuam essa sensibilidade. Eurico seria mdium?
    - Isso vem acontecendo desde que mudaram para esta casa? - indagou Alberto.
    - Eles me perseguem h muito tempo. Mesmo na outra casa. Eu sentia muito medo.
    - Voc sabe rezar?
    - Hilda ensinou o pai-nosso para fazer antes de dormir.
    - Voc faz?
    - No adiantava. Por isso eu parei.
    - Repetir as palavras sem f no vai mesmo adiantar. Precisa pensar em Deus e deixar seu corao falar. Uma orao sincera sempre d resultado.
    - Minha me fala isso - comentou Nico. - Eu sempre converso com Deus antes de dormir, pedindo proteo para as pessoas que eu gosto e para mim. Quando acordo, 
peo para ele abenoar e proteger o meu dia. Foi ela quem me ensinou.
    - Isso mesmo, Nico. Sua me sabe das coisas.
    - Eu no sei conversar com Deus. Gostaria de aprender - disse
    Amelinha.
    - Podemos treinar - concordou Alberto. - Hoje vamos fazer um exerccio para pedir a proteo divina.
    Alberto pediu que todos dessem as mos, depois fez uma prece pedindo proteo e ajuda. Quando acabou, perguntou:
    - Ento? Aprenderam? Cada um deve fazer do seu jeito, com suas prprias palavras.
    
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    - Acha que Deus vai me ouvir? - perguntou Eurico. - Talvez ele esteja to longe que nem escute.
    - Ele est em toda parte. Mas est dentro de sua alma. Por isso ouve com facilidade tudo quanto seu corao fala. A alma sempre fala atravs do corao.
    - Meu corao no fala - disse Amelinha colocando a mo no peito.
    - Fala, sim. Mas no com palavras, e sim com sentimentos. Sempre que voc sente alegria ou tristeza,  o corao que est falando.
    - E quando a gente tem raiva? Tambm  o corao? - indagou a menina.
    - , sim. S que ele est dizendo para voc olhar melhor as coisas e perceber que no est olhando do jeito certo.
    - Hilda diz que  errado ter raiva - considerou Amelinha.
    - Voc no  errada porque sente raiva. Ela s indica que est na hora de compreender que as coisas so do jeito que so e no adianta querer que sejam diferentes. 
Que voc precisa aceitar os prprios limites, ser paciente consigo e dar-se tempo para aprender como chegar aonde voc quer.
    - Eu fico com raiva de Hilda porque tudo que eu quero fazer ela diz que eu no posso. Fica o tempo todo me vigiando - disse Eurico. Essa raiva tambm  do corao?
    - Claro. O que sua alma quer que voc perceba quando mostra sua raiva e voc sente? Voc quer ser livre para fazer o que quiser sem ningum que lhe diga o que 
e como fazer. Mas, como ainda  criana, precisa ser paciente e esperar crescer. No adianta querer isso j. S vai sentir-se impotente, incapaz.
    - A Dona Hilda s quer o seu bem - tornou Nico. - Ela cuida da sua sade.  muito dedicada.
    - Ela exagera. Bem podia me deixar em paz - respondeu Eurico.
    - Sua alma quer que voc entenda tambm que, quando exagera os sintomas de sua doena para que todos faam o que voc quer, est provocando mais a preocupao 
com sua sade, aumentando a vigilncia. Se mudar de atitude e no fizer mais desse jeito, Dona Hilda no vai mais vigiar e se preocupar com voc e sua alma no vai 
mais criar o sentimento de raiva para que entenda isso.
    - Eu fao isso para que eles me deixem em paz.
    - No  bem assim. Voc exagera seus sintomas de doena para conseguir dominar, conseguir que todos faam como voc quer.
    
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    Seus pais ficam preocupados com sua sade e Hilda aumenta a vigilncia. Mas  voc, com essa sua atitude, quem est provocando isso. Sua alma deixa que sinta 
raiva, perceba que  ruim, para que descubra e encontre um jeito melhor de obter o que deseja, sem tentar dominar os outros. A energia da raiva  a mesma fora da 
coragem, da ousadia. Essa fora, usada de forma inteligente, vai tornar voc corajoso, forte, ousado. E esse sentimento  muito prazeroso.
    - Todo mundo diz que ele  fraco! - disse Amelinha.
    - Ele no  fraco, ele no encontrou ainda o jeito melhor de usar toda a sua fora. Eurico  muito forte. Todos nesta casa s fazem o que ele quer. Mudaram-se 
para c por causa dele. S que ele no est usando sua fora do jeito mais inteligente.
    - Por qu? Voc no disse que eu sou forte? - indagou Eurico assumindo uma postura mais firme.
    - Voc  forte, mas, se estivesse usando sua fora do jeito mais inteligente, estaria mais sadio e feliz. Voc colocou sua fora na fraqueza, mas sua alma quer 
que descubra que pode ser forte e viver melhor.  isso que ela est tentando dizer a voc quando se sente incomodado e com raiva dos excessos de Hilda.
    - Nunca pensei que a alma falasse com a gente! - tornou Nico. - Fala. Mas  preciso saber ouvir o que ela deseja dizer.
    - Como aprender isso?
    -  fcil. A alma sempre olha o lado bom. S v o bem.
    - Mesmo quando faz sentir raiva? - indagou Amelinha.
    - Sim. O bem  a linguagem da alma.  a linguagem de Deus. Qualquer sentimento que ela expresse e voc sinta tem um recado para ensinar voc a agir melhor e 
ser mais feliz.
    - Mesmo quando voc acha que  um sentimento ruim?
    - Mesmo. At o dio quer que voc perceba a grandeza do bem.
    - Puxa! Eu no sabia disso - ajuntou Nico. - No  errado odiar?
    - No. No  errado, mas no  bom. Faz mal. Deixa a pessoa infeliz. J o amor  uma coisa boa. D alegria, bem-estar. Quando voc sente dio, a alma quer que 
perceba o quanto est longe da felicidade. Por isso, sempre que sentir dio  bom se perguntar: o que eu quero agora, sentir-me mal ou ser feliz?
    - Claro que ser feliz - tornou Amelinha. - Eu no quero me sentir mal. Quero ser sempre feliz.
    - Sua alma est ensinando que para isso precisa escolher a felicidade e jogar fora tudo que  ruim. Ficar com o bem.
    
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    - Eu no gosto de sentir dio - disse Nico, pensativo. - Voc tambm sente dio? - indagou Eurico.
    - Fao fora para no sentir, porque no gosto. Mas s vezes, quando percebo, j estou com tanta raiva... A, acho que estou errado, que sou um mau menino e 
que Deus vai me castigar por isso. Fico triste. Por isso, procuro esquecer, pensar em uma coisa boa.
    - O dio  um sentimento muito desagradvel. Quem o sente perde a paz, e isso acaba deixando o corpo doente. Mas voc no  errado s porque sente dio de vez 
em quando - esclareceu o professor.
    - No? Hilda diz que ter dio  maldade e que Deus castiga - interveio Amelinha com convico. - Eu tenho medo de ser castigada!
    - Mas apesar disso voc fica com dio! Eu j vi! - disse Eurico.
    - Vamos conversar sobre nossos sentimentos. Quando as coisas ou as pessoas no fazem o que ns queremos, do jeito que ns pensamos que deveria ser, muitas vezes 
sentimos raiva. Isso nos faz mal, nos deixa tristes, contrariados, angustiados. Mas ficar com raiva s vai tirar nossa paz e no vai mudar nada. Apesar de nossa 
raiva, as pessoas e as coisas continuam do mesmo jeito.
    - Isso  verdade - concordou Eurico. - Fico com raiva de Hilda, mas ela continua igual, e eu  que me sinto nervoso.
    - Percebeu? - disse Alberto. - Voc se maltrata, acaba com sua paz, fica indisposto, cria problemas com as pessoas, e os outros continuam do mesmo jeito. Quem 
 o maior prejudicado?
    - Ele! - disseram os outros dois.
    - No s eu, vocs tambm - revidou Eurico.
    - Todos ns fazemos isso quando no usamos bem a inteligncia. - Eu quero ser inteligente! - disse Amelinha. - Mame diz que aprendo tudo com facilidade.
    - Todos aprendemos com facilidade. A inteligncia  um dom que todas as pessoas tm - explicou Alberto.
    - Minha me diz que se eu no estudar vou ficar burra e que vai nascer rabo e orelhas de burro igual ao Pinquio.
    - Voc no vai ficar igual a um burro. Voc  mulher, vai ficar igual a uma gua - interveio Eurico.
    - Ningum vai ficar burro. Todas as pessoas tm inteligncia. Mas precisam aprender como a usar. Alguns j aprenderam e so mais felizes que os outros que ainda 
no sabem.
    - A gente pode aprender a ser inteligente? - indagou Nico interessado. - Eu quero ser inteligente, fazer muitas coisas boas e ajudar a minha famlia.
    
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     por isso que s vezes sinto raiva de ser criana e de no saber fazer as coisas direito.
    -  por isso que sente raiva? - indagou o professor.
    - ... mas s vezes fico com raiva do meu pai... - parou, envergonhado.
    - Pode falar - disse o professor. - Essa nossa conversa vai ser nosso segredo. Todos juramos e no vamos falar dela com ningum.
    - ... bem... ele bem que podia trabalhar, pelo menos um pouco!
    - Ficar com raiva dele por causa disso no vai fazer com que ele mude e resolva trabalhar. Sabe, Nico, a vida  como um jogo. Seu pai escolheu viver assim e 
pensa que est sendo inteligente vivendo sem trabalhar. Acredita que o trabalho  ruim e cansativo. Ainda no percebeu o quanto est perdendo nesse jogo.
    - Mas eu penso diferente - considerou Nico. - Acho que trabalhar  gostoso e gosto de ser independente, ter o meu prprio dinheiro, no ser pesado para minha 
famlia. Por que meu pai no pensa como eu? - Porque as pessoas no so iguais. Cada um  diferente do outro.
    Seu pai  outra pessoa e v a vida de outra forma.
    - Por causa dele toda a nossa famlia sofre. s vezes penso que ele no gosta de ns.
    - No deve pensar assim. Ele gosta da famlia, do seu jeito.  o melhor que ele sabe fazer por agora. No adianta voc esperar que ele faa o que voc acha que 
 certo porque ele no v assim. Est acomodado, no percebe ainda as vantagens do trabalho.
    - Gostaria que ele mudasse...
    - Um dia ele vai aprender. Todos ns aprendemos. A vida ensina. Voc precisa ter pacincia, compreender seu jeito de ser, no ficar esperando o que ele ainda 
no sabe fazer. Se no esperar que ele mude, no sentir mais raiva por ele ser do jeito que . Se voc pegasse um livro e desse para algum que nunca aprendeu a 
ler, ficaria com raiva se ele no conseguisse l-lo?
    - Claro que no - respondeu Nico.
    - Pois  a mesma coisa. Seu pai ainda no sabe como  bom ganhar dinheiro, trabalhar, ser independente. No adianta ficar com raiva dele s porque ainda no 
sabe disso.
    -  verdade, professor. Como no pensei nisso antes?
    - Por outro lado, ser criana, no poder ainda fazer as coisas do jeito que voc gostaria  s uma questo de tempo e de pacincia. Voc est crescendo e um 
dia estar adulto, livre para fazer tudo que quiser.
    
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    Ao invs de ficar com raiva,  melhor aproveitar o tempo para aprender o mais que puder, preparando-se para quando for usar. Isso  ser inteligente!
    - Eu tambm quero ser inteligente! - tornou Eurico. - Mas no sei para que devo estudar se meu pai tem dinheiro, se sou doente e nunca vou precisar trabalhar.
    - De onde tirou essas idias? Os mdicos no encontram doena em voc!
    - Sei que quer me animar, mas eu no tenho jeito mesmo. Nunca serei como os outros meninos. Todos em casa dizem que sou muito fraco, que no agento nada.
    - Pois eu no acredito nisso. Voc  um menino forte, inteligente.
            Se quiser, vai poder fazer tudo que os outros fazem - afirmou o professor.
    Eurico abanou a cabea negativamente:
    - No precisa tentar me encorajar. J me conformei.
    - No quero que se conforme. O mundo tem muitas coisas boas a oferecer para quem tem a ousadia de buscar. Tenho certeza de que voc vai reagir, sair dessa situao 
em que se colocou e querer tudo a que tem direito. Seu pai  rico, e, mesmo no precisando ganhar dinheiro para se sustentar, voc no vai agentar viver toda a 
vida sem fazer nada.  horrvel. Interessar-se pelas coisas, criar, aprender, tudo isso faz parte de nossa natureza.  um prazer do qual voc no vai querer se privar. 
Tenho notado que voc gosta de aprender.
    - Ele ouve as minhas histrias com muito interesse! - disse Nico. - Suas histrias so diferentes! Voc fala dos passarinhos, das plantas, conta do jeito que 
eles so. A, eu olho e vejo que  tudo verdade respondeu Eurico.
    - Voc aprecia a natureza! - disse Alberto, interessado. - Pode tornar-se um fazendeiro, criar gado ou ser um agricultor, plantar e colher.
    - Ele pode ser fazendeiro, igual ao coronel Firmino, que construiu esta casa! - tornou Nico.
    - No quero ser igual a ele. Era um homem mau - respondeu Eurico.
    - Como sabe? Voc no o conheceu! - retrucou Amelinha.
    - Sei porque ele est sempre zangado. No gosto da cara dele.
    - Voc pode ser fazendeiro como ele foi, sem ser igual a ele. Fazer do seu jeito - interveio Alberto.
    - Ser fazendeiro  viver sempre com os passarinhos, as plantas, os animais. Voc ia gostar, tenho certeza - garantiu Nico. - Seu pai  rico mesmo, pode comprar 
uma fazenda e pronto.
    
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    - Mas para cuidar dos animais, da plantao, precisa estudar bastante - esclareceu o professor.
    - Vou ter empregados para fazer tudo - resolveu Eurico.
    - Os outros vo fazer do jeito deles. Voc vai querer tudo do seu jeito. Por isso tem de aprender o modo de fazer as coisas para que fiquem como voc quer.
    Hilda apareceu na porta avisando que era hora do almoo. O professor levantou-se, dizendo:
    - Eu ia recapitular as aulas da semana, mas fica para segunda-feira. Vamos parar agora.
    Amelinha ps o dedo nos lbios dizendo baixinho:
    - Temos nosso segredo agora. Quem falar vai morrer seco.
    - Eu no falo - disse Eurico.
    - Nem eu - disse Nico.
    O professor aprovou com a cabea e foram se preparar para almoar.
    
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    Captulo 7
    
    Nico acordou sobressaltado. Eurico estava na frente dele, tremendo. - O que foi, Eurico? Est passando mal?
    -  ele! Ele voltou e est querendo me pegar!
    Nico sentou-se na cama de um salto.
    - Alma do outro mundo no pega ningum. No pode!
    Eurico agarrou-se a ele:
    - Eu estava dormindo e ele puxou minhas cobertas. Ento eu acordei e vi. Ele estava na minha frente. Estou com medo!
    Nico abraou o amigo, dizendo:
    - Voc estava sonhando! No tem nada aqui.
    - No estava. Eu o vi. Voc tambm no acredita?  verdade. - Eu acredito. Mas no precisa tremer desse jeito. Pode se sentir mal..Acho melhor tomar um copo 
de gua e se acalmar.
    - Na cozinha eu no vou de jeito nenhum. Foi l que tia Liana o viu naquele dia.
    - Pois eu no tenho medo. Eu vou buscar a gua.
    - No quero ficar sozinho aqui. Voc no vai.
    - No precisa me segurar. Eu no vou. Mas voc est muito nervoso. Um copo de gua com acar ia fazer bem. Quando a Nilce tem pesadelo, a minha me sempre d 
gua com acar e ela se acalma.
    - No quero ficar sozinho.
    - Vamos juntos.
    - Isso  que no. Ele pode estar l.
    - Se ele aparecer, eu falo com ele. No tenho medo.
    - Deus nos livre! Voc no vai fazer isso!
    - Fao. Ele que me aparea! Onde j se viu ficar assustando todo mundo? Minha me diz que as almas do outro mundo s aparecem quando querem alguma coisa.
    - Que coisa?
    - No sei. Alguma coisa que elas no fizeram quando estavam no mundo e querem que a gente faa para elas.
    - Por que elas no fazem de uma vez?
    - Porque no podem. Elas no tm mais corpo. Como  que iam fazer as coisas?
    
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    - Isso  mentira. Eu as vejo com corpo.
    - Bom, isso eu no sei. O corpo de quem morre apodrece debaixo da terra.
    - Eu tenho medo! - lamentou-se Eurico.
    - Puxa, voc est gelado! Vamos para o seu quarto, quero ver se ele ainda est l.
    Os dois foram ao quarto de Eurico, Nico na frente e o outro agarrado a ele.
    - Veja: no tem nada aqui. Ele j foi embora. Pode deitar e ficar sossegado.
    - Voc vai ficar aqui comigo.
    - Eu fico.
    Eurico acomodou-se e Nico sentou-se na cama.
    - Voc vai embora quando eu pegar no sono! A ele vai voltar. - Vamos deixar a luzinha do abajur acesa. Qualquer coisa, voc me chama.
    - No quero. Voc vai dormir aqui, comigo.
    - Sua me no vai gostar.
    - Que me importa? Voc  ou no  meu amigo?
    - Est bem, mas vou para minha cama assim que amanhecer. - Est certo. De dia eles nunca aparecem.
    Nico acomodou-se ao lado de Eurico.
    - No v dormir antes de mim.
    - Fique tranqilo. Estou acordado.
    Eurico suspirou aliviado. Sentia-se seguro com Nico a seu lado. Aos poucos foi se acalmando e adormeceu. Nico por sua vez fechou os olhos e logo pegou no sono.
    Sonhou que estava andando pelo quarto quando entrou um homem de idade, calando botas de montaria e chapu.
    -  o coronel Firmino - pensou ele admirado.
    Ele parou diante de Nico, dizendo irritado:
    - Por que se mete em meu caminho? Quer que eu acabe com voc de novo?
    Nico olhou-o como se j o conhecesse h muito tempo:
    - Voc no pode. Aquele tempo passou. No tenho medo de voc. O coronel fulminou-o com o olhar:
    - Est me desafiando? No aprendeu ainda que tenho poder e todos devem me obedecer?
    Nico olhou-o nos olhos, dizendo com voz firme:
    
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    - Voc j morreu. Tudo acabou. Agora voc no pode mais nada.
    - Continua me desafiando?
    - No. Mas voc est assustando um menino doente, e isso  covardia.
    - Ele agora  um menino, assim como voc. Mas no conseguem enganar-me com esse corpo diferente. Eu no esqueci. Vocs desgraaram minha vida e ainda voltam 
para rir de meus sofrimentos. No posso permitir isso!
    - No estamos rindo de nada. S queremos ficar em paz. Voc j morreu. Por que no vai viver no seu mundo?
    - Eu estou vivo! No est vendo?
    Nesse instante chegou uma mulher de rosto calmo e belo que se aproximou dele, dizendo com voz firme:
    - Deixe-os em paz, Firmino. V embora.
    Ele olhou para ela e estremeceu. Depois saiu e ela o acompanhou.
    Nico acordou, sentando-se na cama admirado. Fora um sonho! Mas ele ainda sentia a presena deles e recordava-se de todas as palavras.
    Estaria to impressionado com o que Eurico dissera que sonhara?
    Parecia-lhe que tudo acontecera mesmo, que ele havia conversado com a alma do coronel Firmino. No compreendia por que ele lhe dissera aquelas palavras. No 
sentira medo. Por que ele lhe parecera conhecido?
    Talvez por ouvir falar muito dele.
            O dia j estava amanhecendo e Nico continuava pensando no sonho, e quanto mais pensava mais lhe parecia que tudo acontecera mesmo.
            Foi para seu quarto e continuou pensando no assunto, sem poder conciliar o sono.
    Na tarde do dia seguinte, Liana procurou o professor Alberto para conversar. Queria algumas informaes sobre um tema que estava estudando. Admirava seu modo 
claro e direto de olhar as situaes e a maneira simples e prtica que ele usava para ministrar suas aulas.
    - Quero aproveitar esses dias de folga para estudar um pouco mais.
    - At quando estar de licena?
    - Tenho um ms para me recuperar.
    Ele olhou para ela com curiosidade.
    - No est doente.
    - No. O mdico no encontrou nenhuma doena. Entretanto, ando nervosa, no consigo dormir. Acordo sobressaltada, com medo. Perdi o apetite, o prazer de trabalhar. 
No sei o que est havendo comigo.
    - Desde que voc levou aquele susto na cozinha?
    
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    - Foi. s vezes penso que aquela apario horrvel est atrs de mim, ou que ele vai aparecer na frente da escada de uma hora para outra, como naquela noite.
    Alberto ficou calado por alguns segundos, depois disse:
    - Voc est muito impressionada com o que aconteceu.
    - Estou. Com o passar dos dias, ao invs de esquecer eu fico mais nervosa.
    - Ele no lhe pode fazer nenhum mal.
    - Como sabe? Voc no o viu! Ele estava ameaador.
    - No passa de um pobre infeliz, sofrido e amargurado.
    - Como assim?
    - Dizem que era o esprito do coronel Firmino. Ele morreu e continua preso aos problemas que tinha quando vivia no mundo.  um esprito sofredor, no tem poder 
de fazer mal.
    - Como pode dizer isso com essa calma? Voc est falando da alma de quem j morreu!
    - E o que  que tem de mais? Todos ns vamos morrer um dia, e isso no nos far melhores nem piores do que somos agora. Crela, Liana, o fato de ele estar morto 
no significa que tenha poderes especiais.
    - Queria s ver se ele aparecesse para voc!
    - No nego que deve ser assustador, principalmente pelo inesperado. Mas eu tentaria conversar com ele, rezar, no teria medo.
    - Voc parece entender do assunto!
    - Tenho estudado certos fenmenos de mediunidade. Tenho certeza de que a vida continua aps a morte do corpo de carne e que somos todos espritos eternos.
    - Eu tambm acredito que, de certa forma, a algum lugar devem ir as almas dos que morreram neste mundo. Mas o que apavora  v-las aqui,  nossa volta.
    - Isso ocorre porque voc faz da morte uma idia muito dramtica. Pelo que tenho aprendido, a passagem desta para a outra dimenso da vida no  dolorosa.
    - Como pode saber?
    - H pessoas que tm sensibilidade e podem se comunicar com os espritos desencarnados.
    - Ouvi falar, mas no acredito. Tudo no passa de alucinao. - Assim como voc?
    - Eu vi aquele homem. Quem era, por que desapareceu, eu no sei. Mas eu vi e tenho certeza disso.
    
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    - Pois . Voc viu. S que por sua descrio as pessoas o reconheceram como sendo o coronel Firmino. Voc viu o esprito de um morto!
            - No fale assim, que fico arrepiada.
            - Deve aceitar essa realidade. Voc o viu e esse fato pode se repetir. No s com ele, mas tambm com outros espritos.
            - No quero ver nada. No gosto dessas coisas.
            - A sensibilidade  um atributo natural do ser humano. Quando ela se abre,  intil querer evitar. Por isso a aconselho a estudar melhor esses assuntos 
para saber lidar com a situao quando voltar a acontecer.
            - Tenho vinte e dois anos e nunca tinha visto nada assim. No quero e no vou ver mais nenhuma alma do outro mundo.
    - H pessoas que gostariam muito de ter essa possibilidade. - Por qu?
    - Obter provas de que a vida continua depois da morte modifica toda a nossa maneira de compreender o mundo. A certeza de que as pessoas que ns amamos e que 
j morreram continuam vivas em algum lugar e que um dia tomaremos a ver alivia nosso sofrimento, conforta, mostra que a vida  muito mais do que podemos supor.
    - Pode ser. Mas esses assuntos me fazem mal. Fico inquieta, arrepiada, sinto frio. Agora quero esquecer o que aconteceu naquela noite. Infelizmente est sendo 
difcil.
    - Voc est com medo, Liana. E o medo s desaparece quando  confrontado.
    - Como assim?
    - Fazendo exatamente aquilo de que tem medo.
    - Isso  loucura! No quero nunca mais encontrar aquele homem! - Pois eu, se estivesse em seu lugar, se estivesse com medo dele, tentaria evoc-lo, falar com 
ele frente a frente, e descobrir o que ele deseja e por que est ainda circulando nesta casa tantos anos depois de sua morte.
            - Voc fala como se ele fosse uma pessoa como ns e pudesse compreender.
            - Ele  uma pessoa e pode compreender. Mas  preciso conversar com ele, tentar saber.
            - Ele estava reclamando de nossa presena. Disse que a casa  dele.
            -  o que ele pensa, uma vez que continua aqui. A casa foi dele.
     preciso que ele saiba que agora tudo  diferente. As coisas mudaram. 
    - Eu no tenho coragem. No quero v-lo nunca mais.
            - Vamos esperar que seja assim.
    
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    No dia seguinte, durante a aula, de repente Nico perguntou:
    - Professor, o senhor acha que a alma de gente morta pode aparecer dentro do sonho e conversar com a gente?
    - Depende, Nico. Por que pergunta?
    Ele olhou indeciso para Eurico, que lhe acenou para que se calasse. - No  nada, no. S curiosidade.
    Alberto no se deu por achado:
    - O que  que Eurico no quer que voc fale?
    Nico olhou para o amigo e no respondeu.
    - Olhem aqui, vocs dois. Ns fizemos um trato, temos nossos segredos, somos amigos. Se vocs no confiam em mim, como  que posso me sentir? Eu nunca tra nenhum 
de nossos segredos.
    -  que o Eurico no gosta de falar desse assunto. Ele fica nervoso - esclareceu Nico.
    - Ele fica nervoso, e nesse estado fica difcil encontrar soluo para o que o est incomodando. Se ns conversarmos sobre isso, juntos poderemos encontrar uma 
idia boa que o ajude a ficar melhor.
    - O que est acontecendo que eu no sei? - fez Amelinha. - Eu tambm tenho guardado os segredos. No falei nada a ningum.
    - Est bem, Nico, pode contar - autorizou Eurico.
    -  que anteontem ele me acordou nervoso, tremendo. Disse que a alma do coronel Firmino puxou as suas cobertas e apareceu do lado da sua cama.
    - Voc tambm o viu? - perguntou Amelinha.
    - Veja se no fala disso a ningum. Seno voc vai morrer seca ameaou Eurico.
    - Ela no vai dizer nada - interveio Alberto. - Continue, Nico.
    - Pois . O Eurico estava com muito medo e eu fui deitar na cama dele e prometi no dormir antes dele. Ele dormiu e depois eu peguei no sono e ento eu sonhei 
que o coronel estava ali falando comigo.
    - O que foi que ele disse? - indagou Alberto com interesse.
    Nico contou o que conversara com o coronel Firmino. E finalizou: - O engraado  que eu tinha certeza de que o conhecia h muito tempo. Ser que foi porque tenho 
pensado nele por causa do que tem acontecido? Minha me sempre falava nele e, agora, aqui tambm se fala. Ser que fiquei impressionado?
    - Pode ser, Nico. Mas eu gostaria que voc prestasse ateno. Se sonhar de novo com ele, quando acordar, escreva em um papel tudo quanto conversaram.
    
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    - Para qu? - perguntou Eurico.
    - Para ns estudarmos e descobrirmos a verdade, por que o esprito do coronel tem aparecido por aqui.
    - O senhor acredita em mim? - tornou Eurico.
    - Claro que acredito. Voc  um menino inteligente e saudvel.
    No iria inventar essa histria.
    - Ele  doente - disse Amelinha.
    - Ele foi doente - corrigiu o professor. - Ele agora no tem doena nenhuma. Quando ele acreditar nisso, vai ficar forte e muito bem. - O senhor acha que vou 
poder ser igual a Nico?
    - Voc no vai ser igual a Nico porque cada pessoa  diferente. Mas voc  to saudvel quanto ele.
    - Vou poder subir em rvore como ele, correr e pular?
    - Se acreditar que pode, vai acontecer.
    - Puxa! Vou fazer tudo para acreditar.
    - Agora vamos  nossa aula de hoje. Vocs trouxeram as sementes, os galhos e as folhas que eu pedi?
    Eles concordaram com prazer e se interessaram pela aula.
    Antes que o professor se despedisse, Eullia procurou-o, convidando-o para jantar naquela noite.
    - Norberto chega hoje  tarde com o Dr. Mrio e ns teramos muito prazer em que o senhor comparecesse.
    - Virei, Dona Eullia. Obrigado pelo convite.
    Ele havia se mudado para uma casa que decorara de maneira simples mas com bom gosto. No quarto mais espaoso fizera seu dormitrio; no outro, um pouco menor, 
o quarto de vestir; no terceiro, o escritrio com seus livros e a inseparvel mquina de escrever. Na sala, alguns objetos de arte, poltronas confortveis e um sof. 
Quando se mudou de So Paulo ele guardou seus mveis em um depsito. Tendo encontrado a casa para alugar, mandou busc-los. Gostava de conforto e ordem. No deixava 
faltar flores nos vasos e no pequeno jardim em frente  varanda.
    Alberto era caseiro. Quando no estava na manso, permanecia largo tempo escrevendo no escritrio, lendo, estudando. s vezes,  noite, sentava-se na varanda 
ouvindo msica, ora lendo, ora deixando-se ficar pensativo, olhos perdidos em um ponto distante.
    A princpio, despertara curiosidade nos habitantes da pequena cidade, mas depois, como ele era naturalmente reservado, acabaram acostumando-se com sua maneira 
de ser.
    Apesar de ser discreto, Alberto estranhou que Norberto chegasse naquela tarde.
    
    100
    
     que ele costumava voltar s nos fins de semana. Por que teria vindo em plena quarta-feira? O engenheiro viria com ele, o que o fez pensar que o assunto se 
relacionasse com a manuteno da casa.
    Apresentou-se pontualmente s sete, conforme Eullia pedira, e j os encontrou reunidos conversando na sala. As crianas estavam no quarto e s apareceriam na 
hora do jantar. Logo na chegada Alberto sentiu que havia alguma coisa diferente no ar. Norberto estava com certo ar solene, Eullia um tanto inquieta e Mrio muito 
introspectivo. Liana, mais falante que seu natural.
    Depois do jantar as crianas se recolheram, e, uma vez sentados na sala enquanto Norberto conversava com o professor, muito interessado no progresso das crianas, 
Eullia chamou Liana e Mrio para ver uma escultura de bronze que ela ganhara de uma amiga e que mandara instalar no jardim.
    Somente quando Eullia voltou sozinha alguns minutos depois foi que Alberto comeou a desconfiar do que estava acontecendo. Quando Norberto saiu para apanhar 
um livro, Eullia aproveitou o momento e confidenciou:
    - Estou to nervosa! Mrio pediu a Norberto a mo de Liana em casamento. Como nossa me morreu e nosso pai est fora do Brasil, ele achou por bem falar com Norberto.
    - E ela, aceitou?
    - No sei. Norberto disse sim, no que se refere a ns dois, mas  ela quem vai dizer se quer ou no. Por isso eu os levei para o jardim para que pudessem conversar. 
Tomara que d certo. Mrio  uma excelente pessoa.
    Norberto voltou com um livro nas mos, e Eullia calou-se. Sabia que ele no gostava que comentasse os assuntos de famlia com os amigos.
    Alberto estava curioso. Liana era muito jovem e bonita, alm de tudo inteligente. Bem que ele notara o interesse do engenheiro nas vezes em que estivera na manso. 
Mas pensava que ela no se interessava por ele. Estaria enganado?
    Era um ctico com relao ao casamento. Sara de uma experincia muito desagradvel e havia jurado nunca mais se apaixonar. Seria uma pena que uma moa como 
Liana, to chela de vida, de beleza, se enterrasse em um casamento. Dentro de pouco tempo teria se transformado em uma matrona sem graa, s voltas com problemas 
domsticos.
    Seus pais, de famlia abastada, haviam se separado quando ele era criana. Mas ele se sentira melhor depois disso, porque eles viviam brigando.
    
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    Depois da separao, ele e a me conseguiram manter uma vida mais agradvel, at que ela se apaixonou de novo, mostrando-se disposta a refazer sua vida, e foi 
morar com ele. Alberto, que j estava na faculdade e escrevia para um jornal, no quis morar com ela. Arranjou um emprego e foi morar sozinho. Sua me assumiu a 
nova vida, mas dentro de pouco tempo estava se queixando de novo.
    Ele havia se apaixonado por uma colega e foi correspondido. Ficaram noivos e marcaram a data do casamento. Ele j havia escrito dois livros que tinham sido muito 
elogiados pela crtica. Pensando em casar-se, tratou de ajuntar dinheiro. Sua noiva era de famlia abastada e ele se esforou para montar uma casa confortvel e 
bonita. Casaram-se e ele se sentia muito feliz. Entretanto, logo descobriu que Eugnia no era como ele gostaria. Mimada, exigente, queria que ele ficasse todo o 
tempo a seu lado, cobrando ateno, chela de cime, reclamando pelas mnimas coisas.
    Dentro de pouco tempo ele j no suportava mais ouvir sua voz chorosa, sempre reclamando de alguma coisa. Por mais que ele se esforasse para que ela ficasse 
feliz, nunca conseguia. A insatisfao dela era constante, responsabilizando-o por sua infelicidade, exigindo cada vez mais. Resolveu separar-se. Estava arrasado, 
sem energia, de mal com a vida, completamente perdido. Mas no foi fcil livrar-se dela. Dizendo-se infeliz, ameaava suicidar-se, o que fazia a famlia dela procur-lo 
para exigir, suplicar que ele voltasse. A primeira vez ele voltou, e ela jurou que iria mudar. Mas dentro de pouco tempo tudo estava como antes.
    Por fim ele resolveu separar-se de uma vez. De nada adiantaram as ameaas dela, da famlia, nem os pedidos. Ele sentia que no tinha mais foras para suportar 
a presena dela. Irritava-o at o som de sua voz. Foi muito difcil para ele recuperar o equilbrio. Durante mais de trs anos eles o perseguiram para que retomasse 
o casamento. Mas Alberto resistiu. At que aos poucos eles comearam a espaar os contatos. Decidido a acabar de vez com esse problema, Alberto resolveu mudar-se 
sem dizer a ningum o endereo. S sua me sabia onde ele se encontrava e ele a fizera jurar que nunca diria a ningum.
    Ali, em meio quelas pessoas simples, a seus livros, a seus estudos e . s crianas, havia conseguido restaurar completamente sua paz interior. Sentia-se de 
novo de bem com a vida.
    Por isso, torcia para que Liana dissesse no ao Dr. Mrio. No tinha nada contra ele, mas pensava que seria uma pena eles se amarrarem no casamento.
    Quando Liana e Mrio entraram novamente na sala, Alberto olhou os tentando descobrir se ela havia dado o sim.
    
    102
    
    Como eles continuassem conversando normalmente, como se nada houvesse acontecido, ele se perguntou se Mrio teria realmente feito o pedido. Uma hora mais tarde, 
ao se despedir, Eullia acompanhou-o at a porta e Alberto arriscou baixinho:
    - E ento? Ela disse sim?
    - Ela pediu alguns dias para pensar - sussurrou Eullia. - Vamos torcer.
    - Est bem. Boa noite, Dona Eullia, e obrigado pelo jantar.
    - Boa noite, professor.
            Alberto voltou para casa pensativo. Liana no estava apaixonada por Mrio. Se estivesse, teria dado o sim imediatamente. Isso lhe deu esperana de que 
ela no o aceitasse. Sentia que Eullia faria tudo para convenc-la a casar-se. Contudo, Liana parecia-lhe ser independente e no se deixar influenciar muito pela 
irm.
    Na manh do dia seguinte, quando chegou para a aula na manso, Alberto encontrou Liana sentada em um banco no jardim. Parou para cumpriment-la.
    - Estou lendo um livro muito interessante sobre comportamento - disse ela depois de responder seus cumprimentos. - Voc nunca me falou a respeito de seus livros.
    - Voc nunca perguntou.
    - Norberto disse que voc  um filsofo.
    Ele riu com gosto.
    - Eu no ousaria dizer isso. Sou um estudioso da vida, das pessoas.
    Acredito no potencial do ser humano.
            - Olhando as limitaes de muitas pessoas, os problemas da misria e das desigualdades sociais,  difcil acreditar nisso.
    - Voc olha os reflexos daqueles que ainda no descobriram a prpria fora. Mas, mesmo que eles ainda no saibam, ela est l. Quem descobre o prprio poder, 
a prpria capacidade, acaba derrotando a pobreza e se tornando um vencedor. A dificuldade est em acreditar que tem capacidade. .
    - Voc  um otimista. Eu acredito que o meio seja elemento fundamental para o desempenho de algum. Observando a pobreza de ideais, de perspectiva das famlias 
de meus alunos, acho difcil que eles venham um dia a conquistar uma vida melhor. Eles vo ser exatamente como seus pais: lavradores pobres, incultos, limitados.
    
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    - Vejo os fatos de forma diferente. O meio pode pressionar, mas s vai dominar aquele que ainda no descobriu a prpria capacidade. Veja o caso de Nico, por 
exemplo. Ele  muito diferente do resto de sua famlia. Tenho certeza de que um dia ele vai conseguir tudo que deseja, tornar-se uma pessoa bem-sucedida.
    - Ele  uma exceo.
    - A exceo demonstra que as regras no so confiveis. Nunca ouviu dizer que quem  bom j nasce feito?
    - J. Esse  um ditado popular antigo.
    - Uma grande verdade. Quem tem evoluo confia em si mesmo, acredita que  capaz e vai atrs de seus objetivos.
    - Voc acredita em evoluo?
    - Claro. Como explicar as desigualdades, os nveis de conhecimento das pessoas sem a evoluo?
    - Voc est falando de Darwin?
    - Estou falando de reencarnao. De vidas passadas.
    Liana admirou-se:
    - Vidas passadas? De onde tirou essa idia?
    - Observando. Estudando os fenmenos espirituais. Hoje, tenho absoluta certeza de que ns j vivemos outras vidas antes desta.
    - Voc me deixa arrepiada com esse assunto.
    - Desculpe. Falemos de outra coisa.
    - No. Estou curiosa. Voc  um homem inteligente, um escritor.
    Como pode acreditar em uma coisa dessas?
    - J disse. Pela experincia. Estudando certos fatos. Observando a vida, que sempre procura dar o melhor ensinando a cada um como encontrar o jeito certo de 
ser feliz.
    - No  esse o conceito que eu tenho da vida. Pelo que tenho visto, h dor, sofrimento, violncia, falsidade.  difcil acreditar no potencial do ser humano 
quando vemos tantos desencontros e tantos problemas no mundo.
    - Voc no est olhando com bons olhos. Quando valoriza o mal, est aumentando a desgraa do mundo.
    - Eu no valorizo o mal! De forma alguma. Estou justamente lamentando o estado catico de nossa sociedade.
    - Quando est lamentando, est vendo o lado ruim. Est valorizando o mal. Est dizendo para a vida que o mundo  mau.
    - E isso no  a realidade?
    - No. Essa  a forma como voc v. H muitas pessoas vivendo bem, estudando, aprendendo, desenvolvendo conhecimentos e aptides, crescendo.
    
    104
    
    E as que esto enfrentando duros desafios certamente com eles esto desenvolvendo o prprio poder, aprendendo a lidar com situaes, emoes. Crela, Liana, a 
vida  a melhor professora, porque ensina praticando, criando situaes para que possamos experienciar e aprender qual o melhor caminho para cada um de ns.
    - H situaes que criam desespero e dor.
            - Mas h tambm nosso desejo de ser feliz, de encontrar uma vida melhor. E essa vontade dentro de ns nos impulsiona a buscar sempre um meio de vencer 
a dor, a infelicidade. Quando uma atitude nossa no d o resultado que espervamos, o jeito  repensar,  entender que ela no foi adequada, e procurar mud-Ia, 
experimentando at encontrarmos outra melhor.  pelos resultados que descobrimos se estamos agindo a favor da vida ou no.
    - Voc tem idias extravagantes. Como  agir a favor da vida?
            - Respeitando a natureza. Sendo verdadeiro, natural. No se sujeitando a papis sociais. Quando voc age de acordo com sua natureza, com o que , as 
coisas deslizam com facilidade e tudo na vida d certo.
            - s vezes  preciso agir pelo raciocnio. O corao  traioeiro.
    Costuma nos pregar peas.
    - Ao contrrio. O corao fala de nossa verdade. A cabea, o raciocnio, quando voltado aos costumes da sociedade e distanciado do corao, cria iluses, teorias, 
que acabam nos envolvendo em fracassos e frustraes.
            - A  que est. s vezes a gente se apaixona pela pessoa errada.
    Nesse caso, o corao no pode ser ouvido.
            - O gostar de uma pessoa nunca  errado. O que fazemos em nome desse sentimento  que pode ser inadequado e trazer dor.
            - O corao por vezes quer coisas impossveis. Por isso, no concordo que  preciso seguir o que ele quer.
    - Voc tem medo dos prprios sentimentos.
    - Falo em tese. No estou colocando o que sinto.
    - Vai se casar com o Dr. Mrio?
    - Ainda no decidi. Estou pensando.
    - Voc no o ama.
    - Como sabe?
    - Pela sua atitude.
    - Ele  uma excelente pessoa. Qualquer mulher seria muito feliz a seu lado.
    - Se o amasse.
    - Por que acha que no virei a am-Io?
    
    105
    
    - Porque em amor no entra o raciocnio. No casamento ser preciso a intimidade. Como se entregar a ela sem amor?
    - Voc j foi casado?
    - J. Foi uma experincia infeliz.
    - Esto separados.
    - Sim.
    - Voc a amava?
    - Eu acreditava amar. Meu sentimento no foi suficiente para agentar as cobranas e as queixas dela. Ns ramos muito diferentes um do outro. Nunca daria certo. 
O relacionamento, a convivncia acabaram me mostrando que nunca seramos felizes juntos.
    - Sinto muito. Deve ter sido uma desiluso. Tem filhos?
    - No. Mas separar-me dela foi a melhor coisa que eu fiz. Retomei a posse de mim mesmo.
    - No se sente s?
    - No. Gosto do que fao, cuido de mim muito bem. No me falta nada.
            -  disso que tenho medo. De acabar sozinha. Esse pensamento faz me pensar em aceitar o pedido de Mrio.
    - Voc j deve estar se sentindo sozinha.
    -  verdade.
    - Se se casar com ele, esse sentimento no vai acabar. - Porqu?
    - Porque ningum pode acabar com sua solido, a no ser voc mesma.
    - Como assim?
    - Voc pode estar em meio a muitas pessoas e mesmo assim sentir-se s. O sentimento de solido aparece sempre que voc se abandona, no faz o que sua alma quer. 
Crela, Liana, a solido  olhar mais para fora de voc, para as necessidades dos outros do que para as suas.  no ouvir seu corao.
    - Por que est me dizendo tudo isso?
    - Porque est prestes a tomar uma deciso importante para o resto de sua vida. Gostaria muito que optasse pelo melhor.
    - O que voc acha que eu deveria fazer?
    - Eu no acho nada.  voc quem precisa perguntar a seu corao qual seria a melhor resposta.
    Liana olhou sria para ele e disse:
    - Gostaria muito de ler um de seus livros. Poderia emprestar-me?
    
    106
    
    - Claro. Com prazer.
    - Suas teorias so diferentes. Um pouco assustadoras.
    - Nunca teorizo. Gosto mais de experimentar. S escrevo sobre algum assunto quando tenho certeza. No sou um intelectual. Interessa-me muito conhecer como as 
coisas funcionam.
    - Por isso leciona de maneira to diferente.
    - O que me importa  que as crianas se interessem pelo conhecimento. Se eu teorizar, elas vo se entediar. No meu modo de ver, no so as crianas que precisam 
compreender o professor, mas o professor que deve mostrar os fatos ao nvel delas.
    - Por isso voc brinca com elas.
    - Claro. Essa  a forma que lhes  familiar e lhes d prazer. Descobrir a natureza, conhecer a histria, aprender matemtica, cincia, comportamento,  sempre 
interessante.
    - Nem todos os alunos entendem isso.
    - Por causa da forma como esses assuntos so tratados. Sempre com arrogncia, imposio, teorias e at falta de interesse do prprio professor. - Eu tenho muito 
interesse em ensinar.
    - No me refiro ao interesse em ensinar, mas ao interesse pelos assuntos. Ns todos aprendemos de forma to tediosa que perdemos o prazer de investigar, de pensar, 
de questionar as coisas e at de experimentar se elas so assim na prtica. Repassamos conceitos, idias que nos foram ditadas, e, de tanto repeti-Ias, acabamos 
por fazer isso sem nenhum prazer, apenas por obrigao.
    - Voc est sendo muito severo com os professores.
    - No tenho essa inteno. Estou apenas tentando entender porque eles por vezes se tornam to ineficientes, desmotivando as crianas ao estudo. Falta-Ihes o 
prazer de lidar com as matrias, a criatividade, o questionamento. Diplomam-se e pensam j terem feito o bastante para ganhar a vida. S que tudo muda a todo minuto, 
e quem fica parado atravanca o progresso, perde o brilho, acaba no tdio.
    - Isso  verdade. A maioria dos estudantes espera o diploma com ansiedade, na crena de que dali para a frente sua vida estar resolvida. A descoberta de que 
isso no basta para conduzir ao sucesso profissional no ser a causa do tdio que voc mencionou?
    - Pode contribuir, mas o fator principal  a falta de interesse pelas coisas. Foi assim que eles aprenderam na escola. Certamente desconhecem que a vida pode 
ser muito mais interessante quando vista de outro modo.
    - Como assim?
    
    107
    
            - Veja o caso de Eurico. Ele vivia entediado, manipulando todo mundo com seus achaques. Como  que ele est melhorando?
    - Eurico sempre foi doente. Voc no est sendo cruel dizendo que ele manipulava? Ele no fingia. Passava muito mal mesmo. Eu vi muitas vezes.
    - Ele no fingia sentir-se mal. Ele passava mal mesmo. Mas o caso dele  todo um processo que estou estudando ainda e no estou em condies de falar inteiramente. 
O que  notrio  como ele est melhorando.
            -  verdade. Est muito melhor. Corado, o mal-estar espaou muito, acho que at engordou um pouquinho.
            - E como aconteceu isso? Voc j viu como Nico  interessado pelas coisas?
            -  observador, inteligente, habilidoso.
            -  mais que isso. Em alguns momentos, tem uma sabedoria que s espritos muito evoludos possuem.
            - Ele  diferente mesmo.
            - Eurico melhorou quando Nico comeou a interess-Io na observao de fatos interessantes da natureza. A vida dos pssaros, das plantas, seus ciclos 
e fenmenos. Ele usou a frmula certa para motivar o interesse dele.  isso que estou tentando fazer. Interess-Ios nos mecanismos da vida, nas maravilhas da natureza, 
nas cincias que estudam esses fenmenos.
            - Reconheo que  um trabalho maravilhoso. Estou pensando seriamente em comear a aplicar isso com meus alunos.
    - Se est, deve comear por descobrir como se motivar mais  observao e  experimentao. A vivncia desperta a criatividade e a certeza de nossos conceitos.
            - Vou tentar.
            - Preciso entrar. Est na hora. As crianas j devem estar me esperando.
    Depois que ele entrou, Liana permaneceu pensativa. Alberto era um homem bonito, interessante, culto, capaz de despertar interesse. Por que, preferia viver s? 
Guardaria no corao um amor impossvel como ela?
    Era por causa disso que ainda no recusara o pedido do engenheiro. Casar com ele poderia ser a melhor soluo para afast-Ia daquela casa sem provocar uma tragdia.
    Tudo aconteceu depois que Eullia se mudou para Sertozinho. Liana ficou aguardando a transferncia para Ribeiro Preto e durante aqueles meses morou em So 
Paulo em companhia de Norberto.
    
    108
    
    Todas as noites ele a procurava para conversar e uma noite no se conteve e declarou sua paixo por ela.
    - H muitos anos guardo em meu corao este amor impossvel declarou ele emocionado. - Pretendia lev-Io para o tmulo. Mas estou sofrendo muito.
    Abraou-a e beijou-a com paixo. Liana sentiu profunda emoo. Conseguiu afast-Io a custo, .fechou-se no quarto e soluando desconsolada chegou  concluso 
de que tambm se sentia atrada por ele, sem nunca ter querido confessar.
    Desejou ir embora para sempre, mas para onde? Eullia era sua nica famlia. No dia seguinte reuniu todas as suas foras e teve uma conversa sria com Norberto. 
Disse-lhe que ele deveria esquec-Ia e que nunca mais falariam no assunto.
    Ele, triste, cabisbaixo, disse emocionado:
    - Nunca senti tanto amor por uma mulher. Perdoe-me. No pensava perturb-Ia. Concordo que nunca mais falemos deste assunto, mas, antes, h uma coisa que me est 
queimando e que eu gostaria de saber. Ontem senti que voc estremecia de amor a meu contato. Diga-me:  verdade? Voc tambm me ama?
    - Melhor no falarmos nisso.
    - Eu preciso saber. No vou exigir nada. Acato sua deciso. Sei que  preciso. Mas saber que me ama vai ser o conforto de que preciso para aceitar a separao 
definitiva. Ser a ltima vez que falaremos no assunto.
    - Sim. Sempre gostei de ficar a seu lado, conversar, admir-la. Mas ontem descobri que tambm o amo. Confesso, mas no diga nada. Essa constatao j basta para 
nos separar para sempre.
    - Ah, se eu pudesse! - disse ele abraando-a com paixo, procurando seus lbios, apertando-a de encontro ao peito.
    Liana no conseguiu resistir. Entregou-se ao beijo, sentindo o corao descompassado, mergulhada em uma emoo antes nunca experimentada. Norberto no parou 
nem mesmo quando ela pediu que ele a deixasse ir. Beijou-a repetidas vezes e arrastou-a para o quarto, onde se entregaram completamente ao amor.
    Quando passou, deitados um ao lado do outro, Liana disse num soluo:
    - Isso no podia ter acontecido. Estou envergonhada, arrependida. Como vou agora encarar minha irm? Vou-me embora para sempre.
    - Perdoe-me, Liana. Eu deveria ter me controlado. Mas eu a amo.
    Se quiser, posso me separar de Eullia e ficar com voc para sempre.
    
    109
    
    Liana sentou-se na cama tentando compor as roupas.
    - Nem diga uma coisa dessas! Que horror! Eu separar a famlia de minha nica irm, que sempre foi como uma me para mim? Como isso pode passar por sua cabea?
    - Ns nos amamos. No  justo que passemos o resto de nossas vidas separados, agora que descobrimos nosso amor.
    - Estou me sentindo a pior pessoa do mundo. No quero me sentir assim. Amo Eullia, as crianas, isso no podia ter acontecido. Mas aconteceu. Agora vamos esquecer. 
Nunca mais quero falar sobre esse assunto.  como se nunca houvesse acontecido. Probo-o de falar alguma coisa a Eullia. Nunca mais quero que se aproxime de mim. 
Acabou.
    - Pense bem. Falaremos com Eullia. Explicaremos que foi uma coisa que aconteceu. Quem pode segurar os sentimentos?
    - Absolutamente. Est acabado. Nunca mais toque nesse assunto. Eu o probo. Amanh mesmo pedirei uma licena na escola e irei ter com Eullia a pretexto de no 
estar me sentindo muito bem. L esperarei a transferncia.
    - Perdoe-me, Liana. No queria prejudic-Ia.
    - No se preocupe comigo. Estou bem.
    Ele pegou a mo dela, apertou-a com fora e, olhando-a nos olhos, disse:
    - Nunca esquecerei este momento enquanto viver. Pode ter certeza de que a amarei sempre.
    Ela se desvencilhou e saiu sem responder. A partir daquele dia nunca mais voltaram a falar no assunto, mas a ferida ainda sangrava dentro do peito dela. Alm 
do amor impossvel, havia a vergonha pela traio, a culpa, a infelicidade por haver permitido que as coisas chegassem quele ponto. Quanto mais Eullia a tratava 
com carinho, ateno e amor, mais ela se sentia culpada e infeliz.
    Casar-se com Mrio seria deixar aquela casa e refugiar-se para sempre ao lado de uma pessoa que a respeitava e a amava e na qual poderia confiar. Decidiu aceitar 
o noivado. Era a melhor soluo. No havia outra coisa a fazer.
    
    110
    
    Captulo 8
    
    Na manh do domingo, Liana confidenciou  irm:
    - Resolvi me casar com Mrio.
    Eullia abraou-a com carinho, exclamando com alegria:
    - Que bom! Parabns! Tenho certeza de que ser muito feliz com ele. - Obrigada.
    - Quando vai dar-lhe o sim?
    - Hoje  tarde, aps o almoo.
    - Ele vir logo mais para passar o dia conosco. Por que no fala antes do almoo com ele? Assim poderemos comemorar, abrindo um vinho especial. A ocasio merece!
    - Eu prefiro deixar as comemoraes para o casamento.
    - Nada disso! Imagine... Norberto no vai concordar. Seu noivado  importante e merece uma comemorao.
    Liana no respondeu. Como Norberto reagiria a seu sim? Ela no queria pensar nisso. O que estava fazendo era o certo. Iria embora para sempre e tudo estaria 
resolvido. Mrio tinha uma bela carreira, ela levaria uma vida boa e sem preocupaes.
    Quando Norberto entrou na sala, Eullia foi logo dizendo com um sorriso:
    - Liana vai aceitar o pedido de Mrio. Eles vo se casar! No acha que precisamos comemorar?
    Norberto olhou para elas, ficou calado alguns segundos e depois respondeu:
    - Claro. Por que no?
    - Parece que voc no se entusiasma com a idia. No gosta de Mrio?
    Norberto sorriu levemente:
    - Mrio  um homem inteligente e agradvel. Resta saber se Liana o ama o suficiente para casar-se.
    Eullia olhou-o admirada. Nunca o ouvira falando em amor. Liana interveio:
    - Claro que gosto dele. Se no gostasse, no aceitaria seu pedido.
    -  estranho voc dizer isso, Norberto - tornou Eullia. - Liana  livre, s se casar se quiser.
    
    111
    
    - Certamente - concordou ele.
    - Eu disse a ela que desse a resposta logo, para que pudssemos festejar ao almoo. O professor tambm vir almoar. Assim aproveitamos para celebrar.
    - Est bem - resolveu Liana. - Falarei com ele assim que chegar. Liana sentia o olhar de Norberto pesando sobre ela e queria resolver o assunto logo, sair dali. 
Sentiu-se aliviada quando Eullia a chamou para resolver alguns detalhes do almoo. Ela queria caprichar. Aquele seria um dia inesquecvel para a famlia.
    Depois, Liana subiu para o quarto a pretexto de se preparar. Na verdade, ela queria evitar a presena do cunhado. Pensativa, sentou-se em uma poltrona.
    Percebera que Norberto estava nervoso e temia que algum notasse. Por que fora acontecer isso com ela? Por qu?
    Precisava casar-se o quanto antes. Verdade  que Norberto iria embora no dia seguinte e s voltaria no fim da semana, mas ela s se sentiria segura quando estivesse 
fora daquela casa, casada com outro homem.
    Eullia bateu na porta chamando-a para ver um arranjo que fizera, e Liana acompanhou-a, procurando demonstrar alegria e disposio. Tudo pronto, como os convidados 
ainda no haviam chegado, Liana apanhou um livro e foi sentar-se no caramancho. No queria ficar na sala onde Norberto lia os jornais.
    Abriu o livro e tentou ler, porm no conseguia concentrar-se na leitura. Deu um pequeno grito quando viu Norberto em p a seu lado dizendo baixinho:
    - Liana! Por favor! Diga que no vai se casar com ele! Eu no vou suportar!
    - O que est fazendo aqui? Pelo amor de Deus! V embora. J pensou se Eullia desconfia?
    - Quero ouvir de seus lbios que no ama aquele sujeito.
    - Isso no interessa a voc. Vou me casar com ele. Decidi e pronto. Ser melhor para todos ns.
    - Voc no o ama! Diga.
    - Eu no amo. Agora v embora.
    - Voc no vai aceitar o pedido dele. Se fizer isso, juro que cometerei uma loucura. Prometa que no se casar com ele.
    - Por que est fazendo isso comigo? Voc tem sua famlia. Deixe-me em paz. Quero cuidar de minha vida!
    - Enquanto voc est sozinha eu posso suportar essa separao.
    
    112
    
    Mas imagin-Ia nos braos de outro homem me enlouquece - disse ele tentando abra-Ia. - Aquela noite no sai de meu pensamento. No consigo pensar em outra 
coisa.
    - Largue-me! Por favor! Saia daqui j se no quer que eu o odele pelo resto da vida.
    - Voc no vai casar-se com ele! Eu no vou deixar! Prometa isso e irei embora.
    - Est bem. No me casarei com ele. Agora v!
    Respirando fundo, Norberto saiu do caramancho e Liana cobriu o rosto com as mos, soluando.
    Nico abraou Eurico colocando o dedo entre os lbios recomendando silncio. Eles, escondidos atrs do caramancho  espera dos beija-flores, no haviam sido 
vistos pelos dois e sem querer escutaram a conversa deles.
    Eurico estava plido e teria cado se Nico no o houvesse amparado, abraando-o com fora, fazendo-lhe sinal para ficar calado. Permaneceram assim, abraados, 
em silncio, at Liana parar de chorar, enxugar os olhos e sair do caramancho. Ela pretendia ir at o quarto refazer o rosto, sem que algum a visse.
    Quando ela estava longe, Nico disse baixinho:
    - No devemos falar a ningum o que aconteceu aqui.
    - O que meu pai tem com tia Liana? Ele a est namorando?
    - Claro que no.
    - Ele falou aquelas coisas, queria abra-Ia.
    - Ele pode estar apaixonado por ela, mas ela no quer nada com ele.  uma moa boa.
    - Por que ele est fazendo isso? E se mame souber?
    - Ela no vai saber. Ns no vamos contar nada.
    - Isso no  direito! Mame tem de saber.
    - De jeito nenhum. J pensou a confuso que pode dar? O melhor  a gente no se meter nisso.
    - No posso ficar calado. Meu pai est traindo minha me com a prpria cunhada. Acha justo isso?
    - Ele no est traindo ningum. A Liana no quer nada com ele. - Por que ele pedia a ela para dizer que o amava?
    - Ela no disse. Logo, ela no ama. Sabe de uma coisa? Um homem pode se apaixonar e ficar louco por causa de uma mulher. Quando acontece isso,  um horror. O 
filho do Seu Joaquim comeou a beber por causa disso e hoje vive jogado na rua. Ele amava uma moa que o trocou por outro.
    
    113
    
    Antes ele era trabalhador, andava direito, depois ficou do jeito que est, perdeu a alegria, o emprego, tudo se acabou.
    - Pode acontecer isso a meu pai?
    - Seu pai  um homem estudado, tem mais conhecimento do que o filho do Seu Joaquim, que era um ignorante. O que eu quero dizer  que a paixo acontece e  duro 
se livrar dela.
    - E se meu pai der para beber?
    - Isso no vai acontecer. Por que fui contar essa histria para voc?
    Ela vai se casar com o Dr. Mrio e pronto, tudo fica resolvido.
    - Ele a fez prometer que no casar.
    - Ela prometeu s para ele ir embora. Minha me faz isso com o meu pai. Promete mas depois d um jeito de fazer tudo como ela quer. - Ser que tia Liana vai 
se casar com o Dr. Mrio?
    - Vamos ver... Hum... Voc est com uma cara! Plido, nervoso.
    Faz tempo que no ficava assim.  melhor esquecer essa histria. Ns no podemos fazer nada mesmo. Quando no d para fazer nada,  melhor deixar de lado.
    - Estou assustado. Se ela disser sim, o que ele pode fazer? Ser que vai matar o Dr. Mrio?
    - Que horror, Eurico. Vai nada. Ele falou, mas na hora vai ter que aceitar. O que ele pode fazer? Acha que vai ter coragem de falar alguma coisa na frente da 
sua me?
    - . Acho que ele no tem.
    - Ento! Vamos nos acalmar. Esse  um segredo nosso. No devemos nos meter na vida dos outros. Minha me sempre diz isso.
    - No sei se vou agentar.
    - Ter que fazer fora. Seno ns vamos ficar numa encrenca danada. J pensou?
    - Estou comeando a pensar que tem razo.
    - Tenho, sim. Nunca me arrependi de ficar calado. Tenho visto muita coisa por a.  melhor deixar para l. No vale a pena.
    - Ser que meu pai no gosta mais de minha me?
    - E isso, agora? Sei l. J vi homem com trs mulheres dizer que gosta delas todas.
    - Isso  sem-vergonhice.
    - Pode ser, mas ele estava feliz da vida.
    - Meu pai no pode ser assim.
    - Vai ver que foi s uma tentao. Passa. No tem nada de mais.
    - Voc acha?
    
    114
    
    - Acho. Sabe como , a tentao vem, mas depois passa. Amelinha chegou correndo:
    - Vocs esto a! Faz tempo que estou procurando. Mame est chamando. Est na hora de se lavar para o almoo. Os convidados j chegaram.
    - Que convidados? - perguntou Eurico.
    - O Dr. Mrio e o professor.  um almoo de comemorao. Maria disse.
    Os dois meninos se olharam sem dizer nada. Amelinha prosseguiu: - O que foi? Vocs no sabem da novidade? Tia Liana vai se casar com o Dr. Mrio. Vamos ter uma 
festa.
    - Vamos nos lavar - disse Nico.
    - Vamos - concordou Eurico.
    Eles estavam ansiosos para verificar se Liana estava ficando noiva ou no.
            Na sala, as pessoas conversavam com naturalidade, e se eles no houvessem ouvido aquela conversa no desconfiariam de nada.
            A certa altura, Mrio levantou-se, dizendo em tom solene:
            - Hoje  um dia especial para mim. Liana aceitou meu pedido.
    Vamos nos casar. Sinto-me honrado e feliz.
            Eullia levantou-se e abraou a irm com alegria:
            - Tenho certeza de que sero muito felizes! Fao muito gosto nesse casamento.
            Abraou Mrio com carinho. Norberto levantou-se e cumprimentou os noivos. O professor fez o mesmo.
    Os dois meninos olhavam o rosto de Norberto e, apesar de ele dissimular, notaram o rubor na face e o brilho de contrariedade nos olhos.
    Amelinha bateu palmas, abraando a tia e dizendo:
            - Oba! Tia Liana vai se casar!
            Eullia mandou abrir uma garrafa de vinho do Porto e Norberto, a um olhar da esposa, levantou o brinde, desejando felicidades aos noivos.
    O almoo foi servido em seguida, mas o professor percebeu que Liana no estava feliz. Por que ela resolvera aceitar aquele casamento? Mrio era excelente pessoa, 
mas ele sentia que no tinha elementos para fazer Liana se apaixonar. Ele sabia que esse casamento no iria dar certo.
    Foi antes de iniciar a aula do dia seguinte que Alberto comeou a encontrar a resposta. Naquela noite Eurico no havia passado bem e no se levantara ainda. 
Amelinha havia ido acord-lo. Nico j estava na sala e Alberto perguntou:
    
    115
    
    - O que foi que Eurico teve?
    - Ele se sentiu mal, como antigamente.
    O professor ficou pensativo por alguns instantes, depois disse:
    - Ele estava muito bem. No pensei que fosse recair. Deve ter acontecido alguma coisa que o desequilibrou. O que foi?
    - Nada.
    - Pela sua cara estou percebendo que aconteceu algo mesmo. -  melhor no falar nisso.
    - Eu sou amigo de vocs. Tenho feito tudo para que Eurico se recupere. Se eu souber o que foi, vou poder ajud-lo a ficar bem. Depois, ns no temos segredos 
entre ns.
    -  que o assunto  muito srio! Tenho medo de contar. Se algum descobrir, vamos ser castigados. Juro que no foi de propsito. Estvamos l brincando.
            - Sou seu amigo e quero ajudar. Seja o que for, no tenha medo de contar.
            Nico resolveu e contou tudo que eles tinham ouvido. Quando ele terminou, Alberto disse:
    - Nico, voc agiu muito bem! Parabns! Eu teria feito a mesma coisa. Ento foi isso! Ele ficou assustado, com medo.  um menino muito mimado e isso o deixa muito 
fraco, incapaz de enfrentar a verdade com calma. Ns dois vamos fazer com que ele aprenda a olhar a vida com mais naturalidade. Ele  muito dramtico. Pessoas assim 
exageram tudo e sofrem muito.
    - Sofrer por isso  besteira. Quando as pessoas querem alguma coisa, mesmo sabendo que  errado, ns no podemos fazer nada. Elas no ouvem o que ns falamos. 
Minha me sempre me ensina isso.
            - Sua me  muito sbia. Qualquer dia vou conversar um pouco com ela. Garanto que ela tem muito a me ensinar.
            - Isso ela tem! Toda vez que ela fala e eu no escuto, d errado.
    Ela  sabida mesmo.
            Amelinha entrou dizendo:
            - Eurico disse que no vem. Ele no quer levantar. Mame foi l saber o que ele est sentindo, mas ele no quer nem falar com ela.
            - Eu vou conversar com ele. Vocs esperem aqui.
            Alberto entrou no quarto de Eurico, onde Eullia e Hilda tentavam convenc-Io a se levantar. Ele, deitado, plido, olhos fechados, no respondia ao que 
elas diziam.
            - Deixem-me a ss com ele - pediu Alberto.
    
    116
    
    Depois que elas saram, ele fechou a porta, sentou-se ao lado da cama e disse com voz calma:
    - Isso que voc est fazendo no vai adiantar nada.
    Eurico no respondeu, e o professor continuou:
    - Sua tia Liana vai ficar muito triste e zangada com voc se souber que descobriu o segredo dela.
    Eurico abriu os olhos assustado, sentando-se na cama:
    - Como voc sabe? Foi Nico! Ele no tinha nada que contar.
    - Ele s contou porque eu pressionei. Eu estava querendo saber por que voc teve essa recada. Alis, ficar doente no vai mudar os fatos. Pode at piorar. Voc 
vai se sentir mal, ficar pior, sua me vai querer saber por qu, e no fim acabar descobrindo o motivo. E a pode acontecer o pior. Ela se separar de seu pai, brigar 
com sua tia e voc ficar com remorso e adoecer de verdade.
    - No quero que acontea nada disso - lamentou-se Eurico, chorando.
    - Se no quer, Eurico, no deve intrometer-se nos assuntos das outras pessoas.
    - Nico disse isso.
    - Ele est certo. Cada um  responsvel pela prpria vida. Voc no pode mudar os sentimentos dos outros. O que pode  aprender a controlar os seus e cuidar 
s dos assuntos de sua vida.
    - Eu queria que meu pai amasse minha me! Ela  to boa! Faz tudo por ele e por ns.
    - Voc est achando que seu pai no gosta de sua me. Como pode dizer isso? Voc no sabe o que vai no corao dele. Depois, ele vai gostar do jeito dele e no 
do jeito que voc gostaria que ele gostasse. Por isso, o que voc tem a fazer  reconhecer que no pode intervir no relacionamento deles. Esse  um assunto s deles. 
Se voc ama sua me, reconhece o quanto ela tem sido dedicada  famlia, o que voc pode fazer  reconhecer isso, sendo amoroso com ela, mostrando o quanto  grato 
pela dedicao com que ela tem cuidado de voc. Do jeito que est agindo, ao invs de amor voc a est deixando preocupada, aflita.  isso que voc quer?
    - No.
    - Ento levante-se, vista-se e vamos estudar. Hoje tenho assuntos muito interessantes para discutir.
    - Amelinha no pode saber! Ela  muito linguaruda.
    - Ela no sabe. O segredo ficar s entre ns, homens.
    
    117
    
    - Assim  melhor. Estou um pouco tonto. Voc acha que meu pai ama mesmo tia Liana? Tenho medo de que ele brigue com o Dr. Mrio.
    - Sua tia Liana  uma moa muito atraente. Alm disso, muito inteligente. Ele pode ter se sentido atrado, isso  at natural nos homens. Mas isso no quer dizer 
que ele pense em abandonar a famlia por causa de sua tia. Depois, ela agora  noiva, vai se casar. Sua me nunca vai saber dessa pequena fraqueza de seu pai. Esquea 
isso. Pense em voc, em sua sade. Seu pai j voltou para So Paulo, no vai acontecer nada. Vamos. Voc  um menino forte. Vai se levantar e estudar, cuidar de 
seu futuro. Aprender as coisas boas da vida.
            Eurico concordou. Levantou-se, vestiu-se e quando o professor abriu a porta ele j estava pronto.
            - Voc vai tomar seu caf enquanto ns esperamos. Tem de se alimentar bem para ficar cada dia mais forte.
    Eullia suspirou aliviada enquanto Hilda corria a colocar o caf com leite para de. Naquela manh o professor levou as crianas ao jardim para falar dos ciclos 
da natureza, do acasalamento dos animais, de sua procriao, ilustrando a aula com os elementos que ia encontrando  sua volta e com as gravuras do livro que levara.
    As crianas se interessaram tanto que na hora do almoo j Eurico estava corado e bem-disposto, como sempre. Ao se despedir do professor, Eullia perguntou:
    - Como conseguiu fazer Eurico reagir? Gostaria de aprender seu mtodo.
            - No fiz nada de mais. Apenas provei a ele que se entregar ao desnimo causa doena.
    - Um menino dessa idade! Por que ser que fica desanimado? - Coisas da cabea dele! Agora que ele j est mais forte, melhor, seria bom que todos ns comessemos 
a torn-Io mais independente. - Como assim?
    - O excesso de cuidados torna-o mais fraco e delicado. Ele precisa aprender a enfrentar a vida como ela . A senhora sabe, um dia ele ter de viver em sociedade, 
trabalhar, vencer os prprios desafios. Se ficar muito protegido, nunca vai aprender.
            - Liana s vezes me fala isso! Mas ele  to frgil, to delicado. Tenho medo de perd-Io!
    - Compreendo Dona Eullia. Mas ele est melhor. Aos poucos, conforme ele vai melhorando, podemos fazer com que ele confie mais nas prprias foras. Desde que 
nasceu ele tem ouvido dizer que  um doente. 
    
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    Est na hora de comearmos a dizer que ele  forte, que tem sade. Isso vai ajud-lo a se fortalecer.
    - O senhor acha? Farei tudo para que ele seja saudvel!
    - Tenho certeza de que a senhora, como me, vai encontrar o melhor jeito de fazer isso!
    Dois dias depois foi que Alberto se encontrou com Liana. Percebeu logo que ela estava longe de ser a noiva feliz. Embora tentasse aparentar alegria, ele percebia 
um brilho triste em seu olhar. Vendo-a sozinha, tentou conversar.
    - Voc vai mesmo se casar com Mrio?
    Ela se sobressaltou ligeiramente e respondeu:
    - Vou. Por que duvida?
    - Porque voc no o ama. Um casamento sem amor  uma cruz difcil de carregar.
    - Por que diz isso?
    - Porque j passei por essa experincia. No foi nada bom. Nunca mais quero passar por isso de novo.
    - Voc  desanimador.
    - S quero que reflita. Voc no precisa casar-se com ele se no o ama. H outras formas de resolver os problemas que a preocupam.
    - Por que acha que tenho problemas?
    - Eu sei que vai se casar para fugir de uma situao desagradvel. - Voc parece que sabe mais do que eu. Onde conseguiu essa informao?
    - De seus olhos. No sabe que eu leio seus pensamentos?
    - Estarei dando a perceber tanto assim?
    - No. Voc at que dissimula muito bem. Para os outros. Para mim, no.
    - Por que se interessa tanto pelo que penso? Sinto que voc vive me observando.
    - Sou um estudioso do comportamento. O que me interessa so os sentimentos, as reaes, como trabalhamos nossas emoes.
    - Est me olhando como uma cobaia.
    - Eu no diria isso. Eu a admiro. Voc  uma mulher forte, inteligente, criativa. Eu gostaria muito que encontrasse o caminho da felicidade. Voc tem tudo para 
isso.
    - No penso assim. O que eu queria mesmo  ficar em paz, tocar minha vida. Ser independente para poder ir embora.
    - Mas voc j  independente e est tentando se escravizar.
    
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    - Eu quero  fugir, deixar este lugar, desaparecer.
    - Sair de uma situao ruim para uma pior s vai agravar sua infelicidade.
    - Voc diz isso porque no sabe. Ah, se voc soubesse!
    - Eu sei de tudo.
    Ela se assustou:
    - Sabe? O qu?
    - Tudo. Sei quem  seu amor impossvel.
    - Como soube? Algum contou? Quem mais sabe?
    - Calma. Ningum contou. Eu deduzi. Fique tranqila, sei guardar segredo. S quero que pense melhor e no faa uma bobagem por causa disso.
    - Estou envergonhada!
    - Isso acontece. No tem do que se envergonhar.
    Os olhos de Liana encheram-se de lgrimas. Sua dor, represada tanto tempo, transbordou e ela no conseguiu dominar o pranto. Ele a abraou respeitoso.
    De repente ela tentou enxugar os olhos, dizendo:
    - Meu Deus! Se algum vir!
    Ele tirou o leno do bolso e deu-o a ela, dizendo:
    - No se preocupe. Estamos sozinhos no caramancho. As crianas esto l dentro e no sabem que cheguei.
    - Desculpe, no consegui controlar-me.
    - Desabafar faz bem. Alivia a alma.
    - Sinto-me confortada com seu apoio. Eu o admiro muito. Gostei muito de seu livro. Fez-me pensar sobre a vida, mudou um pouco algumas de minhas idias.
    - Quero ser seu amigo. Prometa que vai pensar melhor e no consumar um casamento sem amor.
    - Que outra coisa posso fazer? Eullia  muito dedicada. Eu a amo muito. Tem sido como uma me para mim. Prefiro morrer a pensar que ela venha um dia a saber 
a verdade. Entendeu?
    - Sim.
    - J pensei em ir embora para outra cidade, mas Eullia nunca concordaria. Iria desconfiar. Sempre acatei suas sugestes.
    - Vamos pensar e procurar outra soluo para voc.
    - Voc tem horror a casamento!
    - Tenho mesmo.
    - No pensa mais em casar-se?
    
    120
    
    - No. Estou muito bem. Para que iria me escravizar novamente? Liana olhou curiosa para ele. Alberto era um homem bonito, culto, jovem ainda e bastante atraente. 
Conseguiria escapar?
            - Viver sozinha me atemoriza - disse ela. - Mrio pode ser um bom companheiro.
    - Pode.  um homem culto, de bons princpios e a ama.
    - Isso me basta.
    - No creio. Voc no o ama, e sentir o amor  fundamental. No  o amor do outro que nos alimenta, mas o nosso.
    - O amor para mim s trouxe sofrimento. No preciso dele. 
    - O amor nunca provoca dor, mas prazer, alegria, bem-estar. O que aconteceu com voc pode ter sido tudo, menos amor.
    - Se eu no amasse, nada disso teria acontecido. Tenho sido assediada muitas vezes, por homens interessantes e atraentes. Sempre resisti. Por que teria cedido 
se no fosse por amor?
            Alberto olhou-a hesitante por alguns instantes, depois decidiu:
            - Voc  uma mulher inteligente. Posso falar claramente? No vai se ofender?
            - No. Fale.
            - Eu no creio que esteja amando nem que se entregou por amor.
    Voc  uma mulher ardente, chela de vitalidade, pronta para amar de verdade. Ele, homem experiente, apaixonado, soube abordar voc de tal forma que despertou 
seu desejo, sua fome de amor.
    Liana ruborizou-se:
    - Voc acha que sou to venal?
            - No. Acho que  uma mulher saudvel, livre, chela de vida, normal. A mulher tem tanto desejo quanto o homem. A educao, a sociedade, criaram barreiras 
de tal forma que vocs sentem vergonha de admitir isso. Mas a seduo, a tentao, acontecem com todas as pessoas, independentemente do sexo.
    - Voc acha que fiquei com ele sem amor?
    - Isso  voc quem pode avaliar. Mas, percebendo sua reao depois do fato, acredito que o que sentiu foi atrao sexual mesmo.
            Liana levantou-se corada. Alberto aproximou-se, segurou a mo dela e continuou:
    - No se envergonhe.  melhor perceber a verdade do que estragar sua vida acreditando em um amor impossvel, fechando a porta para a felicidade. Algum dia, algum 
vai despertar seus sentimentos para um amor verdadeiro. Sentir no corpo o ardor do desejo, nos lbios a vontade de beijar, nas mos o desejo de acariciar.
    
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    Mas estar presa a uma pessoa que no ama, ter de se controlar e perder a suprema ventura de expressar seus sentimentos.
            Alberto falara com o rosto bem prximo ao seu, e ela podia sentir seu hlito. Estremeceu, olhou-o nos olhos e perguntou:
            - Voc alguma vez j amou assim?
    - No. Eu pensei que estivesse amando. Mais tarde compreendi que estava enganado. Por isso me separei. Um dia, eu sei que vai acontecer comigo. No sei quando, 
mas, quando ocorrer, quero estar livre para viver plenamente minha vida.
    - Tem certeza de que ser correspondido?
            - No. Se for correspondido, ser a felicidade mxima. Entretanto, se no for, continuarei amando e expressando meu amor. Eu sei que s o amor incondicional 
pode alimentar nossa alma. No quero entrar na angstia da paixo, da esperana, da dvida. Eu quero sentir essa energia maravilhosa que tudo transforma e d alegria 
de viver, entusiasmo, prazer.
            Os olhos de Alberto brilhavam e Liana sentiu seu corao bater mais forte:
            - O que diz  um sonho impossvel. Esse amor no existe. Voc mesmo falou que todos nos deixamos levar pelo desejo, pelo sexo.
    - A incapacidade de amar das pessoas no impede que o amor exista. Tenho visto coisas horrveis em nome do amor. E por causa delas as pessoas sofrem. Repito: 
o amor verdadeiro no  dor;  prazer, bem-estar. O resto so iluses, sonhos que a vida vai destruir. Voc est enganada. O amor incondicional  a nica verdade 
da vida e a chave da felicidade. - Voc acredita mesmo nisso?
            - Sim. Por isso, conservo minha liberdade. Pense nisso, Liana, no feche seu corao ao amor. No se contente com menos. Voc merece ser feliz.
    - Vou pensar - disse ela retirando a mo e saindo do caramancho. Alberto ficou pensativo, parado, vendo seu vulto caminhar lentamente rumo  casa.
    Que mulher!, pensou. Vendo-a to perto, ouvindo sua respirao, sentira vontade de abra-Ia e beijar seus lbios carnudos. Controlou-se a custo. No podia deixar-se 
levar pela atrao que ela exercia sobre ele. No queria complicaes em sua vida. Gostava das crianas. O dinheiro que ganhava dando aulas, somado ao que recebia 
pelos artigos que mandava para um jornal, permitia que ele continuasse usufruindo da vida calma daquela cidade e que pudesse dedicar-se a escrever seus livros.
    
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    No queria pr tudo a perder, criando uma situao constrangedora.
    Preferia continuar como amigo, ajudando Liana a compreender seus problemas e procurar melhor soluo. Ele se sentia nervoso s em pensar que ela poderia mesmo 
casar-se com Mrio. Liana era mulher ardente, precisava de um homem  altura. O engenheiro no lhe parecia adequado. Faria o possvel para desfazer esse noivado.
    
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    Captulo 9
    
    A chuva caa fina e Liana, desanimada, olhava pela janela da sala, sem ver a beleza das flores do jardim nem o verde vioso das folhagens. Fazia seis meses que 
ela ficara noiva, e Mrio insistia em marcar a data do casamento.
    Ele comparecia religiosamente todos os fins de semana para v-la, sempre lhe trazendo uma lembrana delicada: um perfume, algumas flores, um adereo. Cada dia 
que passava ele ficava mais impetuoso e estava sendo difcil controlar seus arroubos apaixonados.
    Liana no queria ficar a ss com ele, a fim de evitar que a beijasse. Alberto observava suas atitudes e no perdia ocasio para sugerir que acabasse com o namoro. 
A princpio ela se esforara para gostar do noivo, mas seu beijo era-lhe desagradvel e sua proximidade incomodava-a. Sentia vontade de empurr-Io, mand-Io embora, 
e algumas vezes chegara a irritar-se, pretextando indisposio a fim de que ele no se aproximasse.
    Nas ltimas semanas a situao ficara pior. Liana, que passava bem durante a semana, quando ia chegando o sbado, dia de Mrio visit-Ia, sentia-se mal, com 
falta de ar, dores no estmago.
    Eullia estava assustada.
    - Precisamos ver o que voc tem. Esse mal-estar no  natural. Est emagrecendo, tem a fisionomia cansada, perdeu o apetite.
    Apesar dos protestos de Liana, chamou o mdico, que receitou alguns calmantes e fortificantes, no tendo encontrado nenhuma doena. Eullia no se conformava 
e ficava inventando pratos apetitosos para ver se ela se alimentava melhor, cuidando que no esquecesse o fortificante.
    O carinho e a dedicao da irm faziam-na sentir-se mais culpada pelo deslize que cometera e davam-lhe foras para continuar a manter o noivado como a nica 
forma de deixar aquela casa sem que ela desconfiasse. .
    "Se ao menos ele no viesse hoje por causa da chuva...", pensou ela. - Um doce por seu pensamento!
    Ela se voltou e sorriu:
    - Alberto! No vi seu carro no ptio. Pensei que no tivesse vindo hoje.
    - Eu precisava. As crianas vo prestar um exame na segunda-feira. Precisam estar afiadas.
    
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    - Eles vo muito bem.
    - So muito inteligentes. Trabalhar com eles  um prazer. Tenho aprendido tambm.
    Liana sorriu.
    - Gosto de ver o interesse deles, esto sempre querendo descobrir como as coisas funcionam, fazendo experincias. Quando esto brincando, conversam sobre cincias, 
histria, geografia, at fsica. Contam tantas histrias que eu me delicio ouvindo-os.
    - As crianas so naturalmente interessadas em aprender, em cooperar. Quando voc sabe motiv-las, o conhecimento torna-se um prazer, uma necessidade. Acredito 
que iro passar. Mesmo assim, voltarei amanh cedo para repassar algumas coisas.
            - Eullia est muito contente com a melhora de Eurico. Est mais corado, engordou e j no se queixa como antigamente.
    - Em compensao ela anda preocupada com voc, que est cada dia mais abatida. Quando  que vai criar coragem e resolver de vez esse noivado infeliz?
            Liana passou a mo pela testa, como querendo afastar os pensamentos desagradveis.
            - Ao contrrio. Acho que vou marcar a data do casamento. Mrio quer casar dentro de dois meses.
    - Se est disposta a se suicidar, faa isso.
    - No tenho outro caminho.
    Liana olhou preocupada para o corredor que levava  cozinha. Temia que algum ouvisse.
    - No se preocupe. Dona Eullia est l em cima com os meninos. Quando acabei a aula, ela os levou para cima dizendo que ia fiscalizar o banho deles e a arrumao 
dos quartos. Se voc no se libertar dessa opresso, vai adoecer de verdade.
    - O mdico disse que no tenho nada. S estou um pouco anmica e sem apetite.  que meu estmago parece que est sempre cheio, como se eu tivesse acabado de 
comer. Por isso no tenho me alimentado direito.
    - Seu problema  s emocional. O estmago  o rgo da aceitao. Quando voc se obriga a alguma coisa da qual no gosta, ele registra. Todo problema de estmago 
vem da contrariedade, da no-aceitao.
    -  difcil acreditar que um rgo do corpo reaja s emoes. - Por qu? Ns somos espritos, mas somos o corpo tambm. No momento, estamos integrados. O corpo 
possui a sabedoria da natureza, e a natureza  a essncia divina.
    
    125
    
    Sempre que estamos fazendo alguma coisa contrria  nossa natureza, ele tenta nos chamar a ateno.
    - No estou entendendo.
    - Seu estmago est avisando que esse noivado  contra sua natureza. Voc no gosta de Mrio. Est forando uma situao que sua alma no aceita.
    - De onde tirou essa teoria?
    - Da vida. Observando. Faa uma experincia: acabe o noivado, e seu estmago no lhe dar mais problemas.
    - Custo a crer. Voc  contra meu noivado. No est dizendo isso s para me convencer?
    - Estou dizendo isso porque gosto de voc e desejo v-la bem. Se insistir, vai acabar com uma lcera ou coisa pior.
    - Por que o estmago?
    - Cada parte do corpo tem uma funo definida no equilbrio da sade. O estmago  a aceitao dos alimentos; os intestinos, a seleo; os braos, o dar e receber; 
as pernas, o apoio. Seu estado emocional reflete-se diretamente no local correspondente do corpo que comea a se ressentir.
    - Em seu livro voc fala que o mundo  energia e que ns somos seres energticos. Que temos corpo fsico e corpo astral. Que captamos e exalamos energias.  
por isso?
    - De certa forma . A energia vital  s potncia. Somos ns que, conforme nossas atitudes, a formatamos desta ou daquela forma. Elas refletem nossas crenas, 
permanecem fazendo parte de nosso corpo astral, influenciando nossa vida, automatizando nossos atos, criando situaes que se repetem enquanto no modificarmos as 
atitudes que lhes deram origem.
    - Por isso voc diz que se eu no acabar o noivado no vou sarar? - .
    - Voc quer dizer que a vida  inteligente?
    - Claro. A vida  Deus em ao.
    - Isso acontece com todas as pessoas?
    - S com as que j tm conhecimento para agir melhor e no o fazem. Em meus estudos tenho observado que a natureza age de forma relativa ao grau de desenvolvimento 
de cada um. Um esprito mais primitivo no somatiza as emoes com a mesma rapidez e facilidade do que outro que  mais evoludo.
    - Isso no seria ser parcial, protegendo uns mais que outros?
    - Ao contrrio. Ela age como os pais com os filhos. S protege enquanto so incapazes de agir por si.
    
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    Depois, deixa que cada um assuma a responsabilidade pela prpria vida.
    - A vida  cruel.
            - No  verdade. Ela sempre faz o melhor. Se estamos neste mundo para amadurecer, aprender a viver melhor, temos de usar nossos re        cursos, buscar 
o jeito certo de formatar as energias vitais, desenvolver nosso mundo interior, criar o lugar e a maneira como desejamos viver. Esse  um direito nosso. Todos somos 
livres e vivemos no mundo que criamos. Se ele no est bom, temos o recurso de mud-Io, revendo nossas atitudes, observando os fatos da vida, experimentando at 
conseguirmos um resultado melhor. A felicidade  conquistada assim.
    - O que fazer com as emoes que no podemos controlar?
    - No se faa de fraca. O que invalida sua fora  a maneira como voc interpreta os fatos. Est iludida pela vontade de amar, pelo sonho impossvel. Tenho observado 
e sei que no ama Norberto. O que a est empurrando para esse casamento  a culpa, a necessidade de se punir pelo ato impensado que cometeu.
    - Isso no. Reconheo minha culpa, mas quero evitar uma recada com ele e um atrito com Eullia. Se ela souber o que aconteceu, como terei coragem de encar-Ia?
    - E por isso se atormenta, quer inutilizar sua vida, cometer um ato que vai infelicitar no s voc mas Mrio tambm. Pense, no  justo com ele.
    - , eu sei. s vezes me sinto duplamente culpada.
    - Pretende levar sua vida carregando esse peso? No percebe que est se destruindo?
    - Agora  tarde. A deciso est tomada. Vou marcar a data e resolver logo.
    - Lamento que pense assim. Garanto que vai arrepender-se.
    - Farei qualquer coisa para deixar esta casa sem que Eullia desconfie de nada.
    - Ns poderamos arranjar outro jeito.
    - Como?
    Alberto animou-se. Uma idia louca passara-lhe pela cabea.
    - Voc disse que faria qualquer coisa. Nesse caso tenho uma soluo melhor. Voc acaba esse noivado e vai morar comigo, em minha casa. Liana olhou-o assustada 
e seu rosto enrubesceu:
    - No estou entendendo.
    - Voc pode dizer a Eullia e a Norberto que estamos apaixona dos e vai para minha casa.
    
    127
    
    Ser apenas para que voc possa se livrar do noivo indesejado e dos problemas de famlia.
    - Est brincando comigo?
    - Absolutamente. Estou falando srio.
    - Voc no  casado?
    - Sou separado.
    - Isso iria criar muitos problemas com Eullia. Ela  conservadora. Brigaria comigo. Alm do mais, voc no tem nada com meus problemas. Iria invadir sua privacidade, 
atrapalhar sua vida amorosa. Moramos em uma cidade pequena, j pensou o escndalo?
    - Pensei que fosse mais corajosa e no tivesse preconceitos. Sua liberdade no vale esse pequeno sacrifcio?
    - Se isso acontecesse, voc no poderia mais morar aqui. Eullia no o deixaria mais dar aulas para as crianas. Seria o caos. Tenho de resolver meus problemas 
do meu jeito. No posso envolv-lo nisso.
    Alberto aproximou-se dela olhando-a nos olhos:
    - Gosto muito de voc, Liana. No desejo v-la infeliz.
    - Obrigada pelo apoio. Na verdade, voc  meu nico amigo. Nem imagina o bem que me tem feito.
    Um carro passou l fora e Liana olhou imediatamente. Apesar da chuva, Mrio havia chegado. Seu rosto empalideceu, mas ela procurou sorrir tentando dissimular. 
Alberto olhou-a penalizado, mas no disse nada.
    Naquela mesma tarde eles marcaram o casamento para dali a trs meses. Mrio estava radiante. Havia comprado uma bela casa em So Paulo e queria que Liana a decorasse 
a seu gosto. Eullia estava feliz, mas AIberto percebeu a angstia de Norberto, que inquieto a custo se esforava para esconder o desgosto.
    Ele mesmo sentiu-se triste. Havia falado srio quando a convidara para morar em sua casa. Quando pensava nesse casamento, sentia-se angustiado, misturando sua 
experincia pessoal com os problemas que imaginava que Liana iria ter. Se fosse solteiro, no teria hesitado em casar-se com ela para libert-Ia desse odioso compromisso. 
Gostava de conversar com ela, sua presena era um prazer, admirava sua inteligncia, sua beleza. Poderia usufruir de sua companhia sem compromissos nem cobranas. 
Ele no pensava mais em amar. Uma vez fora o bastante.
    De todos, s Eullia estava feliz. Casar bem a irm sempre fora sua preocupao. Gostava de Mrio e acreditava sinceramente que eles seriam felizes. No duvidava 
que Liana o estivesse amando. Ela sempre lhe disse que s se casaria por amor.
    
    128
    
    Mas sentia que alguma coisa no estava bem com ela, que lhe parecia um tanto aptica quando se tratava dos assuntos do casamento.
    Eullia estava entusiasmada, queria que o casamento se realizasse em So Paulo, com uma grande festa. Trs meses era pouco para terminar o enxoval, providenciar 
os convites, ultimar os arranjos e a cerimnia. Depois, Mrio queria que Liana fosse a So Paulo ver a casa e determinar a decorao a seu gosto.
    - Voc vai para So Paulo com Norberto na prxima semana. Vai ver a casa, o enxoval, tudo - disse Eullia.
    - No quero ir a So Paulo agora. Mrio tem muito bom gosto. O que ele fizer est bem-feito.
    - E o casamento?
    - Quero me casar aqui mesmo. Com simplicidade, sem pompa nem nada.
    - Isso no pode ser. Mrio  um engenheiro de famlia importante. Tem muitos amigos. Aqui no h um bom hotel, e em nossa casa no teramos acomodaes para 
todos. Depois, h o vestido de noiva. Em So Paulo voc vai comprar tudo do melhor.
    - Para que tudo isso? Chamamos o juiz de paz aqui em casa e pronto. Casamo-nos e tudo estar terminado. Para que tanta confuso?
    Eullia abriu a boca, admirada. Liana sempre fora moderna, gostava do luxo, de vestir-se na moda, de estar em evidncia. Ela no lhe parecia bem. Havia emagrecido, 
estava plida, sem apetite. O que estaria acontecendo?
    - O que h com voc? Est doente?
    - No. Estou bem.
    Eullia colocou a mo na testa dela.
    - Febre voc no tem. Mas tem emagrecido, no come, est plida. Est assim desde que teve aquela alucinao.
    - Aquilo me fez mal.
    - Precisa ficar bem para o casamento. Talvez seja melhor ir para So Paulo e consultar o Dr. Caldas.
    - No estou doente. Estou s um pouco cansada.
    - Vou falar com Norberto para marcar uma consulta com o Dr. Caldas. Quero que esteja muito bem no dia de seu casamento. Ser o dia mais feliz de sua vida! Vai 
se casar com o homem que ama!
    - No quero que faa isso! No irei a So Paulo antes do casamento. Est decidido e pronto.
    Eullia olhou-a assustada. Liana sempre fora cordata, aceitava suas determinaes.
    
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    Decididamente, ela no estava bem. Naquela noite mesmo, telefonou para Norberto, desabafando:
    - Estou preocupada com Liana.
    - Por qu?
    - Emagreceu, est plida, sem apetite. Gostaria que fosse consultar o Dr. Caldas na prxima semana. Ela no quer, mas marque a consulta para a semana que vem. 
Quero que ela volte com voc neste fim de semana e v ao mdico.
    - Est bem. Farei o que me pede.
    - Pea a Mrio que nos ajude a convenc-Ia.
    - No o tenho visto. Estou trabalhando muito e no me sobra tempo.
    - Telefone para ele e pea que nos ajude. Ela est to indisposta que nem quer festa de casamento. Isso no  natural.
    - Se ela no est bem, deveramos mudar a data, esperar que ela se sinta melhor. Casar sem estar com sade no  bom.
    - Ela quer se casar o quanto antes. Parece que tem pressa. No sei se vai querer mudar a data. Mas, se o mdico achar que ela precisa de um tratamento, faremos 
isso.
    - Est certo. Falarei com Caldas.
    Eullia desligou, mas no disse nada a Liana. Achou melhor esperar uma ocasio favorvel.
    No dia seguinte, Eullia procurou conversar com Alberto. Durante aqueles meses aprendera a admirar o professor no s pelos resultados obtidos com as crianas 
mas tambm por sua postura delicada, discreta, educada. Sabia que Liana o apreciava e o tinha em alta conta. Estavam sempre conversando e ela algumas vezes at tomara 
parte nas conversas, aprendendo como educar os filhos ou lidar com os problemas do dia-a-dia. Quando ele acabou a aula e as crianas foram brincar no jardim, Eullia 
levou-lhe uma xcara de caf.
    - Gostaria de conversar um pouco com voc.
    - Estou  disposio. Sente-se, por favor.
    Ela se acomodou e comeou:
    - Estou preocupada com Liana. Est doente e recusa-se a ir ao mdico. Queria pedir-lhe que me ajude a convenc-Ia.
    -  um assunto muito pessoal.
    - Eu sei. Alis, ela sempre me ouviu, mas agora est diferente.
    No quer festa no casamento nem vestido de noiva. Est abatida, indisposta. Como  que pode se casar desse jeito? Precisa tratar-se.
    
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    J telefonei a Norberto para marcar uma consulta com nosso mdico para a semana que vem. S que temos de convenc-Ia a ir. Pela primeira vez ela no quer obedecer-me.
    - Talvez seja o casamento que a esteja preocupando.
    - Isso seria natural. Toda noiva fica nervosa  medida que a data do casamento se aproxima. Com ela acontece o oposto. Ela anda aptica, diferente.
    - Posso ser sincero?
    - Faa o favor.
    - Ela no ama Mrio.
    Eullia admirou-se:
    - Isso no  possvel! Ela sempre me dizia que s se casaria por amor. Depois, ningum a est obrigando. Ela se casa porque quer. Voc est enganado.
    - Se ela amasse o noivo, estaria feliz. No  isso que est acontecendo. Anda triste, abatida. Quando ele aparece, ela fica nervosa, no gosta de ficar sozinha 
com ele. Nunca reparou nisso?
    - No. Ela  recatada, no gosta de demonstrar seu afeto na frente das pessoas. Voc diz isso com tanta segurana... Ela lhe falou sobre o assunto?
    - Estou comentando o que observei. S isso. Se deseja que sua irm seja feliz, aconselhe-a a desistir desse compromisso.
    - Por que faria isso? Mrio  um excelente rapaz. Estou certa de que a far muito feliz.
    - Ele  tima pessoa, mas ela no o ama. Est cometendo um engano que vai infelicit-Ia pelo resto da vida.
    Eullia olhou desconfiada para ele. Por que Alberto estava to contra o casamento? Estaria apaixonado por Liana? Algumas vezes percebera admirao nos olhos 
dele quando a fitava. Remexeu-se na cadeira sem saber o que dizer.
    - Vou pensar no assunto. Obrigada por me ouvir.
    - No acreditou no que eu disse. Mas o futuro dir que estou sendo sincero, que admiro Liana e penso que ela merece uma vida melhor.
    Eullia deixou a sala intrigada. Como no percebera antes o interesse do professor por sua irm? Liana estava sendo ingnua, tratando-o como amigo. Ele era um 
homem separado. Ainda bem que apareceu Mrio, seno ela poderia ter se deixado envolver por Alberto. Reconhecia que ele, alm de ser um homem bonito, inteligente, 
simptico, tinha um charme especial.
    
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    Logo sua irm estaria casada e tudo ficaria resolvido. Se dependesse dela, o casamento se realizaria na data marcada. Precisava convencer a irm quanto aos preparativos. 
O que Liana desejava no tinha cabimento.
    Quando Norberto chegou, no fim de semana, Eullia ficou sabendo que ele marcara a consulta conforme pedira. Assim que Mrio chegou, conversou com ele reservadamente, 
pedindo-lhe para convencer Liana a ir ao mdico fazer o exame pr-nupcial. Ela no podia se negar. Todas as noivas faziam esse exame.
    Mrio no queria, mas Eullia insistiu e ele a contragosto tocou no assunto.
    - Ontem fiz meu exame pr-nupcial. Est tudo em ordem comigo. Quando vai fazer o seu?
    - Comigo est tudo bem. Fiz vrios exames h pouco tempo.
    - Gostaria que fosse a So Paulo com Norberto amanh. Quero lev-Ia para ver a casa. Temos de ultimar os preparativos para o casamento, escolher convites, programar 
a recepo. H tambm alguns prospectos de viagem. Onde deseja passar a lua-de-mel?
    Liana ficou pensativa por alguns instantes, depois disse:
    - No desejo viajar antes do casamento. Voc entende muito mais do que eu de decorao. Tenho certeza de que far tudo muito bem. Quanto  lua-de-mel, voc pode 
trazer esses prospectos na prxima semana e decidiremos. Gostaria tambm que nosso casamento fosse realizado aqui mesmo, com simplicidade, apenas para nossas famlias.
    Mrio olhou-a admirado. Seus pais eram pessoas de sociedade, sonhavam fazer de seu casamento um acontecimento.
    - Meus pais ficariam decepcionados. Sou o nico filho homem, e o primeiro que se casa. No estou entendendo. Sempre pensei que gostasse de festas.
    - Acho perda de tempo convidar pessoas que no tm nada a ver com nossa felicidade.
    - No concordo, Liana. At agora tenho cedido a tudo quanto voc pediu, mas desta vez no vai ser possvel. Tenho parentes, amigos, gostaria de t-los reunidos 
no dia mais feliz de minha vida. Voc precisa compreender.
    - Vou pensar.
    - No temos muito tempo. Tem de resolver depressa. Eullia, que se aproximara e ouvira parte da conversa, interveio: - Ela ir amanh, sim.
    - S se voc for comigo.
    
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    - Pois eu vou. Hilda tomar conta das crianas. Ficaremos l e resolveremos tudo de uma vez - respondeu Eullia, decidida.
    Liana no teve mais argumentos. Ela esperava que Eullia recusasse. Por outro lado, se ela fosse junto, Norberto no teria como a pressionar para desistir do 
casamento, como fazia sempre que estavam sozinhos.
    Era melhor mesmo ir, para evitar desconfianas. Teria de se sacrificar at o fim. Domingo  noite, preparou a mala. Eles iriam viajar bem cedo na manh seguinte. 
Deitou-se pensando desanimada nessa viagem que no sentia vontade de fazer.
    Custou a dormir. No meio da noite acordou assustada. Algum andava pelo quarto. Lembrava-se de haver fechado a porta  chave. Quem poderia ser? Acendeu o abajur 
e no viu ningum.
    - Acho que sonhei.
    Deitou-se novamente, apagou a luz e ento viu uma claridade nos ps da cama, e o mesmo homem daquela noite apareceu. Olhava-a admirado. Liana ficou paralisada 
de medo. Arrepios corriam-lhe pelo corpo. Tentou gritar, mas a voz no saiu.
    - Voc no vai sair daqui - disse ele. - Eu no vou deixar. Desta vez voc no vai escapar.
    Liana sentiu a cabea rodar e perdeu os sentidos. Quando acordou, o dia havia amanhecido e algum batia na porta do quarto. Tentou levantar-se, sentiu tontura, 
mas fez um esforo e abriu a porta.
    Eullia, vendo-a, disse assustada:
    - Liana, voc est plida. O que aconteceu?
    - Ele voltou - disse. - Ameaou-me. Estou tonta, com medo. Eullia amparou-a, fazendo-a deitar-se.
    - Voc sonhou.
    - No foi sonho. Ele veio e me ameaou. Eu desmaiei. Foi antes de o dia amanhecer. S acordei agora. Estou tonta, enjoada. 
    - Nesse caso no vai dar para viajar. Vamos chamar o mdico. Iremos outro dia.
    Obrigou-a a deitar-se, tentando dissimular a preocupao. Chamou Hilda, pedindo-lhe que ficasse com Liana enquanto tomava as providncias.
    Procurou Norberto para dizer-lhe que iriam outro dia.
    - Liana no me parece bem - disse ele. - Eu j disse: seria melhor adiar a data do casamento at que ela melhore. Ela no pode se casar com a sade desse jeito 
- afirmou, tentando ocultar sua satisfao.
    - Vamos ver. Pode ser coisa sem importncia.
    - Voc mesma pediu uma consulta com Caldas.
    
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    - Tem razo, ela no tem estado bem. Essas alucinaes me preocupam. Julga ter visto aquele homem de novo. Acho que deveria insistir na viagem. Seria melhor 
ela ficar em So Paulo at o casamento.
    - Ela no vai querer ir - disse ele pensativo.
    - E eu no posso ficar l o tempo todo.
    - Nesse caso, no vejo outro remdio seno adiar o casamento para quando ela estiver melhor.
    - No sei o que pensar. Vamos aguardar alguns dias e ver como ela passa.
    - Est certo. Se eu no tivesse uma audincia importante em So Paulo, ficaria aqui mais alguns dias.
    - Eu sei. Agradeo seu interesse. Falarei com o Dr. Marclio. No confio muito nele,  mdico da roa. Se ela pudesse levantar-se, eu a levaria at Ribeiro 
Preto.
    - O Dr. Marclio  mdico formado. Poder socorr-Ia at que possa ir ao Dr. Caldas, que  de nossa confiana.
    Eullia mandou uma empregada chamar o mdico e subiu para o quarto de Liana. Mrio estava ao lado dela, segurando sua mo com carinho.
    - Mandei chamar o Dr. Marclio. Como voc se sente? - perguntou Eullia.
    - Mal. No consigo respirar direito. A cabea est tonta e o enjo continua.
    - Tentou levantar? - indagou Eullia.
    - Tentei, mas fico pior. O quarto roda, e parece que vou cair. - Nesse caso  melhor continuar deitada. Logo o mdico estar aqui. Infelizmente no vamos poder 
viajar conforme combinamos. Iremos assim que ela melhorar.
    - Ficarei tambm at que ela melhore - disse Mrio.
    - De forma alguma - disse Liana. - Voc tem seus negcios e no pode ficar aqui.
    Ele a olhou nos olhos. s vezes tinha a impresso de que ela o empurrava. Estaria enganado? Ela no vibrava de amor em seus braos, estava sempre procurando 
pretextos para no ficarem sozinhos. Seria recato ou falta de amor? Ele, no entanto, a cada dia mais e mais a amava e no via a hora de t-Ia como esposa.
    - Voc no quer que eu fique? - perguntou.
    Eullia olhou-os surpreendida e lembrou-se das palavras de Alberto. - No se trata disso - respondeu ela. - Sinto-me culpada por no poder cumprir com o que 
planejamos.
    
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    Sei que  um homem muito ocupado. No gostaria de atrapalhar seus afazeres.
    - Vou esperar pelo mdico e ver o que ele diz. Depois resolveremos isso.
    Alberto estava dando aula para os meninos e no intervalo ficaram esperando Maria trazer a bandeja com refrescos e uma pequena merenda.
    - Ela est demorando, vou ver se ela esqueceu - disse Amelinha, que saiu e foi at a copa, onde a bandeja estava arrumada. Ouviu que as duas criadas conversavam 
na cozinha:
    - Ela est mal. A Dona Eullia mandou chamar o Dr. Marclio. Ela no bota f nele, mas se tem algum que pode curar a Liana  ele, que entende de alma do outro 
mundo.
    - Cruz credo! O que ser que a alma do coronel quer com ela? Se eu visse ele, acho que tinha uma coisa...
    - Pudera! A coitada est que faz pena. No pode nem levantar da cama.
    Amelinha esqueceu a bandeja e voltou  sala de aula para contar a novidade.
    - Tia Liana viu a alma do coronel e ficou doente. Mame mandou chamar o mdico.
    - Tem certeza? - indagou Alberto.
    - Ouvi as empregadas conversando na cozinha. Elas disseram que tia Liana viu a alma do coronel e que est doente.
    - No seja linguaruda - disse Eurico. - Se mame ouve, no vai gostar. Ela no acredita em alma do outro mundo.
    - Ela no acredita, mas tia Liana viu. E a tia no mente. Eu acredito que ela viu mesmo.
    - Claro que ela viu. Eu tambm o tenho visto. No , Nico? Lembra-se do outro dia?
    - O que foi que vocs viram? - indagou Alberto com interesse.
    - Ele viu o coronel e eu depois sonhei com ele - esclareceu Nico.
    - Lembra, professor? Eu contei para o senhor.
    A empregada entrou com a bandeja, e Alberto perguntou:
    - Aconteceu alguma coisa com Liana?
    - Ela no est bem. A Dona Eullia mandou chamar o mdico e ele j chegou. Est l em cima, no quarto.
    Alberto deixou as crianas merendando e foi at a sala. Norberto e Mrio estavam l, calados, esperando.
    - Soube que Liana no est passando bem. O que aconteceu?
    
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    - Ela est assustada. Julga ter visto outra vez aquele homem. Acho que ela sonhou - disse Mrio.
    - Ela no tem andado bem ultimamente. Emagreceu, anda nervosa, plida - aduziu Norberto. Hesitou ligeiramente e concluiu: - Acho que vocs devem adiar a data 
do casamento. Pelo menos at ela melhorar.
    - Se for preciso, faremos isso - respondeu Mrio com voz triste. Norberto saiu para dar algumas ordens, e Alberto considerou:
    - No  isso que voc deseja, no ?
    - No. Estou contando os dias que faltam para nosso casamento. Sabe, acho que ela pode estar sendo influenciada pelas crendices das pessoas daqui. Eles acreditam 
que quem morre pode voltar e aparecer aos vivos. Esta casa  tida por eles como assombrada. A me de Nico nem queria que ele entrasse aqui.
    - Voc no acredita em vida aps a morte?
    - Sei l. De certa forma, quem morre deve ir para algum lugar. No tenho certeza. Nunca pensei nisso. O que sei  que h muita iluso, crendices, e as pessoas 
ficam assustadas. Liana est com muito medo.
    Ele descreveu o que se passou com ela e concluiu:
    -  o medo que a faz sentir-se mal. Ela acha que se sair daqui ele a vai perseguir.
    - Esse assunto  srio. Eu acredito que quem morre pode comunicar-se com os vivos. H gente sria estudando esses fenmenos. O povo fantasia muito, mas, se Liana 
disse que viu o homem, eu acredito.
    Ela viu mesmo.
    Mrio passou a mo pelos cabelos, nervoso.
    - Isso no pode ser verdade. Nesse caso, ao invs do mdico deveramos ter chamado um padre.
    - Eles no aprenderam a lidar com isso. Seria melhor chamar um bom curandeiro.
    Mrio olhou-o assustado:
    - Como pode dizer uma coisa dessas? Voc  um professor, um homem de cultura.
    - Minha experincia ensinou que quem resolve esses casos  um bom mdium.
    - Norberto e Eullia sabem que voc pensa assim?
    - Se ela no melhorar, serei o primeiro a inform-Ios.
    Mrio no respondeu. O que ele queria mesmo  que Liana ficasse bem e eles pudessem se casar na data marcada.
    No quarto, o mdico, segurando o pulso de Liana, examinava-a.
    
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    Era um homem alto, forte, de mela-idade, cabelos grisalhos, olhos pequenos e geis, rosto corado em que o bigode escuro contrastava.
    Ouviu atentamente tudo quanto Liana lhe contou sobre a apario.
    Por fim, disse calmo.
    - Ele no pode fazer-lhe nenhum mal.  seu medo que est abalando sua sade.
    - No pude evitar. Ele  horroroso. Quando ele aparece, o pavor toma conta de mim - disse Liana.
    - Ela sonhou, doutor - interveio Eullia. - Est se deixando levar por uma iluso.
    - Ela viu, ele falou com ela. Eu acredito.
    - No foi sonho, eu sei que no foi. Cheguei a sentir o hlito dele em meu rosto.
    - S queria que soubesse que ele est se aproveitando de seu medo. Ele apareceu, mas no pode toc-la nem lhe fazer mal. Entendeu? Vamos rezar juntos e voc 
vai se acalmar.
    - E se ele voltar?
    - Voc reza, chama seu anjo da guarda e ele vai embora.
    -  que fico apavorada, no consigo rezar.
    - Vamos rezar juntos e logo estar melhor. Pode arranjar-me um copo com gua?
    Eullia, embora no concordasse, saiu para apanhar a gua. Voltou em seguida, colocando o copo sobre a mesa de cabeceira. O mdico segurou a mo de Liana, dizendo:
    - Feche os olhos. Pense em Deus.
    Ela obedeceu. Ele permaneceu em silncio por alguns minutos. Liana estremeceu e comeou a tossir. Ele continuou imperturbvel. Ela aos poucos foi se acalmando. 
Ele largou suas mos. Ela abriu os olhos e ele perguntou:
    - Ento? Sente-se melhor?
    Liana suspirou fundo, depois disse:
    - Sim. Estou aliviada.
    - Agora tome esta: gua.
    Ela obedeceu.
    - Mande preparar um ch de cidreira, Dona Eullia. Ela vai tomar o mais que puder.
    - No vai receitar? - perguntou Eullia.
    - J receitei. A cidreira  um excelente remdio para quem est nervoso, como ela. Vai lhe fazer bem. Ela precisa descansar.
    
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    Eullia no se sentia satisfeita, mas no disse nada. Aproximou-se de Liana:
    - Ento, como se sente?
    - Bem melhor. O enjo passou, a tontura tambm. S estou sentindo fraqueza e vontade de dormir.
    - Descanse, minha filha - disse o mdico. - Est tudo bem. Uma vez fora do quarto, Eullia no se conteve:
    - O que acha que ela tem, doutor?
    - S medo. Ela viu um esprito e no estava preparada para isso.
    Est chocada.
    - No  possvel que o senhor acredite nessas coisas. Um mdico! - Seria muito bom que a senhora comeasse a aprender a lidar com isso. Quando comeam a aparecer 
esses fenmenos, quanto mais depressa aprender como eles funcionam, melhor.
    Eullia no respondeu. Aquele homem era um simplrio, da roa.
    No podia lev-lo a srio. Acompanhou-o at a porta.
    - Ns pretendamos ir a So Paulo hoje. Acha que Liana pode viajar?
    - Ela deve repousar. Deixe-a dormir. Amanh voltarei e veremos. - Obrigada, doutor.
    Depois que ele saiu, ela foi ter com Norberto na sala.
    - No vamos poder ir com voc. Liana precisa repousar. Se ela melhorar, iremos na prxima semana.
    - O que disse o mdico?
    - Que ela viu mesmo a alma do coronel. Que ficou doente de medo. Pode uma coisa dessas? Um mdico?
    - Talvez tenha dito isso para acalm-Ia. Como ela est?
    - Parece melhor. O mal-estar passou, mas sente-se fraca e o Dr. Marclio disse que ela precisa repousar. Assim, no iremos com voc.
    Norberto baixou os olhos para evitar que Eullia percebesse sua satisfao.
    - Nesse caso vou embora agora. Ele receitou?
    Eullia meneou a cabea inconformada e sorriu ligeiramente irnica ao responder:
    - S um ch de cidreira. Ele mais parece um curandeiro do que um mdico.
    - O pessoal do interior tem seus prprios mtodos. Acho melhor fazer o que ele diz. Afinal, a cidreira  uma erva calmante que, se no trouxer a cura, tambm 
no lhe far mal ao fgado.
    
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    - Vou mandar preparar.
    - Mrio tambm vai?
    - No sei. Ele queria ficar, mas Liana no quer que ele se incomode. To perto do casamento, com tantas coisas a fazer, acha melhor que ele v.
    Mrio, que entrava na sala, ouviu o que ela disse. Aproximou-se dizendo:
    - Acho que vou mesmo. Liana est com sono e quer descansar.
    Amanh telefono para saber como ela est.
    Norberto olhou para o engenheiro e disse srio:
    - Ela ficar bem. Embora Eullia no acredite no Dr. Marclio, ele  muito conceituado aqui na cidade.
    Mrio abanou a cabea preocupado:
    - No posso compreender. Liana era uma moa to saudvel. Tenho notado que de algum tempo para c ela tem estado nervosa, indisposta, emagreceu.
    - Est emocionada com o casamento.  natural - respondeu Eullia.
    - Pode ser, Dona Eullia. Mas Liana sempre me pareceu uma moa moderna, que sabe o que quer.
    Norberto olhou para os dois e no disse nada. O que ele desejava mesmo era que aquele casamento no se realizasse. Liana estava querendo se casar sem amor, apenas 
para sair daquela casa e impedir que Eullia percebesse o que estava acontecendo com eles.
    Vrias vezes pensara em separar-se de Eullia para viver com Liana, porm sabia que ela jamais concordaria. Se ele deixasse a famlia, perd-Ia-ia para sempre. 
E isso ele no queria que acontecesse. Liana havia se tomado uma obsesso para ele. Pensava nela todo o tempo, recordando os breves momentos de intimidade que haviam 
tido, e a paixo fazia-o estremecer de emoo. S em pensar que ela poderia casar-se com Mrio e que ele privaria de sua intimidade, ficava louco de cime.
    Chegara at a pensar em acabar com a vida dele. Entretanto, apesar de tudo, no tinha coragem para cometer um crime. Ele haveria de encontrar uma forma de impedir 
aquele casamento, sem que ningum soubesse. Enquanto colocava a mala no carro, Mrio aproximou-se:
    - Estou preocupado, Norberto. No quis falar diante de Eullia. - Preocupado com o qu?
    - Com Liana. Ela concordou com nosso casamento, mas s vezes desconfio que ela no me ama. Retrai-se quando me aproximo, s vezes parece que me evita.
    
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    Estamos perto do casamento e ela no me parece feliz nem entusiasmada. Isso est me incomodando muito. No consigo pensar em outra coisa. Voc  meu amigo, poderia 
ajudar-me.
    - De que forma?
    - Conversando com sua esposa. Tentando descobrir o que est acontecendo com ela. As duas so muito amigas.
    - Se houvesse acontecido alguma coisa com ela, Eullia teria me contado.
    - s vezes desconfio que seu mal-estar tem a ver comigo. Disseram-me que ela passa bem a semana inteira e que s fica ruim nos fins de semana.
    - Liana est passando por um perodo ruim. Tem tido aquelas alucinaes, est nervosa.
    - O que me aconselha?
    - Ela doente, voc cheio de dvidas... O melhor seria adiar o casamento at que ela melhore e as coisas fiquem claras para voc. No adianta comear uma vida 
a dois com tantos problemas. Se fosse comigo, eu faria isso.
    - Eu a amo tanto! Sonho com o dia em que seremos marido e mulher!
    - Quem ama espera. Depois, para casar-se voc precisa estar seguro de que ela o ama. Um casamento sem amor nunca daria certo.
    Mrio baixou a cabea, triste. Ficou alguns segundos em silncio, depois disse:
    - Voc tem razo. Se ela no melhorar, adiaremos.
    Norberto sorriu e bateu ligeiramente nas costas de Mrio, dizendo: - Assim  que se fala! Tenho certeza de que est tomando a melhor deciso.
    Despediram-se, e cada um entrou em seu carro para comear a viagem.
    
    140
    
    Captulo 10
    
    A partir daquele dia Liana foi melhorando. Levantou-se, mas sentia-se fraca, sem vontade de fazer nada. Todos na casa faziam o possvel para alegr-Ia, sem resultado.
    Uma tarde ela estava no caramancho, sentada no banco, tendo no colo um livro que no lia, olhando os galhos da trepadeira que o vento balanava de quando em 
vez, perdida em seus ntimos pensamentos.
    Nico e Eurico aproximaram-se dela.
    - Est um lindo dia - comentou Nico, olhando com satisfao os passarinhos que voejavam perto.
    -  - concordou Liana.
    Eurico chegou bem perto e tomou a mo dela com carinho, dizendo: - Tia, quer ver como os beija-flores fazem para tomar gua?
    Surpreendida, ela olhou para ele e sorriu. Notou que Eurico aos poucos estava se transformando. Perdera aquela palidez que tanto os preocupava, seu rosto ganhara 
expresso, colorido e at um pouco de gordura. Estava mais gil, disposto, no se queixava como antes.
    - Voc gosta dos passarinhos, no ? - perguntou ela.
    - Gosto, tia. Quando eu estava triste como voc, eles me ajudaram a gostar da vida.
    Liana comoveu-se. Abraou-o.
    - Voc  um menino adorvel.
    - Nico ensinou-me a ver a vida - respondeu ele.
    - Nico  um menino muito inteligente. Vocs esto muito bem. Gosto de v-los por perto.
    - Nico ajudou-me tambm a perder o medo do coronel. Quando ele aparece, ele conversa e pronto.
    Liana assustou-se:
    - Voc j o viu?
    - J. Ele  meu conhecido. Sabe, mesmo antes de vir morar aqui, ele me aparecia. Estava junto com outras pessoas e eu sentia muito medo. - No est inventando? 
Como  que voc nunca disse nada? - Eu dizia para mame e ela me levava ao mdico, dava remdios que me faziam ficar mal. Por isso eu nunca mais disse nada.
    - Ento era isso que acontecia com voc?
    
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    - Era. Mame no acredita em alma do outro mundo. Mas eu sim. Tenho visto muitas.
    - Por isso estava sempre com medo?
    - . Foi Nico quem me ajudou a no sentir tanto medo. Quando eles aparecem e eu no posso dormir, chamo Nico. Ele vem, conversa e pronto: eles vo embora.
    Liana voltou-se para Nico com interesse:
    - Voc tambm v as almas?
    - No. Eu sinto um ar diferente, mas no vejo. De vez em quando eu sonho com elas.
    - De que jeito voc conversa com as aparies? No tem medo? - No. Eles s querem assustar. Sempre ouvi dizer que as almas dos mortos voltam para este mundo 
quando querem alguma coisa, e s vo embora quando so atendidas. Minha me tem medo, mas eu no. Quando aparecem, eu pergunto o que eles querem. J com o coronel 
eu senti que ele quer perturbar Eurico porque ele tem medo, e falei para ele ir embora e no assustar mais.
    - A apareceu uma mulher que falou com ele, pegou no brao e levou embora - contou Eurico srio.
    Liana balanou a cabea pensativa. Depois disse:
    - Custo a crer. Vocs falam disso com uma naturalidade!
    - O professor entende disso e tem nos ajudado muito - esclareceu Nico.
    - Ele conversa com vocs sobre isso?
    - Conversa, sim, tia. Ele diz que a alma do coronel no pode nos fazer mal e que ele abusa porque temos medo.
    - Foi isso que disse o Dr. Marclio. Mas, na hora, no posso evitar.
    Aquele homem me olha de tal jeito que fico apavorada.
    - Sei como  isso - concordou Eurico, alisando a mo da tia com carinho.
    Na manh seguinte, quando Alberto chegou, encontrou Liana  sua espera. Depois dos cumprimentos, ela disse:
    - Eurico contou-me que v as aparies e que Nico conversa com elas.
    - Eurico tem mediunidade.
    - Tem certeza? Criana gosta de chamar ateno, fantasiar. Eurico sempre usou sua fraqueza para dominar os pais. Eles fazem tudo que ele quer.
    - Ele v mesmo.
    - Isso no  perigoso?
    
    142
    
    - Pode ser se voc no souber controlar. Por isso tenho conversado com eles procurando esclarec-Ios. Quando vim para c, Eurico vivia apavorado. Agora melhorou 
muito, como voc j deve ter notado. Nico  excelente companhia, ponderado, sincero, lcido. Possui um raro bom senso e uma compreenso muito acima dos garotos de 
sua idade. Como Eurico  muito inseguro e medroso, Nico com sua segurana o tem ajudado muito.
    - Tem razo. Mas essa histria de conversar com a alma dos mortos  muito mrbida. No acho aconselhvel para ningum, quanto mais para crianas. Ficaria mais 
tranqila se voc pusesse um fim a isso.
    - No depende de mim. No h como impedir a abertura da sensibilidade de uma pessoa. Quando acontece, o mximo que podemos fazer  aprender como conviver com 
ela de forma positiva.
    - Isso no pode ser positivo. S de pensar fico toda arrepiada. - Porque voc tem da morte e dos espritos uma viso muito dramtica, sobrenatural. Assim como 
 borboleta deixa o casulo e voa, o esprito deixa o corpo de carne e vai para outros mundos. Tudo isso  da natureza. Quem morre continua sendo igual ao que era 
em vida. Nem melhor nem pior. Por isso, h no astral espritos maldosos, atrasados, mas h os iluminados, os bons. A igreja catlica santificou vrios deles. Antnio 
de Pdua, Teresinha, Francisco de Assis. O que so eles seno almas de pessoas que viveram neste mundo e desencarnaram? Voc tem medo deles?
    - Claro que no. Eles so bons, s fazem o bem. J o que eu vi... - Ele tem menos poder, se quer saber. Os espritos de luz tm energia superior e por isso muito 
mais fora, enquanto os atrasados no podem nada.
    - Isso no. O olhar daquele homem tinha uma fora estranha que me dominou. Fiquei paralisada!
    - Voc se paralisou com seu medo. Ele s pde atingi-Ia por causa de sua fraqueza. Foi voc quem lhe deu fora. Se no lhe desse importncia, ele no teria conseguido 
nada. Foi isso que ensinei aos meninos. E, como pode ver, eles esto encarando o processo com naturalidade.
    - Preferia que eles no se envolvessem com isso.
    - No temos o poder de fazer essa escolha. Esses fatos ocorrem independentemente de nossa vontade. O melhor que podemos fazer  estud-Ios e, como eu disse, 
aprender com eles.
    - E se no der certo? E se lhes acontecer alguma coisa ruim? - No vai acontecer nada. No seja to pessimista. Alis, o pessimismo atrai o mal.
    
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    Se deseja afastar a alma do coronel de seu caminho, o melhor que tem a fazer  procurar a alegria, o otimismo.
    Liana sacudiu a cabea pensativa, depois disse:
    - Alegria  um sentimento que no conheo faz tempo.
    - Praticar atos contrrios a nossos sentimentos atrai dificuldades.
    Eu j lhe disse: est na hora de mudar isso, se quer ficar bem.
    - O que eu quero mesmo  ir embora daqui, livrar-me do problema emocional e do esprito do coronel. Quanto antes me casar, melhor.
    Alberto olhou srio para ela e no respondeu logo. Depois de alguns segundos, como ela continuasse calada, ele tornou:
    - No direi mais nada sobre o assunto. Apenas renovo meu convite. Se quiser dar um basta a tudo isso,  s apanhar suas coisas e mudar-se para minha casa. Estou 
falando srio.
    Ela olhou admirada para ele.
    - No recela as conseqncias que esse ato lhe traria?
    - No. Sou um homem livre e gosto de agir conforme meus sentimentos. Estou percebendo que voc est vivendo sob presso. At quando agentar? Mrio, Eullia, 
Norberto, eu e at voc. Todos a estamos pressionando. Torno a dizer: se chegar um momento em que voc queira se libertar, nem precisar me consultar, estarei de 
portas abertas.
    - Por que faria isso por mim, at em prejuzo de seus interesses?
    - Tenho o maior interesse em aprender sobre a vida, as pessoas. Sou um escritor. Essa  minha vocao. Alm disso, gosto de voc e teria muito prazer em v-la 
deixar essa postura falsa que a est deprimindo e assumir sua verdade, sem medo, e ter a coragem de colocar sua felicidade acima das aparncias e das regras de uma 
sociedade hipcrita, cujos valores invertidos conduzem ao sofrimento e ao fracasso os que se orientam por seus preceitos.
    - Voc  um intelectual sonhador.
    - No. Sou um homem que deseja ver as pessoas bem. Agora devo ir ter com as crianas. Pense no que eu lhe disse.
    Ele se afastou e Liana suspirou triste. Bem que ela gostaria de jogar tudo para o alto, de libertar-se de todas as presses, mas no tinha coragem. Alberto estava 
no meio da aula quando foi chamado ao telefone. -  sua me - esclareceu Hilda. - Disse que  urgente. Alberto apressou-se em atender. Ela nunca lhe telefonava. 
Era ele quem de vez em quando ligava para saber de sua sade e dar notcias. - Al.. Aconteceu alguma coisa?
    - O pai de Eugnia me ligou. Ela sofreu um acidente, est muito mal no hospital.
    
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    Quer v-lo. S faz chamar seu nome. Ele quer seu endereo. Eu disse que no me lembrava e que precisava procurar. Fiquei de ligar novamente.
    - Ela no est fingindo?
    - Acho que no. Jos estava apavorado. Ele disse que ia pedir para voc vir o quanto antes, porque ela pode morrer de uma hora para outra e ele deseja satisfazer 
a ltima vontade dela. Acho que  srio mesmo. Se voc quiser, posso ir at o hospital verificar.
    - Faa isso. Ou melhor, eu vou. Se  assim, no posso deixar de ir.
    Diga-lhe que hoje mesmo estarei l.
    Alberto desligou o telefone e procurou Eullia, contando-lhe o sucedido.
    - Fao votos de que ela melhore - disse ela.
    - Obrigado.
    - Pretende demorar-se?
    - Dois ou trs dias apenas. Vou aproveitar para visitar minha me e rever alguns amigos.
    - Faa boa viagem - desejou ela.
    Ele se despediu das crianas, de Liana, e foi para casa. Uma hora depois estava na estrada para So Paulo.
    No fim da tarde, Hilda procurou Eullia nervosa:
    - As crianas no querem entrar. A senhora precisa ver como Eurico est sujo. No quer me obedecer. TIrou os sapatos, meteu os ps na lagoa. Eu no queria, mas 
ele nem ligou. Ele vai ficar com febre, ter uma recada.
    - E Nico, no o impediu?
    - A bola que eles estavam jogando caiu na lagoa e Nico tirou os sapatos e entrou para buscar. A, ele foi atrs. Eu gritei, Nico falou para ele sair, mas ele 
riu, jogou gua nele e disse que estava com calor. Onde j se viu? Aquele lago sujo onde os patos nadam! Deve estar contaminado.
    Eullia saiu rapidamente e quando chegou  pequena lagoa j os meninos haviam sado com a bola. Amelinha ria deles com as pernas e parte das calas chelas de 
lama.
    - Eurico, voc est todo molhado! Voc  doente, precisa ter cuidado. V tomar um banho imediatamente. Onde j se viu?
    - Eu no sou mais doente, mame - disse ele. - Sou forte e igual a todo mundo. No preciso que Hilda fique tomando conta de mim.
    - Eu no disse? - tornou Hilda.
    
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    Eullia olhou admirada para ele.
    - Se no quer que tomem conta de voc, tenha juzo e no fique fazendo o que no deve. Ande, v tomar um banho.
    Quando eles subiram, Hilda comentou:
    - Desculpe, Dona Eullia, mas esse professor anda acostumando mal os meninos. Senta-se com eles no cho, sobe nas rvores, faz cada coisa... Nem parece que esto 
estudando. Vivem rindo, cantando, s quero ver quando eles forem prestar os exames.
    - As crianas esto muito bem. Liana disse que eles esto aprendendo muito. O professor tem mtodos prprios de ensinar. Depois, Eurico est bem melhor. J no 
passa mal como antes.
            - Vamos ver depois de hoje - desafiou ela subindo as escadas para ver o que eles estavam fazendo l em cima.
            Eullia sorriu e confidenciou para Liana:
            - Acho que Hilda est com cime do professor. As crianas preferem ficar com ele a ficar com ela.
            -  que ela  to prestativa que chega a incomodar. Est sempre querendo que eles faam isto ou aquilo. Acho que ela exagera.
            - Fiquei admirada. Eurico me desafiou! Disse que no  mais doente, que  forte como todo mundo.
            - Talvez seja mesmo. Ele est mais corado, disposto, comunicativo, engordou um pouco. Depois, os mdicos nunca acharam doena nele.
    - Queira Deus que voc esteja certa. A sade dele tem sido minha maior preocupao.
            No dia seguinte chegou um telegrama de Alberto:
    Eugnia faleceu hoje. Preciso ficar aqui mais alguns dias. 
    Saudaes a todos.
            Imediatamente Eullia telefonou a Norberto contando tudo e pedindo-lhe para representar a famlia e dar apoio a Alberto.
    Quando Norberto chegou, no fim de semana, contou que Eugnia fora atropelada e no resistira aos ferimentos. Alberto chegara a tempo de despedir-se dela, que 
se agarrara a ele desesperadamente pedindo que no a abandonasse. Ele ficara a seu lado at o fim e estava muito sensibilizado.
    - Apesar disso, o pai dela no o v com bons olhos, porque desde a separao Eugnia nunca mais foi a mesma. Vivia em depresso e ele desconfiava que ela se 
atirara em frente ao carro disposta a morrer. Tratou Alberto com desprezo e fez questo de dizer que s o chamou porque a filha pediu.
    
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    - Alberto conversou com voc sobre isso? - perguntou Eullia com interesse.
    - Ele estava muito triste. Disse que no se arrependia de haver se separado dela. No a amava mais e no podia fingir um sentimento que no possua. Ela tinha 
uma personalidade doentia, nunca se sentia satisfeita com nada, nem mesmo quando eles estavam vivendo juntos. Se ela havia cometido o suicdio, ele no se sentia 
culpado por isso. Lamentava, mas no podia fazer nada.
    - Ele  um homem muito sincero - disse Liana pensativa.
    - E de bons sentimentos. As crianas o adoram. Hilda anda at com cime.
            Eles riram, e, quando Norberto se viu a ss com Eullia no quarto, comentou:
    - Mrio conversou comigo. Est inseguro com o casamento.
    - Por qu?
    - Desconfia que Liana no o ama.
    - Ele disse isso?
    - Disse. Alega que ela no se entusiasma com nada que se refira ao casamento. Que se esquiva dos carinhos dele. Que faz tudo para no ficar a ss com ele.
    -  curioso. Ele tambm?
    - Como ele tambm? Algum j falou sobre isso?
    - O professor. Ele me garantiu que Liana vai se casar sem amor. - Como  que ele sabe disso?
    - Bom, ele me falou exatamente as mesmas coisas que Mrio disse a voc. Fez mais: garantiu que Liana est doente porque est se obrigando a fazer uma coisa contrria 
a seus sentimentos. Que ela deveria desmanchar o noivado se deseja ficar bem.
    - Mrio teria se queixado a ele, como fez a mim?
    - Pode ser. Eu cheguei at a pensar que ele estivesse dizendo isso porque estava interessado em Liana. Os dois conversam muito, so muito amigos.
    - Voc acha que ele esteja gostando dela?
    - No. Depois do que voc me disse, tudo est explicado. Mrio por certo desabafou com ele. Sabe, o professor  um filsofo. Tem muito conhecimento sobre a vida, 
diz coisas interessantes. Liana leu seus livros e ficou encantada.
    - Eu acho que ele est certo. Diante do que Mrio disse, eu o aconselhei a adiar o casamento, pelo menos at Liana melhorar.
    
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    Durante esse tempo ele poder certificar-se melhor dos sentimentos dela. Um casamento sem amor  horrvel.
    - No concordo. Quando nos casamos, eu maIo conhecia. No sabia o que era o amor. Se nosso casamento deu certo, por que Liana no pode fazer o mesmo? Mrio  
um bom moo, ama-a muito, ser timo marido.
    - No duvido. Mas Liana  muito diferente de voc. Tem outro temperamento.
    Eullia olhou-o admirada. Ele se apressou a completar:
    - Bom, por enquanto so apenas suposies. Vamos ver como Liana reage. Pode ser que ela fique bem e tudo se arranje. S no acho aconselhvel ela se casar doente, 
ou sem saber se  isso mesmo que ela quer. Afinal, ela  livre para fazer o que quiser. Ns queremos sua felicidade, no  isso?
    Eullia concordou, embora pensasse que, para a mulher,.o amor no era fundamental antes do casamento. O importante era conhecer o carter, as qualidades do homem 
e a posio financeira. A falta de dinheiro dava muitos problemas entre os casais, assim como a infidelidade. Apesar de tudo, ela insistia em querer aquele casamento 
o quanto antes. Liana precisava definir sua vida, e um bom casamento era o melhor jeito. Depois, ela se sentiria muito mais tranqila sabendo-a bem casada, amparada 
pelo resto da vida.
    No quarto, antes de dormir, Eurico comentou com Nico:
    - Agora que a mulher do professor morreu, ser que ele vai querer ficar aqui?
    - Acho que sim. Ele no morava com ela mesmo. Para ele no vai mudar nada.
    - Ser? Eu quero que ele volte.
    - Eu tambm. Sinto saudade dele.  nosso melhor amigo.
    -  mesmo. Se ele no voltar, vou ficar doente de novo.
    - Nem fale uma coisa dessas! Ele vai voltar, voc vai ver. Depois, eu estou aqui e vou ficar enquanto voc quiser. Alm disso, voc no  mais doente.
    - Se eu ficar doente, minha me vai fazer tudo para traz-Io de volta.
    Nico meneou a cabea em desaprovao:
    - Sade  coisa sria e voc no deve abusar. Se comear a fingir de doente sempre que quiser alguma coisa, a doena volta e no vai mais embora. Voc vai sofrer. 
 isso que quer?
    
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    - Eu no quero, mas quando fico contrariado, triste, logo fico doente.
    - O professor disse que quando voc fica pensando mal, dando fora  tristeza,  revolta, atrai tudo de ruim. Eu prefiro ficar alegre, para atrair s o bem.
    - Voc tem sade.
    - Por causa disso. Eu acho que a alegria  o melhor remdio. - Como posso ficar alegre se estou sentindo tristeza?
    - Voc sente tristeza quando est pensando coisas tristes. Se resolver pensar s coisas alegres, a tristeza desaparece.  fcil. Quando vem um pensamento ruim 
que me deixa triste, eu logo digo: no gosto de me sentir assim.  ruim. Procuro alguma coisa que me deixe ficar alegre.
    - O que voc faz para ficar alegre?
    - Vou olhar os passarinhos, jogar bola, pescar na lagoa. s vezes sento embaixo da mangueira e imagino como ser minha vida quando eu for muito rico: a casa 
bonita que vou comprar para minha me, o carro, as roupas, tudo. Vou viajar de trem, de barco e at de avio.
    - Voc  pobre. O que pensa fazer para ficar rico?
    - Bom, eu sou trabalhador, estudioso, estou sempre procurando aprender. Eu sei que, quanto mais eu souber fazer coisas, mais dinheiro vou ganhar.
    - As pessoas vo pagar para voc fazer coisas para elas?
    - Vo.
    - Voc vai ficar muito cansado.
    - No vou. Sou curioso. Gosto de fazer coisas e de aprender. Eu esqueo de tudo quando estou olhando alguma coisa que me interessa ver como .
    - Por isso voc sabe como  a vida dos passarinhos. Ficou olhando para eles.
    - Fiquei. Todo mundo acha que os bichinhos no so inteligentes.
    Isso no  verdade. Eles fazem cada coisa!  s ficar olhando que voc v.
    - Ser que o professor volta logo?
    - Est vendo? Voc tambm gosta de aprender. Eu acho que ele volta logo.
    - Que bom! Ele  to animado.
    - Vamos dormir, que j  tarde.
    Nico foi para o quarto, deitou-se e logo adormeceu. No meio da noite acordou com Eurico em p do lado de sua cama:
    - Nico, acorde. Ele est no quarto e eu estou com medo.
    
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    - Ele quem?
    - A alma do coronel Firmino. Ele puxou meus lenis e eu acordei sentindo um ventinho frio. Logo o vi nos ps da cama me olhando com aqueles olhos de fogo. No 
volto mais l, vou dormir aqui com voc.
    Nico sentou-se na cama.
    - Bobagem, Eurico. Ele pode vir aqui tambm. Sabe o que eu acho?
    Que est na hora de voc perder esse medo. Afinal ele aparece, incomoda a Liana, voc, no me deixa dormir e no diz o que quer. Vamos l acabar com isso.
    Nico levantou-se e Eurico agarrou-o pelo brao:
    - Est louco? Eu  que no vou l ver a cara dele.
    -  uma alma penada. Est vagando e no tem poder de nos fazer nenhum mal. O professor disse isso e eu acredito. Ela s aparece e assusta quem tem medo.
    - Eu fico todo arrepiado s de falar nele.
    - Vamos l, Eurico. Se ele ainda estiver no quarto, vamos conversar. Eu quero perguntar o que ele quer, por que ele aparece aqui. Depois,  s fazer o que ele 
pedir e ele nunca mais volta para assustar ningum.
    - Voc teria coragem? E se ele nos atacar?
    - O professor disse que ele no pode. Que, se ele quisesse atacar e pudesse, j teria feito isso. Vamos l, Eurico, acabar de vez com essa histria.
    - Puxa, Nico, voc  corajoso!
    - Sou mesmo. Vamos indo.
    Ele segurou a mo de Eurico e foi andando em direo ao outro quarto. Eurico resistia.
    - E se ele ainda estiver l?
    - Vamos ver. Est vendo? Ele j foi embora. S de falar que no tenho medo dele, j o espantou. Deite-se e trate de dormir.
    - , ele no est aqui mesmo. Mas pode voltar. Vou deitar, mas voc vai ficar comigo em minha cama.
    - Eu fico at voc dormir.
    Eles se acomodaram e Eurico foi se acalmando, e logo os dois pegaram no sono. De repente, Eurico sacudiu Nico, dizendo:
    - Acorde, Nico. Olhe ele a de novo!
    Nico abriu os olhos e no viu nada.
    - No estou vendo nada. Voc sonhou.
    - No sonhei, no. Olhe ele a, rindo e me apontando o dedo. Estou com medo.
    
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    Eurico deitou-se e cobriu a cabea com o lenol. Nico tentou descobri-lo, mas ele segurava com fora.
    - Vamos, tire esse lenol, vamos conversar com ele.
    - Eu estou de olhos fechados mas ainda o estou vendo! Como pode? - Nesse caso, de nada vale o lenol. Vamos, Eurico.
    Enfim Nico conseguiu descobrir a cabea de Eurico, que de olhos fechados, agarrado, tremia de medo.
    - Onde ele est?
    - Nos ps da cama.
    Nico olhou para os ps da cama e disse em um tom firme:
    - Voc  uma alma penada. Eu esconjuro. Est incomodando todo mundo. Por que est aqui? O que quer? Fale comigo e diga. No estou vendo voc. Fale para o Eurico.
    O menino agarrou-se mais a Nico.
    - Ento? Preste ateno, Eurico. Ele est dizendo alguma coisa? - Ele est me ameaando. Diz para voc no se meter na vida dele. - Eu quero ajudar. Ele j morreu 
e no pode mais fazer coisas neste mundo. Mas eu posso fazer por ele,  s falar.
    - Ele est rindo e diz que ns no vamos fazer o que ele quer. - Repita tudo que ele est falando.
    - Est bom. Ele diz: eu quero Mariquita aqui comigo. Fiquei esperando durante muito tempo e, agora que ela est de volta, nunca mais a perderei. Ela vai vir 
para c, morar comigo aqui.
    - Aqui no tem nenhuma Mariquita - respondeu Nico. - S tem a Maria, que  empregada.
    - No sei quem  essa. Eu quero Mariquita. Ela  minha e no vai fugir de novo.
    - No estou entendendo o que voc fala. Desse jeito no vou poder ajudar. Precisa explicar melhor. Quem  a Mariquita?
    - Minha mulher. Quando ela morreu e se foi, fiquei sem saber onde ela estava. Quando morri, fui procurar e no a encontrei. Fiquei aqui.
    Eu sabia que um dia ela voltaria para casa.
    - Ela voltou? - perguntou Nico.
    - Voltou. Ela me viu perto da escada, mas ficou com medo de mim.
    Foi porque eu a prendi no quarto, mas agora no vou mais fazer isso.
    - Ela tambm  alma penada, como voc?
    - No. Ela est escondida em outro corpo, mas isso no adianta nada.
    Eu sei que  ela e a vejo como ela era. Eu tenho de ir agora, mas eu volto. No se metam mais em minha vida, seno vo se arrepender.
    
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    - Espere, vamos continuar conversando.
    - No adianta - esclareceu Eurico. - Aquela mulher apareceu e o levou. Foi embora.
    - Puxa. Eu precisava saber mais. No entendi bem o que ele disse. - Eu falei que no ia adiantar. Ele no est dizendo coisa com coisa. Est querendo enganar.
            - No sei. Ele falou que a tal da Mariquita voltou. Ser a mulher que voc viu?
            - Acho que no, porque ele fica contrariado quando ela aparece.
            - Ele disse que a Mariquita se escondeu no corpo. O que ser que isso ?
    - Sei l.  muito complicado. Voc quase me matou de medo. - Mas viu? Ele no fez nada de mais. Respondeu tudo.
    - Mas disse que vai voltar. Isso de falar no adiantou.
    - Porque ele no explicou direito. Quando ele fizer isso, no volta mais.
    - Se fosse verdade, seria muito bom.
    - Claro que . Agora vamos rezar para o nosso anjo da guarda.
    Sempre  bom.
            Os dois ajoelharam-se e rezaram pedindo proteo. Depois Eurico pediu:
            - Mas voc vai ficar aqui comigo!
            - Est bem! - concordou Nico deitando-se. - Estou com tanto sono!
            Eurico deitou-se e dentro de alguns minutos eles estavam dormindo, e desta vez nada mais os acordou.
    
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    Captulo 11
    
    
    O professor voltou uma semana depois e foi recebido com gentileza por Eullia. Depois da conversa que tivera com o marido sobre o casamento de Liana, ela pensava 
que estivera enganada, que o professor no estava apaixonado por sua irm, no oferecendo perigo para a realizao de seus planos.
    Na sala, cercado pelas crianas que o abraavam com alegria, ele considerou:
    - Estava com saudade. No via a hora de voltar.
    - As crianas viviam perguntando quando voc voltaria - disse Liana sorrindo.
    - No falavam em outra coisa. Tinham receio de que decidisse ficar na cidade - tornou Eullia.
    - Isso no. Gosto daqui. J me habituei a esta vida calma. Hilda apareceu na porta e Eullia tornou:
    - Est na hora do lanche.
    As crianas, excitadas com a chegada de Alberto, no queriam ir, mas Eullia insistiu:
    - Vo, sim. Enquanto isso, queremos conversar um pouco com ele. Hilda vai mandar servir caf com bolo para ns.
    - Voc no vai embora, vai? - indagou Eurico, ansioso.
    - Vai esperar? - ajuntou Amelinha.
    - Vou. Acham que eu perderia esse caf com bolo?
    Eles riram e foram para a copa. Sentados na sala, Eullia tornou: - Voc deve estar cansado. Se desejar ir embora, ns entendemos. - No. Eu quero mesmo conversar 
com eles, programar nossos estudos. Dentro em breve eles prestaro mais alguns exames.
    - A notcia da morte de sua esposa apanhou-nos de surpresa. Desejamos expressar nossos sentimentos.
    - Obrigado, Dona Eullia. Norberto foi muito atencioso e ajudou-me a suportar esse momento desagradvel.
    - Estavam separados havia muito tempo? - indagou Eullia.
    - Uns quatro anos, mais ou menos.
    - Mudemos de assunto - props Liana. - Estamos sendo indiscretas.
    
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    - Absolutamente - respondeu ele. - A curiosidade  natural. Falar nisso no me incomoda. Eugnia era uma mulher ciumenta, dominadora, inquieta, nervosa. Possua 
um temperamento muito diferente do meu. Quando me certifiquei disso, optei pela separao. Nossa vida em comum era um inferno. Ela era infeliz a meu lado e infelicitava 
minha vida tambm. Preferi ficar s. Nunca ocultei esses fatos.
    - Parece que ela o amava muito e nunca se conformou. No  fcil para uma mulher ser abandonada - considerou Eullia, pensativa. - No era amor o que ela sentia 
por mim. Era paixo.
    - Paixo  mais do que amor!
    - No, Dona Eullia. O amor de verdade no aprisiona o ser amado, nem o atormenta. A paixo, sim,  como um vcio: quanto mais voc d, mais a pessoa quer e 
nunca est saciada. Eu no desejo me apaixonar nunca e no quero que ningum se apaixone por mim. Nunca mais.
    - Pretende passar o resto da vida sozinho? - indagou Eullia, admirada.
    - No sei. Estou bem como estou.
    As crianas voltaram e rodearam o professor, conversando entusiasmadas. Ele se levantou e foi com elas para a sala de aula.
    Eullia no se conteve:
    - Esquisito esse professor. Pensa diferentemente de todo mundo. -  um homem inteligente.
    - Norberto disse que o sogro no gosta dele e o culpa pela morte de Eugnia. Acha que ela se atirou embaixo do carro de propsito. Ser?
    - Uma mulher desequilibrada, como ele disse que ela era, pode bem ter feito isso mesmo. Mas ele no tem culpa.
    - Se estivesse ao lado dela, talvez ela no houvesse morrido. Liana abraou a irm, dizendo:
    - Pois eu acho que ela faria do mesmo jeito. As pessoas que se deprimem esto sempre procurando desculpas para se fazerem de vtimas. Se ele estivesse com ela, 
iria dizer que ele no a amava, que no lhe dava o carinho que ela queria. No, Eullia, o problema dessa mulher no era o fato de ele a haver deixado, mas sua tendncia 
a querer tudo do seu jeito, o fato de no se conformar quando as coisas no eram como ela planejara. Se ela se suicidou para punir o marido, s conseguiu punir a 
si mesma.
    - Parece que ele no se sente culpado mesmo.
    - Por que se sentiria?
    - Ele se casou com ela. Jurou am-Ia, proteg-Ia pelo resto da vida.
    
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    - Essa  uma iluso. Quem  que pode garantir que vai amar uma pessoa pelo resto da vida? E se o amor acabar?
    - Resta o dever, a palavra empenhada.
    - Eu no gostaria de viver com um homem que ficasse a meu lado por haver empenhado sua palavra. Eu me sentiria humilhada.
    - Pois eu no. Se Norberto chegasse e dissesse que iria me abandonar, eu faria tudo para que isso no acontecesse. Ele tem a obrigao         de manter a unio 
da famlia.
    - Mudemos de assunto.
    - Por qu? Vamos ser prticas. Quando me casei com Norberto, no o amava. Mas agora, se ele quisesse pular fora, eu no permitiria. Onde j se viu? Tirou-me 
da casa de meus pais, arranjou dois filhos e depois largaria tudo com essa desculpa de amor?
    - Ele nunca faria isso. Vive para a famlia.
    - . Tem razo.
    Liana respirou fundo. A situao que estava vivendo oprimia-a. Precisava ganhar foras para poder sair de casa e acabar de vez com aquela angstia.
    Na sala de estudos, o professor depois de programar as matrias para a aula do dia seguinte despediu-se.
    - Professor, o senhor vai passar perto da casa da minha me? - indagou Nico.
    - Vou, Nico. Quer alguma coisa?
    -  que eu vou at l ver como andam as coisas.
    - Pode ir comigo.
    - Voc volta logo? - indagou Eurico.
    - Antes de escurecer.
    Eles saram, e uma vez no carro o professor considerou:
    - Eurico no fica sem voc.
    - Ele tem medo da alma do coronel.
    - Ele tem aparecido?
    Nico relatou a ltima experincia, quando tentara conversar com o coronel Firmino.
    Alberto interessou-se muito:
    - Tem certeza de que ele disse mesmo tudo isso?
    - Tenho. Ns ficamos tentando entender o que ele queria dizer. Mas acho que ou o Eurico no ouviu bem ou ele est muito confuso e no explicou direito.
    - Vou lhe pedir uma coisa. Leve um caderno e um lpis para o quarto.
    
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    Se acontecer isso de novo, escreva tudo quanto Eurico lhe disser. Entendeu?
    - Entendi. Mas, mesmo sem escrever, tenho boa memria. Sei cada palavra que ele disse naquela noite.
    - No estou duvidando de voc. Mas ser melhor escrever. Voc est certo. Se descobrirmos o que ele deseja, se pudermos conversar com ele, talvez possamos conseguir 
que ele v embora e deixe de assustar os outros. Liana vive apavorada.
    - O Eurico tambm. Eu queria v-lo, mas s o Eurico v.
    - Porque ele tem essa capacidade. Algumas pessoas conseguem ver outras dimenses da vida alm da faixa de nossos cinco sentidos. - Ele no gosta. Sente medo.
    - Porque no entende como isso se d. As pessoas criam muitas fantasias com relao aos mortos.
    - Tambm acho. Eu no sinto medo.
    - Isso mesmo. Chegamos. At amanh, Nico.
    - At amanh, professor, e muito obrigado.
    Nico desceu e Alberto continuou seu caminho, pensativo. O esprito do coronel Firmino dissera claramente que sua mulher estava de volta  manso em outro corpo. 
Estaria falando de reencarnao? Fora Liana quem o vira perto da escada. Seria Liana a reencarnao da mulher do coronel?
    Ele a queria com ele. Estaria pretendendo que ela morresse? No acreditava que ele pudesse literalmente tirar-lhe a vida, mas poderia roubar-lhe energias para 
domin-Ia e arruinar-lhe a sade, aproveitando-se das fraquezas dela.
    Liana andava muito debilitada ultimamente, desde que vira o coronel. Teria uma coisa a ver com a outra? Nico estaria descobrindo a verdadeira causa dos problemas 
de Liana?
    Precisava ter certeza. Mas como? S Eurico via o coronel, e acontecia durante a noite, quando ele no se encontrava na casa. Quanto mais pensava no assunto, 
mais suspeitava que isso fosse mesmo verdade.
    A pressa de Liana em abandonar aquela casa no estaria tambm relacionada com isso? Embora ela tivesse problemas com Norberto, ele ficava fora a semana toda 
e quando estava em casa era discreto. Bastava ela cortar definitivamente o lao com ele e pronto, estaria tudo resolvido. Ele no se atreveria a insistir. Ficaria 
at mais calmo sabendo-a livre. Com o tempo, a situao poderia se resolver sem que ela precisasse partir para um casamento sem amor.
    
    156
    
     medida que pensava no assunto, mais se convencia de que Nico havia descoberto o fio da meada. Se Liana fora mesmo a esposa do coronel, e ele estivesse procurando 
lev-Ia ao desencarne acreditando que assim a teria a seu lado, tudo ficava claro: a fraqueza dela, a angstia, a vontade de fugir, o mal-estar que a acometia de 
vez em quando e do qual os mdicos no conseguiam descobrir a origem.
    Ele havia estudado os processos de obsesso por espritos desencarnados e sabia que em determinadas circunstncias eles podiam obter xito. O fato de Liana haver 
se envolvido com o cunhado e sentir-se culpada, acreditando que precisava ser punida por isso, baixara o teor de suas energias e permitira o envolvimento do esprito 
do coronel. Se ela houvesse compreendido que esse caso no fora proposital, se rompesse com ele sem se sentir culpada, o coronel nada teria conseguido.
    Alberto sabia que cada ato  medido pela atitude que o determinou, no pelo fato em si. E o pior  que ela no havia ainda superado o caso e, por isso, a cada 
dia mais o coronel a dominava. Uma coisa era certa: ela precisava mesmo sair daquela casa. No tinha certeza se isso seria o bastante. O esprito do coronel estava 
ligado a ela e poderia acompanh-Ia quando ela sasse.
    Alm disso, ela precisava receber ajuda espiritual de pessoas que entendessem e pudessem esclarecer o esprito do coronel e afast-Ia. Como fazer isso? Eullia 
era catlica e nunca permitiria que ele sequer falasse no assunto. Seria difcil convencer a prpria Liana.
    Ele no podia contar que fora Eurico quem se comunicara com a alma do coronel. Conhecia Eullia. Ela seria at capaz de afastar o filho de Nico, suspender as 
aulas, e tudo estaria pior. Quanto a Norberto, talvez fosse mais receptivo, mas como tocar no assunto sem revelar o que sabia?
    Alberto foi para casa e no conseguia pensar em outra coisa. Afinal, ele no tinha nada com isso, por que se preocupava tanto? Talvez fosse melhor deixar tudo 
como estava e no se envolver. Gostava da vida que estava levando, o dinheiro das aulas permitia-lhe escrever com calma seus livros, sem se preocupar com as despesas 
do dia-a-dia. Depois, gostava dos meninos e queria ensin-Ios a viver melhor, ajudando-os a descobrir e desenvolver seus talentos.
    Entretanto, apesar de pensar nisso, nos dias que se seguiram Alberto no conseguia esquecer. Liana estava abatida, desanimada, cansada, sem vontade, o que preocupava 
Eullia, que procurava entusiasm-Ia para marcar nova data para o casamento. Contudo, vendo-lhe o semblante plido, no insistia.
    
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    Mrio mostrava-se triste, e Alberto notava que ele a cada dia ficava mais calado, notando a indiferena de Liana, que, apesar de esforar-se em receb-Io com 
alegria, no conseguia disfarar o que lhe ia no corao.
    Foi Norberto quem conversou com Eullia:
    - Acho que est na hora de resolver esse noivado. Liana no est apaixonada por Mrio e ele est cada dia mais triste. Qualquer um pode ver isso. Ela no gosta 
dele, e esse noivado pode ser a causa de seu abatimento.
    - Que idia, Norberto! Ningum a obrigou a nada. Se ela quiser, pode acabar com isso. Claro que ela gosta dele! O fato  que Liana est doente e os mdicos no 
conseguem descobrir o que ela tem.
            - Ela poderia ir passar algum tempo em So Paulo. Precisa de distraes. Vive metida em casa.
    - J sugeri, mas ela no quer. S vai se eu for. E eu no posso ir, levar Eurico para l. Ele est melhorando tanto! Tenho medo de que l ele volte a sentir-se 
mal. O clima no  bom como o daqui.
    - Ela est mais abatida a cada dia. Temos de fazer alguma coisa.
    - Tambm acho. Mas o qu?
    Ele no soube responder. Sentia-se culpado. Deveria ter se controlado. Liana no conseguia suportar o remorso. Ele acreditava que era isso que a estava perturbando. 
Estava arrependido, mas o que fazer? No podia voltar atrs.
    Dias depois, Alberto estava no jardim com as crianas estudando cincias quando foram surpreendidos por um grito vindo de dentro da casa. Correram assustados, 
e Maria, que passava pela copa, explicou assustada:
    - Dona Liana desmaiou. Est l na sala, parece morta!
    Eles correram para a sala onde Liana estava estendida no sof enquanto Hilda e Eullia tentavam reanim-Ia, esfregando seus pulsos, tomando a temperatura.
    Vendo-os chegar, Eullia tomou:
    - J mandei chamar o Dr. Marclio.
    Nico aproximou-se do professor, dizendo-lhe baixinho:
    - O Eurico est vendo o coronel do lado dela! Est morrendo de medo! Vou lev-Io embora.
    Eurico puxava Nico pela mo e estava plido. Eullia notou e pediu: - Hilda, leve os meninos embora.
    - Pode deixar - disse Alberto -, eu saio com eles.
    Uma vez na copa, pegou um copo com gua e deu a Eurico, dizendo:
    - No tenha medo. Ele no pode lhe fazer mal.
    
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    O menino bebeu a gua e seus olhos encheram-se de lgrimas quando disse:
    - Ele a estava segurando. Eu vi. Ela no queria ir com ele, estava com medo, mas ele a estava obrigando. Ele quer lev-la embora! Por favor, professor, no deixe 
que ele leve tia Liana! Ajude!
    - Ele no vai lev-la. Acalme-se, Eurico. Vamos dar as mos e rezar. Juntos havemos de afast-lo de Liana.
    Sentaram-se ao redor da mesa e deram-se as mos enquanto o professor murmurava uma prece, pedindo ajuda para Liana. Quando terminou, ele disse:
    - Lembre-se, Eurico. Deus tem todo o poder. Quando sentir medo, pea ajuda. Sente-se mais calmo agora?
    - Sim. Eu vi que aquela mulher apareceu e o levou embora.
    - Como  que voc viu se a tia est na sala e ns estamos aqui? estranhou Amelinha.
    Foi Alberto quem respondeu:
    - Isso  possvel porque Eurico enxerga com os olhos da alma e, nesse caso, pode ver atravs das paredes.
    - Puxa! - disse Nico. - Eurico tem esse poder?
    - Tem, sempre que ele estiver enxergando com os olhos da alma.
    - Eu tambm quero enxergar com os olhos da alma! - reclamou Amelinha.
    - Pois eu no queria ver nada disso - respondeu Eurico.
    - Porque voc  medroso! - retorquiu ela.
    - S porque ele no sabe bem como isso acontece - disse Nico.
    -  verdade. Quando ele compreender melhor essa sua capacidade, vai perder o medo. Principalmente quando perceber o quanto est ajudando Liana a sarar. Ela no 
est doente do corpo, e por isso os mdicos no sabem cur-la. Ela est sendo subjugada por uma alma do outro mundo. Para isso temos de usar outros mtodos.
    - Minha me no acredita. Se eu contar, ela me leva ao mdico de novo.
    - Por isso temos de pensar em um outro jeito. Fiquem aqui, que vou ver como ela est.
    Ele voltou  sala e Liana, plida, estava sentada no sof enquanto Eullia tentava faz-la engolir um ch que ela recusava.
    - Meu estmago est enjoado. No quero tomar nada agora. Depois eu tomo.
    - Est bem. Vamos esperar um pouco. E o mdico, que no chega?
    
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    - Estou melhor. No precisava incomodar o Dr. Marclio.
    - O certo mesmo era voc ir a So Paulo ver o Dr. Caldas. Esses mdicos do interior no sabem nada. At agora ele no conseguiu cur-Ia. Vem com uma conversa 
maluca de m influncia, etc. No confio nele.
    - O Dr. Marclio  muito considerado. Tem curado muita gente, Dona Eullia - disse Alberto.
    - Um mdico da roa. Se ele fosse bom, estaria na capital, teria subido na vida. Mas no temos outro remdio seno cham-Io.
    Enquanto Eullia ia at a copa ver as crianas, Alberto sentou-se na poltrona ao lado do sof, perguntando:
    - Conte, Liana, o que voc sentiu?
    - Eu estava bem. Um pouco desanimada, mas a isso j me acostumei. Minha vida  assim mesmo. De repente senti uma tontura e perdi os sentidos.
    - No se recorda do que aconteceu enquanto esteve desmaiada?
    - No. S sei que acordei oprimida, apavorada. TIve a sensao de que algum me agarrava e eu queria fugir.
    - E agora, sente-se melhor?
    - Sim. Estou bem. S um pouco assustada. E se acontecer de novo? - O que voc precisa  decidir sua vida. Acabar com esse noivado, assumir sua profisso e esquecer 
o passado.
    - Est difcil.
    - Engano seu. Voc pode assumir o controle de sua vida. Esquea o que passou e j no tem remdio. O que importa  o que voc est fazendo de sua vida agora. 
Acredite: s voc pode mudar sua vida. Enquanto ficar na culpa, na depresso, no desgosto, julgando-se errada, vai atrair o mal. Precisa reagir, tentar sair dessa 
tristeza, confiar no futuro, lutar para conseguir felicidade. No se entregue assim, como se fosse incapaz. Voc  uma mulher forte, chela de qualidades, tem de 
reaver sua alegria.
    . - No consigo.
    Eullia voltou em companhia do mdico. Alberto levantou-se e depois de cumpriment-Io afastou-se para que ele examinasse Liana. Ficou. No jardim com as crianas 
e, quando o Dr. Marclio saiu, mela hora depois, ele perguntou:
    - E ento, doutor?
    O mdico fez um gesto evasivo.
    - O caso dela torna-se difcil, porquanto eles no acreditam na verdadeira causa do problema.
    Alberto interessou-se:
    
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    - Sabe qual ?
    - Sei. Mas esse  um assunto delicado. Se me permite, preciso ir.
    Estou sem carro e tenho hora em casa.
    - Posso lev-lo com o maior prazer. Precisamos conversar. Espere s eu me despedir.
    Alberto entrou, despediu-se e, uma vez no carro com o mdico, foi direto ao assunto:
    - Liana est sob a influncia de um esprito desencarnado.
    - Voc notou?
    - Sim. O esprito do coronel Firmino. Ele a est molestando e, segundo sei, quer lev-Ia. Diz que ela  sua esposa.
    - Ento  isso! Bem que eu desconfiei. Mas no tinha certeza de que era ele. Como  que sabe disso?
    Alberto contou-lhe como descobrira e Marclio no se conteve: - Que mediunidade desse menino!
    -  verdade. Mas os pais no aceitam e por isso ele no recebe esclarecimentos. Fica apavorado. Sua sade  delicada e, se no fosse por Nico, poderia ficar 
pior.
    O mdico balanou a cabea pensativo:
    - No sei como poderemos ajudar. Tenho alguns amigos mdiuns e reunimo-nos em minha casa duas vezes por semana para contatos espirituais. Vou colocar o nome 
dela no livro de oraes.
    - Isso  timo, mas penso que, no ponto em que est, o caso dela precisa de um atendimento mais direto. Liana est com problemas emocionais, tem um desgosto 
e se deprime. Por isso ele consegue domin-Ia.
    - Se as pessoas soubessem que quando entram na queixa, na culpa, na depresso, baixam o teor de suas energias e se tornam presa fcil dos espritos infelizes, 
nunca se deixariam levar pela tristeza. Estariam sempre lutando para manter a alegria, mesmo quando os acontecimentos no so como elas gostariam.
    - Fico feliz em encontrar algum que pensa como eu. Gostaria muito de ir s suas sesses.
    - Quinta-feira  noite, estaremos reunidos s sete horas. Aparea em casa. Ser bem-vindo.
    - Obrigado. Irei.
    Depois que deixou o mdico, Alberto no conseguiu parar de pensar no assunto. O caso de Liana era grave. Se ele no conseguisse ajud-la, o coronel poderia conseguir 
o que pretendia. No dia seguinte tentaria falar com Eullia. Ela precisava compreender.
    
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    Entretanto, ela no entendeu. Assim que ele comeou a falar em influncias espirituais, ela foi logo dizendo:
    - Com certeza foi o doutor quem colocou essas idias em sua cabea. No quero ouvir nada desse assunto em minha casa. Meu filho  de sade delicada. Tem alucinaes 
e isso lhe tem minado a sade. Se quiser continuar vindo a esta casa, nunca mais fale nisso.
    Alberto calou-se. Nesse instante teve a sensao de que um vulto passava rindo ao lado dele. Voltou-se rpido, mas no viu nada. Sentiu vrios arrepios. Teve 
certeza de que o esprito do coronel estivera ali, ouvindo-os conversar.
    Voltou para casa e no pde dormir. Por mais que desejasse esquecer Liana e repetir que nada poderia fazer para ajud-la, ela no lhe saa do pensamento. Levantou-se 
de madrugada, abriu a janela e respirou o ar fresco que vinha de fora. Depois, olhou o cu cheio de estrelas. Dirigiu a Deus ardente prece pedindo que o inspirasse 
em como proceder. Quando terminou, deitou-se e finalmente conseguiu dormir.
    Na manh seguinte, depois da aula, foi ter com Liana na sala.
    - Sente-se melhor? - indagou.
    Ela sorriu levemente.
    - Sim.
    - Podemos conversar um pouco?
    - Claro.
    - O que lhe disse o mdico?
    - Bom, ele veio com aquela conversa de sempre. Que estou sob a influncia de um esprito e que os remdios no vo me ajudar.
    - Voc no acha que ele pode ter razo?
    - No sei. Parece um tanto fantasioso. Um mdico no pode falar essas coisas.
    - Voc sabe que Eurico viu o esprito que a fez desmaiar?
    - Viu? O que foi que ele viu? Ele falou para Eullia?
    - Ele tem medo de que ela lhe d remdios. Por isso, ficou calado.
    S falou para Nico.
    - Nico tambm viu?
    - No. Estou lhe contando, mas peo que no fale nada  sua irm. Ela me proibiu de tocar nesse assunto. Se souber o que estou lhe contando, despede-me.
    - Ela no gosta de falar nisso mesmo.
    - Mas eu tenho de lhe falar. No posso deix-Ia nessa situao e me omitir.
    
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    - Mas Eurico tem alucinaes. No pode acreditar no que ele diz. - Voc tambm viu um esprito. J esqueceu?
    - Nunca vou esquecer. Foi horrvel.
    - Para Eullia foi uma alucinao. Voc acha que foi?
    - No. Eu o vi. Ele estava l, perto da escada. Fico arrepiada s em lembrar.
    - Eurico v sempre e ningum acredita. J pensou como ele sofre com isso?
    - Se tudo que ele dizia for verdade... puxa... pode ser mesmo.
    - Eu tenho certeza. Ele viu o mesmo homem que voc e diz que ele quer lev-la para o outro mundo.
    - Quer me matar?
    - Sim. Ele quer que voc v viver ao lado dele.
    - Que horror! Tenho pavor dele.
    - Nesse caso tem de reagir, lutar para reconquistar sua alegria, afastar sua influncia.
    -  isso que no consigo. Eu tento, mas quando Mrio aparece sinto vontade de fugir.
    - Escute. Tenho um plano. Se concordar, ficar livre de tudo isso. - De que forma?
    - Case-se comigo. Sou vivo agora. Nosso casamento ser apenas de aparncia. S para que voc deixe esta casa. Depois de algum tempo, quando estiver bem, houver 
resolvido o que fazer de sua vida, ns nos separaremos. Voc ir para onde quiser. Estar livre.
    - Faria isso por mim?
    - Gosto de voc. Desejo ajud-la. Se ficar aqui, nunca sair dessa situao angustiosa.
    - No posso aceitar. Iria arruinar sua vida.
    - Por qu? Sou livre. No pretendo mais me casar. Depois,  s por algum tempo. Crela, Liana,  a nica forma de voc resolver todos os seus problemas. Uma vez 
em minha casa, estaremos livres para procurar a ajuda espiritual de que voc precisa.
    - S em pensar em libertar-me do compromisso com Mrio, sinto-me mais leve.
    - Ento! Pense em minha proposta. Acabe com esse noivado e poderemos nos casar e resolver tudo sem que voc precise ir viver com algum que no ama.
    - Vou pensar.
    - Ficarei feliz se aceitar.
    
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    Naquela noite, Nico acordou com Eurico sacudindo-o:
    - Nico! Nico! Ele est l de novo.
    Nico levantou-se e foram para a cama de Eurico.
    - Ele est a mesmo?
    - Est.
    - Vou pegar o caderno e o lpis.
    - No me deixe sozinho com ele.
    - Est aqui, na gaveta da sua mesa.
    Eurico deitou-se, cobriu a cabea e Nico tomou:
    - Por que cobre a cabea? No adianta mesmo.
    - Sei l. Assim acho que fico mais protegido. Ele est rindo e dizendo que vai me perseguir a vida inteira.
    - Vai nada. Deus no vai deixar. Olhe aqui, seu coronel, voc morreu e no tem o direito de vir assustar os vivos. Se no parar com isso, vou chamar aquela mulher 
e ela leva voc embora j. Voc assusta o Eurico, mas eu no tenho medo de voc. Por que no aparece para mim!
            - Ele disse que voc  bobo e que precisa sair do caminho dele. J chega o que voc fez com ele.
            -  mentira dele. Eu nunca o conheci.
            - Ele disse que voc esqueceu, mas ele no. Que voc ainda vai pagar por isso.
            - Ele quer me assustar, mas eu no tenho medo. No acredito em nada que ele fala de mim.
            - Ele disse que um dia vai provar, que  melhor sair do caminho dele.
            - Enquanto ele no deixar de perseguir as pessoas desta casa, eu no vou sair.
    - Ele disse: d um recado quele professorzinho de mela-pataca que no tente se meter, seno vai sobrar para ele. Que ele no vai permitir o casamento.
    - Ser o casamento com o Dr. Mrio?
    - No.  o casamento com o professor.
    - Com o professor? Tem certeza? Quem vai se casar com a Liana  o Dr. Mrio.
            - Ele disse: d o recado e no se meta. Ele nunca vai se casar com Liana. Eu vou impedir. Voc vai ver.
    - J escrevi. O que mais ele disse?
    - Mais nada. Ele sumiu.
    - Puxa! Acho que ele no est dizendo coisa com coisa. Tem certeza que ele falou tudo isso mesmo?
    
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    - Tenho. Eu escutei tudinho.
    - Bom, nesse caso no estou entendendo nada. Ele foi embora mesmo?
    - Foi.
    - Ento vamos dormir. Estou com muito sono.
    - Deite-se a do meu lado. No quero ficar sozinho.
    - Est bem. Vou ficar at voc pegar no sono. Depois vou para minha cama. Sua me no gosta que eu durma no seu quarto.
    Nico esperou e, quando percebeu que Eurico estava dormindo, levantou-se e foi para sua cama.
    Na manh seguinte, quando mostrou ao professor o que havia escrito, Alberto emocionou-se. Aquela era uma prova conclusiva de que Eurico realmente via o esprito 
do coronel. Ningum sabia nada a respeito da proposta de casamento que ele fizera a Liana. As crianas nunca poderiam ter inventado aquele recado. Estava no caminho 
certo. Realmente o coronel estava ao lado de Liana, ouvindo tudo, tentando manter seu domnio sobre ela.
    Claro que ele iria tentar atrapalhar o casamento. Sabia tambm que Eullia no iria gostar da idia, uma vez que preferia Mrio e sempre demonstrava seu interesse 
em ver Liana casada com o engenheiro. Parecia-Ihe tambm que ela, apesar de trat-Io com afabilidade, no o desejava como cunhado. Iria opor-se, com certeza. Havia 
ainda Norberto, que, fosse qual fosse o pretendente de Liana, estaria contra.
    Apesar de tudo isso, ele pensava que podia contar com o mais importante, que era a ajuda espiritual. Era um homem de f, interessado em ajudar uma pessoa. Alm 
do mais, pediria o apoio do Dr. Marclio, j que contava com ele para tratar espiritualmente de Liana, quando ela estivesse em sua casa.
    Por isso, o recado do coronel no o preocupou. Ele confiava e sabia que o bem  sempre mais poderoso do que o mal. Se ele estava no bem, quem poderia venc-Io?
    
    165
    
    Captulo 12
    
    
    Alberto chegou em casa disposto a encontrar um jeito de levar adiante seu plano. Tinha certeza de que, se conseguisse tirar Liana daquela casa, poderia, com 
a ajuda espiritual, libert-Ia daquela obsesso. Entretanto, diante das dificuldades que certamente encontraria, precisava de apoio.
    Lembrou-se que era quinta-feira. Consultou o relgio: seis horas. Tinha tempo para tomar um banho e ir para a casa do Dr. Marclio.
    Faltavam quinze para as sete quando ele tocou a campainha da casa do mdico. Foi recebido pela esposa dele, que imediatamente o conduziu  sala, onde algumas 
pessoas conversavam alegres. O mdico abraou-o apresentando-o aos presentes:
    - O professor veio para participar de nossa reunio.  um estudioso do assunto.
    Depois dos cumprimentos, sentaram-se ao redor da mesa, sobre a qual havia uma toalha bordada, alguns livros de Allan Kardec, papel, lpis, uma bandeja com uma 
jarra de gua e alguns copos.
    Alberto sentiu-se bem naquele ambiente. A sala simples porm mobiliada com gosto era muito aconchegante. Havia flores nos vasos e as pessoas mostravam-se muito 
agradveis.
    Todos sentados ao redor da mesa, Marclio abriu um livro e leu um trecho. Depois cada pessoa comentou o tema. Por fim, as luzes apagaram-se, ficando acesa apenas 
pequena lmpada azul. Adlia, esposa do mdico, proferiu ligeira prece, solicitando a ajuda dos espritos superiores para todos os presentes, trazendo esclarecimentos 
e orientao.
    Imediatamente uma das senhoras suspirou fundo e em seguida comeou a falar:
    - Finalmente conseguimos reuni-Ios todos aqui. Sinto-me grata por isso. Saber que posso contar com a ajuda de vocs emociona-me e enternece-me.  a primeira 
vez que venho, trazida pelo carinho do Dr. Neves, mentor deste trabalho. Ele se prontificou a ajudar-me a vencer nesta luta em que venho me empenhando h muitos 
anos. Para que possam me entender, preciso contar o drama que envolveu nossas vidas no passado e que at agora continua nos infelicitando, apesar das oportunidades 
que a misericrdia divina vem nos oferecendo e que alguns dos envolvidos, presos ainda s suas amigas iluses, se recusam a aproveitar.
    
    166
    
    Muitos anos atrs, minha filha muito amada reencarnou em uma importante cidade da Europa, com o esprito cheio de esperana e uma vontade louca de vencer. Ns 
vivemos em um lugar no astral onde a beleza, a arte so fundamentais. L os espritos tm o senso do belo desenvolvido, tendo aprendido a enxergar nas belezas do 
universo a grandeza de Deus.
    Apesar disso, ela precisava desenvolver outros lados de sua personalidade. Reencarnada, procurou a carreira artstica, e conseguiu fama como cantora e atriz. 
Teve sucesso, dinheiro, popularidade. Foi famosa.
    Conheceu um pintor muito talentoso, mas que no foi compreendido em sua poca, no tendo vendido seus quadros em vida e s sendo reconhecido como um gnio muitos 
anos mais tarde.
    Considerando-se fracassado, ele sofria muito, principalmente porque Helena, famosa e rica, custeava suas despesas. Ela valorizava o imenso talento dele e no 
se importava com dinheiro. Tinha certeza de que um dia ele conseguiria o reconhecimento pblico.
    Contudo, ele se sentia infeliz, incompreendido. Mergulhou nas drogas, o que prematuramente o matou. Helena sofreu muito por isso. Ela o amava com loucura. A 
vida sem ele parecia-lhe sem nenhum sentido. Estava grvida, mas nem isso conseguia confort-Ia.
    Afundou-se na bebida, tentando esquecer. Bebia a princpio para poder dormir, depois para poder suportar seu desespero. At que uma noite, no auge de sua loucura, 
atirou-se pela janela do terceiro andar do prdio onde residia.
    Intil dizer de seu sofrimento quando acordou e descobriu que a morte no conseguira destruir seu esprito nem, o que  pior, seu inferno interior. S que agora 
havia o esprito de um jovem agarrado a ela. Era o filho que ela no deixara nascer. Chorando, dizia que a odiava, chamando-a de assassina, cobrando sua necessidade 
de reencarnar que ela cortara com seu tresloucado gesto.
    Apavorada, ela percebeu que em seu egosmo havia assassinado seu prprio filho e que ele lhe cobrava seu direito  vida. Debalde Helena tentou explicar-lhe, 
faz-Io entender sua loucura. Quanto mais ela tentava desculpar-se, mais ele se enraivecia, no lhe dando paz em nenhum momento.
    Fiz o que pude para ajud-los, mas eles haviam escolhido o prprio caminho e nada pude fazer seno os acompanhar e esperar que estivessem prontos para receber 
ajuda.
    
    167
    
    Durante anos, Amadeo e Helena vagaram pelo astral qual duendes enlouquecidos, sem se encontrar, cheios de amargura e desiluso. Por fim, chegou um momento em 
que, cansada, arrependida de seu gesto de revolta, Helena resolveu optar pela paz. Aceitou seus erros e disps-se a esperar que a vida lhe ensinasse o que ela precisava 
aprender.
    Finalmente sentiu-se aliviada. Pensou em Deus, suplicou ajuda, orou por seu filho, implorando que a perdoasse. Abriu seu corao, colocou-se na posio de aceitar 
tudo que Deus lhe mandasse, sem revolta. Descobriu o quanto fora arrogante, pretendendo comandar os desgnios da vida e da morte, colocando seu julgamento frgil 
e deficiente nos fatos imponderveis da sabedoria divina.
    Seu filho acalmou-se, adormeceu, pde ser desligado dela e conduzido a um local de refazimento. Helena foi recolhida a uma colnia de recuperao, onde se esforou 
para melhorar e aprender.
    Entretanto, quanto mais ela melhorava e aprendia, mais a conscincia de seu gesto a incomodava. Descobriu que Amadeo, o homem amado, apesar de ser visto como 
suicida, estava bem melhor do que ela e havia reencarnado. Teve uma encarnao curta, apenas para eliminar resduos e restabelecer o equilbrio de seu corpo astral.
    Com ajuda de amigos espirituais, Helena tomou conhecimento do passado e descobriu que Amadeo e Salvatore eram inimigos havia longa data, tendo sempre se digladiado, 
alimentando um dio que no vem ao caso agora mencionar. Ele havia prejudicado muito Amadeo e tudo fazia para seu fracasso. Por isso, a vida havia programado que 
ele deveria reencarnar como seu filho, e, uma vez juntos, acabar com aquela inimizade. Helena soube que, se Amadeo no houvesse afundado nas drogas e Salvatore tivesse 
tido oportunidade de nascer, tudo teria sido diferente. Amadeo teria tido mais chance de obter sucesso e a alegria de ver suas obras valorizadas em vida. Claro que 
os dois, como pai e filho, teriam problemas de relacionamento, mas o amor filial teria aliviado essas diferenas, transformando-as em amizade.
    Contudo, eles no tiveram pacincia para esperar. Com sua rebeldia, truncaram o bem programado e encontraram a infelicidade.
    A mdium fez ligeira pausa, respirou fundo e continuou:
    - Depois de algum tempo, tanto Helena quanto Amadeo compreenderam que cada pessoa tem uma misso no mundo. Quem reencarna na Terra, enquanto experiencia desafios 
que visam a desenvolver sua conscincia, amadurecendo, deve retribuir os benefcios que essa oportunidade oferece, contribuindo para a melhoria da qualidade de vida 
do planeta, utilizando os dons que j conquistou para isso.
    
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    H os que nascem com o dom de curar, seja na medicina ou na mediunidade, os que possuem sabedoria para facilitar as conquistas sociais; os que tm talento para 
desvendar os mistrios da natureza, descobrindo meios de aliviar o sofrimento humano. H muitas e diversificadas tarefas para as quais o ser  criado. Desempenh-Ias 
bem traz alegria e prazer.
    A ns, artistas, que j desenvolvemos o senso da beleza e da arte, cabe a tarefa de levar as pessoas a perceber a espiritualidade atravs do belo, seja na msica, 
na pintura, na literatura, na arquitetura, na ecologia, enfim, em tudo quanto glorifica a grandeza de Deus e concorre para sensibilizar, embelezar e tornar agradvel 
este mundo.
    Certos de que no haviam realizado esse trabalho, Helena e Amadeo desejaram voltar a nascer, para desta vez cumprir sua misso. Contudo, Salvatore no compartilhava 
da mesma opinio. Continuava cultivando o dio passado, no desejando esquecer, recusando qualquer sugesto deles. Para o sucesso de seus projetos, era imprescindvel 
conseguir pelo menos o perdo de Salvatore. Sem isso, ele, mesmo distante, continuaria enviando energias destrutivas, o que, alm de dificultar a nova vida programada 
para o casal, ainda lhes oferecia o risco de um novo fracasso.
     fcil, quando estamos aqui no astral, imaginarmos uma vida boa na Terra. Mas quando reencarnados, esquecidos do passado, presos s energias viciosas que alimentamos 
sem pensar, tudo se torna muito mais complicado e difcil.
    Por causa disso, eles foram aconselhados a esperar mais um pouco. Salvatore nasceria primeiro, o que os libertaria temporariamente de sua influncia, e eles 
iriam mais tarde. Amadeo reencarnaria dois anos antes de Helena, que nasceria como filha de Salvatore para que ele, pressionado pelo amor de pai, pudesse transformar 
o sentimento que nutria por Helena em amizade.
    Entretanto, com receio de se deixar envolver novamente pelas tentaes da fama e da bebida, Helena pediu para nascer em lugar tranqilo, longe das grandes cidades, 
no que foi atendida.
    Salvatore nasceu na capital de So Paulo, em uma famlia abastada. Desde cedo revelou-se autoritrio e irascvel. Quando se casou, aos vinte anos, comprou uma 
fazenda no interior e mandou construir a manso que vocs todos conhecem nesta cidade.
    Foi nela que colocou sua mulher e a mantinha fechada. Mariquita, jovem de rara beleza, no amava o marido. Casara-se obrigada pelo pai e sua vida era um tormento 
constante, porquanto o coronel Firmino, como Salvatore se tornou conhecido nessa vida, era ciumento, exigente, mal-humorado.
    
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    Suas atitudes feriam a sensibilidade de Mariquita, moa delicada e fina. Entretanto, educada de maneira dura pelo pai, nem sequer pensou em rebelar-se. Passou 
de um senhor a outro e procurou acomodar-se acreditando que a vida era isso mesmo e nada havia para fazer.
    Quando Helena nasceu, deram-lhe o nome de Maria e logo o apelido de Mariinha. Ela se tornou o enlevo de Mariquita, que fez de seu amor pela filha sua razo de 
viver.
    Tudo seguia relativamente calmo quando Mariinha se apaixonou por um jovem filho de lavradores da fazenda, rapaz bonito e cheio de sonhos que tocava e cantava 
com maestria, fazendo serenatas, sonhando com a carreira artstica.
    Foi correspondida. Entretanto, quando o coronel Firmino descobriu, foi acometido de dio. Ele no suportava a presena de ngelo, chamando-o de vagabundo, sem 
profisso, proibindo a filha de v-lo. Mas o casal continuou encontrando-se s escondidas.
    Quando ela descobriu que ia ser me, eles combinaram a fuga. Uma noite, enquanto a manso dormia, Mariinha, levando apenas pequena trouxa com algumas roupas, 
fugiu em companhia de ngelo, deixando um bilhete amoroso para a me.
    Enfurecido, Firmino procurou os dois por toda parte. Mariquita, pela primeira vez na vida, insurgiu-se contra o domnio do marido e tentou fugir para ir ao encontro 
da filha. Ele a prendeu no quarto, ameaando-a de morte caso tentasse fugir novamente, jurando encontrar os dois para vingar-se.
    Tanto fez que descobriu finalmente o casal e contratou dois capangas para matar ngelo e trazer sua filha de volta. Quando os dois homens, empunhando uma arma, 
entraram na pequena casa onde o casal vivia, Mariinha colocou-se entre ngelo e as espingardas e eles tentaram tir-Ia do caminho. No podiam ferir a filha do coronel. 
Enquanto um deles tentava arrast-Ia, o outro se preparava para atirar. ngelo agarrou uma escultura que estava trabalhando na pedra e arremessou-a sobre ele, que 
caiu ao cho disparando a arma, cuja bala se perdeu.
    Os dois rolaram pelo cho enquanto Mariinha lutava como podia, mordendo o outro, resistindo, at que ele, cheio de raiva, a atirou ao cho e ela perdeu os sentidos.
    Depois, vendo que seu colega estava estirado no cho, tirou a faca e pulou sobre ngelo em uma luta de vida e morte.
    ngelo foi ferido. Quando Mariinha recuperou os sentidos, apanhou a arma, fez pontaria e atirou.
    
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    O homem rolou por terra e ela correu para ngelo, que sangrava na altura do ombro esquerdo e no brao. Assustada, ela apanhou um lenol e tentou estancar o sangue.
    - Vamos sair daqui antes que eles acordem. Voc precisa de um mdico.
    - Estou atordoado.
    - Est perdendo muito sangue. Vamos, antes que seja tarde. 
    Abraou-o decidida e saram em busca de ajuda. Socorrido, ngelo quase perdeu a vida, mas conseguiu superar. Entretanto, Mariinha, por causa do choque, perdeu 
o filho, tendo ficado muito mal. Finalmente, recuperados, mudaram-se para So Paulo, onde conseguiram continuar juntos.
    Entretanto, o coronel Firmino no se conformou. Jurava vingana e sempre que podia tentava encontrar os dois fugitivos, sem conseguir.
    Mariquita nunca mais saiu do quarto. Quando ela morreu, ele no queria que tirassem o corpo dela de l para ser enterrado. Foi preciso que as autoridades de 
outra cidade o prendessem para que o enterro pudesse ser realizado.
    Sem disposio para cuidar da fazenda, ele loteou as terras, conservando apenas a casa, onde continuou vivendo de suas lembranas.
    Quando a morte o vitimou, recusou-se a sair de l. Agora que Mariquita est de volta, ele tem a chance de compreender. Para isso, contamos com a ajuda de vocs 
todos, a quem agradeo do fundo do corao.
    A mdium calou-se e o Dr. Marclio perguntou:
    - Como podemos ajudar?
    - Tirando Liana, que  Mariquita reencarnada, daquela casa. Ela foi atrada para l por uma necessidade natural de acabar suas ligaes com o coronel. Bem como 
Amadeo, que  Nico; Amelinha, que  Helena; e Eurico, que  o filho que ela perdeu quando reencarnou como filha do coronel Firmino.
    Juntos no astral, combinamos dissolver velhos ressentimentos, iluses dolorosas que esto dificultando a que todos possam viver melhor.  por isso que agora 
esto todos reunidos naquela casa.
    Alberto no se conteve:
    - Quer dizer que Nico  aquele famoso pintor?
    - Isso mesmo. Seu carisma, seu conhecimento  inegvel. Claro que vem de outras vidas - respondeu a mdium.
    - Quer dizer que estou certo em desejar tirar Liana daquela casa, ainda que precise casar-me com ela?
    
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    - No lhe pedimos tanto, mas, se se dispe a fazer isso, ficarei muito agradecida. Agora, preciso ir. Mas preciso dizer que Firmino vai fazer tudo que puder 
para impedir que Mariquita deixe a casa. Voc precisa ficar atento, manter a ligao conosco, no se deixando envolver pelas dificuldades que surgirem. Estaremos 
a seu lado. No deixe de comparecer s nossas reunies aqui. Juntos haveremos de vencer.
    Alberto, comovido, calou-se. Marclio agradeceu, proferiu ligeira prece e encerrou a reunio.
    Todos os presentes, comovidos em desvendar o passado da manso que eles haviam ouvido contar de diversas formas pelos colonos da regio, prontificaram-se a cooperar 
para que o desfecho pudesse desta vez ser cumprido e o entendimento entre os envolvidos viesse a prevalecer.
            Quanto a Alberto, sentia-se mais do que nunca disposto a envolver-se no caso. Faria tudo para que Liana aceitasse sua proposta.
            Foi para casa disposto a tratar do assunto no dia seguinte. Liana parecia mais fraca e deprimida a cada dia. Tinha de agir o quanto antes.
    Contudo, no dia seguinte no conseguiu falar com Liana. Eullia no a deixara um s momento, preocupada com sua palidez, desejosa de alegr-Ia, tentando conversar.
    No sbado ele combinou uma aula extra com as crianas s para ver se conseguia aproximar-se dela. Estava com as crianas no jardim quando Mrio chegou e, logo 
em seguida, Norberto. Depois de cumpriment-Io, conversou com Nico, inteirando-se de seus progressos.
    Liana estava lendo na sala, e Mrio dirigiu-se a ela. Sentia-se triste, desanimado.
    - Ento, Liana, sente-se melhor?
    - Sim - respondeu ela tentando dissimular o mal-estar. 
    Mrio olhou seu rosto plido, seu ar abatido, e disfarou a tristeza. - Voc parece melhor - mentiu.
    Norberto aproximou-se com Eullia:
    - Voc continua na mesma, Liana - disse ele.
    - Norberto acha que os ares de Sertozinho no lhe fizeram bem.
    Quer que v ficar algum tempo em So Paulo.
    - Eu estou bem. No quero viajar agora.
    - Voc est definhando aqui - respondeu Norberto com tristeza.
    - Uma jovem chela de vida como voc no pode ficar a, nessa apatia, nessa depresso. Vou lev-Ia para So Paulo e l o Dr. Caldas vai dar jeito em sua sade. 
O que no pode  ficar como est. A cada dia que passa est mais magra e mais triste.
    
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    - Impresso sua. Estou bem. Quero ficar aqui com Eullia e as crianas.
    Eullia fez ligeiro aceno ao marido para que se calasse. Sabia que com Liana era contraproducente insistir. O melhor seria esperar um momento mais oportuno e 
voltar ao assunto.
    Depois do almoo, os dois casais, em companhia do professor, foram sentar-se no caramancho para o caf.
    Alberto notava que Liana fazia tudo para esquivar-se de Mrio, que ia ficando cada vez mais desanimado.
    Houve um momento em que ele no suportou mais a presso e saiu.
    Alberto acompanhou-o, andando de seu lado.
    - Calma - recomendou ele.
    - No consigo entender o que h de errado com ela. Primeiro aceitou meu pedido, agora parece que se arrependeu. Vive se esquivando, no permite nenhuma intimidade. 
Afinal, somos noivos, pretendemos nos casar logo. H momentos em que chego a duvidar de seu amor. Acho que ela se arrependeu de haver aceitado meu pedido. No pode 
haver outra explicao.
    - Pode ser.
    - Ela no age como uma noiva.  fria, desinteressada. Quando fala de nosso casamento, parece falar de um enterro.
    - Se sente assim, por que no fala francamente com ela? Em um relacionamento deve haver sinceridade. No d para comear uma vida a dois sem que haja entendimento,
    - Tem razo. Eullia garante que est tudo bem, que Liana me ama, que ela est doente. Mas, nesse caso, por que se recusa a ir tratar-se em So Paulo?
    - So perguntas que s ela pode responder. Se eu estivesse em seu lugar, no iria embora sem ter uma conversa franca com ela.
    -. Acho que tem razo. Vou tentar fazer isso. Obrigado pelo conselho.
    Quando os dois voltaram ao caramancho, Eullia tentou alegrar o ambiente falando sobre as crianas, principalmente de como Eurico estava melhorando, aprendendo.
    - Eurico  um menino muito inteligente - esclareceu Alberto.
    - At que enfim escuto alguma coisa boa em relao a ele - comentou Norberto. -  um alvio ver que ele aos poucos est acompanhando os outros dois, interessando-se 
pelas coisas. Para mim,  um verdadeiro milagre. Graas a voc, Alberto.
    
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            - E a Nico. Esse menino, alm de muito bom e prestativo, tem um carisma especial. Na vila todos gostam dele.
            -  muito bem-educado, nem parece filho de gente to humilde.
    O pai  um ignorante - disse Eullia.
    - Mas a me dele  muito educada - respondeu Alberto.
    - Isso . Esteve aqui, sabe como se portar.
    - Do jeito que eles esto, dentro de um ano, ou pouco mais, podero tirar o diploma do primrio.
    - J? - indagou Eullia com satisfao. - Amelinha tambm? - Sim. Ela os acompanha com facilidade.  uma menina muito viva e inteligente.
    - Acho que a melhor coisa que fizemos foi contratar voc para ensin-Ios. Na escola, eles teriam de esperar mais tempo para terminar os estudos - tomou Norberto.
    -  o mtodo que o professor usa - interveio Liana. - Ele tem um mtodo de ensino revolucionrio e muito eficiente. Eu mesma, se voltasse a lecionar, tentaria 
aplic-Io.
    Mrio olhou surpreendido para o professor. Fora para falar dele que Liana se interessara no assunto. Sentiu uma ponta de cime. Enquanto ele ficava o tempo todo 
ausente, o professor estava l todos os dias. Esse pensamento o incomodou. Certamente eles conversariam bastante. Liana parecia bem informada das atividades de Alberto.
    Mordeu os lbios nervoso. E se fosse isso? E se ela estivesse se interessando pelo professor?
    Olhou-o com ateno. Teve de reconhecer que era um homem bonito, bem-posto, elegante. Passava serenidade, segurana, como se soubesse o que fazer em qualquer 
circunstncia. Era culto, inteligente. Um escritor. No seria perigoso deix-Io ali, em convivncia diria com Liana? Falaria com Norberto a respeito.
            No fim da tarde, quando o professor se despediu, ele esperou que as mulheres se recolhessem antes do jantar para conversar com Norberto.
            - Voc no se preocupa, estando sempre ausente, em deixar o professor aqui, freqentando sua casa diariamente?
            - Por que pergunta isso?
            - Por que ele  muito moo, inteligente, prestativo. Qualquer mulher pode interessar-se por ele.
    - No estou entendendo aonde quer chegar.
    - Liana interessou-se em nossa conversa s para elogi-Io.
    - Voc est com cime. O professor foi muito bem recomendado, trata-se de pessoa sria e de confiana.
    
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    Alm disso, Eullia nunca notou nada nele que a desagradasse. Tem se mostrado discreto, educado e tem cumprido bem sua tarefa de educador.
    Mrio inquietou-se, a expresso de seu rosto modificou-se um pouco quando ele disse:
    - Sinto que precisamos tomar cuidado com ele. Acho que est interessado em Liana. Gostaria que o afastasse desta casa.
    Norberto olhou-o surpreendido. Mrio havia se modificado. Nem parecia a mesma pessoa. Sua voz estava mais dura, seus olhos mais abertos, falara em um tom agressivo 
que nunca usara.
    Tentou contemporizar. Se o professor estivesse interessado em Liana, Eullia teria percebido. Depois, no tinha por que o afastar, justamente quando as crianas 
estavam aproveitando tanto. Alberto nunca dera motivos para isso.
    - No posso fazer isso - respondeu com voz firme. - Voc est enganado. Alberto tem sido impecvel. No temos nenhum motivo para despedi-lo. Ao contrrio, precisamos 
muito dele. As crianas esto aprendendo e, o que  melhor, sentindo prazer em estudar. O cime  mau conselheiro. No se deixe envolver por ele. No h nada entre 
Liana e o professor.
    - Espero que voc no venha a se arrepender mais tarde.
    - Voc est assim porque Liana est desmotivada ao casamento. - s vezes, apesar de Eullia afirmar o contrrio, penso que ela no me ama.
    - Para ser bem franco com voc, que  meu amigo, eu tambm penso assim.
    - Pensa o qu?
    - Que ela no o ama o suficiente para consumar o casamento. No parece interessada nem na cerimnia, que sempre motiva uma moa. Mrio empalideceu. Norberto 
continuou:
    - Se eu fosse voc, daria a ela chance de romper o compromisso. - Acha isso? Por.qu? Ela falou alguma coisa?
    - No. Ela nunca diria nada, principalmente para mim. Estou falando baseado nas atitudes que ela vem mantendo quanto ao casamento. Depois, ela no me parece 
uma noiva amorosa, ansiosa para a chegada do noivo. Noto nela at uma certa frieza quando voc chega. Desculpe dizer isso, mas voc  meu amigo e no desejo que 
continue iludido.
    - O que voc est me dizendo tenho repetido a mim mesmo vrias vezes. S no tenho coragem de colocar.
    
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    - Por qu? Prefere viver nessa angstia? Eu teria acabado logo com a situao. Apesar de tudo, a verdade  sempre melhor que a iluso.
    Mrio respirou fundo:
    - , tem razo. Amanh mesmo falarei com ela. Ou marcamos o casamento para o ms que vem ou acabamos tudo.
    Norberto tentou contemporizar:
    - No precisa ser to radical.
    - Tenho de fazer as coisas do meu jeito. Ou ela marca a data ou rompemos definitivamente. No vou mais aceitar desculpas para protelar.
    Norberto mordeu os lbios e no respondeu. E se Liana marcasse o casamento? Ele sabia que ela desejava sair daquela casa para fugir do remorso.
            - Talvez convenha no pression-Ia desse jeito. Ela est doente.  preciso ter pacincia.
    - No entendo voc. H pouco me aconselhou a buscar a verdade.
    - Descobrir se ela o ama. Depois, conforme o resultado, voc toma sua deciso.
    - Vou pensar.
    - Pense. Se chegar a uma concluso, avise-me. Farei tudo para ajud-lo.
    - Obrigado.
    Depois dessa conversa, Mrio sentiu-se mais inquieto. Ele sentia que Liana no o amava, mas teimava em no aceitar essa idia. Norberto, com suas palavras, havia 
expressado o que ele no desejava admitir.
    Apesar disso, ele temia conversar com Liana sobre o assunto. E se ela, aproveitando a ocasio, rompesse definitivamente com ele?
    No incio do namoro, ele sentia que a amava e esse sentimento era prazeroso, mas, nos ltimos tempos, quanto mais ela se esquivava, mais ele se inquietava e 
esse amor havia se transformado em paixo, deixando-o infeliz, mas ao mesmo tempo sem coragem para um rompimento. S em pensar nisso ele sentia aumentar sua agonia.
    Ele nunca se sentira assim por nenhuma mulher. O que estava acontecendo com ele? Por que no se sentia com foras de terminar tudo de uma vez?
             noite, Mrio no conseguiu dormir. O dia estava clareando j quando ele resolveu: no iria embora sem uma conversa franca com ela.
    O domingo amanheceu nublado, embora ainda um pouco quente, e Mrio acordou j passava das dez. Levantou-se apressado. Arrumou-se e desceu. Hilda estava na copa 
e, vendo-o, aproximou-se:
    
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    - Bom dia, Mrio. Venha, vou mandar servir-lhe o caf.
    - Desculpe, Dona Hilda, perdi a hora.
    - Domingo  dia de descanso. Sente-se, por favor.
    Depois do caf, Mrio foi at a sala onde Liana se encontrava lendo. Aproximou-se:
    - Bom dia, Liana. Sente-se melhor?
    - Bom dia. Estou bem, obrigada.
    - O que est lendo?
    - Pelos Caminhos da Metafsica, do professor Alberto.
    Mrio sobressaltou-se. A situao era pior do que ele imaginava.
    Fingiu indiferena e considerou:
    -  um assunto rido. No pensei que se interessasse por essas coisas.
    - Engana-se. Trata-se de um tema muito interessante, ensina-nos a enxergar a vida de uma forma diferente de tudo que aprendemos.
     esclarecedor.
    Mrio mordeu os lbios. Ela defendia Alberto com calor.
    - Os intelectuais inventam teorias para justificar sua postura e ganhar dinheiro com elas.
    - Alberto no  um intelectual.  um homem simples, lcido, de grande conhecimento.
    - Voc o admira!
    -  um bom amigo. Tem me ajudado muito em meus momentos de depresso.
    Mrio aproximou-se e tomou as mos dela, dizendo emocionado: - Voc est apaixonada por ele?
    Ela soltou as mos e olhou-o admirada.
    - Voc est misturando as coisas. Ele  s um bom amigo. Nada mais. Ele no se conteve:
    - Esta situao no pode mais continuar. Precisamos esclarecer tudo. Tenho tido muita pacincia, mas estou chegando ao limite de minha resistncia. Eu amo voc. 
Vivo sonhando com nosso casamento. Entretanto, no noto em voc o mesmo entusiasmo. Vive se esquivando, h momentos em que me evita abertamente. O que est acontecendo? 
Voc no me ama?
    Liana empalideceu. No queria perder a chance de deixar a casa da irm, mas ao mesmo tempo havia algo dentro dela que sentia repulsa de Mrio. Era impossvel 
evitar isso. Tentou contemporizar:
    4- Mrio, tente entender. Tenho estado doente, deprimida. De repente a vida perdeu todo o significado para mim.
    
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    Nada mais me entusiasma. Parece que estou morta. Alis talvez essa seja a melhor soluo para mim.
    - Por que diz isso? Voc  jovem, bela, at h pouco tempo era chela de vida, de entusiasmo. O que est acontecendo com voc? Por que, de repente, perdeu toda 
a alegria e a vontade de viver? Sou seu noivo, eu a amo, estou disposto a fazer tudo para ajud-la. Seja sincera, conte-me: o que foi que a deixou to triste?
    - No aconteceu nada.
    - Ainda no respondeu  minha pergunta. Voc me ama?
    Liana olhou-o indecisa. A pergunta era direta e ela sentia que no podia mentir. Respirou fundo e respondeu:
    - No momento estou incapaz de amar.
    - Ento  verdade mesmo. Voc no me ama.
    - No me sinto capaz de qualquer sentimento.
    - Pelo jeito nosso noivado tornou-se um fardo pesado para voc. - Eu no disse isso.
    - No, mas suas atitudes falam por voc. No precisa dizer mais nada. Liberto voc do compromisso. Vou embora agora mesmo.
    Liana colocou a mo sobre o brao dele, dizendo;
    - Sinto muito, Mrio. No queria mago-lo. Eu gosto de voc.  um homem bom, generoso, sincero. No momento no estou em condies de retribuir seus sentimentos, 
nem de consumar um casamento que faria sua infelicidade. Por favor, perdoe-me.
    - Voc gosta de outro?
    - No. Como eu disse, estou incapaz de amar quem quer que seja.
    Estou morta, Mrio. E um morto no sente nada. Entendeu?
    - No posso entender por que voc age assim.
    - Eu tambm no entendo o que est acontecendo comigo.
    - Se pelo menos voc concordasse em se tratar, ir a So Paulo. L temos excelentes mdicos. Falarei com Eullia. Voc no pode continuar aqui deste jeito. Ela 
precisa fazer alguma coisa com urgncia.
    - No se preocupe. No momento s desejo paz.
    Eullia entrou na sala e vendo-os parou indecisa. Percebeu logo que algo havia acontecido entre eles. Ia retirar-se quando Mrio tornou: - Venha, Eullia. Chegou 
em boa hora. Acabamos de ter uma conversa definitiva. Liana confessou que no me ama e por isso resolvemos romper nosso compromisso. Vou arrumar minhas coisas e 
voltar a So Paulo agora mesmo.
    
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    Eullia aproximou-se olhando-os com preocupao. Tentou contornar a situao:
    - No se precipite, Mrio. Liana est deprimida, nervosa. Ela no quis dizer isso, tenho certeza.
    - Ela foi delicada o bastante para dizer que no momento se sente incapaz de qualquer sentimento de amor.
    -  por causa do estado dela.
    - Eu sei, Eullia. Contudo eu tambm no me sinto capaz de suportar a indiferena dela. Eu a amo e respeito. No quero ser um peso a mais em sua vida. Por isso, 
peo-lhe que desculpe minha fraqueza, mas nosso noivado est desfeito.
    Eullia tentou dissimular o desapontamento. Liana estava sendo muito precipitada aceitando o rompimento. Perder um partido daquele! Por certo iria arrepender-se.
    - No fale como se esse fosse o nico caminho. Por que no d um tempo, at que Liana se restabelea? Quando ela ficar boa, podero voltar ao assunto.
    - Ela sabe que eu a amo e que, se um dia sentir que me ama, retomaremos nosso compromisso. Por enquanto, ela est livre. Vou arrumar minhas coisas. Com licena.
    Depois que ele saiu, Eullia voltou-se para a irm, mas, antes que dissesse alguma coisa, Liana pediu:
    - No diga nada, por favor. Estou cansada demais para suportar mais uma cena. Deixe as coisas como esto. Foi melhor assim.
    - Como pode dizer uma coisa dessas? Perder um partido desses, um engenheiro, bonito, rico, apaixonado. Um dia voc vai se arrepender do que est fazendo.
    - Eu nunca poderia faz-Ia feliz. No posso estender minha infelicidade, prejudicando sua vida. Foi melhor assim.
    Eullia impressionou-se com o tom com que Liana disse essas palavras.
    - No posso v-la se acabando desse jeito. Dizendo que  infeliz!
    Sempre fiz tudo por sua felicidade. No posso entender sua atitude.
    - Voc sempre foi tudo para mim. Sinto muito estar dando tanto trabalho. Infelizmente no posso evitar. Venho me sentindo to mal, to deprimida.
    Eullia abraou-a com carinho.
    - Voc vai ficar boa. Tenho certeza.
    Liana no respondeu. Sentia-se imersa em grande apatia, s pensava em ficar quieta, descansar, esquecer.
    
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    Captulo 13
    
    A partir desse dia Liana passou a sentir-se mais fraca. Norberto, que a princpio ficara aliviado com o rompimento do noivado, preocupou-se mais.
    Tentou conversar com ela, aproveitando um momento em que Eullia se ocupava com o banho dos filhos.
    - Liana, voc precisa reagir. No pode ficar desse jeito. Mrio j se foi e voc agora  livre. Pode viver sua vida em paz.
    - Eu preciso sair desta casa. Agora, sem o casamento, ficou mais difcil.
    - No tem de fazer isso. Escute, eu a amo muito. Quero que me perdoe pelo mal que lhe fiz. Eu estava louco. No pude controlar-me. Por favor, no me castigue 
dessa forma.
    - Voc no  culpado. Eu  quem devia ter me contido.
    - Trate de esquecer. Juro que nunca mais a incomodarei com meu amor. S peo que continue aqui. Eullia ama-a muito, as crianas adoram-na. Por favor, reaja. 
Estou disposto a cuidar melhor de minha famlia, esse  meu dever. Sossegue seu corao e esquea o passado. No se atormente com o que j aconteceu. No podemos 
voltar atrs e mudar os fatos.
    - Ah, se eu pudesse fazer isso!
    - Mas no pode. De que adianta se atormentar? No suporto v-la se acabando desse jeito. Prometa que vai reagir, voltar a ser a mesma de antes, para a alegria 
de toda a nossa famlia.
    Ele tinha lgrimas nos olhos, e Liana tentou sorrir:
    - Farei o possvel. Voc vai ver. Vou melhorar.
    Entretanto isso no aconteceu. Apesar de se esforar, Liana sentia imensa fraqueza e muitas vezes um sono incontrolvel. Tinha enjos com. freqncia e mal-estar.
    Duas semanas depois do rompimento do noivado de Liana, Alberto foi a reunio em casa do Dr. Marclio e eles receberam a visita do esprito interessado em ajudar 
Liana.
    Depois de identificar-se com o nome de Anita, ela chamou por Alberto:
    - Precisamos tomar algumas providncias com urgncia. A cada dia que passa Firmino consegue mais ascendncia sobre Liana.
    
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    Temos de impedi-lo. Alberto, voc tem de tirar Liana daquela casa imediatamente. No podemos mais esperar. Se demorar, poder ser tarde demais.
    - Como fazer isso? Eullia no aceita sequer falar sobre espiritualidade naquela casa.
    - D um jeito. Faa qualquer coisa, mas tire-a de l.
    - Vou pensar em uma soluo. Espero que me ajudem.
    - Estamos ajudando. S precisamos que a tire daquela casa.
    - Vou ver o que posso fazer.
    - Que seja o quanto antes.
    - Amanh mesmo tentarei uma soluo.
    Depois que terminou a reunio, eles ficaram conversando, tentando encontrar uma sada. Alberto, depois de muito pensar, props:
    - Amanh  noite, quando a casa estiver silenciosa, eu entro e retiro Liana de l. Levo-a para minha casa.
    - Vai ser um escndalo - disse Adlia. - No dia seguinte, toda a cidade vai comentar. Eullia vai busc-la e lev-Ia para casa. No vai adiantar.
    - Vai, sim. Voc, Marclio, vai me ajudar.  amigo do juiz. Basta convenc-Io a realizar nosso casamento e pronto. Quando Eullia aparecer, estaremos casados. 
No haver nenhum escndalo e tudo estar resolvido. Poderemos fazer todo o tratamento de Liana livremente.
    - Voc est disposto a casar-se com ela? No est indo longe demais? - No. Ser a nica forma de fazer com que ela saia de l e sua famlia deixe de intervir 
diretamente na vida dela. S precisamos do juiz.
    - S h um problema. Casamento no se faz assim, de um dia para o outro. H que ter certo tempo para os papis.
    - No se voc convencer o juiz e garantir que somos ambos livres. Tenho documentos em ordem. Sou vivo. Liana  muito conhecida e  solteira. Acho que ser a 
nica forma de a retirarmos daquela casa.
    - O professor tem razo - concordou Adlia. - Otaviano  seu amigo de longa data. Se voc pedir, contar por qu, ele faz.
    - Posso tentar. Mas pode demorar. Anita disse que  urgente.
    - Precisamos fazer isso. A meu ver,  o nico caminho - tornou Alberto.
    - Amanh cedo vou procur-lo. Assim que tiver alguma notcia, eu aviso.
    Eles se despediram e Alberto custou a dormir, imaginando como faria para tirar Liana daquela casa sem que os outros soubessem.
    
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    No dia seguinte, Alberto esperou ansiosamente notcias do mdico. Ele passou em sua casa ao meio-dia. Depois de faz-Io entrar, Alberto perguntou:
    - E ento?
    - Bem, ele a princpio recusou. Tem amizade com Norberto e recela que ele no aprove o casamento. Contei-lhe uma histria que me ocorreu na hora. Deus vai me 
perdoar a mentira.
    Alberto sorriu:
    - O que foi que disse?
    - Que vocs esto apaixonados. Como Liana rompeu o noivado para se casar com voc, a famlia dela  contra porque Mrio os ameaou de morte. Esse  o motivo 
pelo qual vocs desejam casar-se  noite, s escondidas, para evitar a ira do engenheiro. Vendo o caso consumado, ele ter de se conformar.
    - Puxa, voc  bom nisso! Eu sou o escritor e voc  quem tem a melhor histria.
    - Bom, a ele concordou. Conheo Otaviano.  um romntico. At h pouco tempo fazia serenatas no meio da noite. Depois, eu no podia dizer que estvamos fazendo 
tudo isso por causa dos espritos. Ele  descrente. Ia pensar que estamos loucos e se recusar.
    - Fez muito bem.
    - S que no d para ser hoje  noite. Temos de apanhar os documentos e levar para ele preparar tudo. Terei de assinar como testemunha de que vocs so livres 
e podem se casar.
    - Meus documentos posso dar j. Os de Liana tenho de conseguir. - Como pensa convenc-Ia a participar? Acha que ela vai concordar com isso?
    - Creio que sim.
    Alberto apanhou todos os seus documentos e entregou-os ao mdico. - Vou para a manso daqui a pouco. Hoje  tarde mesmo levarei os documentos dela em sua casa.
    - Estarei esperando.
    Enquanto Alberto se dirigia  manso, ia pensando numa forma de conseguir o que pretendia. No sabia onde Eullia guardava os documentos de que precisava. Talvez 
as crianas pudessem ajudar a descobrir.
    Uma vez reunido com eles na sala de aula, Alberto comeou:
    - Ns somos amigos e sei que posso contar com vocs. Eu e o Dr. Marclio estamos empenhados em ajudar Liana. Ela est pior a cada dia.
    -  a alma do coronel que a est perturbando - disse Nico.
    
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    - Ele garantiu que vai lev-Ia com ele - interveio Eurico. - Voc acha que ele tem esse poder?
    - Eu no quero que ele leve tia Liana embora! - lamentou-se Amelinha com voz chorosa.
    - O Dr. Marclio sabe lidar com esses casos. Faz sesses em sua casa e tem a ajuda de alguns espritos bons. Ns fizemos uma consulta para Liana e eles nos disseram 
que precisamos tir-Ia desta casa o quanto antes.
    - Ela no quer ir - disse Amelinha.
    - O coronel no deixa - ajuntou Eurico.
    - Foi isso mesmo que disseram na sesso. Mas eles vo nos ajudar para conseguir isso.
    Alberto contou seu plano, finalizando:
    - O juiz concordou em fazer os papis, mas preciso levar os documentos de Liana.
    - Mame guarda todos os documentos na gaveta da escrivaninha - disse Amelinha.
    - Tia Liana j sabe que voc quer se casar com ela?- perguntou Eurico.
    - Ainda no. Pretendo conversar com ela ainda hoje.
    - E se ela disser no? - ponderou Amelinha.
    - Ela deseja melhorar. Vai dizer sim - contraps Alberto.
    - Mame vai ficar furiosa! - disse Amelinha.
    - Ela no vai poder fazer nada quando descobrir que j esto casados. O difcil vai ser tirar tia Liana daqui. Se vocs vissem a cara do coronel quando diz que 
no vai deixar.
    - Eu sei, Eurico. Mas ns temos f em Deus. Depois, os bons espritos prometeram nos ajudar. S preciso que vocs peguem esses documentos ainda hoje.
    - Eu vou fazer isso - props Amelinha.
    - Quando voc vai falar com tia Liana? - perguntou Eurico. - Hoje, depois de nossa aula.
    - No vou conseguir prestar ateno em nada, com tudo isso acontecendo aqui! - tornou Amelinha. - Ser que a alma do coronel vai aparecer de novo para ela?
    - Ele que no aparea para mim! No quero mais ver a cara dele - reclamou Eurico.
    - Pois eu queria muito o ver - disse Nico. - No tenho medo. Se ele aparecer, vou dizer-lhe poucas e boas. Onde j se viu judiar da Liana, sempre to boa?
    
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    - No  hora de brigar, Nico. Todos precisamos agora  rezar para que d tudo certo. A alma do coronel  atormentada e precisa muito de orao. Vamos ajud-lo 
a sentir o quanto est se prejudicando.
            - Agora mesmo vou ver se posso pegar esses documentos - disse Amelinha.
            - Cuidado. Sua me no pode perceber nada. Vamos agir como sempre. Esse  mais um segredo nosso.
            - Voc vai se casar com minha tia e vai ser meu tio. Que bom!         tornou Amelinha, alegre.
    - Voc a ama? - indagou Eurico.
            - Eu gosto muito de Liana. Mas nosso casamento no  de amor.
    No estamos namorando, se  isso que quer saber. S vamos nos casar no papel, por causa da maldade das pessoas. Se ela for morar em minha casa sem se casar, 
todos, a comear por sua me e seu pai, vo pensar que estamos agindo mal. Temos de casar para que nos deixem em paz e ela possa fazer esse tratamento.
            - Se a Dona Eullia aceitasse o tratamento com os espritos, vocs no iam precisar se casar - disse Nico.
            - Isso mesmo. Eu gosto muito de Liana e desejo que ela fique bem.
    Quero lev-Ia para minha casa para poder ajud-la do jeito certo.
            - Mame vai se zangar. E se ela no deixar mais voc vir aqui para dar aula? - perguntou Amelinha.
            - Se ela fizer isso vai se arrepender - disse Eurico. - Vou ficar doente de novo.
            - Voc no precisa adoecer para conseguir o que quer. Pode fazer isso de outra forma.
            - Como? Ela nunca me escuta! Nunca acreditou que eu vejo alma do outro mundo!
            -  difcil para ela. Com o tempo ela vai saber que tudo quanto voc dizia era verdade. Agora vamos estudar.
            - Vai ser difcil prestar ateno. Minha cabea est fervendo! retrucou Amelinha.
            - A minha tambm - disse Eurico.
            - Temos de fazer tudo como sempre. Ningum pode desconfiar de nossos planos.
            - O professor tem razo - concordou Nico. - Temos que enganar at a alma do coronel.
            - Ser que ele no est ouvindo nossa conversa? - perguntou Amelinha.
    
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    No o estou vendo aqui agora - garantiu Eurico.
    - Vamos pedir a Deus que ele no perceba - disse Alberto.
    Quando terminou a hora da aula, Alberto disse que iria conversar com Liana e enquanto isso Amelinha cuidaria de pegar os documentos da tia. Alberto encontrou-a 
na sala estendida no sof, tendo nas mos um livro que nem sequer abrira. Vendo Alberto aproximar-se, Liana tentou sorrir.
    - Como vai? - indagou ele com interesse.
    - Bem. E voc?
    - Vim para conversar. Onde est Eullia?
    - Na copa com Hilda.
    - Temos de falar a ss.  importante. Gostaria de andar um pouco pelo jardim?
    Ela suspirou desanimada:
    - Estou to cansada! No pode ser aqui?
    - A tarde est muito bonita. Um pouco de ar far-Ihe- bem. Voc tem ficado muito dentro de casa.
    - No tenho nimo para sair.
    - Poderemos nos sentar no caramancho. Venha. Vou ajud-la a levantar-se.
    Ele apanhou sua mo e ajudou-a a levantar-se.
    - Estou tonta - reclamou ela, apoiando-se nele.
    - Segure-se em meu brao. Vamos andar um pouco.
    Ela obedeceu e saram. Alberto acomodou-a no banco do caramancho e sentou-se a seu lado, fitando-a penalizado. Liana emagrecera bastante. Seu rosto estava plido, 
olhos encovados, lbios sem cor. Estava muito diferente da moa chela de vida que ele conhecera ao chegar ali. Sentiu que no havia tempo a perder. Depois de uma 
ligeira olhada para ver se no havia ningum por perto, foi direto ao assunto:
    - Fiz uma consulta para voc na sesso na casa do Dr. Marclio. Eles confirmaram tudo quanto Eurico tinha dito sobre a alma do coronel. - Ento  mesmo verdade?
    - Claro. Ningum l sabia que Eurico o havia visto.
    - Que horror! Eu no quero ver aquele homem horrvel outra vez. S em pensar nisso fico gelada.
    - Calma, Liana. Os bons espritos prometeram nos ajudar a libert-Ia dele. Vo ajud-lo tambm a esclarecer-se. Ele est iludido, preso no passado. Agora  hora 
de resolver problemas que vocs no conseguiram solucionar em outras vidas.
    
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    - Custo a crer! Eu nunca vi esse homem antes!
    - Isso no importa agora. O importante  que ele se agarrou a voc e est sugando suas foras e voc no est conseguindo libertar-se.
    - Eu no quero que ele fique perto de mim.
    - Para isso  preciso que voc saia desta casa o quanto antes. Uma vez fora daqui, que seja tratada pelo Dr. Marclio, que conhece esse assunto, e pelos bons 
espritos que o ajudam.
    - No posso sair daqui!
    Alberto apanhou a mo gelada de Liana e apertou-a com carinho:
    - Pode e vai sair amanh  noite. O Dr. Marclio e eu temos um plano para que voc se liberte logo. Amanh  noite virei busc-la sem ningum saber e voc ir 
para minha casa. L, um juiz estar com os papis prontos e far nosso casamento. Voc ficar morando comigo, at ficar em condies de cuidar de sua prpria vida. 
Ser um casamento de aparncia. Para todos, estamos apaixonados, mas na intimidade, seremos como irmos. Dessa forma, voc estar livre de todos os problemas que 
a afligem e com sua situao regularizada perante sua famlia.
    - Eullia vai ficar furiosa.
    - Norberto mais ainda. Apenas no princpio. Depois, com o tempo, tudo se normalizar. Afinal, eles desejam sua felicidade.
    - No sei...  arriscado. No posso envolver voc em meus problemas.
    - J me envolvi o suficiente. No tolero v-la definhar dessa forma. Gosto muito de voc. Deixe-me devolver-lhe a alegria e o bem-estar que voc merece.
    - S em pensar em sair daqui, me d um medo...
    - Eu sei. Mas a meu lado nada de mau vai acontecer. No a deixarei um minuto sequer.
    Liana apertou a mo dele com fora:
    - Meu Deus! Estou me sentindo to fraca!
    - Voc no  fraca. Ao contrrio. Voc  forte. Vai conseguir sair dessa, com ajuda de Deus.
    - No sei, no...
    - Diga que sim e eu tomarei conta de tudo.
    - Est bem. Irei. Quero terminar com essa situao, ainda que seja s custas da prpria vida.
    - Voc vai viver saudvel e feliz. Amanh depois da aula conversaremos para acertar o horrio em que virei apanh-Ia.  absolutamente necessrio que guarde segredo. 
As crianas sabem e esto nos ajudando.
    
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    Mas no convm conversar sobre isso, algum pode ouvir. Todo cuidado  pouco.
    - O que eles dizem?
    - Eles a amam muito e querem v-la boa.
    - Nunca pensei chegar a este ponto...
    - No se lamente. Voc  muito querida e tem muitos amigos.
    Agora vamos voltar para a sala antes que algum desconfie.
    Ela se apoiou no brao dele e dirigiram-se para a casa exatamente no momento em que Eullia saa olhando atenta para todos os lados. Vendo-os, suspirou:
    - No a vi na sala e fiquei preocupada. Est bem?
    - Estou melhor, obrigada.
    - Liana precisa sair um pouco, respirar ar puro.
    - Ele tem razo, Liana. Eu insisto, mas ela no quer.
    Ele a conduziu at o sof na sala, e quando estava se despedindo Nico apareceu perguntando:
    - O senhor vai passar perto da casa da minha me?
    - Vou, Nico. Quer carona at l?
    - Quero. Posso ir, Dona Eullia?
    - Pode. S no volte muito tarde. Eurico fica impossvel enquanto voc no chega. Nunca vi. Parecem irmos siameses. Vivem um grudado no outro.
    - No demoro. Vejo a minha me e volto logo.
    Quando estava no carro, Nico tirou um envelope do bolso e entregou-o ao professor.
    - Veja se so esses os documentos que precisa.
    Ele verificou e sorriu satisfeito:
    - Est tudo certo. Quem pegou?
    - A Amelinha. Ela  danada de esperta. Enquanto o Eurico dava trabalho para a Dona Eullia na cozinha, ela subiu e pegou tudo. Ningum percebeu.
    - Ela  muito esperta.
    - E a Liana, concordou?
    - Relutou um pouco, mas concordou. Amanh, quando todos estiverem deitados, voltarei para busc-la, sem ningum saber. Vou precisar da ajuda de vocs. Na aula 
de amanh combinaremos tudo. Tenho de ver com o Dr. Marclio o que  melhor fazer.
    - Puxa vida! O Eurico e a Amelinha vo gostar de saber. Eles pediram que eu perguntasse tudo.
    
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    - Diga-Ihes que est tudo combinado. Amanh trataremos dos detalhes.
    Depois de deixar Nico em casa, Alberto dirigiu-se  casa de Marclio. Entregou-lhe os documentos com satisfao.
    - Est tudo combinado. Liana aceitou. As crianas esto nos ajudando.
    - Como pensa tir-Ia de l?
    - Amanh  noite, depois que todos dormirem, irei busc-la. Ficarei esperando do lado de fora. Vou pedir para Nico me fazer um sinal quando todos estiverem dormindo.
    - Precisa ir prevenido. Fazer prece antes. O coronel Firmino pode tentar impedir que Liana saia da casa.
    - De que forma?
    - Acordando algum, aparecendo novamente para ela, ou mesmo fazendo-a perder os sentidos.
    - Nesse caso seria melhor que voc fosse comigo.
    - Posso ir. O juiz ficou de estar em minha casa l pelas nove horas. -  cedo. Eullia pode estar acordada ainda.
    - Ele sabe que vocs vo fugir. Vai ficar esperando o quanto for preciso. Alis, Adlia j preparou alguns quitutes e uma cervejinha gelada do jeito que ele 
gosta.
    - Est bem. Combinado. Passarei em sua casa s nove e iremos juntos at a manso esperar o sinal.
    Quando Alberto chegou em casa, foi ao quarto verificar se tudo estava em ordem. Desde que tivera a idia de levar Liana para sua casa, transformara o quarto 
de vestir em um quarto de hspedes. Mandara limpar tudo com carinho. No dia seguinte compraria flores para colocar sobre a cmoda. Queria que Liana se sentisse confortvel 
em sua casa.
    Deitou-se mas no conseguiu dormir. Sentia-se emocionado e inquieto. Mais uma vez sua vida estaria se modificando na noite seguinte. No tinha dvida de que 
conseguiriam libertar Liana do assdio do coronel. Mas, quanto aos problemas ntimos que Liana carregava dentro do corao, s ela poderia resolver. Para isso precisava 
deixar o passado ir embora e retomar a alegria de viver.
    
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    Captulo 14
    
    Na tarde seguinte, quando o professor chegou  manso, encontrou as crianas ansiosas para saber os detalhes do plano daquela noite.
    - Vamos precisar da ajuda de vocs - disse ele.
    - Chi!... Ningum pode saber. Se mame descobre... - lembrou Amelinha.
    - No seja boba, ela no vai saber. Ns no vamos contar - garantiu Eurico. - E, depois, se ela descobrir j ser tarde. Eles estaro casados e pronto.
    - A ajuda que vou precisar  pouca. Ningum vai descobrir, a no ser que vocs contem.
    - Como vai ser? - perguntou Nico.
    - Hoje, mais ou menos s nove, eu e o Dr. Marclio viremos para buscar Liana. Ficaremos na rua dos fundos esperando todos irem dormir. A  que precisamos de 
ajuda. Vocs vo para a cama como sempre, mas fiquem acordados esperando. Quando perceberem que todos j se recolheram e todas as luzes se apagaram, acendam e apaguem 
a luz do quarto de Eurico trs vezes. Esse  o sinal. Assim saberemos que  hora. Vo avisar Liana e ajudem-na a sair.
    - E se o coronel aparecer e ela no puder ir? - perguntou Eurico. - Nesse caso vocs tornem a dar o mesmo sinal e ns entraremos para busc-la.
    - E a porta? Hilda costuma fech-Ia bem -lembrou Amelinha. - Eu posso descer e abrir para vocs - props Nico.
    - No. Eu vou. Se mame descobre que foi voc quem abriu a porta, pode no deixar mais voc ficar aqui. Sabe como ela . Comigo no vai poder fazer nada - interveio 
Eurico.
    - Aprecio sua coragem, Eurico. Acho que tem razo - concordou Alberto.
    - No tenho medo - disse Nico. - Para ajudar a Liana fao tudo.
    Depois, sei como andar sem fazer barulho. Ningum vai saber que fui eu.
    - Bom. Isso s vai acontecer no caso de Liana ter dificuldade em sair.
    Por isso o Dr. Marclio vir junto. Deus vai nos ajudar. Vai dar tudo certo.
    - Ela vai ter que arrumar uma mala. Vou ter que ajudar a carregar, ela est to fraca... -lembrou Nico.
    
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    No se preocupe com isso. Ela no precisa levar nada. O principal  sair e nos casarmos esta noite. Amanh, quando todos souberem, viremos buscar os pertences 
dela.
    - Puxa! Eu queria estar l na hora do casamento! - lamentou-se Amelinha. - Vai ter bolo de noiva?
    - Deixe de ser boba - tornou Eurico. - Eles vo se casar sem nada disso.
    - Vai ter bolo, sim. A esposa do Dr. Marclio preparou uma comemorao ligeira.  mais para comemorar a libertao de Liana.
    - Est vendo s? - rebateu Amelinha. - O bobo  voc. Todo casamento tem bolo e eu queria comer um pedao do bolo de casamento de tia Liana.
    - No sei como as coisas estaro amanh. Mas se der jeito trago ou mando um pedao do bolo para vocs. Afinal, sem a ajuda que nos deram, seria muito difcil 
conseguirmos realizar nossos planos.
    Aps a aula o professor despediu-se, lembrando:
    - Agora vou falar com Liana para confirmar os detalhes. Estamos combinados. Quando todos estiverem dormindo e todas as luzes apagadas... - Ns acendemos e apagamos 
a luz de meu quarto trs vezes.
    - A vamos ao quarto da tia ajud-la a sair ao encontro de vocs... - completou Amelinha.
    - Se houver alguma dificuldade, repetimos o sinal e vamos abrir a porta para que vocs entrem para buscar a Liana. - finalizou Nico.
    -  melhor abrirem a porta dos fundos. Fica mais perto do local onde estaremos esperando - lembrou Alberto.
    Ele saiu, dirigindo-se at a sala onde Liana costumava ficar. Porm Eullia estava com ela. Aps os cumprimentos, ele disse com naturalidade: - Sente-se melhor, 
Liana?
    - Sim - respondeu ela com voz fraca.
    - Estou aqui tentando convenc-Ia a consultar o Dr. Caldas em So Paulo. Poderemos ir neste fim de semana com Norberto.
    - No quero ir, Eullia. No tenho nada. S estou um pouco cansada. Logo estarei bem. Voc vai ver.
    - Ajude-me a convenc-Ia, professor. Ela quase sempre ouve o que voc diz.
    - Voc precisa se cuidar - disse ele. - Fazer aquele tratamento de que eu lhe falei. Garanto que vai ficar boa.
    - Que tratamento? - quis saber Eullia.
    - Um mtodo novo que associa psicologia e medicina.
    
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    - Ainda acho que seria melhor o Dr. Caldas, que  mdico de nossa famlia - assegurou Eullia. - Voc no pode continuar assim, desse jeito. Estou resolvida. 
Se no quer ir a So Paulo, vou pedir a Norberto que traga o Dr. Caldas aqui neste fim de semana.
    Hilda apareceu na porta dizendo nervosa:
    - Dona Eullia, Eurico est impossvel! No quer tomar banho nem trocar de roupa. S est brigando com Amelinha.
    Eullia levantou-se imediatamente:
    - Esse menino! A cada dia fica mais desobediente! Com licena, professor.
    Alberto acenou ligeiramente com a cabea concordando, mas sorriu ligeiramente. Estava claro que Eurico estava fazendo manha para atrair a ateno da me e ele 
poder combinar tudo com Liana.
    Assim que a viu distante discutindo na cozinha com Eurico, Alberto foi direto ao assunto:
    - Liana, est tudo pronto para esta noite. Depois que todos estiverem dormindo, eu e o Dr. Marclio viremos busc-la. Ficaremos esperando junto ao porto dos 
fundos.. As crianas iro a seu quarto avis-Ia         quando chegar a hora.  s vir ao nosso encontro e cuidaremos de tudo.
    Ela suspirou e no escondeu a preocupao:
    - No sei... Ser preciso tudo isso mesmo?  melhor esperar um pouco mais...
    -  preciso e urgente. No tenha medo. Vamos cuidar de voc com muito carinho. O Dr. Marclio, Dona Adlia, eu. Voc ficar bem e dentro em breve estar livre 
do mal que a vitimiza. S precisamos que confie em ns e coopere, aceitando a ajuda que oferecemos de corao. Temos pouco tempo. Eullia pode voltar a qualquer 
momento. Esteja pronta, que esta noite mesmo sair desta casa. Diga que concorda.
    - Est bem. Sinto-me atordoada. No estou em condies de pensar. Minha cabea est pesada. Farei o que voc pede.
    - Isso mesmo. Estou certo de que no se arrepender.
    Maria apareceu na.sala trazendo uma bandeja:
    - Aceita um caf, professor?
    - Aceito, obrigado.
    Eullia voltou  sala e aps o caf Alberto despediu-se. Eullia acompanhou-o at a porta.
    - Estou muito preocupada - disse. - A cada dia que passa Liana fica mais abatida. No sei mais o que fazer.
    - J experimentou rezar?
    
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    - Rezar? No sabia que voc era uma pessoa religiosa.
    - No sou, Eullia. Mas a ligao com Deus, a prece sincera acalma, ajuda e muitas vezes resolve nossos problemas. Eu tenho f.
    - Essas palavras, vindas de um professor, me surpreendem.
    - Por qu? No sou s professor, mas uma pessoa que sente, que pensa. Deus vai ajudar Liana a recuperar a sade. Tenho certeza. Tenha f. - Seguirei seu conselho. 
At amanh, professor.
    No caminho de casa, Alberto repassava o plano de logo mais. Se alguma coisa desse errado, tudo estaria perdido. Eullia no o deixaria mais freqentar a casa, 
tinha certeza. Por isso, eles precisavam tomar o mximo cuidado. O esprito do coronel poderia estar trabalhando no sentido oposto.
    O tempo custava a passar e ele esperava ansioso a hora marcada. Em sua casa tudo estava em ordem. Dona Adlia estivera l durante o dia arrumando tudo para a 
cerimnia daquela noite. Apesar das circunstncias, ela achava que uma noiva  uma noiva e precisava ter um mnimo de ateno: as flores na mesa onde o juiz faria 
o casamento, o buqu para a noiva segurar, o brinde com champanhe e o bolo. Se a tivessem deixado, teria at arranjado um vestido de noiva com vu e grinalda, o 
que AIberto a fez desistir de fazer.
    s cinco para as nove, Alberto estava na casa do mdico. Confirmados os detalhes, os dois saram. Dentro em pouco o juiz deveria chegar e Adlia se encarregaria 
de acompanh-Io at a casa do professor, onde esperariam a chegada dos noivos.
    Ela sabia que eles poderiam demorar, por isso havia deixado tudo pronto para que o juiz esperasse sem reclamar. A cervejinha gelada, os salgadinhos de que ele 
gostava e at o doce de leite especial de minas servido com queijo mela cura.
    Quando eles chegaram ao porto dos fundos da manso, havia luz em algumas dependncias da casa, e eles, dentro do carro, se dispuseram pacientemente a esperar. 
Pouco a pouco as luzes foram se apagando. At que, por fim, viram o sinal combinado.
    As crianas haviam esperado no quarto de Eurico. Amelinha no se conformara em ficar sozinha em seu quarto e, assim que pde, juntou-se a eles. No queria perder 
nada. Quando acharam que era hora, deram o sinal combinado e foram p-ante-p at o quarto de Liana. Abriram a porta com cuidado e entraram.
    Ela estava deitada e parecia dormir. Eurico aproximou-se, tocando-a levemente.
    
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    - Tia Liana! Acorde. Est na hora.
    De repente, ele deu um pulo para trs, agarrando Nico:
    - Ele est a. Segurando-a!
    - O coronel? - perguntou Nico, assustado.
    - Sim. Ele est me ameaando e disse que no vai deix-Ia sair. Est nos mandando embora.
    - Ele no pode fazer isso - garantiu Nico.
    - Mas ele est - reclamou Eurico com voz trmula. - Eu vou embora. No vai adiantar nada. Ele no vai deix-Ia sair daqui.
    - Pois eu no tenho medo dele. Ela vai sair e pronto. Vamos voltar para o seu quarto e avisar o professor.
    - Eu tambm vou - disse Amelinha. - No quero ficar aqui com ele.
    - Cuidado com o barulho. Venham.
    Voltaram ao quarto e deram o sinal.
    - Agora temos que abrir a porta dos fundos para eles entrarem disse Nico. - Eu vou.
    - Eu prometi, mas no quero ir sozinho.
    - Eu tambm - tornou Amelinha.
    - Vamos todos. Mas, pelo amor de Deus, sem fazer barulho. Cuidado quando descer a escada. Tem aquele degrau que range. Vamos devagar.
    Nico foi na frente, andando com cuidado, Eurico agarrado nas costas dele e Amelinha no brao do irmo. Chegaram  porta dos fundos, saram pelo jardim e foram 
ao porto combinado, onde Alberto e o mdico esperavam.
    - Onde est Liana? - perguntou o professor. - O que aconteceu? - Ela est dormindo e no quer acordar - respondeu Nico.
    - Eu vi a alma do coronel segurando-a. Ele me ameaou e nos mandou embora. Disse que no vai deix-Ia sair.
    - Vamos entrar - disse Marclio. - Cuidado com o barulho. Ningum pode acordar agora.
    Subiram cuidadosamente at o quarto onde Liana continuava         dormindo.
    - Feche a porta com cuidado - recomendou o mdico.
    - Ele a est segurando - disse Eurico. - Disse que vai derrubar o primeiro que tocar nela.
    - Vamos rezar e pedir a ajuda de nossos amigos espirituais.
    O mdico comeou a proferir uma prece em voz baixa. Em certo momento, Nico no se conteve. Aproximou-se de Liana dizendo:
    
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    - Eu no tenho medo dele. Vou acord-la, sim.
    - No faa isso. Ele disse que vai pegar voc - advertiu Eurico, assustado.
    - Pois a mim ele no engana. Estou com Deus e nada  mais forte do que eu agora.
    Enquanto Eurico torcia as mos nervoso, Nico aproximou-se de Liana, sacudindo-a.
    - Acorde, Liana. Est na hora. No o deixe dominar voc.
    Ela abriu os olhos sem perceber o que estava acontecendo. Nico continuou:
    - Venha. Ele no tem nenhum poder sobre ns. Eu ajudo voc. 
     Ao mesmo tempo ele a sacudia e ela se esforava para acordar e perceber o que estava acontecendo.
    - Ele est ameaando voc - disse Eurico.
    - Repita o que ele est dizendo - pediu o mdico.
    - "Eu pego voc. Voc j me fez sofrer muito, mas desta vez vai me pagar. Eu me vingo de tudo. De voc e de Mariinha. No  justo. Deixe minha mulher em paz. 
Ela  minha."
    - Vamos continuar rezando - pediu o mdico.
    - Aquela mulher que sempre vem chegou e est pegando-o pelo brao. Ela sorriu para mim e disse que vai lev-lo embora. Est agradecendo minha ajuda.
    - Graas a Deus! - disse o professor.
    - Vai ficar tudo bem - concordou Marclio.
    - Ela o levou embora - disse Eurico.
    Marclio abraou Eurico com carinho:
    - Meu filho, Deus o abenoe. Sua ajuda foi preciosa. Esse dom que voc tem  uma bno de Deus. Nunca se esquea disso.
    Eurico sentiu as lgrimas virem aos olhos. Nunca ningum falara nada assim para ele. Tentou disfarar:
    - Nico  muito corajoso.
    - De fato. Todos vocs esto nos ajudando muito.
    Alberto conversava com Liana, que, embora ainda estivesse tonta e meio fora de si, obedeceu ao que eles disseram.
    Conforme o combinado, ela havia dormido vestida e por isso foi fcil prepar-la para sair. Amelinha calou os sapatos na tia enquanto os dois meninos saram 
no corredor para verificar se no havia ningum. Tudo estava calmo e s escuras. Ningum havia acordado.
    Com cuidado eles saram com Liana.
    
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    O caminho at o porto dos fundos pareceu muito mais comprido do que de costume. Uma vez l, as crianas beijaram-na com carinho e emoo.
    - Tia Liana, quero ver voc curada! - disse Eurico.
    - Eu queria tanto ver seu casamento! - comentou Amelinha. - Voc vai ficar bem e ser feliz! - garantiu Nico.
    - Amanh vocs fingem que no sabem de nada. No quero que sofram nenhum castigo - recomendou o professor.
    - Ningum vai desconfiar - garantiu Eurico.
    - Quero s ver a cara de mame quando souber! Vai ser uma bomba!
            - No podemos despertar suspeitas. Eles tero que descobrir sozinhos onde ela est. Ningum vai falar nada, est bem? - disse Nico.
    - Isso mesmo. No quero envolver vocs nisso. Eu assumo tudo sozinho - declarou Alberto. - Agora vo deitar antes que algum acorde. Cuidado com o barulho.
    - Voc vai nos dar notcias? - pediu Eurico.
    - Contar como foi o casamento? - tomou Amelinha.
            - Se for difcil para ele, eu venho e conto tudo quando sua me no estiver por perto - garantiu Marclio. -  o mnimo que podemos fazer depois do que 
vocs fizeram.
    - E o bolo? -lembrou Amelinha.
    - Darei um jeito de mandar - disse o professor. - Agora, vo. Eles entraram, fecharam a porta e os dois, amparando Liana, entraram no carro dirigindo-se  casa 
de Alberto.
    Durante o trajeto, o mdico foi segurando a mo de Liana e rezando em pensamento. Aos poucos ela foi recuperando a lucidez e ao chegar  casa de Alberto sentia-se 
mais animada.
    Adlia, depois de abra-Ia, conduziu-a para o quarto de hspedes, onde ela deveria ficar. L j havia um lindo vestido que ela providenciara para a ocasio.
            - Vamos, Liana. Hoje  um grande dia. Precisa vestir-se de acordo com a ocasio.
    - Estou nervosa. Eullia vai ter um grande desgosto quando descobrir. O que estamos fazendo no  direito. Ela  como se fosse minha me. No vai me perdoar 
nunca.
            - Bobagem. O que ela quer mesmo  que voc fique bem. Depois do primeiro susto compreender.
            - Eu no tinha o direito de envolver Alberto em meus problemas. Ele pode ser prejudicado por esse casamento.
    
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    - No vejo em qu. Ele gosta muito de voc. Nunca pensou que ele pode estar apaixonado?
    Liana no respondeu. Ela sabia que o professor estava apenas desejando ajud-la. Nunca notara nele qualquer indcio de amor. Se isso fosse verdade, no teria 
concordado em casar-se com ele. O que a animava era justamente a idia de que aquele casamento era apenas aparente.
    Depois de sua trgica aventura com o cunhado, Liana pensava que nunca mais seria capaz de amar ningum. O arrependimento de seu ato impensado era maior do que 
qualquer sentimento que pudesse sentir por Norberto.
    O que ela desejava mesmo era viver em paz. Apesar do nervosismo, reconhecia que a proposta de Alberto a salvara de um casamento sem amor e da desagradvel situao 
familiar.
            - Vamos. Vou ajud-la a se preparar. Trouxe minha maleta de maquiagem. Voc vai ficar linda!
            - No  preciso.
            -  preciso, sim. Esse vestido eu comprei especialmente.  meu presente de casamento. O buqu, foi Alberto quem mandou fazer.
            Liana corou levemente. Deixou-se conduzir por Adlia, que a arrumou com carinho. Vendo-a pronta, deu um passo para trs para admir-Ia.
            - Est linda, minha querida.
    Abraou-a emocionada, continuando:
    - Algo me diz que voc ainda ter muita felicidade.
    Liana sentia o corao apertado e tentou sorrir.
    - Agora vamos. Eles esto esperando.
    Liana entrou na sala com Adlia, e Alberto olhou-a surpreendido. Ela parecia outra pessoa. A maquiagem reavivara as cores de seu rosto, tornando-o menos abatido.
    - Liana j reviveu - comentou Marclio com satisfao.
    A cerimnia foi realizada com simplicidade e, ao final, depois de os noivos assinarem o livro, o juiz foi o primeiro a desejar-Ihes felicidades.
    Depois dos cumprimentos e abraos de Marclio, Adlia e Gislene, a empregada de Alberto, abriram uma champanhe e os noivos cortaram o bolo.
    Apesar do nervosismo, do receio e da insegurana que Liana sentia, o carinho daquelas pessoas fazendo tudo para que ela recuperasse a sade e fosse feliz comovia-a 
muito. Sentia que eles estavam sendo sinceros, mostravam-se to confiantes no futuro, que ela se esforou para mostrar coragem e no os desapontar.
    
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            - No podemos esquecer de mandar bolo para as crianas - lembrou Alberto. - Eu prometi a Amelinha.
            - Uma pena eles no terem podido vir. Estavam to animados!
    Vero as fotos que tirei - respondeu Marclio.
    Passava da uma quando todos se despediram.
    - Pode ir, Gislene. Obrigado por tudo - disse Alberto.
    - A senhora precisa de alguma coisa mais? - indagou ela a Liana. - No. Obrigada, Gislene.
    Depois que ela se foi, Liana aproximou-se de Alberto:
    - Obrigada por tudo. Voc foi alm do que eu esperava. Nunca pensei que a cerimnia pudesse ser to bonita. Depois, o carinho das pessoas, tudo... No sei como 
agradecer o que est fazendo por mim.
    - Para mim no custou nada. Voc agora est livre. Vai receber tratamento adequado, ficar bem e depois decidir o que quer fazer de sua vida. Estou feliz em t-Ia 
em minha casa. Tenho certeza de que nos daremos muito bem.
    - E Eullia? O que far quando descobrir?
    - Vamos tentar resolver o assunto com ela. Amanh, quando acordarmos, iremos at l contar-lhe a novidade.
    - Ela ficar furiosa.
    - Levaremos os documentos comprovando nosso casamento. Ela vai desabafar e depois perceber que o melhor ser aceitar. Ela a quer muito. - No pode saber o verdadeiro 
motivo pelo qual eu quis sair de casa. - No precisa saber. Diremos que nosso amor  to grande que no pudemos mais esperar para nos casar.
    - Ela vai pensar que mantivemos um relacionamento ntimo. - Ser melhor do que descobrir a verdade. Afinal, estamos casados, o que eliminar da cabea dela qualquer 
julgamento ruim.
    Liana colocou a mo no peito, suspirando nervosa:
    - No vou conseguir dormir. Estou to inquieta...
    -  natural. O Dr. Marclio deixou um vidro de calmantes na mesa de cabeceira, em seu quarto, com a receita indicando quantas gotas tomar.  suave, mas bom o 
bastante para voc relaxar e dormir. Quer que eu o prepare?
    - Eu mesma farei. Obrigada. Voc j fez demais por hoje.
    - Adlia foi to gentil que, alm do vestido, comprou traje de dormir, chinelos, escova de dentes.
    - So pessoas maravilhosas.
    - Amigos que desejam nos ver felizes.
    
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    Acompanhando-a ao quarto, Alberto perguntou:
    - Acha que ficar bem?
    - Sim. Pode ir descansar.
    - No passarei a chave na porta de meu quarto. Se precisar de alguma coisa, se no se sentir bem, ou mesmo se no conseguir dormir, pode me chamar.
    - Obrigada, Alberto.
    Ele pegou a mo dela, apertando-a e dizendo:
    - Quero que se sinta bem aqui. Pode ter certeza de que tudo farei para v-la feliz, saudvel e em paz.
    Liana sorriu e respondeu:
    - Deus o abenoe pelo bem que me fez.
    Depois que ele saiu, ela fechou a porta e preparou-se para dormir. Sorriu ao vestir a fina camisola de seda cor de prola, digna de uma noite de npcias. Adlia 
sabia que aquele casamento no era de amor e que ela no teria nenhuma intimidade com o marido. Por que fizera questo de dar-lhe aquele presente? Estaria pensando 
que eles estivessem fingindo?
    Sorriu levemente, mas gostou do toque delicado da seda em seu corpo e da beleza de seu talhe, que vestiu como uma luva. Leu a receita, preparou o remdio e tomou-o. 
Depois se deitou. O calor das cobertas na cama macia, cheirando delicadamente a lavanda, foi-lhe muito agradvel.
    Suspirou e apagou a luz do abajur. Um calor gostoso acometeu-a e quase sem perceber Liana deixou-se ficar sem pensar em nada e em seguida adormeceu.
    Acordou na manh seguinte, e pelas frestas da veneziana percebeu que o sol j ia alto. Olhando o quarto, recordou-se do que acontecera na noite anterior e sentiu 
um aperto no corao.
    Eullia j teria dado por sua falta? Saltou da cama, vestiu o penhoar e foi ao banheiro. Ao passar pelo quarto de Alberto, viu que a porta estava aberta e ele 
j se havia levantado.
    O relgio da sala marcava dez horas, e ela se admirou. Dormira demais. Gislene, vendo-a, perguntou:
    - Dona Liana, quer tomar o caf na sala ou no quarto?
    - No se incomode. Estou sem fome.
    - O professor disse que a senhora precisa se alimentar bem. O que gosta de comer pela manh?
    - Vou at a cozinha ver. Estou sentindo um cheiro to bom de caf. - Eu posso pr a mesa na sala.
    - No. Eu vou comer na mesa da cozinha mesmo.
    
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    Foi at a cozinha e sentou-se  mesa, enquanto Gislene colocava em sua frente, alm do caf com leite, vrias guloseimas.
    - O po est fresquinho. Fui pegar logo cedo.
    Apesar de no estar com fome, Liana tomou caf com leite e comeu um pozinho com queijo e manteiga.
    - A senhora no vai provar essa gelia de goiaba? Foi minha tia que fez. Est uma delcia.
    Liana experimentou um pouquinho, e estava mesmo deliciosa. AIberto aproximou-se, olhando-a satisfeito:
    - Voc est com boa aparncia. Dormiu bem?
    - Por incrvel que possa parecer, desmaiei. Fazia tempo que eu no dormia to bem.
    - Voc vivia dormindo ultimamente.
    - Mas no do jeito que dormi esta noite. Eu dormia, mas ao mesmo tempo era um sono pesado, cheio de pesadelos. O remdio do Dr. Marclio  milagroso. Tomei aquelas 
gatinhas e pronto. S acordei agora.
    Ela acabou de comer e ele a levou at a sala, dizendo:
    - Ns havamos planejado ir at a manso, mas teremos de esperar. O Dr. Marclio foi at l falar com Eullia.
    - Aconteceu alguma coisa?
    - Ela logo cedo deu por sua falta e ficou desesperada.
    - Eu sabia!...
    - A, Nico, que no queria contar nada, telefonou discretamente ao Dr. Marclio e ele foi at l para explicar tudo. A esta hora, eles devem estar conversando.
    - Meu Deus! O que ser que est acontecendo l?
    - Marclio passou por aqui a caminho da manso e prometeu passar de novo quando sair de l e contar tudo. De certa forma, ser melhor ele conversar com ela primeiro. 
Quando formos l, ela j estar mais conformada.
    - No sei, no. s vezes ela  to radical.
    - Nada poder fazer agora. Tudo est consumado. Norberto pode ficar mais revoltado do que ela. Ele tem cime de voc.
    -  bom que ele pense que nos amamos e trate de esquecer aquele nosso deslize. Eullia nunca poder saber de nada.
    - O passado est morto. Voc est casada e eles pensam que voc me ama. Tudo voltar ao normal, voc vai ver.
    - O que faremos agora?
    - Teremos de esperar. Enquanto isso, venha at o escritrio. Desejo mostrar-lhe as anotaes de uma pesquisa que estou fazendo para o prximo livro.
    
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    Liana havia vestido a roupa com a qual sara da casa da irm na noite anterior, o que fez Alberto observar.
    - Quando as coisas se esclarecerem, iremos apanhar suas roupas e pertences na manso. Se precisar, poderemos comprar alguma coisa enquanto isso.
    - Vamos esperar. Estou ansiosa para pedir a Eullia que me perdoe e no fique magoada comigo.
    Alberto concordou e levou-a ao escritrio, fazendo-a sentar-se em uma poltrona. Em seguida apanhou algumas folhas de papel entregou-as a Liana, dizendo:
    - Lela e diga o que pensa.
    Enquanto ela mergulhava na leitura, ele se sentou em frente  maquina de escrever, colocou papel e comeou a escrever.
    Marclio chegou  manso, pediu para falar com Eullia e foi logo recebido por ela.
    - Ainda bem que apareceu, Dr. Marclio. Estou desesperada. Liana desapareceu. No consigo encontr-la. Ela no estava bem ultimamente. Ai, meu Deus! Aonde ter 
ido? Ela est fraca e no agenta andar muito. J procurei por toda parte. Em casa ela no est e ningum a viu sair! - Acalme-se, Dona Eullia. Liana est muito 
bem. Estou aqui justamente para conversar sobre isso.
    - O senhor? Por qu? Ela piorou?
    - Ao contrrio. Ela est muito bem e em boas mos.
    - No compreendo.
    - Posso explicar. Ela saiu de casa durante a noite para se casar. - O qu? Casar?! Tem certeza do que est afirmando?
    - Tenho. Fui padrinho de seu casamento ontem  noite. Ela est muito bem casada e feliz.
    Eullia olhou para ele sem entender. Ouviu mas no quis acreditar. - No pode ser. Ela rompeu o noivado com o Dr. Mrio e no tinha nenhum namorado. Como pode 
ter se casado?
    - Casou-se com o professor Alberto.
    - Com o professor? No acredito! Assim, de repente, fugindo de casa no meio da noite como uma adolescente? No pode ser verdade. Liana foi sempre muito cordata 
e obediente. Nunca me faria uma desfeita dessas! Logo com o professor!
    
    200
    
    - O corao tem suas razes, Dona Eullia. Nunca lhe ocorreu que Liana estava sofrendo por amor?
    - Como assim?
    - Estava noiva de Mrio, mas amava Alberto. Esse conflito a estava infelicitando muito.
    - O que me diz? Por isso andava to triste... Por que ela no me contou?
    - Ela achava que voc preferia o Dr. Mrio e no aprovaria a troca.
    - Nunca a obriguei a fazer nada que no quisesse. Fica parecendo que eu fui muito autoritria com ela. Isso no  verdade!
    - Ns sabemos. Liana tem por voc muito amor e respeito, e s fala bem. No foi por sua causa que ela resolveu casar-se de repente.
    - No?
    - No. Ela teve medo da reao de Mrio. Ele ficou muito abalado com a desistncia dela, suspeitou a verdade, ficou com raiva de AIberto. Acho at que ele o 
ameaou. Para evitar uma briga entre eles, resolveu casar-se de surpresa. Com o casamento consumado, Mrio ter de se conformar.
    - Ela poderia ter feito isso com ele, mas comigo no. Estou desapontada e muito magoada com essa atitude.
    - Ela nunca pretendeu mago-Ia. Est apaixonada, quer ser feliz. Depois, disse que no queria um casamento pomposo, cheio de rituais.
    Sempre preferiu uma cerimnia simples.
    Eullia cobriu o rosto com as mos e respirou fundo.
    - Isso me parece um pesadelo. Vou acordar de repente e encontrar Liana em seu quarto, como sempre.
    - Ela est muito feliz. Finalmente conseguiu o que desejava. Sua nica preocupao  com voc. Queria vir v-la o quanto antes, mas no permiti. Afinal, foi 
sua primeira noite de npcias. No achei justo. Pedi a ela que me desse permisso para vir dar-lhe a notcia.
    - Eles me enganaram direitinho. O que dir Norberto quando souber? Vai ser uma vergonha.
    - Eles esto casados, Dona Eullia. No h nenhuma vergonha. Eu e Adlia fomos testemunhas, assinamos todos os documentos, e o juiz Otaviano oficializou a cerimnia.
    Eullia no conteve as lgrimas:
    - Um juiz! Junto com estranhos! Como ela pde fazer isso comigo, sua irm?
    - Ela vir aqui mais tarde para lhe explicar.
    
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    - No  preciso. Se ela foi capaz de cuidar de tudo e se casar s escondidas, pode continuar sem mim pelo resto da vida. De hoje em diante no quero v-la nunca 
mais! E esse professor traidor nunca mais por os ps nesta casa!
    - No leve as coisas dessa forma! Liana cuidou da prpria felicidade. Ela tinha esse direito. No deseja que ela fique curada?
    - A sade de Liana no tem nada a ver com esse casamento equivocado.
    - Ver que tenho razo. Com a realizao desse casamento, ela j melhorou de aparncia. No fique contra ela! Saiba compreender...
    - No vou aceitar isso nunca. Esse traidor que foi recebido em minha casa como um amigo me apunhalou pelas costas.
    - Alberto  um homem correto. Seu filho melhorou muito com a convivncia dele. Seja mais cordata. Saiba compreender a situao dela. Deixe-a vir explicar tudo 
e procure entender.
    - No. Diga-lhe que fique onde est. De hoje em diante, esquea que  minha irm. Eles que no apaream aqui. No vou receb-Ios.
    - Ela precisa vir apanhar seus pertences. Quer conversar com voc.
    - Ela que fique por l. Hoje mesmo vou arrumar todas as suas coisas e as mandarei entregar na casa do professor.
    - Est cometendo uma injustia, Dona Eullia. Com certeza vai se arrepender.
    - Assumo a responsabilidade por meus atos. No quero v-la mais. 
    Marclio ainda tentou convenc-Ia a mudar de idia, mas Eullia estava irredutvel. Depois que ele saiu, reuniu os criados e disse com voz irritada:
    - Liana fugiu esta noite para se casar com o professor sem meu consentimento. De hoje em diante, tanto ela como ele esto proibidos de entrar nesta casa. Voc, 
Hilda, arrume o que  dela e mande Nequinho levar tudo  casa de Alberto.
    - As crianas vo achar falta deles! - comentou Maria.
    - Eu mesma falarei com eles. Vocs esto proibidos de falar o nome deles aqui. Para mim os dois morreram.
    Quando ela saiu da sala, antes que Maria comentasse alguma coisa com a copeira, Hilda foi logo dizendo:
    - Vamos subir e arrumar tudo conforme Dona Eullia mandou. No quero nenhum comentrio com ningum. Ns no temos nada com isso.
    Enquanto elas subiam para o quarto de Liana, Eullia ligou para Norberto. Apesar da fora que fazia para suportar a situao, sentia-se agoniada, trada.
    
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    Tantos anos de dedicao, e Liana abandonara-a sem considerao.
    - Norberto, aconteceu uma coisa horrvel! Gostaria que voc viesse imediatamente. Estou desnorteada!
    - O que foi? Eurico piorou?
    - No  nada disso. Liana fugiu de casa ontem  noite para se casar. Norberto guardou silncio por alguns instantes. Ela repetiu:
    - Liana fugiu de casa e se casou.
    - No pode ser! Casou-se como? Com quem? Mrio no saiu de So Paulo.
    - Ela se casou com o professor. Os dois planejaram tudo com a cumplicidade daquele mdico metido que teve a desfaatez que vir hoje dar-me a notcia. Arranjaram 
um juiz, fizeram tudo s escondidas. No posso me conformar. Tenho vontade de cometer uma loucura! Onde j se viu tanta ingratido?
    - Tem certeza do que est dizendo? Voc falou com ela, viu os documentos? Ser que no estamos sendo vtimas de alguma mentira?
    - Por que fariam isso? Ela o mandou na frente para no ter de me enfrentar. Est l, na casa de Alberto, casada desde ontem  noite.
    - Voc precisa conversar com ela, saber se  verdade mesmo. Ningum se casa assim, de repente. Essa histria est mal contada. V at l verificar a verdade.
    - Eu no. Proibi-os de entrarem aqui. Para mim, ela est morta. No desejo v-la nunca mais. Se ela foi capaz de fazer tudo isso sozinha, no precisa de ns 
para nada.
    - Voc est errada, Eullia. Liana no estava bem de sade. E se eles a coagiram? Esse mdico, voc no gosta dele. No ter dado a ela alguma bebida e induzido 
ao casamento?
    - Ele disse que eles se casaram por amor. Ela era noiva de Mrio e gostava do professor.
    - Voc acreditou em tudo que ele disse! Eu duvido. Temos o dever de verificar se tudo isso  verdade. Voc no pode abandonar Liana confiando no que lhe contaram. 
Tem de falar com ela.
    - No me sinto com coragem. Por que no vem para c me ajudar?
    - Est bem. Vou ultimar alguns negcios e hoje mesmo estarei a.
    - Estarei esperando ansiosa. S voc pode me ajudar nesta hora.
            - Acalme-se, Eullia. As coisas podem ser diferentes do que lhe contaram.
    - No creio. Ele parecia to convicto!
    
    203
    
    - As aparncias enganam. Tenha calma, que logo estarei a. Eullia desligou o telefone no momento em que as crianas entravam na sala.
    - O professor no veio para a aula hoje. Por que ser? Ele nunca falta... - tornou Eurico, procurando esconder a curiosidade.
    - O professor no vir mais para aula nenhuma - respondeu Eullia com voz rspida. - Foi despedido.
    - Despedido? - exclamou Amelinha. - Por qu?
    - Porque no serve mais para dar aulas aqui. Seu pai vai chegar hoje  noite e vamos arranjar outro professor para vocs. Esse no volta mais.
    - Eu no quero outro, quero o professor Alberto! - reclamou Eurico com voz chorosa.
    - Vo brincar agora. Aproveitem a folga. Depois falaremos sobre isso. - Onde est tia Liana? - perguntou Amelinha.
    - Ela viajou. Agora vo brincar e me deixem em paz. Tenho coisas importantes a fazer e no posso ficar jogando conversa fora.
    Os trs saram e foram para o jardim, sentando-se no caramancho. - Mame j sabe e no quer nos contar - disse Amelinha.
    - Claro que sabe. O Dr. Marclio ficou falando com ela um tempo. - Ela est com uma cara! Acho que no perdoou os dois. Ouvi quando ela conversou com o pessoal 
na cozinha e proibiu o professor e a Liana de vir aqui - esclareceu Nico.
    - Ela no pode fazer isso. Eles esto casados - disse Amelinha. - Se ela no deixar o professor vir para as aulas, vai ver comigo! - ameaou Eurico com raiva.
    - No seja vingativo. Minha me diz que a vingana s piora as coisas, porque o diabo escuta, fica do seu lado e sua vida s vai para trs - asseverou Nico.
    - Vire sua boca para l! No quero nada com o diabo. Cruz credo! Voc nem sabe do que est falando. Nunca v nada! - disse Eurico.
    - No vejo e no tenho medo de nada. Nem do diabo. Estou com Deus e pronto. Ele me protege de tudo.
    - Nico no tem medo de nada. No  como voc...
    - Cale essa boca, Amelinha. Onde j se viu? Quando a alma do coronel aparecer, vou falar para ele vir puxar sua perna de noite.
    - Eu no quero que o coronel venha! Tenho medo! - choramingou ela.
    - No faa isso com ela, Eurico. Minha me diz que quando voc est amolando os outros, fazendo malcriaes, est deixando o bem de lado.
    
    204
    
    E, quando voc deixa o bem de lado, em sua vida s acontecem coisas ruins.
    - Ento ela que me deixe em paz. No fique me criticando.
    - Ela no vai mais fazer isso - respondeu Nico. - Temos que dar um tempo, ter calma, esperar que as coisas se acalmem. Sua me est muito chocada. Ela vai pensar 
melhor e mudar de idia, vocs vo ver. - Espero que isso acontea, seno vou fazer tudo de que ela no gosta - ameaou Eurico.
    - Vamos esperar - contemporizou Nico.
    - Ser que vo se lembrar do bolo? - disse Amelinha.
    - Estou pensando em sair hoje e ir at a casa do professor saber como esto as coisas - tornou Nico.
    - Ah, se eu pudesse ir com voc... - respondeu Eurico.
    - Sua me iria desconfiar. Vou sozinho e depois conto tudo.
    - Quero saber todos os detalhes - exigiu Amelinha.
    - Pode deixar comigo. No me esquecerei de nada.
    - Puxa, no vejo a hora que voc volte! - exclamou ela.
    - No sei por que minha me no me deixa sair com voc pela cidade - disse Eurico.
    - Voc j pediu para ir na minha casa comigo mas ela no deixou. 
    Ela tem medo que voc se sinta mal.
    - Estou muito melhor. Quero ir com voc.
    - Vamos ver, Eurico. Agora com tudo isso acontecendo no  uma hora boa para tentar nada. Eu prometo que falo com ela quando tudo ficar mais calmo.
    Hilda apareceu no caramancho chamando-os para almoar. Eles obedeceram imediatamente. Queriam que o tempo passasse logo, para que Nico pudesse sair e saber 
as novidades.
    
    205
    
    Captulo 15
    
    
            No fim da tarde, assim que conseguiu sair, Nico foi at a casa do professor. Gislene abriu a porta, convidando-o a entrar.
            Alberto e Liana estavam conversando no escritrio. Nico entrou e foi logo dizendo:
    - Vim saber como esto as coisas.
    - No muito bem - respondeu Liana, triste.
    - Eu sei. A Dona Eullia ficou muito sentida. Mas isso passa, tenho certeza - tornou Nico.
            - Essa  minha opinio. Ela est chocada, mas vai passar. Logo tudo ficar bem - disse Alberto.
    - Conheo Eullia. Quando diz uma coisa, no volta atrs.
    - Ela chamou o Dr. Norberto. Ele vai chegar ainda hoje.
    Liana olhou para Alberto preocupada:
    - Como ser que ele vai reagir?
    - Acredito que com mais bom senso que ela. Afinal, j estamos casados, e eles tero de se conformar.
            - Como foi o casamento? Os dois l em casa esto doidinhos para saber todos os detalhes. Querem que eu pergunte tudo.
            - Foi uma cerimnia muito bonita. O Dr. Marclio tirou algumas fotos e vai mand-las a vocs quando estiverem prontas - contou Liana.
            - Oba! Eles vo ficar contentes, mas no vo agentar esperar pelas fotos para saber tudo. Como  que foi?
            Alberto procurou descrever a mesa, os convidados, o bolo, at o vestido da noiva.
            - Ns guardamos um pedao do bolo para vocs - lembrou Liana.
            - Vou ter que esconder. Se a Dona Eullia souber, vai brigar comigo - disse Nico.
            - Ela no precisa saber. Eu levo voc de volta e daremos um jeito - props Alberto.
            - Ela disse que teremos outro professor. O Eurico est muito revoltado. Garantiu que de hoje em diante vai fazer tudo que ela no gosta.
            - Ele no deve fazer isso - disse Liana.
            - Foi o que eu disse para ele. Mas sabe como : toda vez que no fazem o que ele quer, pronto: ele pinta o sete.
    
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    - Voc, Nico, que  mais ajuizado, converse com ele, diga-lhe que tenha pacincia. Vocs no podem parar de estudar logo agora que esto prximos dos exames 
- aconselhou Liana, preocupada.
    - Isso mesmo, Nico. Vocs precisam ter pacincia, saber esperar.
    Logo tudo ficar bem.
    Eles conversaram mais alguns minutos, depois Alberto pegou a caixa em que estava acondicionado um grande pedao do bolo, dizendo:
    - Vou levar Nico at a manso. Volto logo.
    - Cuidado para que ningum os veja juntos. Se Eullia souber que Nico esteve aqui, pode mand-Io embora tambm. Sabe como ela ... - No se preocupe, ningum 
nos ver - garantiu Alberto. Liana levantou-se dizendo:
    - Espere um pouco.
    Foi at o quarto, apanhou uma pequena caixa e entregou-a a Nico: - Leve para Amelinha.  o enfeite que havia sobre o bolo. Quero que ela guarde como recordao. 
Que ela no deixe Eullia saber. Diga que estou morrendo de saudade dos dois.
    - Direi, sim, Liana.
    Quando eles saram, Liana deixou-se cair pensativa em uma cadeira. Sentia-se triste. Por que se envolvera com o cunhado? No fora isso, ela ainda estaria em 
casa com a famlia. Sentia-se triste e infeliz. Mas preferia isso a que um dia Eullia pudesse descobrir toda a verdade.
    E Norberto, como teria recebido a notcia de seu casamento? Teria entendido que ela o fizera para evitar novas tentaes e para preservar o bem-estar da irm 
e dos sobrinhos? Ou teria acreditado que ela estivesse apaixonada pelo professor? Era difcil dizer. Contudo, ela preferia que ele imaginasse que ela o houvesse 
esquecido. Dessa forma, nunca mais falaria do passado, e assim seria muito mais fcil esquecer.
    J havia escurecido quando Alberto parou o carro no porto dos fundos da manso. Nico desceu, e Alberto perguntou:
    - Como vai fazer com o bolo?
    - Pode me dar a caixa. Tenho um esconderijo aqui, do lado de fora. Eu e o Eurico o fizemos para guardar nosso tesouro. Deixo l e depois, quando ningum perceber, 
pego do lado de dentro.
    - Est bem. Sempre que for ver sua me, passe em casa para nos contar as novidades.
    - Vou ficar atento. Amanh mesmo eu volto.
    - No. Eullia pode desconfiar. Voc tem de fazer tudo como sempre.
    
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    Precisamos ter cuidado. Se ela descobrir, voc no poder mais nos visitar.
    - Deixe comigo. Farei tudo direitinho. S achei a Liana meio triste. Tem certeza que ela vai ficar feliz?
    - Tenho, Nico. Ela est triste por causa da famlia. Mas, se Deus quiser, logo tudo estar em paz.
    - Vou rezar para vocs serem muito felizes.
    - Obrigado, Nico. Voc  um bom amigo.
    Depois de um abrao, Nico, segurando as caixas com cuidado, dirigiu-se a um ponto do muro, e, afastada uma planta com cuidado, apareceu uma abertura onde ele 
as colocou. Depois, acenando para Alberto, deu a volta e entrou no porto principal.
    Eles j haviam jantado. Sempre que ele ia visitar a me, jantava com ela, e por isso no guardaram nada para ele. Mas Nico no se importou. Estava com fome, 
mas pensava no bolo e sua boca enchia-se de gua.
    Logo que se viu a ss no quarto de Eurico, este o cravou de perguntas, mas ele respondeu:
    - Vamos esperar a Amelinha, seno vou ter que repetir tudinho.
    - Vai demorar! Papai chegou e eles ainda esto conversando no quarto. A luz est acesa, d para ver por debaixo da porta.
    - Voc ouviu alguma coisa do que eles disseram? Prometi contar tudo que acontecer aqui para a Liana e para o professor.
    - S sei que mame estava muito nervosa. Tentei ficar na sala, fingindo que estava brincando, mas ela me mandou embora.
    - Voc no ouviu nada?
    - Ouvi-a reclamando de ingratido, dizendo que no queria mais ver tia Liana.
    - E seu pai?
    - Ele dizia que no podia ser assim. Que ela precisava ir conversar com ela, saber a verdade, porque ela nunca dissera que gostava do professor. Sabe de uma 
coisa?
    - No.
    - Ele desconfia que tia Liana se casou enganada. Que o Dr. Marclio deu alguma droga para ela e quando ela acordou estava casada.
    -  nada. Ela se casou acordada, com vestido novo, buqu e tudo.
    Ele est enganado.
    A porta abriu-se e Amelinha entrou sussurrando:
    - No agentei esperar que eles apagassem a luz. No param mais de conversar! Estou morrendo de curiosidade.
    
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    - Psiu! - fez Eurico. - Se mame v voc aqui, pode desconfiar. - Que nada. Ela est to preocupada com o caso da tia que nem vai perceber. Depois, se ela vier, 
eu digo que estava com medo e pronto.
    - Vamos para o meu quarto. Fica mais longe do quarto deles - pediu Nico.
    - Assim voc vai poder contar tudo - disse Eurico.
    - . Vou falar bem baixo. Tem bolo e um presente que a Liana mandou para voc, Amelinha. Depois que todos dormirem, iremos buscar. - Puxa, o que ser? - exclamou 
Amelinha curiosa.
    - Coisas de mulher, com certeza - adiantou Eurico.
    - . Acho que .
    - Mas conte logo. Vamos... - pediu Amelinha.
    Os trs sentaram-se na cama de Nico e ele contou tudo, fazendo suspense e detalhando um pouco mais para causar admirao.
    Eullia, em seu quarto, estava inconformada. Aquela histria da paixo de Liana pelo professor no lhe saa da cabea.
    - Pensando melhor, bem que eu desconfiei que ele andava de olho em Liana. Cheguei a comentar sobre isso. Voc me tirou da idia.
    - No me pareceu verdade.
    - Mas era. Pensando melhor, recordo-me que ela vivia defendendo-o, dizendo que era um homem excepcional. Lia seus livros. Ele a envolveu.
    - Ainda no acredito que ela estivesse apaixonada por ele.
    - Tem de estar! Para ela fazer a loucura que fez... Como explicar essa fuga, assim, na calada da noite? Ela rompeu o noivado, estava livre, poderia ter dito 
que estava gostando dele. Por que no o fez?
    - Ela sabia que voc no gostava dele e no aprovaria.
    - Se ela me houvesse consultado, eu teria feito tudo para impedir esse casamento. Um homem que j foi casado, que foi at suspeito de causar a morte de sua mulher. 
.. Acha que servia para marido de Liana?
    - Ela no pensava assim, uma vez que fugiu com ele.
    - Isso  o que me intriga. Ela estava to enfraquecida. No se importava com nada. Como encontrou foras para fazer o que fez?
    -  o que me intriga tambm. A cumplicidade do mdico parece-me suspeita. Eles bem podem hav-la induzido, forado o casamento.
    - Com que fim? Liana no tem fortuna prpria.
    - O professor pode ter se apaixonado por ela e ter tramado tudo.
     por isso que voc no pode ser to radical. Tem de procur-la, saber como aconteceu e por qu.
    
    209
    
    - No posso fazer isso.
    -  sua nica irm. Voc tem o dever de saber como foi. Depois voc toma a deciso que quiser. Mas temos de descobrir a verdade. Ela pode mesmo estar sendo uma 
vtima.
    - Voc acha mesmo?
    - Acho. Amanh voc vai at a casa do professor e conversa com Liana.
    - No. Na casa dele, no.
    - Talvez seja melhor cham-Ia aqui. Ela queria vir e voc no permitiu.
    - No mesmo. Mandei arrumar tudo que  dela, e Nequinho vai levar amanh logo cedo.
    - No faa isso. Mande Nequinho dizer a ela que venha at aqui para conversarmos. Aqui teremos mais liberdade para dialogar.
    - Tem razo. Faremos isso.
    - Agora estou cansado. Vamos dormir.
    - No sei se vou conseguir. Estou to nervosa!
    - Acalme-se. Amanh conversaremos com ela. Se o que penso for verdade, se ela foi coagida de alguma forma, trataremos da anulao do casamento.
    - Acha possvel?
    - Acho. Seria a melhor soluo. Pode ser at que a estas horas Liana j esteja arrependida e desejando voltar para casa.
    - Deus o oua!
    Depois que eles se deitaram e apagaram a luz, Nico entreabriu a porta e, notando que estava tudo s escuras, disse baixinho:
    - Vou pegar as caixas.
    - Vou com voc - respondeu Eurico.
    - Eu no fico aqui sozinha. Tambm vou - exclamou Amelinha. - Psiu!!! Querem acordar todo mundo? Vamos sem fazer barulho. P-ante-p, saram, apanharam as caixas 
e subiram novamente para o quarto. Assim que fecharam a porta, Amelinha disse:
    - Acenda o abajur. Quero ver o presente de tia Liana.
    Eurico obedeceu e ela abriu a caixa: sobre papel de seda branco estava um casal de noivinhos, e Amelinha no se conteve:
    - Que lindo!  do bolo da noiva!
    - Fale baixo, seno estamos fritos - pediu Nico.
    - Eu no disse que era coisa de mulher? - comentou Eurico.
    
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    - Eu tambm gosto.  muito bonito! - respondeu Nico.
    -  lindo! Olha s o vestido dela! Tem o buqu, a aliana, tudo. - ... reconheo que  bonito. Para um bolo de noiva at que fica bem - concordou Eurico.
    - Vamos comer o bolo. Estou morrendo de fome. No jantei -lembrou Nico.
    Eurico pegou uma faca e cortou um pedao e experimentou:
    - Est uma delcia!
    Os outros dois fizeram o mesmo. Comeram at se fartar.
    - Estou com sede - disse Amelinha. - Vou descer e beber gua. - No precisa. Escondi aqui duas garrafas de guaran - tomou Eurico com satisfao.
    - Voc pensa em tudo! - comentou Nico.
    - Bolo tem de ser com guaran. Por isso, quando subi trouxe estas garrafas. Sabia que voc traria o bolo e pensei na sede.
    - Fez muito bem - concordou Amelinha, bebendo alguns goles no gargalo da garrafa.
    Depois, limparam as migalhas que haviam cado no cho e esconderam no armrio a caixa com a sobra que pretendiam comer no dia seguinte. S depois de tudo arrumado 
foram cada um para seu quarto, satisfeitos e com sono.
    Na manh seguinte, Nequinho foi  casa do professor levando um bilhete de Eullia para Liana, pedindo-lhe que fosse at l conversar. - Dona Eullia pediu resposta 
- pediu Nequinho.
    - Espere um pouco. J volto.
    Liana deixou Nequinho esperando na sala e foi falar com Alberto, que estava no escritrio entregando-lhe o bilhete.
    - Norberto convenceu-a. Iremos, com certeza.
    Depois que Nequinho foi embora, Liana procurou Alberto.
    - Este bilhete me deixou nervosa.
    - Sem razo. Voc no queria conversar com eles, tentar convenc-Ios a aceitar nosso casamento?
    - O que mais desejo  fazer as pazes com Eullia. Mas, no sei por qu, s em pensar em ir at l sinto um arrepio... um medo...
    - Se eles desejam conversar,  sinal de que desejam entender melhor nossa atitude.  uma boa oportunidade de reconquistarmos a compreenso deles. No h o que 
temer. Nossos papis esto corretos, somos casados legalmente.
    
    211
    
    - Apesar de desejar muito que eles compreendam, no sinto vontade de ir at l.
    - Hum... No me parece natural esse seu receio. Pensando bem, talvez no seja ainda o momento de voltarmos  manso.
    - Por qu? Voc mesmo disse que  um bom pressgio.
    - Falar com eles, sim. Mas o esprito do coronel Firmino continua l. Talvez voc sinta receio de tornar a encontr-Io.
    - Credo! No me fale nesse homem. No quero v-lo nunca mais.
    Liana estava plida e seu corpo tremia. Alberto aproximou-se segurando suas mos geladas, tentando infundir-lhe coragem.
    - Acalme-se, Liana. Se voc no quiser ir, pediremos a eles que venham aqui.
    - Ser melhor. No me sinto com coragem de entrar naquela casa de novo. E se ele estiver me esperando e aparecer?
    - Ele no poderia fazer-lhe mal. Estamos protegidos. Vamos conversar com o Dr. Marclio. Ele nos dir como agir. O que voc no pode  alimentar esse medo. O 
esprito do coronel Firmino est dementado, preso em um tempo que j passou, tentando manter seu poder sem perceber que isso s aumenta o prprio sofrimento.
    - Se ele sofre, deveria aprender a no ser maldoso com os outros. - Ele no pretende ser maldoso. Quer resolver seus problemas pessoais como se estivesse ainda 
naqueles tempos.
    - Se os espritos bons esto nos ajudando, por que no o esclarecem e acabam logo com o sofrimento dele? Assim nos deixaria em paz.
    - No  assim que as coisas funcionam. Ele precisa perceber a verdade, aprender algumas coisas para evoluir. Esse  um trabalho interior que s ele poder fazer. 
Ningum, por mais poderoso que seja, conseguir fazer por ele. O amadurecimento do esprito, o desenvolvimento da conscincia  trabalho individual e intransfervel. 
Ele tem o dele, eu o meu, e voc o seu. Para crescer em esprito, todos teremos de pagar o preo da aprendizagem. Por isso, por mais que os bons espritos desejem 
nos ajudar, precisam esperar o momento certo para que obtenham bons resultados. E esse momento depende de nossas atitudes.
    -  desanimador. No caso do coronel, ento... Ele est morto h tantos anos e continua igual.
    - Parece, mas no . O sofrimento cansa, a alma deseja renovar, crescer. Chega uma hora em que ela atrai situaes, pessoas, desafios que provocam as catarses 
necessrias e a abertura da conscincia. Tenho certeza de que todos ns estamos vivendo um momento desses.
    
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    - Todos ns?
    - Sim. De alguma forma estamos ligados ao coronel.
    - Nem o conhecemos!
    - Nesta vida.
    - Voc j me falou nisso. A reencarnao s vezes me parece to racional, mas outras to fantasiosa. No sei como classificar.
    -  um fato natural. Todos passamos por vrias reencarnaes na Terra. S assim poderemos entender as diferenas sociais e fsicas entre as pessoas.
    - Esse  o lado racional. Mas o outro, morrer, sobreviver  morte em outro lugar, ficar pequeno de novo e voltar ao mundo como beb, crescer, fazer tudo de novo, 
no ser uma iluso criada por nosso desejo de evitar a morte?
    - No. H muitas provas cientficas da sobrevivncia do esprito aps a morte do corpo. Assim como as h tambm da volta desses espritos em outros corpos de 
carne. H pessoas que at se recordam de passagens de outras vidas conseguindo provas materiais sobre suas vidas passadas.
    - De que forma?
    - Investigando se suas recordaes de outras vidas so verdadeiras. Verificando nomes, lugares, muitos conseguiram provas irrefutveis.
    - Mesmo que isso seja verdade, no temos nada a ver com o esprito do coronel.
    - A que voc se engana. Se no estivssemos ligados por laos de vidas passadas, ele no teria se fixado em voc. Ele acredita que foi seu marido.
    - Que horror! Ele est completamente louco.
    - ... pode ser. Mas, se o atramos em nossas vidas,  porque de alguma forma estamos envolvidos em seu passado.
    - Tenho horror desse homem! No posso recordar sua apario naquela noite sem sentir muito medo.
    - Esse medo pode ter origem em fatos que aconteceram em outros tempos.
    - No gosto de pensar nisso. O que eu quero mesmo  me livrar dele. Que nunca mais me aparea.
    - Penso que chegou o momento de deslig-Io de voc. Vamos conseguir isso com a ajuda espiritual.
    - E se ele no estiver maduro?
    - A vida faz tudo certo. Se no houvesse chegado a hora, vocs no teriam se reencontrado. No se deixe levar pelo medo. Ele agora no tem mais condies de 
prejudicar ningum.
    
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    Ao contrrio, precisa de ajuda. Ns temos de rezar por ele, para que perceba como tem perdido tempo agarrando-se ao passado e para que se disponha a enfrentar 
o presente, trabalhando pela prpria melhoria interior.
    - Voc acha que vamos nos libertar dele?
    - Tenho certeza. Ele vai ser ajudado, e a manso ficar livre de sua presena.
    - Esse pensamento me deixa mais calma.
    - Vou conversar com o Dr. Marclio. A manh est bonita, quer me acompanhar at l? Andar um pouco lhe far bem.
    - No. Ainda me sinto fraca, nervosa. Prefiro ficar em casa. Depois, no estou disposta a enfrentar a curiosidade das pessoas que vamos encontrar pelas ruas.
    - Nosso casamento criou uma aurola romntica muito a gosto deles. Tenho certeza de que esto do nosso lado.
    - Pode ser. Mas ainda no me sinto forte para enfrentar isso. - Como quiser.
    Depois que Alberto saiu, Liana sentou-se pensativa na poltrona da sala. Estava vivendo uma situao que lhe parecia irreal. No se sentia casada, muito menos 
com Alberto.
    O que fizera de sua vida? Por que se entregara  paixo e pusera a perder sua paz? At quando viveria uma vida de mentiras tentando acobertar sua traio?
    Ela no merecia ser feliz. Se pelo menos conseguisse esquecer, talvez pudesse encarar a irm com naturalidade, sem se culpar.
    Alberto chegou  casa do mdico, que, vendo-o, cumprimentou-o com alegria.
    - Vim conversar com voc - disse ele. - Eullia quer que Liana v at a manso para conversar. No sei se ser conveniente Liana voltar l agora. Ela sente receio.
    - Hoje  noite traga Liana para um tratamento espiritual. Assim, perguntaremos o que ser melhor.
    - Eu j havia mandado o recado de que iramos hoje at l.
    - Transfira para amanh. Assim ganharemos tempo.
    Alberto despediu-se, havendo combinado de voltar com Liana s sete da noite. Chegando em casa, ficou preocupado com o ar triste e abatido dela.
    Sentou-se a seu lado tentando distra-la, mas Liana sentia-se distante e dispersiva.
    
    214
    
    Apesar das insistncias dele e de Gisele, mal se alimentou, permanecendo prostrada, em grande apatia.
    Com pacincia, Alberto redobrou a ateno procurando de vrios modos interess-Ia, sem grande sucesso.
    - So seis e mela, est quase na hora de irmos  casa do Dr. Marclio.  melhor ir se arrumar.
    Liana balanou a cabea, dizendo:
    - V voc. No estou me sentindo bem.
    - Nada disso. Voc precisa ir. Eles vo rezar para voc ficar boa logo. - No adianta. Por mais que rezem, nunca vou esquecer a mgoa e o remorso que tenho dentro 
de mim.
    - No diga isso. Voc  jovem, tem uma longa vida pela frente. Tudo isso vai passar e voc vai ficar bem. Vamos, v se vestir.
    - No quero! Por que insiste? S desejo um pouco de paz. No entende isso?
    Vendo as lgrimas que comeavam a cair dos olhos dela, seu rosto contrado, Alberto no insistiu. No poderia lev-Ia  fora. Seria melhor ele ir sozinho e 
pedir ajuda espiritual.
    - Ento eu vou. Gislene poder fazer-lhe companhia at eu voltar. - No precisa. Ela pode ir embora.
    - Nada disso. Ela ficar, no , Gislene?
    - Fico sim, professor.
    Quando Alberto chegou  casa do mdico, j encontrou os quatro mdiuns que freqentavam as sesses. Ele explicou que Liana se recusara a ir, ao que Marclio 
respondeu:
    - Eu temia isso. O esprito do coronel Firmino a influencia mesmo  distncia.
    -  possvel isso? - indagou Alberto.
    - Claro. Ele pensa nela e manda energias controladoras. Pretende cham-la de volta.
    - Ele pode conseguir?
    - Se no fosse a proteo que j a envolveu, ela voltaria, ou ele iria at onde ela se encontra. Para o esprito no h distncia.
    - Nesse caso, sair da manso no adiantou muito.
    - Engana-se, Alberto. Foi muito bom. L a ascendncia era mais forte. Afastando-a, alguns amigos espirituais conseguiram proteg-Ia, evitando que ele a encontre 
pessoalmente de novo. Ele no se conforma de hav-la perdido de vista. Pensa nela todo o tempo, chamando-a de volta. Isso a perturba, mas por enquanto nossos amigos 
espirituais esto conseguindo mant-Ia afastada.
    
    215
    
    Contudo,  importante iniciarmos logo um tratamento espiritual para que ele no venha a conseguir o que pretende.
    - H esse risco?
    - H. Infelizmente ela se deixa impressionar muito pelo medo, e ele se aproveita disso.
    - O que faremos, ento? Ela se recusa a vir.
    - Vamos pedir ajuda.
    Marclio reuniu os mdiuns e pediu:
    - Vocs comecem a sesso. Adlia assume a direo. Orem por Liana, pedindo ajuda aos amigos espirituais. Enquanto isso, eu e Alberto iremos busc-la. Ela precisa 
vir.
    Enquanto eles se reuniam ao redor da mesa e iniciavam as oraes, os dois foram  casa do professor.
    - Onde est Liana? - indagou Alberto a Gislene.
    - Foi se deitar. Disse que estava com muito sono.
    - Temos de acord-Ia - tornou o mdico.
    Os trs foram at o quarto. Gislene tentou acord-Ia, mas no conseguiu. Ela parecia dopada.
    - Segurem a mo dela, cada um de um lado, e coloquem a outra mo em minhas costas e rezem.
    Gislene postou-se junto  cabeceira da cama e os outros dois fizeram o que ele pediu. Marclio colocou as mos sobre a testa de Liana e fechou os olhos em orao. 
O corpo da moa estremecia de quando em quando, at que ele abriu os olhos dizendo:
    - Vamos esperar um pouco. Podem largar.
    Alguns minutos depois, Marclio aproximou-se de Liana chamando:
    - Liana! Liana! Acorde.
    Ela abriu os olhos, fitando-o admirada.
    - Aconteceu alguma coisa?
    - Viemos busc-la. Levante-se, vamos.
    - Agora?
    - Sim. Ns vamos sair e Gislene vai ajud-la a vestir-se.
    Assim que se viram fora do quarto, Alberto no se conteve:
    - Ela vai obedecer?
    - Vai. Conseguimos afastar por um pouco a magnetizao do coronel Firmino.
    - Era ele que no a deixava ir?
    - Sim. Ele a chamava e dominava, mantendo-a sob seu controle.
    Foi preciso afastar a fora dele para que ela agisse por si mesma.
    
    216
    
    - No podemos afastar a energia dele de vez?
    - Ainda no. Eles esto ligados pelo passado, por assuntos no resolvidos. Os fatos indicam que est na hora de se libertarem. Mas isso vai ocorrer quando eles 
aprenderem o que a vida pretende ensinar com essa experincia.
    - Nesse caso, o tratamento espiritual pode no surtir o efeito que esperamos.
    - Pode. s vezes at acontece. Principalmente com quem busca a ajuda dos espritos, acreditando que eles vo intervir, resolver tudo, sem que precisem fazer 
nada. Basta orar, freqentar sesses, tomar passes e pronto. Tudo ficar resolvido. H at quem decida dedicar-se ao trabalho da mediunidade em benefcio do prximo, 
pensando assim livrar-se de todas as dores.
    - O trabalho de assistncia ao prximo  abnegado. O que vocs esto fazendo por Liana tem grande valor.
    - Tem mesmo. Todos ns temos muitos amigos que intercedem em nosso favor no plano espiritual. Entretanto, isso no nos garante o equilbrio, o bem-estar, a felicidade. 
 preciso mais.  preciso cada um fazer a parte que lhe cabe no desenvolvimento da prpria conscincia.
    - Concordo plenamente.
    - Esse  um trabalho interior de cada um.
    - Sinto que os problemas aparecem quando j estamos maduros para enfrent-los.
    -  uma idia interessante.
    - A vida  perfeita,  Deus em ao. Quando podemos agir melhor e teimamos em manter atitudes que no condizem mais com nosso nvel de conhecimento espiritual, 
a vida tenta nos alertar por todos os meios. Se teimamos em no ouvir, ento surgem os problemas como desafios que nos empurram para onde temos de ir.
    - Quando aprendemos, tudo se resolve.
    - S aprendemos quando identificamos a atitude que est causando nossos problemas e a substitumos por outra melhor.
    - A mudana interior, de que os espritos sempre falam.
    - Que depende exclusivamente de ns. Assim como criamos crenas que geram as atitudes, podemos modific-las em qualquer tempo. Basta querer.
    A porta do quarto abriu-se e Liana, plida, apoiada no brao de Gislene, apareceu. Imediatamente Alberto aproximou-se dela.
    - Que bom que voc vai!
    
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    Vamos embora - disse Marclio tomando o brao de Liana, fazendo-a apoiar-se nele.
    - Voc vai ficar bem.
    Quando chegaram  casa do mdico, entraram na sala iluminada por delicada luz azul, onde as pessoas sentadas ao redor da mesa oravam em silncio.
    Marclio conduziu Liana para uma cadeira vazia ao redor da mesa, fazendo-a sentar-se. Alberto acomodou-se discretamente em um canto da sala.
    - Vamos fazer uma corrente - pediu Marclio.
    As pessoas deram-se as mos e Liana tentou se levantar assustada. Mas o mdico, segurando-a pelos ombros, f-Ia sentar-se novamente, dizendo:
    - No tenha medo. Relaxe.
    - No quero ficar aqui - respondeu ela. - Preciso ir embora. - Agora no pode. Tenha pacincia. Logo, tudo vai passar. Liana caiu em pranto convulsivo enquanto 
todos, de mos dadas, continuavam orando silenciosos. Aos poucos os soluos foram diminuindo, at que ela se calou.
    De repente um rapaz que estava em orao estremeceu e deu um soco na mesa, gritando enfurecido:
    - Finalmente a encontro! No adianta vocs se meterem entre ns! No vo conseguir nos separar. Desta vez isso no vai acontecer! Largue-me! Tenho de sair daqui 
levando-a comigo! Ela  minha, me pertence. Sou seu marido! Vocs no podem impedir.
    - Acalme-se! - disse Adlia com voz firme. - Ningum aqui deseja prejudic-lo. Ao contrrio, queremos que voc se liberte do passado. Chega de sofrer! Chega 
de reviver um tempo que passou e no volta mais. 
    -  mentira! Quero-a de volta. Tenho esperado durante tanto tempo e agora que a encontrei no vou perd-Ia.
    - O tempo passou. Tudo mudou. Por que resiste e quer continuar sofrendo? Seu corpo j morreu h muitos anos e voc continua aqui, resistindo a deixar a casa 
onde viveu, preso s emoes daqueles tempos, quando as pessoas que voc ama j esto em outras experincias, em outros corpos, desejando aprender a viver melhor. 
S voc continua rebelde, machucando-se, desejando voltar no tempo. Isso  impossvel.
    - Eu morri, mas continuo o mesmo. Quero minha mulher. Ela morreu antes de mim. No sei por que se escondeu nesse corpo jovem, mas eu a vejo como sempre foi. 
Ela se esconde de medo de mim. Mas no desejo fazer-lhe mal. Eu a amo! S no admito que me contrarie. Ela ficou contra mim, ajudou aqueles dois traidores, e isso 
no posso perdoar. Eu, o chefe da famlia, que preciso ser respeitado, fui duas vezes ofendido.
    
    218
    
    Por minha mulher e por minha filha. Acha que poderia deixar passar? Eu sou o coronel Firmino! O dono destas terras, o homem mais rico deste estado! Todos me 
temem e respeitam. Como ser trado pela prpria filha?
    - Sua filha no o traiu. Ela se casou com o homem que amava. - Um campons miservel, sem eira nem beira. Um aventureiro que estava de olho em nossa fortuna.
    - Voc se engana. Eles se amavam de verdade.
    - Todos eles me pagam! Aqueles patifes se esconderam naqueles corpos de criana, mas no conseguem me enganar. Principalmente aquele Neco malandro. Chamam-no 
de Nico, mas eu vejo quem ele ! Continua arrogante, enfrentando-me. Vive dizendo que no tem medo de mim. Qualquer hora ele vai ver s.
    - Pare de ameaar os outros. Voc precisa mais  cuidar de sua vida, que est muito complicada. Vive infeliz, sente dores, est doente, passa mal, mas ainda 
assim quer se meter na vida dos outros.
    - Foram eles que se meteram na vida de minha famlia.
    - Ningum  dono de ningum. A unio da famlia s acontece por meio do amor, nunca com tirania. Vamos, coronel Firmino, pense em quanto tempo perdido na lamentao, 
na revolta, no dio. Chega! Est na hora de deixar de sofrer, hora de buscar a felicidade a que tem direito.
    - Felicidade! - tornou ele com voz amarga. - Isso sempre me foi negado. Vivi anos de angstia e de solido. Por que me negam o direito de ficar com minha companheira?
    - Porque voc ainda no est pronto. Est doente. Precisa tratar-se primeiro. Depois, quando estiver melhor, poder tomar suas decises. Olhe, o mdico est 
a, a seu lado, desejando ajud-lo. V com ele.
    - No vou. No quero. O que ele quer  me afastar de minha casa, de minha famlia, e me internar. No vou ficar preso de jeito nenhum. Logo agora que sei onde 
os meus se esconderam.
    - Ele no deseja prend-Io, apenas fazer um tratamento. Se for com ele, logo se sentir aliviado, sem as dores que tanto o atormentam. Deixe o mdico cuidar 
de voc.
    - Isso  conversa. Sei o que ele quer. J ouvi essa conversa antes. Ele me leva, depois vem com essa histria de perdoar, esquecer tudo, nascer de novo. Isso 
nunca. Eu no vou nascer outra vez. Ser criana, no poder ter meu poder como sempre. No, ningum vai me tirar de minha casa.
    - No pode ficar l para sempre. Chegar o dia em que a vida o obrigar a deixar tudo isso.
    
    219
    
    E, quando acontecer, ser de uma forma mais dolorosa. Quanto maior a resistncia ao bem e ao progresso, maior a dor que voc atrair em seu caminho. Estamos 
querendo ajud-lo.. No torne as coisas mais difceis do que j esto.
    -  intil. Ningum vai me afastar de minha casa ou de minha famlia. Deixem-me em paz. No me provoquem para que nada acontea com vocs.
    - No temos medo de suas ameaas - interveio Marclio, colocando a mo direita sobre a cabea do rapaz. - Estamos no bem e somos protegidos pela luz divina, 
essa mesma luz que agora est envolvendo voc.. Sinta a beleza do amor divino, a alegria de viver no bem e na paz.
    A cabea do rapaz pendeu sobre a mesa e Marclio proferiu uma prece em favor de Firmino. O corpo do moo estremeceu e ele abriu os olhos admirado.
    - Est tudo bem - garantiu Marclio, batendo carinhosamente nas costas do jovem, que o olhava sem entender o que acontecera.
    - J passou - assegurou Marclio, oferecendo um copo com gua ao rapaz. Esperou alguns segundos at que ele estivesse em si, apanhasse o copo e bebesse a gua. 
Depois pediu que duas pessoas fizessem imposio de mos, doando energias positivas sobre Liana, que durante todo o tempo chorava baixinho.
    Quando eles acabaram, ela havia parado de chorar. Bebeu a gua que lhe ofereceram e Marclio fez uma prece encerrando a reunio. Quando as luzes foram acesas, 
Alberto aproximou-se de Liana perguntando:
    - Sente-se melhor?
            - Um pouco. Foi terrvel. Tive muito medo. Parecia que a qualquer momento ele iria se atirar sobre mim, aprisionando-me. Fiquei to aterrorizada! Houve 
uma hora em que me vi deitada em uma cama e amarrada enquanto ele se aproximava e me beijava. Pensei enlouquecer de horror! Nunca mais quero ver esse homem!
    Marclio, que se aproximara com Adlia, colocou a mo sobre o brao de Liana, dizendo srio:
    - Voc precisa ser forte e enfrentar isso para se libertar.
    - No entendo! Por que ele cismou comigo desse jeito?
    - Voc foi esposa dele. A seu modo, ele a ama e quer t-Ia junto. - No diga uma coisa dessas! Que horror! No pode ser verdade.
    -  melhor aceitar isso e no se impressionar. Aconteceu no passado, no foi uma boa experincia para voc. Mas, de alguma forma, vocs ainda permanecem unidos.
    
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    - Se isso  verdade, por que ele no me deixa em paz? Eu no gosto dele.
    - No  s o amor que cria laos de unio entre as pessoas. O dio, a revolta tambm unem.  por isso que precisamos trabalhar nossas emoes e compreender que 
cada pessoa  como  e s d o que tem. Geralmente, a revolta, o dio aparecem quando esperamos das pessoas mais do que nos podem dar.
    - No me conformo em ter de perdoar tudo, agentar tudo. Isso  se anular.
    - No  isso que estou dizendo. Voc no  obrigada a agentar tudo nem a conviver com pessoas que no aprecia, sejam seus parentes ou no. Defender sua paz 
 um direito. O que eu disse  que fazer exigncias, esperar compensao dos outros, irritar-se quando eles no fazem do jeito que voc quer  iluso. A vida vai 
destruir todas as iluses, porque nos levam a uma viso falsa, distorcida, que cria sofrimento.
    - Se eu no gosto do coronel Firmino, tambm no lhe tenho dio. S no quero que ele me atormente. Esse  um direito!
    - Tem razo. Por isso estamos todos aqui, tentando esclarecer seu esprito para que compreenda a inutilidade de sua atitude.
    - Nesse caso, se no o odeio, por que ele se ligou a mim?
    - Voc no se recorda do passado. No sabe como foi sua vida ao lado dele. Por sua repulsa, podemos perceber que tiveram problemas dolorosos em comum. Como voc 
teria reagido a eles, ainda no sabemos.
    - Alguma atitude sua, na vida atual, o atraiu - interveio Alberto. - A depresso, a culpa, a auto-imagem negativa podem ter acionado esse processo.
    - Pode ser. Quando estamos bem, positivos, cheios de vigor e fora espiritual, nenhum esprito sofredor consegue nos envolver. Para que ele pudesse envolv-la 
to fortemente, se no foi porque voc guardava por ele         um dio inconsciente, deve ter sido pela queda de seu padro energtico.
    -  o mais provvel - concordou Alberto.
    - Voc entrou em depresso, atraiu problemas do passado. Para sair deles, ter de aprender a fazer o oposto: fortalecer-se atravs de pensamentos otimistas, 
cheios de vigor e de alegria.
    Liana baixou a cabea, pensativa. Sabia muito bem como entrara em depresso depois do que lhe acontecera com o cunhado.
    - No fique triste, Liana. Voc vai se libertar, ficar bem e ter ajudado a que esse esprito se esclarea - garantiu Adlia com entusiasmo. - Agora vamos tomar 
nosso caf com bolo que j est na copa.
    
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    No trajeto de volta para casa, Liana estava pensativa e calada. Foi Alberto quem quebrou o silncio:
    - Como est? Melhorou?
    - Um pouco. O peso, o sono irresistvel, o atordoamento passaram.
    Estou conseguindo pensar com mais clareza. Isso torna mais aguda a sensao de culpa, de que estou sempre fazendo coisas erradas.
    - Se continuar pensando assim, ser difcil fugir s influncias do coronel Firmino.
    - No diga isso, por favor!
    - Depois de tudo que conversamos, deve entender que, se deseja libertar-se da influncia dele ou at de outros espritos perturbadores, precisa mudar de atitude. 
No ficar contra voc, criticando-se, cobrando-se, julgando-se errada apenas porque se deixou levar por um instante de emoo e descontrole.
    - Dito assim, parece que no fiz nada.
    - No fez mesmo. Quando aconteceu o fato, voc foi envolvida, e nem teve tempo para lembrar-se de sua irm ou de qualquer compromisso moral. Aconteceu. No foi 
uma coisa boa, apesar de ter sido agradvel. Mas depois voc pesou o fato e decidiu que no deveria continuar.
    Essa atitude foi pensada, reflete o respeito e o amor que sente por sua irm e a vontade de no a prejudicar. Fazendo isso, voc manteve sua dignidade. Apesar 
de amar seu cunhado, renunciou, resistiu a seu assdio, mostrou-se forte. Por que se culpa ainda?
    -  difcil apagar essa mancha.
    - Isso  s um conceito moral tardio que no resolve nada, uma vez que no d para voltar atrs e evitar o que aconteceu. Reflita, Liana.
    Voc errou, agiu impensadamente, mas teve foras para no persistir no erro. No pode agora continuar punindo-se pelo resto da vida. Voc continua digna. No 
se anule nem desperdice a oportunidade de uma vida feliz por causa disso.
    Liana colocou a mo sobre a de Alberto que estava na direo do carro, acariciando-a.
    - Obrigada, Alberto. Voc me faz bem. Nunca poderei pagar tudo que tem feito por mim.
    - Seja feliz. Essa ser minha recompensa.
    Ela sorriu. Haviam chegado em casa. Liana entrou e foi para a cozinha, dizendo:
    - Vou fazer um ch para ns.
    - Acabamos de tomar caf com bolo.
    
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    - No faz mal. Esse ch ser como um mensageiro da paz. Sabe, quando eu tinha um problema, costumava sempre ir conversar com minha av. Ela me abraava, fazia 
um chazinho, servia e dizia: o ch  um ritual de amizade, ajuda a pensar, toma as pessoas mais ntimas e aconchegadas. E eu sentia que era verdade. Entre os goles 
de ch eu ia desabafando minhas mgoas e, ao terminar, sempre me sentia muito melhor.
    - Que seja. Vamos tomar nosso ch e trocar nossas confidncias. Talvez eu tambm precise esquecer algumas mgoas.
    
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    Captulo 16
    
    
    - Dona Eullia, Eurico no quer sair da cama.
    Eullia suspirou contrariada, olhando para o marido, que terminava de almoar.
    - Esse menino est me preocupando. Comeou tudo de novo. Voltando-se para Hilda, que esperava uma resposta, continuou: - Diga-lhe que se no descer para o almoo 
no vou deixar Nico ficar no quarto dele hoje.
    Hilda saiu apressada, e Norberto tornou:
    - Sente-se e termine de almoar. Ele est fazendo birra.
    - No sei, no. Tem andado deprimido, no se alimenta bem, estou comeando a ficar com medo. E se ele piorar de novo?
    - Esse menino  muito delicado. No sei a quem saiu.
    - Ele disse que quer que o professor volte. Isso  impossvel.
    - Infelizmente. Apesar de tudo, Alberto tinha um jeito especial de lidar com ele.
    - Ele no  confivel. No depois do que fez.
    - Liana respondeu que viria para conversar, e at agora nada. - . Ela mandou dizer que viria, mas no disse quando.
    - No podemos ficar sem saber o que est acontecendo com ela.
    Pode ser at que esteja mal e no possa vir nos ver.
    - No diga isso. Ela foi embora porque quis.
    - Aquele mdico anda metido nisso. Ela pode ter sido coagida. - Ser?
    - Voc deveria ir at l e ver o que est acontecendo.
    - Isso no. Depois do que ela fez, seria me rebaixar. Ela  quem deve vir e pedir perdo.
    - Bobagem. Nem sabe ao certo o que aconteceu. Se no tomar nenhuma providncia, pode se arrepender. E se ela estiver mal? Eullia sobressaltou-se:
    - Voc acha?
    -  uma hiptese.
    Ela pensou por alguns instantes, depois decidiu:
    - S se voc for comigo. Se estiver acontecendo alguma coisa grave, precisarei de sua ajuda para tir-Ia de l.
    
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    - Concordo. Iremos logo depois do almoo, sem avisar, para no dar tempo a que tentem alguma coisa.
    Hilda reapareceu na porta e Eullia perguntou:
    - E ento?
    - Ele est se lavando e vai descer.
    - Onde esto os outros dois?
    - Na copa. No os deixei subir, conforme a senhora mandou. - Muito bem.
    Eles terminaram de almoar. Eullia subiu e arrumou-se para sair.
    Quando voltou, as crianas almoavam na copa.
    - Hilda, verifique se Eurico se alimenta direito. Se ele no comer, no vai brincar com Nico nem com Amelinha. Se ele quiser ficar no quarto, ficar sozinho.
    Dando uma olhada desafiadora para Eurico, Eullia saiu com o marido. Quando Hilda foi at a cozinha, Nico disse baixinho:
    - Acho melhor comer, Eurico. Pelo menos hoje. O dia est bonito e bom para brincarmos no jardim.
    - . Por hoje. Mas amanh comeo de novo.
    - No adianta fazer isso com ela, no vai dar certo - ponderou Amelinha.
    - Sempre deu. Voc vai ver. Ela vai trazer o professor de volta.
    - Se ela descobrir que eu levo comida escondido para voc, me manda embora - murmurou Nico.
    - Ela no vai saber nunca. S se alguma linguaruda contar.
    - No olhe assim para mim. Ns temos nossos segredos, e eu nunca contei nada.
    -  verdade - disse Nico. - Ela tem sido uma boa companheira. - Voc gosta de proteg-Ia s porque  mulher, como todos aqui fazem. Todas as meninas so faladeiras.
    - No eu! - protestou ela.
    - Voc est sendo injusto. Reconhea que ela nunca contou nada. - Est bem... At agora ela no contou nada.
    - Aonde ser que eles foram? No costumam sair a essa hora lembrou Amelinha.
    - Acho que foram ver a Liana - sugeriu Nico.
    - Ser? Ser que vo fazer as pazes? - perguntou Eurico, contente.
    - Acho que no. Ainda ontem ela estava muito zangada com o professor. Eu ouvi quando ela disse a papai que ele nunca mais pisaria nesta casa - comentou Amelinha.
    
    225
    
    - Se ela fizer isso, vai ver s. Vou infernizar a vida dela outra vez. - No faa isso, Eurico. Minha me sempre diz que a mentira d mau resultado. Voc vai 
fingir de doente e pode acabar doente de novo. Lembra como voc passava mal quando chegou aqui?
    - Agora estou curado. O professor disse que sou forte como todo mundo.
    - Mas no abuse. Sua me no merece ser enganada.
    - Merece, sim. Ela  muito implicante e mandona. Queria que tia Liana se casasse com quem ela escolheu. Isso  errado.
    - Isso . Ela gosta mais do Dr. Mrio. Ele  uma boa pessoa, mas a Liana no gostava dele para casar. Tambm se casou com o professor s para poder fazer aquele 
tratamento. Ela no o ama.
    -  mesmo - interveio Amelinha. - Mas eles casaram com buqu, at com os noivinhos no bolo de noiva. Acho que eles se gostam, sim.
    - Vocs mulheres so to bobas! O que tem a ver o bolo de noiva com o gostar?- desafiou Eurico.
    - No adianta discutir por isso. O importante  a Liana sarar, ficar feliz. Com o professor e o Dr. Marclio cuidando dela, vai dar tudo certo. Ela vai ficar 
boa e, no fim, sua me vai compreender, eles vo se entender e pronto.
    O carro de Norberto parou em frente  casa do professor. Ele desceu e tocou a campainha. Gislene abriu a porta.
    - Viemos falar com Liana - disse Norberto.
    - Queiram entrar, vou avisar Dona Liana.
    Ele voltou ao carro, abriu a porta e Eullia desceu. Entraram e sentaram-se na sala, tentando controlar a inquietao.
    Gislene procurou Liana e Alberto no escritrio e disse baixinho: - Eles esto na sala, Dona Eullia e o Dr. Norberto. Perguntaram pela senhora.
    Liana olhou apreensiva para Alberto, que respondeu:
    - Diga-Ihes que ela j est indo.
    Gislene saiu e Liana sussurrou:
    - Meu Deus! E agora?
    - Acalme-se. Vai dar tudo certo.
    - O que diremos?
    - Vamos representar o papel de casal em lua-de-mel. Estamos muito apaixonados. Fugimos para no termos de esperar pelo casamento.
    - E Norberto? O que vai pensar de mim?
    
    226
    
    - Que voc mudou, deixou de gostar dele e que me ama. No  isso o que quer?
    -.
    -  a maneira de tir-Io definitivamente de seu caminho e devolv-lo aos braos de Eullia.
    - Tem razo. Estou to nervosa...
    Ele tomou as mo dela e acariciou-as, tentando esquent-Ias.
    - No vai acontecer nada. Estou do seu lado. Voc est plida. Vamos, v se pintar um pouco. Tem de parecer uma mulher feliz e amada. - Est bem.
    Liana foi at o quarto, arrumou-se um pouco e voltou:
    - Estou bem?
    - Melhorou. Agora sorria, vamos entrar abraados e fingir que nos amamos.
    Quando os dois entraram na sala abraados, Eullia e Norberto levantaram-se.
    - Sejam bem-vindos  nossa casa - disse Alberto com gentileza, estendendo a mo a Norberto, que fingiu no perceber. Sem perder a compostura, Alberto continuou: 
- Sentem-se, por favor.
    Eles se deixaram cair no sof, tentando encontrar palavras que expressassem o que sentiam.
    Liana aproximou-se de Eullia, dizendo:
    - Sinto muito, Eullia, por no haver contado o que pretendamos fazer.
    - Voc fugiu de casa, na calada da noite, como uma criminosa.
    No precisava fazer isso.
    - Voc abusou de nossa confiana, professor - disse Norberto fuzilando-o com os olhos.
    - Desculpe, Norberto, mas no fiz nada errado. Ns nos amamos. Liana desmanchou o noivado. Pensamos muito e achamos que, se nos casssemos dessa forma, pouparamos 
tempo e comentrios.
    - No acredito que tenham se casado. Ningum pode fazer isso sem o tempo necessrio para as providncias legais.
    Virando-se para Alberto, Liana pediu:
    - Meu bem, pode apanhar o comprovante do casamento?
    Ele saiu e Norberto no se conteve:
    - Liana, estou vendo e ainda no acredito. Como pde fazer uma coisa dessas depois de tudo? - Ela empalideceu, e ele tentou corrigir:
    - Depois de tudo que sua irm fez por voc a vida inteira?
    
    227
    
    - Foi por amor. Eu amo meu marido. Gostaria que compreendessem e perdoassem a forma como entendi de procurar a felicidade.
    Alberto voltou e apresentou o documento a Norberto. Enquanto ele o examinava, sentou-se ao lado de Liana no sof, abraando-a com carinho, beijando-lhe a face 
delicadamente.
    Norberto estava plido e ofendido. No encontrou palavras para dizer. Em silncio, passou o documento a Eullia, que o examinou atentamente. Depois, entregou-o 
a Alberto, dizendo:
    - . Parece que est consumado. Nesse caso, nada mais temos a fazer aqui. Vamos embora.
    Levantou-se. Alberto levantou-se tambm, aproximando-se dela e de Norberto, dizendo:
    - Por favor, Eullia. Perdoe nossa atitude. Compreenda. Garanto a vocs que amo muito Liana e que tudo farei para v-la feliz.
    - Ela escolheu voc, contra nossa vontade. Portanto no precisa de ns para nada. Vamos embora.
    Liana colocou a mo carinhosamente sobre o brao da irm, dizendo com voz splice:
    - Por favor, Eullia! No se v. Eu no pretendi mago-Ia. Fique.
    Diga que me perdoa e que poderemos continuar amigas como sempre.
    - No posso. Como voltar a confiar em sua amizade depois do que fez? Voc escolheu onde e com quem desejava ficar. De hoje em diante, siga seu caminho, eu seguirei 
o meu. Espero que no se arrependa do que fez. Vamos embora, Norberto.
    Segurou o brao do marido e praticamente o arrastou pela porta afora, lanando um olhar irado sobre Alberto. Liana fez um gesto para impedi-Ia, mas ela se desviou 
e saiu fechando a porta atrs de si.
    Liana, trmula, deixou-se cair em uma cadeira, chorando copiosamente. Alberto tentou confort-Ia.
    - Eu sabia que ela no ia me perdoar. Eullia sempre foi orgulhosa e determinada. Nunca mais ela vai querer falar comigo! Perdi minha irm.
    - No diga isso. Com o tempo ela vai refletir, pensar melhor. Sentir sua falta, voltar atrs. Voc vai ver.
    - No creio. Sei como ela .
    - Voc tinha o direito de cuidar de sua vida do seu jeito. Por mais que ela tenha cuidado de voc, no pode interferir. Voc  livre. Vamos, enxugue essas lgrimas. 
Reaja.
    Estendeu o leno, que ela apanhou enxugando os olhos e tentando parar de chorar.
    
    228
    
    - Assim  melhor - disse ele quando ela finalmente parou. - Agora sou eu quem vai fazer aquele ch especial de sua av.
    Abraou-a com carinho, conduzindo-a at a cozinha e f-Ia sentar-se enquanto colocava a chaleira no fogo, fazendo um sinal para que GisIene os deixasse a ss.
    Preparou o ch, serviu e sentou-se a seu lado, sem que ela, abatida e triste, reagisse. Procurou conversar, mas Liana parecia ausente e no respondia ao que 
ele dizia.
    - Vou me deitar - disse ela.
    Sem esperar resposta, levantou-se, foi para o quarto e deitou-se. Preocupado, Alberto ligou para o Dr. Marclio, contando-lhe o sucedido.
    - Ela ficou aptica. Caiu em funda depresso. Tentei conversar, mas nem sequer me ouviu.
    - Vou dar uma passada a para v-la.
    Quando o mdico chegou, Alberto j o esperava com impacincia.
    Gislene fora ao quarto de Liana e ela cara em um sono pesado. Quando a chamaram, no quis acordar.
    - Ela estava to bem! - explicou ele. - Foi a intransigncia de Eullia que a deprimiu. Disse que havia perdido a irm.
    - Liana est frgil. Tem alguma coisa que a oprime, ainda no sei o que . Parece que sente prazer em se castigar.
    Alberto hesitou alguns segundos, depois respondeu:
    - Ela tem um segredo que a oprime. No estou autorizado a lhe contar, embora pense que, como seu mdico, deveria saber.
    - Os espritos perturbadores exploram todas as fraquezas daqueles a quem pretendem dominar. Esse ponto fraco que ela tem permite que o padro energtico dela 
baixe e assim eles podem atingi-Ia. Por isso, quando no conseguem manter um assdio direto, procuram fazer com que pessoas ligadas a ela toquem esse ponto e assim 
conseguem obter os resultados que querem.
    - Isso est acontecendo com ela.
    - Est. No momento, por haver se deprimido, o esprito do coronel Firmino deve t-Ia dominado, mesmo  distncia.
    - Deve ser isso. Tentamos acord-Ia, mas parece que est dopada. - Vamos tentar de novo.
    Dirigiram-se ao quarto e aproximaram-se de Liana.
    - Vamos orar e pedir ajuda - tornou Marclio, estendendo as mos sobre a cabea de Liana.
    Os dois fecharam os olhos e oraram em silncio.
    
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     V buscar um copo com gua - pediu ele.
    Alberto obedeceu e voltou com o copo, colocando-o sobre a mesa de cabeceira. O mdico colocou uma das mos sobre o copo e continuou em orao. Depois se sentou 
em uma cadeira ao lado da cama, dizendo:
    - Ela est sendo atendida. Vamos esperar.
    De fato, Liana continuava adormecida, porm seu sono agora parecia regular e seu rosto estava mais corado. Alberto sentou-se tambm e ambos esperaram em silncio.
    Os minutos foram passando e s se ouvia o tique-taque do relgio na mesa de cabeceira. Passados dez minutos, ela acordou, olhando-os admirada.
    Marclio levantou-se, pegou o copo com gua e deu-o a ela dizendo: - Vamos, beba.
    Liana obedeceu. Depois respirou fundo e perguntou:
    - O que aconteceu? Por que est aqui? Fiquei mal outra vez? - Ficou.
    - Sinto muito. Estou dando trabalho a vocs.
    - Est mesmo. E porque quer.
    Ela olhou assustada para ele:
    - Desculpe, no entendi.
    - Est na hora de entender. Voc se deprime e com isso permite o acesso s energias do coronel Firmino.
    - Deus me livre! Foi ele?
    - Foi. Mas ele no teria tido acesso se voc no lhe abrisse as portas.
    - No diga isso. No quero nada com ele!
    - Mas ele quer. E quando voc fica negativa, deprimida, ele consegue envolv-la.
    - Estou sofrendo muito. No posso evitar a tristeza. Eullia no me perdoou. Disse que nunca mais quer me ver.
    - Ela disse. Mas quem garante que ser assim? - perguntou o mdico.
    - Eu sei que ela  obstinada. Nunca volta atrs.
    - Para conduzir as pessoas ao caminho melhor, a vida tem recursos que desconhecemos. Acho que voc deve confiar. Afinal, no fez nenhum mal. Est apenas cuidando 
de sua cura. Um dia ela entender isso. O que no pode  se machucar dessa forma e permitir o envolvimento destrutivo do coronel. Precisa se defender.
    - Como?
    
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    - Tentando no dramatizar os fatos em sua vida. Nada  definitivo. Voc j resolveu que Eullia nunca vai mudar. Quem pode garantir isso? Todos ns mudamos a 
todo momento.
    - Talvez eu no merea viver em paz.
    Alberto fez ligeiro sinal para o mdico e levantou-se dizendo:
    - Continuem conversando, que vou mandar fazer um cafezinho. Saiu. Queria dar oportunidade a que Liana contasse ao mdico o verdadeiro motivo de sua depresso. 
Mandou preparar o caf, mas no mandou servir. Queria dar mais tempo aos dois.
    Quando Eullia se sentou no carro ao lado do marido, no conseguiu esconder a indignao.
    - Eu no lhe disse? Ela fez tudo de caso pensado. Bem que eu no queria vir. E voc pensou que ela estivesse seqestrada. De onde tirou essa idia?
    - No sei. Nunca pensei que Liana fosse capaz de fazer uma coisa dessas.
    - Pois fez! Talvez a estas horas estejam rindo juntos da pea que nos pregaram. Viu como se abraavam descaradamente em nossa frente?
    Norberto mordeu os lbios nervoso. Essa cena no saa de sua mente. Sentira vontade de esmurrar o professor. Aquele traidor! Com aquela cara de bom homem, respeitador. 
E pensar que fora ele quem o levara para dentro de sua prpria casa!
    Cerrou os lbios com raiva. Teve medo de responder e deixar transparecer o que estava sentindo. Ela continuou:
    - Prepararam tudo com antecedncia. Ningum se casa de repente. Como so fingidos! Eu no percebi nada. Ela com aquela cara de coitada, sempre deitada, fraca, 
desvalida. Enquanto isso, estava sabendo muito bem o que queria fazer.
    - A culpa  daquele professor de mela-tigela.
    - E pensar que ns o colocamos dentro de casa!
    - Cale-se. Essa idia est me mortificando.
    - Liana morreu para mim, definitivamente.
    Norberto hesitou, depois respondeu:
    - No sei, Eullia. Apesar de tudo que vimos, ainda tenho algumas dvidas. Liana estava plida. Pintou-se, mas dava para notar sua palidez. No est bem como 
quis parecer.
    - O que quer dizer? Ela estava um pouco abatida, mas muito feliz. Claro que ainda no recuperou totalmente a sade. Mas de resto no h nada para duvidar.
    
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    Ela mesma disse que ama o marido e que se casou de livre vontade.
    Norberto sacudiu a cabea pensativo:
    - Se pensarmos bem na Liana que conhecemos, que sempre foi cordata, obediente, prezando sua amizade e carinho, no podemos entender por que fez isso. Chego a 
pensar que por trs h alguma coisa que no sabemos. Aquele mdico no sai de minha cabea. Sobre a mesa da sala havia uma receita dele, eu vi. Se fosse em nossa 
casa, ele no teria tido acesso. Bem que eu queria lev-Ia a Caldas. Por que no insistiu?
    - Eu insisti. Depois, Alberto sempre se deu muito bem com o Dr. Marclio. Vrias vezes tentou me convencer de que eu deveria deix-Io tratar Liana. Como se ele 
fosse uma sumidade! Claro que agora, ela sendo sua esposa, faz como quer.
    -  por isso que apesar de tudo eu ainda insisto. No acho uma atitude sensata voc fechar a porta a eles.
    - Depois do que fizeram?
    - Sim. Liana no tem estado bem ultimamente. E se ela estiver com as faculdades mentais alteradas? E se o professor tivesse se aproveitado desse fato para casar-se 
com ela e t-Ia sob sua guarda?
    - Por que faria isso?
    - Por vrias razes. Porque se apaixonou, porque pretende ligar-se  nossa famlia de alguma forma.
    - O dinheiro que temos  nosso. Liana no tem nada.
    - Ento  por paixo mesmo. Um homem faz qualquer coisa por uma paixo.
    Eullia olhou-o admirada. Nunca imaginara que o marido pensasse dessa forma, sempre to pacato, discreto.
    - Liana  bonita, mas no tanto a ponto de despertar uma paixo - respondeu ela.
    Norberto controlou-se. Estava difcil suportar a situao. Procurou manter a calma ao responder:
    -  verdade. Nesse ponto eu concordo. Mas sabe como : tenho ouvido contar tantas coisas! H homens desequilibrados.
    - Bom, a eu tambm concordo. O professor deve ser um desses. Onde j se viu? Casar-se dessa forma, roubar a mulher como se estivesse no tempo das cavernas. 
No tem nenhum respeito pela famlia. Por isso vive sozinho.
    Norberto meneou a cabea, concordando, e, enquanto Eullia discorria sobre como deveria ser o respeito  famlia e  sociedade, ele pensava em conseguir uma 
forma de encontrar-se a ss com Liana a fim de descobrir a verdade.
    
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    No acreditava que ela houvesse esquecido o amor que os unia. Tinha certeza de que ela o amava e havia se afastado por causa de Eullia. Na verdade, ela era 
o maior obstculo para que eles pudessem ficar juntos para sempre.
    Tinha certeza de que, se sua mulher morresse, Liana no hesitaria em casar-se com ele. Essa era sua esperana depois que Liana desfizera o noivado com Mrio.
    Em seu desespero, pensara algumas vezes em tirar Eullia do caminho, mas como? No se sentia com coragem de cometer um crime, principalmente com a me de seus 
filhos. Mas desejava de corao que ela morresse, para que pudesse libertar-se desse peso e assumir o amor de sua vida.
    Queria que Liana continuasse vivendo com eles na esperana de um dia realizar esse sonho. Enquanto ela era solteira, havia esperana. Agora isso seria impossvel. 
Ela havia preferido outro.
    No podia acreditar. Liana nunca havia amado ningum antes dele e entregara-se por amor. Precisava v-la, ouvir de seus lbios que se casara apenas para fugir 
da paixo e do desejo que a atormentavam. Que quando se encontravam, mesmo na presena de Eullia e das crianas, ela sentia, como ele, a vontade de repetir o delrio 
daquela noite.
    Essa lembrana reaparecia sempre que a via, e isso lhe tirava o flego. Era a custo que conseguia dominar-se.
    Enquanto Eullia continuava falando, ele meneava a cabea de vez em quando concordando e pensava como conseguir o que desejava. Arranjaria um jeito de tirar 
frias, ficar algum tempo na manso, depois encontraria uma forma de encontrar-se com Liana a ss.
    Naquela noite, depois do jantar, Norberto voltou ao assunto.
    - Estive pensando, Eullia, em tirar umas frias. Estou cansado e penso que passar algum tempo aqui com vocs me far bem.
    Eullia corou de prazer. Preocupado com seus problemas, o marido desejava confort-Ia. Sorriu e respondeu:
    -  uma tima idia. Assim me ajudar com Eurico, que tem andado impossvel.
    - Espero que sua sade no tenha piorado.
    - Piorou. No se alimenta como antes e vive querendo que eu chame de volta o professor. Temos de arranjar algum que continue as aulas. Estavam indo to bem!
    - Dessa vez tentaremos uma professora.  mais seguro. Voltarei a So Paulo amanh, ajeitarei tudo para poder ficar aqui.
    
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    Vou ver com nossos amigos se consigo alguma moa boa, de boa famlia, que possa vir e dar aulas para as crianas.
    - Bem pensado. Quem sabe assim Eurico esquece esse assunto e deixa de me preocupar. Ele fica na cama, no come, e, se no fosse Nico, que consegue tir-Io de 
l, seria pior.
    Norberto suspirou. Sempre desejara um filho forte, viril, corajoso, inteligente. A vida deu-lhe Eurico, fraco, doente, sem capacidade de sobressair-se em nada. 
Pacincia. Teria de suportar esse fardo pelo resto da vida.
    Na manh seguinte, Norberto partiu prometendo voltar antes do fim da semana. Dois dias depois, ligou dizendo que voltaria no sbado levando uma professora que 
fora muito bem recomendada e lhe parecera muito culta e preparada.
    Na tarde do dia marcado, Norberto chegou, em companhia da nova professora. Na porta de entrada, Eullia examinou-a enquanto descia do carro. Era jovem, pouco 
mais de vinte anos talvez, pele clara, olhos e cabelos castanhos, bem-feita de corpo. Eullia fixou-a e ela no desviou o olhar.
    Aproximou-se da porta e parou, esperando que Norberto a apresentasse. Ele se adiantou e, depois de beijar levemente a face de Eullia, estendeu a mo para a 
jovem, dizendo:
    - Esta  Melissa Duarte, a nova professora.
    Eullia estendeu a mo:
    - Prazer em conhec-Ia. Duarte? Por acaso ser parente do Dr. Gabriel Duarte?
    - Sobrinha - respondeu Melissa com voz firme. - Ele  irmo de minha me.
    Eullia convidou-a a entrar. Mandou levar a bagagem para o quarto.
    - Deve estar cansada da viagem. Hilda  nossa governanta e vai mostrar-lhe seu quarto.
    Ela assentiu com a cabea e depois das apresentaes acompanhou Hilda. Assim que se viu a ss com o marido, Eullia comentou:
    - Essa professora no vai dar certo.
    - Porqu?
    -  muito jovem, e alm do mais me pareceu um pouco petulante. - Trata-se de uma moa de muito boa educao, de famlia tradicional. Voc conhece muito bem os 
Duarte. Depois, ela  pedagoga. Acredite que no foi fcil conseguir algum desse nvel que concordasse em vir para o interior, longe dos amigos e da famlia.
    
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    - Era isso que eu estava me perguntando. Por que uma jovem da melhor sociedade deixa a famlia e vem para o interior morar com estranhos e ensinar trs endiabradas 
crianas? No arranjaria um emprego muito melhor na cidade?
    -  possvel. Mas Juca, quando sugeriu que a contratasse, disse-me que ela  do lado pobre da famlia. Precisa trabalhar para se sustentar.
    - Estava com roupas muito finas para ser to pobre como voc diz.
    - No reparei. O que sei  que ela estava com vontade de sair da cidade e vir para o interior. Prefere a vida calma. Conversei com a me e com ela, e combinamos 
tudo. Ela vai ficar pelo menos at os exames do fim do ano. Faltam apenas trs meses.
    - Se eles conseguirem passar para o quarto ano, ser timo. Se Eurico tivesse mais sade, poderamos intern-Ios em um bom colgio e voltar a morar na cidade.
    - Infelizmente isso ainda no  possvel. Vou subir para tomar um banho. Estou empoeirado.
    Depois do banho, Norberto estendeu-se na cama. Tinha tempo de descansar um pouco antes do jantar. Pretendia ficar o tempo que precisasse para conseguir se encontrar 
com Liana sem que Eullia soubesse.
    Liana! Como esquecer aqueles momentos que haviam passado juntos? Em sua saudade, Norberto visualizava todos os detalhes da conquista, revendo o prazer que havia 
sentido.
    No percebeu que um vulto escuro se aproximou dele atrado pelo teor de seus pensamentos. Era o esprito do coronel Firmino.
    Colou-se a ele e, admirado, comeou a sentir o prazer que Norberto estava sentindo ao visualizar aqueles momentos. Delirou com a relao ntima que eles haviam 
tido, experimentando emoes que ele no se recordava de haver sentido antes.
    Suas experincias sexuais com a esposa haviam sido sempre mantidas contra a vontade dela e nunca lhe haviam dado emoes to fortes como as que experimentava 
agora.
    Num relance, brotou em sua mente a idia de aproveitar melhor sua descoberta. Ele estava morto e, por mais que se esforasse, no conseguia contato direto com 
ela. Contudo, se usasse o corpo daquele homem, poderia t-Ia de volta mesmo antes de ela morrer.
    Assim, ele decidiu no abandonar mais Norberto. Ficaria ligado a ele para saber tudo que ele planejava. Percebeu que ele iria tentar encontrar-se com Mariquita. 
Que a amava e que era correspondido. Era a maneira de v-la, de t-Ia de volta.
    
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    Norberto passou a mo pelos cabelos nervosamente. De repente, seu desejo de ver Liana ficou insuportvel. Fez grande esforo para se controlar. Precisava ter 
pacincia. No podia dar largas s suas emoes.
    Apesar de tudo, no pretendia pr tudo a perder. Se Eullia descobrisse, seria o caos. Esforou-se para pensar em outra coisa, mas no conseguiu. Levantou-se 
e desceu para o jantar. Sua cabea estava pesada, sentia-se inquieto.
    Melissa desceu e Eullia j a esperava.
    - Vou chamar as crianas para conhec-Ia.
    Hilda apareceu na sala acompanhada de Amelinha e Nico.
    - Onde est Eurico? - indagou Eullia.
    - Est deitado. No quis levantar - esclareceu Hilda.
    - V l e diga-lhe que estou esperando.
    Enquanto Hilda subia, Eullia fez as apresentaes:
    - A Srta. Melissa  a nova professora. Esta  Amelinha, minha filha. Este  Nico.
            - Como vai? - disse Melissa, olhando-os com interesse e estendendo a mo para Amelinha.
    - Bem - respondeu a menina.
    - E voc, Nico, como vai?
    - Bem. Seja bem-vinda, professora.
    - Obrigada.
    Hilda voltou mais corada do que o costume:
    - Ele disse que no vai levantar-se daquela cama nunca mais.
            - Est vendo? - comentou Eullia voltando-se para Melissa. 
    Meu marido deve ter lhe falado sobre nosso filho Eurico.
            - Falou, sim.
            - Se a senhora quiser, posso subir e ver se consigo traz-Io - ofereceu Nico.
            -  melhor mesmo. V l, Nico, e faa isso. No desejo perder meu bom humor.
            Nico subiu enquanto Amelinha olhava para Melissa com curiosidade. Norberto chegou e Eullia foi logo dizendo:
    - Eurico no quer se levantar.
    - Voc vai falar com ele? - perguntou Norberto.
    - Nico j foi. Nesses casos ele  melhor que eu.
    Nico entrou no quarto de Eurico, que estava coberto at a cabea. - Levante, Eurico.
    - No vou. Logo hoje que veio aquela professora horrvel. Deve ser velha, fela, malvada e burra, como todas as outras que j tive. Eu quero o professor de volta.
    
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    - Pelo que pude ver, ela no parece nada disso que voc disse.  moa, bonita e tem boa cara.
    - Mesmo assim eu no quero nenhuma professora. Eu quero Alberto.
    - Voc no est sendo inteligente.
    - Est me chamando de burro?
    - No exagere. De que adianta querer uma coisa que agora no  possvel? O professor mesmo me disse que precisamos ter pacincia por enquanto. Sua me no quer 
fazer as pazes com eles.
    - Tem de fazer. No pode ficar toda a vida de mal com tia Liana.
    Ainda mais agora que ela se casou com nosso professor.
    - Voc no pode obrigar sua me a fazer uma coisa que ela no quer. - Mas eu quero.
    - No seja to mimado. Por que no podemos ficar com outra professora por algum tempo, s enquanto esperamos que eles faam as pazes? - Porque eu queria logo.
    - No seja criana. Minha me sempre diz que querer o que no depende de ns  se machucar  toa.  o que est fazendo: se machucando sem nenhum resultado bom. 
Ao contrrio. Irrita sua me, fica doente de novo e ela briga mais ainda com o professor e a Liana, pondo a culpa neles.
    - Se eu ficar doente de novo, a culpa  s dela. Eles no tm nada com isso.
    - A culpa  s sua. Est culpando sua me, mas  voc quem est se machucando, sendo rebelde, ficando sem comer e sem ir brincar no sol.
    -  s por um pouco, at ela fazer o que eu quero.
    - Voc est desafiando a vida. Est melhor e se finge de doente.
    Vai acabar ficando mesmo. A culpa  s sua.
    - No vou ficar doente de novo.
    - Se continuar assim, vai. Por isso, levanta dessa cama. Vamos jantar. Como pode falar mal da nova professora sem conhecer?
    - Eu sei que ela  ruim e que no vai dar certo.
    - Eu s vou aceitar isso e concordar depois que voc a conhecer e tivermos algumas aulas. Antes disso, eu no sei.
    - Voc no acredita em mim.
    - No mesmo. Voc no pode saber se vai dar certo ou no sem experimentar. Est s fantasiando.
    
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    - Est bem. Eu vou levantar, conhec-Ia, assistir a algumas aulas, s para provar a voc que eu estava certo.
    - Isso mesmo. Ento vou acreditar, e at ajudar voc a fazer uma campanha contra ela.
    - Voc me ajuda a azar-Ia?
    - S se ela for ruim mesmo. Antes de saber isso, no.
    - Est bem... vamos ver...
    Ele se levantou disposto a provar a Nico que sabia o que estava dizendo. Observando-o enquanto se vestia, Nico sorriu levemente. Todos na manso se queixavam 
de Eurico, dizendo que ele era muito difcil de levar. Nico pensava justamente o contrrio. Sabendo conversar com ele, era muito fcil conseguir o que queria.
    
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    Captulo 17
    
    Eurico olhou para Melissa, que estava falando sobre histria, e fechou o caderno. O sol l fora estava brilhando e ele estava pensando em ir ver o ninho de passarinhos 
do limoeiro. J teria filhotes?
    No estava nem um pouco interessado em saber quem foram os presidentes dos pases da Europa, nem por que haviam feito a Primeira Guerra Mundial.
    Melissa calou-se, observando-o enquanto Amelinha o cutucava por baixo da mesa tentando chamar sua ateno. Eurico, absorto, no percebeu. Continuou pensando 
nos assuntos de seu interesse, que nada tinham a ver com o que ela desejava ensinar.
    Melissa aproximou-se dele em silncio e sentou-se a seu lado, calada. Os outros dois observavam sem coragem para dizer nada. Eurico demorou alguns segundos para 
perceber Melissa sentada a seu lado.
    Quando notou, olhou para ela com ar de desafio. Se ela tentasse repreend-Io, sabia muito bem o que fazer. Passaria maI o resto do dia e Eullia acabaria por 
culpar a professora e mand-Ia de volta para So Paulo. Ela continuou em silncio, absorta, sem olhar para ele. O tempo foi passando, e Eurico irritou-se com o mutismo 
dela.
    - No gosto de histria e no vou estudar isso - disse ele.
    Melissa levantou-se, colocou-se na frente de Eurico e olhando-o nos olhos disse com firmeza:
    - Se no gosta, no faa.
    - Voc  a professora. No vai me obrigar?
    - No.  um direito seu.
    - No est sendo paga para me ensinar?
    - Estou. Esta  nossa primeira aula. Eu estou fazendo minha parte, ensinando. Cumpro meu compromisso. Ofereo um trabalho e sou paga.
     uma troca digna. Voc no pode dizer o mesmo.
    - Porqu?
    - Sua me faz a parte que lhe compete pagando seus estudos. Portanto, voc tem tudo a seu favor. S que, se no estudar, nunca ter independncia para se sustentar. 
Se pretende continuar vivendo s custas de sua famlia pelo resto da vida,  uma deciso sua que eu respeito. No pretendo for-Io a nada. Se no quiser mais comparecer 
s aulas, falarei com sua me e pronto.
    
    239
    
    Descontamos uma parte do dinheiro que ela paga e darei aula s para os outros dois.
    - No quer dar aula para mim s porque no gosto de estudar?
    - Isso mesmo. Gosto de trabalhar com quem aproveita. No sou de perder tempo com quem no deseja aproveitar. Sinto-me mal em fazer sua me pagar por alguma coisa 
sem proveito.
    - J que voc veio, no pode se recusar a me dar aulas.  sua obrigao.
    - Assim como eu respeito voc se no deseja estudar, exijo que me respeite quando eu me reservo o direito de ensinar apenas os que desejam aprender. Portanto, 
se est sem vontade e prefere ir para o jardim, fique  vontade.
    - Est me mandando embora?
    - No. Estou dando oportunidade para voc escolher o que quer. - E se eu ficar?
    - Vou exigir ateno e vontade de aprender.
    - Pois eu vou embora mesmo. Voc no  como o professor Alberto. Ele, sim, sabia dar aulas.
    Eurico levantou-se e saiu. Nico fez um gesto para det-Io, mas Melissa fez-lhe sinal para que deixasse. Amelinha, que ia levantar-se, sentou-se novamente.
    - Muito bem - disse Melissa com voz suave. - Vamos continuar.
    Eurico foi para o jardim ver os passarinhos, entretanto no conseguia desviar a ateno da janela da sala de aula. O que estariam fazendo l tanto tempo? Por 
que depois que ele saiu os outros dois continuaram l como se nada houvesse acontecido? E a professora? Ela no sabia que a nica razo de ser contratada em casa 
era porque ele no podia freqentar uma escola? Se no desse aula para ele, os outros dois poderiam ir para a escola da cidade.
    Ela no tinha medo de perder o emprego? Ouvira seu pai dizer que ela precisava trabalhar para se sustentar. O que ser que ela estava ensinando?
    Hilda, vendo-o, foi ter com ele, perguntando:
    - O que est fazendo neste sol? Por que no est na aula? - Por que no quero. No gosto da aula dela.
    - Este sol vai fazer-lhe mal. Vamos entrar.
    - No vou.
    - Vou falar com sua me. Essa professora no devia t-Io deixado sair, ainda mais para ficar neste sol.
    
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    - Isso mesmo. V, sua linguaruda! Diga para ela que  melhor mandar essa professora embora. Ela no serve mesmo.
    Hilda saiu e ele se sentou no caramancho. Essa aula estava demorando muito. No acabava mais. O que ele iria fazer at que Nico estivesse livre?
    Entediado, esperou e, quando os viu sair para o jardim, foi ao encontro deles, que conversavam animadamente.
    - Ele tomava banho uma vez por ms, de roupa e sentado na cadeira - dizia Amelinha rindo.
    - Que banho? - disse Nico. - Enfiavam a cadeira dele no mar e a tiravam. Isso  banho?
    - Do que esto falando? - indagou Eurico.
    - De Dom Joo VI, rei de Portugal - respondeu Nico rindo. - Por que ele fazia isso?
    - No vamos contar nada - disse Amelinha. - Quem mandou voc no ficar na aula? Foi to engraado!
    - Esto falando da aula?
    - Estamos - respondeu Nico. - Sempre pensei que um rei fosse muito limpo.
    - No conte nada para ele - disse Amelinha.
    - Foi s a primeira aula, e vocs dois j esto puxando saco da professora.
    - No seja despeitado. Ela  boa e eu gosto dela - defendeu ela. - E voc, Nico?
    - Foi a primeira aula e no nego que foi divertida.
    - Ela me mandou embora. No tem pacincia.
    - Para falar a verdade, Eurico, ela foi at muito boa. No deu castigo nem obrigou voc a nada. S deixou voc escolher. Foi voc quem resolveu sair.
    Eurico mordeu os lbios nervoso. Essa Melissa era bem capaz de o fazer at perder o amigo. No dia seguinte iria tentar outra coisa, mas ele haveria de conseguir 
mandar essa professora embora.
    Norberto no havia conseguido dormir. Ficara se revirando na cama s pensando em um jeito de ver Liana a ss. Quando fosse at l, no queria que o professor 
estivesse em casa. Ele no ia deix-Ios sozinhos, tinha certeza.
    Liana teria contado ao marido o que acontecera entre eles? Essa dvida o atormentava. Ardia por estar com ela de novo, e o desejo reacendera de forma insuportvel, 
fazendo com que ele perdesse a vontade de comer, de fazer qualquer outra coisa.
    
    241
    
    Por que o casamento dela o descontrolara tanto? Ele a amava, mas conseguia se conter. Agora estava sendo difcil. Tinha mpetos de sair correndo e ir at ela, 
tom-Ia nos braos sem se importar com mais nada.
    Essa emoo era to forte que o assustava. Depois do almoo, saiu dizendo que ia a uma loja da cidade, mas foi diretamente  casa do professor.
    As janelas abertas indicavam que estavam em casa. No teve coragem de parar o carro em frente  casa. Deixou-o em outra rua e foi a p at l. 
    A rua estava deserta e ele parou a alguma distncia, observando. Viu quando Alberto, segurando um grande envelope pardo, saiu caminhando. Estava com sorte. Liana 
ficara em casa.
    Assim que Alberto virou a esquina, ele se aproximou e tocou a campainha. Gislene abriu e; vendo-o, assustou-se.
    - Preciso falar com Liana.
    - Ela est descansando. Acho que adormeceu.
    - Pois v e acorde-a.  urgente.
    Ela o convidou a entrar na sala e foi ao quarto de Liana. Enquanto esperava, Norberto mal conseguia dominar a ansiedade. Finalmente ia saber a verdade.
    Alguns instantes depois, Liana apareceu. Ele teria vindo a mando de Eullia? Ela teria se arrependido?
    Gislene esperava na porta da sala, receosa.
    - Precisamos falar a ss - disse Norberto.
    - Pode ir, Gislene.
    Logo que ela saiu, ele se aproximou dela, abraando-a e dizendo emocionado:
    - Liana, estou ficando louco! Como pde fazer isso comigo? Ela o empurrou aflita:
    - Deixe-me. No quero mais falar nisso.
    - No consigo pensar em mais nada que no seja voc. No posso viver sem voc!
    Tentava abra-Ia, e ela o empurrava nervosa.
    - V embora. Deixe-me em paz! No quero nada com voc! Olhando para ele, Liana foi tomada de um sentimento de horror. Plida e apavorada, ela repetia:
    - V embora. Deixe-me em paz.
    - No posso! Agora que estamos juntos de novo, no mais a deixarei.
    
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    - Voc enlouqueceu? E Eullia?
    - Nada mais importa. Vamos fugir. Ficaremos juntos para sempre.
    Nunca mais nos separaremos. Vamos nos amar! Eu preciso de voc!
    Ele a abraava e Liana sentia-se sufocar enquanto ele a apertava em seus braos, beijando-lhe o rosto, os cabelos, procurando seus lbios.
    Foi a que Liana deu um grito, seu corpo amoleceu. Norberto segurou-a, deitando-a no sof enquanto Gislene apareceu assustada, dizendo:
    - O que foi, Dona Liana? O que aconteceu?
    - V buscar um copo de gua - pediu Norberto, plido.
    - O que fez com ela? No sabe que est muito doente e que no pode passar emoes fortes? Vou buscar o remdio dela e chamar o mdico.
    - No quero que chame aquele mdico. Vou lev-Ia comigo para casa. De l iremos a So Paulo ver o mdico de nossa famlia.
    - O senhor no vai lev-Ia daqui sem avisar o marido dela.
    - Eu me responsabilizo. Ela precisa de atendimento, e no vou deix-Ia nas mos daquele charlato. O marido dela que v depois nos procurar. Vou buscar meu carro, 
que est na outra rua. Enquanto isso, veja alguma roupa dela. Depois vai me ajudar a coloc-Ia no carro.
    Ele saiu e Gislene nervosa trancou as portas e fechou as janelas. No iria deixar que ele levasse Liana. Tratou de buscar o remdio e tentou acord-Ia. Ela parecia 
morta. No dava acordo de si.
    Assustada, Gislene apanhou o telefone e ligou para a casa do Dr. Marclio. Ele no estava, mas Adlia, informada do que acontecia, resolveu:
    - Sei onde Marclio est. Vou imediatamente cham-lo. Agente firme e no abra a porta para Norberto. Seria bom se rezasse enquanto isso. Depois eu explico por 
qu.
    Gislene desligou e vistoriou toda a casa para ver se tudo estava bem trancado. Em seguida, ouviu a campainha. Ela estremeceu. Norberto estava de volta e tocava 
a campainha insistentemente. Ele entrou no jardim e esmurrou a porta, dizendo:
    - Sei que vocs esto a. Abra a porta, seno eu arrombo. Gislene rezava, conforme lhe fora pedido, mas no conseguia prestar ateno na orao. Seu corao 
batia descompassado. Vendo que ele no desistia, ela tomou coragem, foi at a porta e gritou:
    - No vou abrir para o senhor. J chamei a polcia. Se no for embora, vai ter de explicar tudo ao delegado.
    - Voc me paga, sua vadia. Vou entrar de qualquer jeito.
    - No vai, no. A polcia j est vindo.
    Norberto olhou para a rua e viu o mdico com a esposa, parando o carro em frente  casa.
    
    243
    
    Murmurando uma praga, ele saiu, entrou no carro e se foi.
    Marclio bateu na porta, dizendo:
    - Sou eu, Marclio. Pode abrir, Gislene, ele j se foi.
    Ela abriu a porta e caiu em pranto.
    - Ela est como morta. Ele queria lev-Ia para So Paulo. Foi horrvel!
            Marclio correu ao sof onde Liana estava desacordada e tomou seu pulso. Depois, disse a Adlia:
            - Vamos fazer uma corrente para traz-Ia de volta.
    Adlia chamou Gislene, recomendando que estendesse as mos sobre Liana, e ela fez o mesmo. Marclio colocou a mo sobre a testa dela, dizendo:
            - Liana, volte. Tudo passou. Voc est protegida. Ele j se foi.
            Repetiu isso algumas vezes, at que um suspiro dorido escapou dos lbios dela. Depois ela abriu os olhos, dizendo apavorada:
    - Ele veio aqui para me levar! Foi horrvel!
    - Quem? - indagou Marclio.
    - O coronel Firmino. Estava aqui, agarrando-me. Fiquei apavorada. - Ela delira - disse Gislene. - Quem esteve aqui foi o Dr. Norberto.
    O mdico olhou para a esposa e no disse nada. Depois para Gislene: - Faa um caf, por favor. Ela precisa de um.
    Enquanto ela ia para a cozinha, Marclio comentou:
    - As coisas esto se complicando. Ele agora tomou Norberto. Por isso ele estava to violento.
    - Assim ele se fortaleceu.
    Vendo que Gislene voltava, eles se calaram. Liana estava tomando caf quando Alberto chegou. Ele havia ido ao correio. Informado do que acontecera, disse emocionado:
    - De agora em diante no mais a deixarei s.
    -  melhor mesmo.
    - Ele veio - disse Liana, apavorada. - O coronel Firmino estava aqui! Queria me levar com ele.
    Alberto segurou as mos dela com fora, dizendo:
    - Eu estou aqui. Ele no vai poder fazer nada.
    - Acalme-se - pediu Marclio. - Ele envolveu Norberto. Notou que ele a quer e est se aproveitando.
            - Meu Deus! Ser possvel? - murmurou ela assustada. Ele pode perder a cabea.
    
    244
    
    Eullia vai perceber! O que faremos? Se ela descobrir tudo, eu no suportarei.
    - No fique assim, Liana. Neste momento temos de ser firmes e ter f. Deus est nos protegendo. O coronel nada poder fazer - tornou AIberto, friccionando as 
mos geladas de Liana na tentativa de aquec-Ias.
    - De hoje em diante, no sairei de seu lado. Quando precisar sair, levo-a comigo. Se no puder ir, encarrego Gislene de tudo, mas no a deixarei.
    -  melhor mesmo - concordou Marclio. - Pelo menos por enquanto.
    - Eu sa da manso e pensei que tivesse me libertado dele. Agora sei que foi intil- disse Liana.
    - Isso no  verdade - respondeu Adlia. - L ele estava dominando a situao. Aqui ele no tem a mesma fora.
    - Isso mesmo, Liana - reforou Marclio. - Depois, nossos amigos espirituais continuam trabalhando em seu favor. O coronel Firmino est resistindo, mas  apenas 
uma questo de tempo. Por mais que ele lhe parea assustador pela violncia que demonstra, pela determinao que lhe d muita fora, ele nunca vencer os espritos 
do bem que esto apoiados pela fora da vida e da luz.
    - Se eles tm mais poder - redargiu Liana -, por que no o dominam e o afastam de vez?
    - Porque eles preferem convenc-Io a desistir, a enxergar a verdade. S assim voc estar livre para seguir seu destino.  preciso que entenda, Liana: vocs 
esto ligados por laos de um passado que os colocou frente a frente.  hora de ambos se libertarem.  hora de compreender e perdoar.
    - S sei que o odeio, que no desejo v-lo nunca mais. S em falar nele sinto-me apavorada.
    - Seja o que for que tenha acontecido entre ambos, j passou.  preciso entender, Liana, que ele agiu de acordo com sua maneira de ser na poca. O dio  um 
sentimento terrvel porque, ao invs de distanci-Ia dele, a aproxima mais.
    - Deus me livre, Dr. Marclio.
    - Por isso, quando sentir raiva dele, procure lembrar que ele  como  e no como voc gostaria que ele fosse.  intil querer mais de algum que no tem para 
dar.
    - Eu nem sei por que sinto isso. No sei se vivi outras vidas antes desta.
    
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    - Seu horror por ele  muito revelador. Embora no se lembre, os fatos do passado esto em seu inconsciente e refletem-se em seus sentimentos no presente. Voc 
no precisa saber o que aconteceu, mas sempre que sentir essa repulsa por ele, essa raiva, pense que ele  como uma criana que ainda no tem discernimento para 
fazer melhor.
    - Dizem que ele foi maldoso em vida, morreu velho e at agora ainda pensa em fazer mal aos outros.
    - Se voc no deixar de lado esse rancor, no vai conseguir livrar-se do coronel Firmino. Apesar de ter vivido muito, ele  um esprito ainda ignorante. Precisa 
desenvolver a conscincia, aprender os verdadeiros valores da vida. Para isso ter de pagar um preo que ns no sabemos qual ser. Tenho certeza, entretanto, de 
que ter de se esforar, trabalhar muito para conseguir. J voc tem muito mais conhecimento.  um esprito mais lcido e tem condies de compreender os limites 
dele. Quando fizer isso, ter condies de perdo-lo. Ento ser mais fcil libertar-se de sua influncia.
    - No lhe desejo nenhum mal, doutor. Entenda isso. S no quero t-Io  minha volta.
    - Nesse caso ter mais facilidade em fazer o que estou lhe pedindo. Quando pensar nele, veja-o como algum necessitado, reze para que ele abra seu entendimento 
e possa seguir um caminho melhor. Se fizer isso, estar nos ajudando a libert-la de sua influncia.
    - Vou me esforar - garantiu Liana.
    - Amanh desejo v-la em minha casa para a reunio - interveio Adlia.
    - Estaremos l - prometeu Alberto.
    As cores haviam voltado ao rosto de Liana, e o mdico tomou-lhe o pulso por alguns instantes. Depois perguntou:
    - Sente-se melhor?
    - Sim - disse ela.
    - Nesse caso, temos de ir - disse o mdico.
    Gislene, que acabava de entrar, disse:
    - Por favor, doutor! Sente-se um pouco pelo menos para um caf.
    J vou servir.
    - Se tiver aquele bolo de chocolate que voc faz, no vou resistir! - respondeu ele sorrindo.
    - Pois tenho, sim.
    Liana sentara-se no sof e Alberto continuava segurando sua mo, alisando-a com carinho. Estava ali para defend-la e cumpriria seu papel.
    
    246
    
    Norberto saiu da casa do professor tentando controlar o rancor. Tinha mpetos de voltar e arrancar Liana de l  fora. No queria promover um escndalo, mas 
eles no perdiam por esperar. No ia ceder com tanta facilidade.
    Deviam estar cantando vitria. Aquele professorzinho ia ver com quem estava lidando. Ela no disse que amava o marido. Esse casamento era uma farsa, e ele haveria 
de anular tudo.
    Sentia a boca amarga e uma forte presso na nuca. Seu estmago tambm estava enjoado. Reconhecia que havia perdido a cabea. Precisava controlar-se. Sua impulsividade 
assustara Liana. Esquecera que ela estava fraca e doente.
    Da prxima vez seria mais cuidadoso. Tinha certeza de que encontraria um jeito de v-la a ss novamente. Sabia que depois do que acontecera ela seria mais vigiada. 
Era mais uma prova de que ela bem poderia estar ali a contragosto.
    Como conseguir o que pretendia? Daria alguns dias para que eles esquecessem o assunto, e depois encontraria um jeito de v-la outra vez. Ao chegar em casa, Eullia 
estranhou:
    - Aonde voc foi? Demorou tanto!
    - Fui dar uma volta. No estava me sentindo bem.
    - Hum... Voc est plido. Est doente?
    - No. Apenas ligeira indisposio de estmago.
    - Posso preparar um remdio.
    - No  preciso. J estou melhorando.
    Ela olhou para ele e no insistiu. Ele lhe parecia um pouco inquieto, sem o ar costumeiro que ela to bem conhecia. Sentou-se no sof da sala, recostou a cabea 
e fechou os olhos.
    Preocupada, Eullia esperou mela hora e, como ele continuasse do mesmo jeito, aproximou-se e tocou de leve em seu ombro, dizendo: - Est se sentindo melhor?
    - Deixe-me em paz - respondeu ele sem abrir os olhos. Eullia ficou chocada. O tom spero do marido surpreendeu-a. Em tantos anos de casamento, ele nunca se 
dirigira a ela dessa forma. Sem se dar por vencida, ela retrucou:
    - Por que est desse jeito? Aconteceu alguma coisa que eu no sei? - J pedi que me deixe em paz. No estou com vontade de conversar.
            Ela no insistiu. Afastou-se um tanto magoada. Acontecesse o que acontecesse, Norberto sempre fora educado. Esse era um forte trao de sua personalidade.
    
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    Mesmo nos momentos em que estava muito contrariado, conseguia controlar-se e expressar-se de maneira discreta.
    Intrigada, Eullia perguntava-se o que ele teria ido fazer naquela tarde que o transtornara tanto. Talvez estivesse doente e escondesse para no a preocupar. 
Logo afastou essa idia. Sempre que ele no se sentia bem, ia ao consultrio do Dr. Caldas, seu mdico e amigo.
    Logo ela comeou a pensar que era estranho o fato de ele tirar frias naquela poca do ano para ficar com a famlia. Sentia que havia alguma coisa que ele escondia 
para no a deixar nervosa. O que seria?
    A esse pensamento, sentiu o corao oprimido. O que ainda estaria para acontecer? J no bastava Liana ter-lhe dado tanto desgosto?
    Foi arrancada de seus pensamentos por Hilda:
    - Eurico est impossvel. Foi se deitar e disse que no vai descer para o jantar. Nico est com ele. Mas eu disse que o sol iria fazer-lhe mal.
    Ele no me ouviu.
    - O que disse?
    Hilda contou-lhe tudo novamente, ao que Eullia respondeu:
    - Deixe-o por agora. Depois falo com ele.
    As coisas estavam se complicando novamente com o filho. Reconhecia que Alberto soubera conquistar a estima de Eurico. Durante aquele tempo ele se tomara mais 
calmo, mais forte e at mais participativo.
    Por que Liana fizera aquilo? Ela poderia ter se casado com Mrio e tudo continuaria em ordem, Eurico em paz e eles todos juntos.
    Suspirou triste. A calma dos ltimos meses fora truncada. At Norberto estava mudado. No falaria com ele at que lhe pedisse desculpas pela grosseria de momentos 
antes. Esse pensamento no a acalmou. Ao contrrio, sentiu-se mais angustiada e s.
    No tinha ningum em quem pudesse confiar. Estava habituada a dividir tudo com Norberto e Liana. Ela a abandonara e ele no parecia disposto a apoi-Ia.
    Eullia reagiu a esse pensamento e tentou sair da depresso. Seu marido estava indisposto, apenas isso. Descansaria um pouco, ficaria melhor e depois lhe pediria 
desculpas pela atitude grosseira. Nada havia mudado entre eles.
    Levantou-se e resolveu ver o que estavam fazendo para o jantar. Se ele no estava bem do estmago, teria de providenciar alimentos leves.
    Norberto sentou-se  mesa para o jantar sem dizer nada. Eullia notou que ele parecia melhor, mas no se arriscou a perguntar.
    - Onde esto as crianas? - indagou ele com naturalidade.
    
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    - Eurico no quis descer e os outros dois jantaram na copa.
    - Eurico no jantou por qu?
    - No quis.
    - Ele no pode ficar sem se alimentar. Voc precisa falar com ele.
    No pode deix-Io fazer tudo que quer.
    - Ele alega que no est bem.
    - Mais uma razo para ele no ficar sem comer. Voc sabe que ele pode voltar a ficar anmico.
    - Ele no quer aceitar a nova professora. Hoje no quis assistir  aula. - Isso no pode acontecer. Voc tem de obrig-Io a ir.
    - J tentei. Ele no obedece. Por que no fala voc com ele? - Falarei, depois do jantar.
    Apesar de Norberto parecer melhor, Eullia notou que ele a olhava de um jeito diferente do habitual. No disse nada. No queria arriscar-se a ser maltratada 
de novo.
    Depois do jantar, Norberto foi ao quarto de Eurico e mandou que Amelinha e Nico sassem. Depois se aproximou da cama onde o menino, coberto at o pescoo, fechara 
os olhos para fingir que estava dormindo.
    - Abra os olhos, Eurico. Eu sei que est acordado.
    Ele abriu e no disse nada. Norberto continuou:
    - O que est acontecendo com voc? Por que no foi  aula hoje? - No gosto dessa professora.
    - Como pode saber? Era sua primeira aula com ela.
    - Eu sei que ela no  como o professor Alberto. Ele, sim,  que sabia dar aulas.
    Norberto trincou os dentes com raiva e respondeu:
    - Ela  muito melhor do que ele. No quero que fale mais o nome dele nesta casa!
    - Eu quero que ele volte para dar as aulas. Enquanto ele no vier, no irei a nenhuma aula. 
    Norberto aproximou seu rosto do de Eurico, olhou-o nos olhos com rancor e disse:
    - Ir, porque eu estou mandando. Amanh cedo vai se levantar e ir  aula da professora.
    Eurico comeou a chorar, dizendo:
    - Eu no quero! No gosto dela. Eu quero o professor Alberto! Eu gosto dele. Ele tem de voltar aqui com tia Liana!
    Norberto enrubesceu. Agarrou Eurico pelos braos e sacudiu-o com fora, gritando nervoso:
    
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    - Cale a boca! Nunca mais repita isso em minha frente. Aquele professor maldito nunca mais entrar nesta casa! Isso eu juro! Se ele fizer isso, darei cabo da 
vida dele!
    Eurico gritou apavorado:
    - Socorro! Nico! Venha me ajudar! O coronel Firmino est aqui e quer me matar!
    Nesse momento, Eullia, que escutara os gritos do marido e do menino, subira a escada correndo a tempo de intervir. Segurou o marido por trs, gritando apavorada:
    - Norberto! Voc enlouqueceu? O que est fazendo? Quer matar nosso filho?
    Norberto soltou Eurico, que caiu na cama plido, sem foras, enquanto Nico o abraava dizendo baixinho:
    - Calma, Eurico. Eu estou aqui. Ele no vai lhe fazer nenhum mal. 
    Eullia, inconformada, olhava nervosa para o marido, que empalidecera e cambaleara a tal ponto que, se ela no o amparasse, teria cado ao solo. Arrastou-o para 
uma cadeira enquanto Amelinha chorava assustada e Nico tentava confort-Ia tambm.
    Hilda apareceu na porta e Eullia disse-lhe nervosa:
    - Ajude-me a levar Norberto para nosso quarto.
    As duas pegaram seu brao, uma de cada lado. Ele estava alheio e deixou-se conduzir com docilidade at o quarto onde Eullia o obrigou a deitar-se, afrouxou 
suas roupas e tirou-lhe os sapatos.
    Ele fechou os olhos parecendo dormir. Seu corpo estava suado e sua respirao descompassada.
    - Ele no parece nada bem - comentou Hilda. - Nunca o vi assim. O que aconteceu, Dona Eullia?
    - No sei. Ele deve estar doente. Muito doente. Acho que teremos de voltar a So Paulo para ele se tratar.
    - Acho melhor no esperar. Vamos chamar o Dr. Marclio mesmo.
    - Deus nos livre daquele charlato! Est resolvido.  melhor preparar tudo. Amanh irei com ele a So Paulo para uma consulta com o Dr. Caldas. Tonico dirige 
o carro, voc toma conta das crianas.
    - Ele est plido, a respirao esquisita. Desculpe, Dona Eullia, mas mdico  mdico. Se eu fosse a senhora, chamava o Dr. Marclio mesmo. Formado ele .
    - No. Vamos esperar. Prefiro lev-lo amanh ao mdico de nossa confiana.
    Hilda calou-se.
    
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    No quarto de Eurico, Nico tentava acalmar os outros dois:
    - Ele no pode fazer nada. No precisa ter medo.
    - No era meu pai que estava me sacudindo! Era o coronel. Eu vi! Ele queria me matar! Estou com medo. Ele pegou o corpo de meu pai.
    - No quero que ele pegue o corpo de papai! - disse Amelinha, chorando nervosa. - Ele pode querer lev-Io como quis levar tia Liana.
    - Temos que buscar ajuda. Como vocs no podem sair, eu irei. 
    - No agora! Voc no vai me deixar sozinho com ele!
    - Ele j foi embora. No precisa ter medo.
    - No quero que v. Perto de voc ele no vem. Voc vai ficar comigo.
    - Est bem, eu fico. Mas tenho que pedir ajuda ao professor.
    - Eu tambm no quero que voc v agora - disse Amelinha. 
    Estou com medo. E se ele voltar?
    Eullia entrou no quarto e eles se calaram. Aproximou-se da cama do filho, dizendo:
    - Viu o que voc fez? Deixou seu pai perder a cabea com sua teimosia.
    - Eu no fiz nada. S disse que queria ter o professor de volta.
    -  impossvel. Ele nunca mais por os ps aqui.  melhor esquecer isso e no desafiar seu pai como fez hoje.
    - Ele quis me matar, mame!
    - Que loucura  essa, menino? Onde j se viu?
    -  verdade. Se voc no viesse, ele teria me matado. Olhava para mim com tanto dio...
    Eullia empalideceu e abraou o filho preocupada. Ela notara isso ao entrar. Ele olhava para o filho com muito dio. Seu marido estaria enlouquecendo? Ele nunca 
levantara a voz com o menino, principalmente por sab-Io to fraco e delicado. Sacudi-lo com tanta violncia foi terrvel.
    Por mais que pensasse, ela no podia acreditar que ele desejasse matar o prprio filho.
    - Isso no  verdade, meu filho. Voc est enganado. Seu pai ama-o muito, sempre fez tudo por voc. Nunca haveria de querer mat-lo. De onde tirou essa idia?
    - Estava nos olhos dele, mame. Eu vi.
    Eullia sentiu um aperto no peito e no encontrou palavras para retrucar. Beijou-o na testa com carinho, depois disse:
    - Estou comeando a desconfiar que seu pai est doente. Hoje no estava se sentindo bem. Esquea isso. Amanh irei com ele a So Paulo para uma consulta ao Dr. 
Caldas.
    
    251
    
    Vocs ficaro com Hilda at eu voltar. Agora vou fazer um ch para voc e vai dormir. Amanh tudo ter passado. S lhe peo que no afronte seu pai. V assistir 
 aula, por favor. No custa nada. Se depois de algumas aulas no gostar da professora, arranjamos outra. Mas faa o que lhe estou pedindo.
    - Ele vai, sim, Dona Eullia - garantiu Nico. - Eu o levo.
    - S se voc deixar Nico dormir aqui hoje. Estou com medo.
    - Eu tambm quero ficar aqui - disse Amelinha. - No vou ficar sozinha em meu quarto.
    Eullia pensou um pouco e resolveu concordar. Era melhor mesmo que eles ficassem juntos aquela noite. No sabia como Norberto iria despertar. E se ele ficasse 
violento novamente?
    - Est bem - concordou ela. - Vou mandar pr dois colches no cho. Mas cada um vai ficar em sua cama.
    - oba! - disse Eurico, satisfeito.
    - Amanh quero ver voc na aula - exigiu Eullia.
    - Vamos ver - tomou Eurico.
    - Ele vai, pode contar - rematou Nico.
    Colocaram os colches, arrumaram tudo, e, quando os viu deitados cada um em seu lugar, Eullia recomendou a Nico:
    -  melhor fechar a porta com chave. Assim ficam mais tranqilos. Se eu quiser entrar, baterei.
    Depois que ela se foi, Nico passou a chave na porta e imediatamente os trs se uniram na cama de Eurico.
    - Voc viu mesmo a alma do coronel Firmino em papai? - perguntou Amelinha, preocupada.
    - Vi. Era ele. Estava furioso.
    - Ele no pode fazer nada, est morto - explicou Nico.
    - Voc diz que no pode, mas papai estava fazendo o que ele queria. Sacudiu-me que eu fiquei tontinho. Pensei que fosse morrer ali. Se mame no chegasse, ele 
podia mesmo ter me matado.
    Apesar de preocupado, Nico no quis dar o brao a torcer:
    - Ele no faria isso. Voc est exagerando. Ficou com medo porque ele estava junto. Mas seu pai nunca iria matar voc. Tenho certeza disso.
    - Ns fechamos a porta, mas isso para ele no adianta nada. Ele atravessa pela parede - lembrou Eurico preocupado.
    Amelinha encolheu-se mais junto a eles:
    - No diga isso, que estou com medo. No vou dormir a noite inteira. Se ele vier, tenho de estar acordada para chamar mame. Por que no disse para ela que viu 
a alma do coronel Firmino no corpo de papai?
    
    252
    
    - Est louca? Se eu dissesse, ela me levaria junto amanh ao Dr. Caldas e comearia tudo de novo. Aqueles remdios horrveis! Eu nunca mais quero tomar aquelas 
porcarias. No adianta nada mesmo. No estou doente.
    - Eurico tem razo. Foi melhor no contar. Amanh irei procurar o professor e ele nos ajudar.
    - Como, se ele no pode vir aqui? - retrucou Eurico.
    - Daremos um jeito, voc vai ver. O que no podemos  ficar com medo daquela alma penada. Acho melhor rezar. Vamos nos dar as mos e rezar. Pedir a proteo 
de Jesus. Assim estaremos protegidos.
    Os trs deram as mos e rezaram o pai-nosso. Depois Nico pediu proteo para eles e todos da casa. E finalizou:
    - Agora vamos dormir. Podem ficar sossegados, que nada vai acontecer. Vou ficar acordado at vocs pegarem no sono.
    - Voc no sabe nenhuma histria bonita para nos contar? - pediu Amelinha.
    - Sei. Vou contar uma que minha me sempre contava quando eu era pequeno e estava com medo de assombrao. Era uma vez...
    Com voz pausada, Nico foi contando sua histria enquanto os outros dois ouviam com interesse. Aos poucos foram fechando os olhos. Quando os viu adormecidos, 
Nico acomodou-se e, agradecendo a proteo de Deus, adormeceu.
    Eullia, sentada ao lado da cama do marido, no tinha sono. Ele dormia ainda vestido e ela permanecia em viglia, com medo de que ele acordasse maldisposto.
    Parecia-lhe que de repente uma onda de desgraas cara sobre sua famlia. Por qu? Eles eram pessoas honestas e de bom comportamento. No mereciam nada do que 
lhes estava acontecendo.
    Pensamentos desencontrados passavam por sua cabea, e ela se perguntava de que jeito Norberto iria acordar. Lembrava-se de que durante o jantar, embora ele houvesse 
se comportado normalmente, havia alguma coisa em seus olhos que o tornava diferente do que sempre fora.
    No podia acreditar que Norberto, um homem equilibrado e correto, enlouquecesse de repente, ficasse violento a ponto de agredir o filho doente.
    No podia conformar-se com isso. Alguma coisa muito grave estava acontecendo com ele e ela tinha de descobrir.
    
    253
    
    No podia deixar seus filhos  merc de uma situao inesperada como a que ocorrera. Precisava proteg-Ios de qualquer forma.
    Pretendia levar Norberto a So Paulo no dia seguinte e ter uma conversa muito sria com o mdico. Precisava saber at que ponto Norberto estava desequilibrado 
e se isso poderia pr em risco a segurana de sua famlia.
    Hilda bateu na porta e Eullia foi abrir:
    - Desculpe, Dona Eullia, mas eu no pude dormir. Vim saber como ele est e ver se precisa de alguma coisa.
    - Est na mesma, Hilda. No acordou. Mas pode ir dormir. Se eu precisar, chamo.
    - No, senhora. Estou vendo que ainda nem se trocou. Se a senhora pode ficar acordada, eu tambm posso. Se me permite, prefiro ficar aqui, a seu lado, a ficar 
em meu quarto.
    Eullia olhou para ela surpreendida. Hilda sempre lhe parecera indiferente e fria. Sentiu-se confortada. Sorriu e respondeu:
    - Est bem. Se quer ficar, eu agradeo. No consigo dormir tambm.
    - Vou buscar um ch de cidreira para ns. Acalma e faz bem.
    Ela se foi e alguns minutos depois voltou com a bandeja. Enquanto tomavam o ch, Eullia confidenciou:
    - Estava me sentindo muito sozinha. Obrigada, Hilda, por fazer-me companhia.
    - Temos vivido juntas tantos anos. Nesta hora temos de nos apoiar - respondeu ela com simplicidade.
    Eullia suspirou. Depois disse:
    - Como ser que ele vai acordar?
    - Talvez estejamos preocupadas sem razo. Pode ser que ele esteja bem.
    - Deus a oua. Mas, mesmo assim, amanh iremos ao mdico. No desejo facilitar.
    - Tem razo, Dona Eullia.
    As duas continuaram conversando mais algum tempo at que aos poucos, cansadas, reclinaram-se na poltrona em que estavam sentadas e adormeceram.
    
    254
    
    Captulo 18
    
    
    Eullia acordou sobressaltada e olhou em volta. Estava sozinha. Norberto no estava no quarto, nem Hilda. Apressou-se em descer as escadas. Sentia o corpo doer, 
certamente por haver passado a noite na cadeira. O dia j havia amanhecido e o cheiro do caf indicava que os empregados j haviam levantado. Preocupada, foi  cozinha, 
onde encontrou Hilda.
    - Bom dia, Hilda. No a vi sair do quarto.
    - Eu acordei e resolvi fazer um caf. Maria no veio ainda.  muito cedo.
    - Voc viu Norberto?
    - Quando sa do quarto, ainda dormia. Ele no est l?
    - No. Aonde ter ido?
    - No sei.
    - Vou procur-lo l em cima. Procure-o aqui embaixo.
    Eullia subiu novamente as escadas com o corao batendo forte. Ao passar pelo quarto de Eurico, verificou que a porta ainda estava fechada  chave.
    - Ainda bem - pensou. - Aqui ele no entrou.
    Foi para o quarto do casal e verificou que a porta do banheiro estava fechada. Ouvia-se perfeitamente o barulho da gua da torneira. Respirou aliviada. S podia 
ser ele se lavando.
    Olhou-se no espelho da penteadeira e no gostou do que viu. Estava plida, seu cabelo em desalinho. Tratou de arrumar-se. Foi at o banheiro do corredor, lavou-se, 
penteou-se e voltou ao quarto. Norberto estava diante do guarda-roupas escolhendo algo para vestir.
    - Bom dia, Norberto - disse ela procurando controlar-se. No queria que ele percebesse seu nervosismo.
    - Bom dia - respondeu ele com naturalidade.
    - Sente-se melhor?
    Ele olhou para ela admirado.
    - Estou bem. Por que pergunta?
    - Ontem voc teve uma crise de nervos e sentiu-se mal. Sacudiu Eurico com tanta fora que precisei intervir.
            - Aquele menino me tira dei srio.  preciso ser firme com ele. Estou cansado de deix-lo fazer tudo o que quer.
    
    255
    
    Eullia sentiu sua preocupao aumentar. Nunca Norberto tivera uma atitude como aquela. Sempre fora afvel e cordato. Dava-lhe liberdade para educar as crianas 
conforme ela quisesse.
    - Deixe-o por minha conta. Sei como lidar com ele.
    - Tenho minhas dvidas. Acha bom colocar aquele menino controlador do lado dele?
    - Nico? Ele tem sido uma bno para Eurico. Graas a ele nosso filho melhorou muito.
    - Teria melhorado de qualquer jeito. Para isso ele mudou de clima. Se ele no me obedecer e continuar a fazer essa chantagem, mandarei Nico embora.
    Eullia sentiu um aperto no peito. Norberto falava com voz dura, muito diferente do que costumava. Era evidente que ele no estava em seu estado normal. Resolveu 
no o contrariar e respondeu:
    - Voc  quem sabe. Eu marquei hoje uma consulta com o Dr. Caldas para voc. Temos de ir a So Paulo. Pedi a Tonico para dirigir o carro, no quero que voc 
se canse.
    - No vou a lugar nenhum. Estou muito bem. No preciso de consulta nenhuma. Pode desmarcar. Quem deveria ir  Liana. Essa, sim, eu quero levar a Caldas.
    Eullia tentou contemporizar:
    - Ela est casada. No podemos interferir na vida dela. Depois, ela no quer ir ao Dr. Caldas. Est se tratando com o Dr. Marclio.
    - Aquele curandeiro. No vou permitir que continue tratando dela.
    - Calma, Norberto. No temos como a obrigar a ir conosco para So Paulo.
    - Pensando melhor, no precisa desmarcar a consulta. Passarei na casa de Liana e ela ir comigo ver Caldas. Voc fica aqui com as crianas, Eullia.
    - No quero que interfira na vida de Liana. Ela escolheu o prprio caminho. Voc no est bem e eu vou lev-Io ao mdico hoje.
    Norberto aproximou-se dela e olhando-a nos olhos disse com raiva:
    - No se meta entre ns! Meu compromisso  com Liana.  ela que eu quero. Tenho de tir-Ia daquele traidor.
    Eullia abriu a boca e fechou-a de novo, sem saber o que dizer. O marido estava fora de si. Sentiu medo. Ele lhe parecia outra pessoa. Norberto havia enlouquecido. 
O que fazer sozinha com ele e as crianas naquela casa? Eles poderiam estar correndo srios riscos.
    
    256
    
    Repugnava-lhe pedir ajuda aos empregados. Pensou em ligar para o Dr. Caldas e pedir-lhe que viesse imediatamente. Pagaria o que ele pedisse. Enquanto isso, tentaria 
acalm-Io.
    - Est certo - disse ela. - Farei como voc quiser. No precisa ficar zangado.
    - Melhor assim. No tenho nada contra voc ainda. No se meta, e ficar fora disto.
    - Est bem. O caf est pronto. Quer que eu traga a bandeja aqui? - Por qu? Vou tom-Io na copa.
    Eullia concordou, embora preferisse que ele no deixasse o quarto.
    Precisava telefonar ao mdico sem que ele percebesse.
    - Vou descer e ver se est tudo em ordem.
    Ela desceu enquanto ele acabava de vestir-se. As empregadas j estavam na cozinha e ela fez um sinal para Hilda. Quando ela se aproximou, disse nervosa:
    - Hilda, ele no est bem. No est falando coisa com coisa. Parece outra pessoa. Quer ir pegar Liana e lev-Ia para So Paulo. Est fora de si. Preciso de sua 
ajuda. Voc tem de ligar para o Dr. Caldas, sem que ele perceba, e contar-lhe o que est acontecendo. Pea-lhe para vir imediatamente. Pagarei o que ele quiser.
    - Est bem. - Vendo que Norberto descia as escadas, continuou em voz alta: - Sim, senhora. J mandei colocar tudo no lugar. Posso servir o caf agora?
    - Pode, Hilda.
    - As crianas ainda no acordaram.
    - Deixe-as dormir mais um pouco - respondeu Eullia. - Ainda  muito cedo. A aula  s nove.
    Hilda concordou e voltou  cozinha, enquanto Eullia se sentava com o marido na copa. Enquanto Maria colocava os bules na mesa, Eullia levantou-se, foi  cozinha 
e aproximou-se de Hilda, dizendo-lhe baixinho:
    - No os deixe sair do quarto. Leve-Ihes o caf l. Diga-Ihes para manter a porta fechada  chave.
    Hilda assentiu com.a cabea e Eullia voltou  mesa, olhando preocupada para o marido. No queria que ele percebesse o que ela estava tentando fazer. Ele comia 
em silncio, olhos fixos em um ponto distante, alheio ao que acontecia  sua volta.
    Ela respirou aliviada. Precisava distra-Io enquanto o mdico no chegasse. Na melhor das hipteses ele demoraria de cinco a seis horas para chegar. Ia ser difcil. 
Se Norberto tivesse alguma crise, no sabia como agir.
    
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            Depois do caf, Norberto sentou-se na sala, aptico. Hilda fez sinal para Eullia, chamando-a para o jardim. Disse-lhe preocupada:
            - Dona Eullia, o Dr. Norberto est muito mal. Precisamos fazer alguma coisa.
    - Telefonou para o Dr. Caldas?
    - Telefonei. Ele no estava.
    - Ligou para a casa dele?
    - Sim. Falei com sua esposa. Ela me disse que ele teve um chamado de urgncia e saiu ainda de madrugada. H um cliente dele passando muito mal. Talvez ele no 
volte logo.
    - Deixou o recado para quando ele voltasse?
    - Deixei. Expliquei o que est acontecendo. Ela sugeriu que chamssemos outro mdico. Acha perigoso esperar. Estamos longe da capital. Mesmo que ele saia logo, 
at chegar aqui vai demorar muito. Temos crianas em casa.
    Eullia juntou as mos, apertando-as nervosamente.
    - Meu Deus! O que vai nos acontecer?
    - Se eu fosse a senhora, chamaria o Dr. Marclio mesmo. Ele nos socorrer at o Dr. Caldas chegar. Pode dar algum calmante para ele. - No posso fazer isso depois 
de tudo que aconteceu.
    - No temos outra sada. Se o Dr. Norberto tiver outra crise de loucura, o que faremos?
            - Nem me fale uma coisa dessas! Podemos mandar Tonico a Ribeiro Preto. L h bons mdicos.
            - Ele demoraria pelo menos duas horas. No conhecemos ningum l. Mande buscar o Dr. Marclio mesmo.
            - Ele pode no querer nos atender.
            -  um mdico, no far isso. Depois, apesar de tudo, tenho ouvido falar muito bem dele. Salvou a vida de muita gente por aqui.
    - Vamos ver. Pode ser que Norberto fique calmo. Vamos esperar. - A professora j est tomando caf. Vamos suspender a aula de hoje? De onde estava, Eullia via 
Norberto sentado na sala. Lanando um olhar para ele, decidiu:
    - Melhor irem para aula como sempre. Se suspendermos, eles ficaro soltos pela casa. No acho isso aconselhvel. Vamos mant-Ios ocupados.
            Hilda saiu e Eullia entrou. Estava resolvida a esperar. Se notasse qualquer agitao nele, mandaria chamar o Dr. Marclio.
    
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            Suspirou angustiada. No lhe restava outra sada. Voltou  sala. Apanhou uma revista, sentou-se no sof e comeou a folhe-la, fingindo interesse. Mas 
estava observando o marido atentamente.
    As crianas acordaram, tomaram o caf no quarto e foram avisadas que deveriam descer para a aula. Eurico no estava querendo ir, mas Nico conseguiu convenc-Io:
    - No acho bom provocar seu pai agora. J pensou se ele fica nervoso e volta com o coronel Firmino?
    - Nem fale uma coisa dessas! - disse Eurico, nervoso.
    - Eu tenho medo dele! - tornou Amelinha.
    - No precisa. Ele no vai nos fazer nada. Estou pensando uma coisa...
    - O que foi, Nico? - indagou Eurico
    - Tenho que avisar o professor. Ele entende de alma do outro mundo.
    - No quero que voc saia hoje. J pensou se o coronel aparece de novo? - retrucou Eurico.
    - Vou e volto logo. Temos que tomar uma providncia.
    - Como voc vai fazer isso? Minha me no vai gostar de voc perder aula.
    - Ela s vai saber se vocs contarem.
    - Eu no conto - prometeu Amelinha.
    - Eu tambm no. Mas e a professora?
    - Deixe-a comigo.
    - Vai contar para ela? - perguntou Eurico.
    - No. Ela no vai acreditar. Vou dar um jeito. Vocs vo ver. Uma vez na sala de aula, depois de cumprimentarem a professora,
    Nico aproximou-se dela dizendo:
    - Dona Melissa, pode me fazer um favor?
    - Depende. O que ?
    - Tenho que ir at minha casa agora. Hoje a senhora vai conferir aquele trabalho, e eu deixei o caderno na casa da minha me.
    - Voc pega  tarde. Eu vejo amanh.
    Nico no se deu por achado:
    - Fiz com tanto capricho! Ficou to bom! Eu quis mostrar para minha me e esqueci l.
    - Deveria ser mais atento. Vamos  nossa aula de histria. Vou repetir o ponto que dei.
    - Oba! - fez Amelinha. - Eu gostei muito daquela histria.
    - Dona Melissa - tornou Nico -, eu sei essa histria na ponta da lngua.
    
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    Enquanto a senhora d essa aula, eu vou at em casa, pego o caderno e volto. Quando acabar, j estarei aqui.
    - No acredito que j saiba tudo.
    - Eu sei. A senhora pode perguntar.
    - Voc  insistente. J vi que est querendo mesmo ir at l. Confesse que est com saudade de sua me!
    - Um pouco.
    - Est bem, Nico. Pea a Dona Eullia. Se ela deixar, eu deixo. Nico sentou-se desanimado.
    - Eu desisto. Ela no vai deixar.
    - Quer que eu o deixe sair e no conte a ela? No posso fazer isso. Nico olhou para os amigos com tristeza. Depois decidiu:
    - Est bem. Vou pedir a ela.
    Saiu e Hilda segurou-o pelo brao.
    - Aonde vai?
    - Falar com Dona Eullia.
    - Agora no. Ela est com o Dr. Norberto na sala.  melhor voltar para a aula.
    Nico no se conformou:
            - Sabe o que ? Eu esqueci o meu caderno com o trabalho para hoje l na casa da minha me. Dona Melissa disse que deixa eu ir at l buscar se a Dona 
Eullia concordar.
            - No precisa incomod-Ia para isso. Pode ir. Eu deixo. Diga  professora que eu assumo a responsabilidade por isso.
    Nico voltou radiante, deu o recado e saiu pelos fundos para no ser visto por Norberto. Foi o mais rpido que pde. Chegou eufrico  casa do professor. Gislene 
abriu a porta, convidando-o a entrar.
    - Preciso falar com o professor.  urgente.
    Antes que ela fosse dar o recado, Alberto apareceu na sala:
    - O que foi, Nico? Aconteceu alguma coisa?
            - Aconteceu, professor. O Dr. Norberto ficou nervoso com o Eurico e sacudiu ele com fora. Parecia louco. Ento o Eurico viu que o coronel Firmino estava 
no lugar dele.
    Alberto suspirou preocupado. O que ele temia acontecera.
    - Conte-me tudo com detalhes. No esquea nada.
    Nico contou e finalizou:
            - Quando eu sa, a Dona Eullia estava vigiando ele na sala. Ele parecia outra pessoa. Estava calado, cara esquisita. L na manso todo mundo est com 
medo dele. A Liana est melhor?        
    
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    - Est, Nico. Agora est. Ele veio aqui e agrediu-a tambm. Queria lev-Ia com ele.
    - Cruz credo!
    - Agora no posso sair daqui. Tenho de ficar do lado dela. Ele pode voltar.
    - O que vamos fazer? Fao fora para mostrar coragem perto do Eurico e da Amelinha, mas tem hora que fico com medo. Ele  muito perigoso e tem fora.
    - No precisa ter medo. Ele s tem fora com as pessoas que no tm f e que no se ligam com Deus. Ns temos proteo. S precisamos estar atentos. Oua bem. 
Vou conversar com o Dr. Marclio. Ele tem uma sesso esprita com pessoas que entendem dessas coisas. Conta com a ajuda de muitos espritos superiores. Precisamos 
ficar firmes na f. Se acontecer alguma coisa, se o coronel Firmino voltar a ameaar vocs, reze. Pea a ajuda de Jesus. Ele os proteger. O bem  mais forte que 
o mal.
    - Se ao menos a Dona Eullia acreditasse! Ela estava to abatida...
    No sabe o que fazer.
    - Vamos ajudar, Nico. Fale com as crianas e procurem ficar longe de Norberto. Vo para o jardim, fechem-se no quarto, mas no se aproximem dele.
    - Est bem. Agora tenho que ir. Prometi  professora estar de volta logo.
    - V, Nico. Deus o acompanhe. Obrigado por ter vindo me avisar.
    Depois que o menino saiu, Alberto foi para o escritrio, apanhou o telefone e ligou para o Dr. Marclio contando-lhe a visita de Nico. Finalizou:
    - Precisamos fazer alguma coisa para ajud-los. O que o senhor me aconselha?
    - Prece. Faa prece e continue vigilante. Ele est com idia fixa em Liana. No se afaste dela por nada. Conserve as portas da casa trancadas. Vou reunir os 
mdiuns e pedir orientao. Qualquer coisa, comunique-me. Eu farei o mesmo.
    Depois de desligar o .telefone, Alberto foi ao quarto ver Liana. Ela estava dormindo. O mdico dera-lhe um relaxante. Aproximou-se da cama, curvou-se e alisou 
o rosto dela com carinho. Estava plida. Ele se comoveu.
    Estava ali para proteg-Ia. No deixaria ningum lhe fazer nenhum mal. Sentou-se ao lado da cama, segurou a mo dela e levou-as aos lbios, beijando-a com delicadeza.
    
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    Liana abriu os olhos e, vendo-o, sorriu. Acanhado, ele largou sua mo, mas ela se remexeu na cama, procurou a mo dele, segurou-a e fechou os olhos novamente.
    Alberto sentiu um calor brando invadir-lhe o peito. Ela confiava nele e sentia prazer ao seu contato. Era muito bom sentir esse aconchego.
    Nico voltou  manso, entrou na casa e apanhou o caderno de que precisava. Desceu, pediu licena e entrou na sala de aula. Enquanto a professora retomava o assunto, 
Nico fez pequeno sinal afirmativo com a cabea para os outros dois.
    Assim que a aula acabou, eles foram ao jardim e Eurico perguntou: - E ento?
    - Falei com o professor. Ele pediu para ficarmos o mais longe possvel do Dr. Norberto, pelo menos enquanto o coronel estiver com ele. Disse tambm para no 
termos medo, para rezarmos, que os espritos superiores iam nos ajudar. O Dr. Marclio fala com eles e ia pedir para virem aqui. - Puxa! Como sero esses espritos 
superiores? - perguntou Amelinha.
    - S fazem o bem. Trabalham para Jesus - esclareceu Nico. - Eles so anjos? - retrucou ela.
    - So pessoas - interveio Eurico. - Aquela mulher que sempre aparece para buscar o coronel Firmino quando ele est me assustando deve ser um esprito desses. 
Ela  to bonita! Quando a vejo, eu me acalmo e perco o medo. s vezes ela sorri para mim.
    - Puxa! Que sorte a sua! - exclamou Nico. - Bem que eu gostaria de ver esses espritos.
    - Pois eu no. Se pudesse, trocava com voc. A eu ia ver se est falando a verdade, se no tem medo mesmo.
    - Essas almas no tm poder nenhum. Todo poder vem de Deus. 
    Como eu estou com Deus, no tenho nada a temer.
    Hilda chamou-os para o almoo. Querendo afastar-se de Norberto, eles pediram para fazer o prato e comer na mesa do caramancho. Hilda conversou com Eullia, 
que achou at bom, uma vez que Norberto continuava na sala, calado.
    Angustiada, ela no o deixava s nem por um instante, com medo de que ele tivesse alguma crise. Almoaram os dois em silncio e depois ele se sentou novamente 
na sala, olhando de vez em quando para o relgio.
    Quando o carrilho da sala bateu duas vezes, ele se levantou dizendo: - Tenho de ir. Mande tirar o carro.
    
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    - Aonde voc vai?
    - A So Paulo. No temos uma consulta para Liana s cinco? Eullia tentou contemporizar:
    - No. Ter de ficar para outro dia. Infelizmente o Dr. Caldas viajou e no poder nos atender hoje.
    - No importa. Vou lev-Ia de volta a So Paulo. L esperaremos por ele.
    Eullia aproximou-se dele, dizendo preocupada:
    - Voc no pode fazer isso! Ela no quer ir. O marido dela no vai deixar!
    Os olhos de Norberto brilharam rancorosos. Ele disse com raiva:
    - Pouco me importa o que esse impostor quer. Ela  minha, entendeu? Ningum a tira de mim!
    Eullia empalideceu e no soube o que dizer. Ele continuou:
    - Ela  minha! Est na hora de ir busc-la e de ficar a meu lado para sempre. Nosso amor  mais forte que tudo!
    - Voc est fora de si, no pode sair desse jeito! Meus Deus! Ele est enlouquecendo!
    - No se meta em minha vida. Chega! Saia de meu caminho. - Espere um pouco. No saia desse jeito!
    - No tente me impedir. Nada vai me fazer desistir agora. Custou muito para conseguir chegar at aqui.
    Empurrando-a com fora, Norberto saiu e Eullia, apavorada, foi atrs dele chamando por Hilda, que apareceu em seguida.
    - Chame o Dr. Marclio. Pea-lhe que venha imediatamente. Norberto entrou no carro que se encontrava na garagem e deu a partida. Eullia ainda tentou impedi-Io, 
mas no conseguiu. Vendo o carro arrancar e sair pelo porto principal, em pranto correu para casa. Vendo Hilda ao telefone, perguntou:
    -  o Dr. Marclio?
    Hilda fez que sim com a cabea e ela apanhou o telefone, dizendo:
    - Dr. Marclio,  Eullia. Ajude-nos, pelo amor de Deus. Meu marido enlouqueceu de repente. Saiu com o carro e no consegui segur-Io. Disse que vai tirar Liana 
de casa e lev-Ia com ele para So Paulo.
    - Acalme-se, Dona Eullia. Vou imediatamente  casa de Liana avis-Ios. Se sabe rezar, reze.  o melhor que tem a fazer agora.
    - Rezar? Quero que o senhor encontre Norberto e lhe aplique uma injeo para faz-Io dormir. Depois trataremos da sade dele.
    
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    - Sei como agir em casos como o dele. A orao ter o dom de ajud-la a acalmar-se. A f  alimento da alma. A orao  um santo remdio.
    - Est bem. No temos tempo agora. V procur-Io, por favor. Depois que o mdico desligou, Eullia disse com voz desconsolada: - Ele me mandou rezar! Onde j 
se viu um mdico como esse? Como podemos confiar nele?
    - Pois eu acho que foi um sbio conselho. Sou pessoa de f. Acredito que, quando no podemos fazer nada para resolver nossos problemas, Deus pode. Depois, Dona 
Eullia, a senhora est muito nervosa. A orao faz bem e tem o dom de acalmar.
    Eullia andava de um lado a outro inquieta. Depois resolveu:
    - Vamos at l ver o que est acontecendo. No podemos ficar aqui esperando. Vai ser um escndalo. Ele vai querer tir-Ia pela fora e  claro que o professor 
no vai deixar. Meu Deus, o que pode acontecer ainda?
    -  melhor ficar aqui, Dona Eullia. No vai acontecer nada. O Dr. Marclio vai cuidar de tudo. Ele deve saber como lidar com um caso desses. Vai ver que logo 
estar de volta trazendo o Dr. Norberto.
    - No sei. Tenho medo. Nunca vi Norberto desse jeito. Est fora de si. Seus olhos pareciam de um louco!
    - No diga isso, Dona Eullia. Calma. Vamos esperar.
    - No. Mande Tonico tirar meu carro e vamos at l. Pediremos a Melissa que faa companhia s crianas.
    Marclio chegou  casa de Liana acompanhado de Adlia e mais dois mdiuns que participavam das sesses espritas em sua casa. Alberto f-los entrar, e Marclio 
tornou:
    - Prepare-se. Norberto vem vindo novamente. Eullia ligou-me pedindo ajuda. Ele saiu como louco dizendo que vinha buscar Liana para lev-Ia com ele a So Paulo. 
No tenho dvida de que o esprito do coronel Firmino o est dominando. Como est Liana?
    - No quarto. Ainda se sente fraca - respondeu Alberto.
    - Vamos nos preparar para receb-lo. Voc, Alberto, v para o quarto de Liana, tome a mo dela, fique em orao. Se ela acordar, diga-lhe que no tenha medo 
de nada. Ns estamos cuidando de tudo.
    Enquanto Alberto obedecia, ele disse para Gislene:
    - Ponha sobre a mesa aquele vaso com flores e uma jarra com gua.
    Fique observando da janela. Quando o Dr. Norberto chegar, avise-nos.
            Depois ele se sentou ao redor da mesa em companhia de Adlia e dos outros dois e pediu:
    
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    - Vamos nos ligar com nossos guias espirituais e pedir proteo para Liana e o coronel.
    Cada um cerrou os olhos e comeou a orar em silncio. Passaram alguns minutos quando Gislene avisou:
    - Parou um carro aqui.  ele. Est descendo.
    Norberto bateu na porta, dizendo com voz calma:
    - Liana, abra. Precisamos conversar.
    Ningum respondeu. Ele continuou:
    - No tenha medo, Liana. S quero seu bem. Abra a porta. Sei que est doente e precisando de ajuda! Vamos, abra.
    Durante alguns minutos ele tentou, enquanto os trs ao redor da mesa oravam em silncio. Por fim, Marclio abriu os olhos e pediu a Gislene:
    - Abra a porta e deixe-o entrar.
    Ela olhou assustada para ele, mas, apesar de estar trmula, obedeceu.
    Abriu a porta e ele entrou rapidamente, dizendo:
    - V chamar Liana imediatamente.
    - Ela est dormindo.
    - Acorde-a. Estarei esperando.
    Gislene saiu da sala e ento foi que Norberto viu os quatro sentados ao redor da mesa na sala de jantar. Estremeceu, olhando-os assustado. Depois gritou:
    - O que esto fazendo aqui, tramando contra mim? Saiam de meu caminho se no quiserem ser esmagados por minha raiva. Sei como acabar com todos vocs.
    - Voc no tem esse poder, coronel Firmino - disse Marclio com voz firme.
    - Quem me desafia? No sabe que eu mando e todos me obedecem?
    - Quando voc estava na carne, gostava de mandar em todo mundo. Mas esse tempo acabou. Seu corpo morreu e voc no passa de um fantasma sofrido e solitrio.
    - No  verdade. Voc est querendo me iludir para atrapalhar meus planos. Pensa que no sei?
    Algumas pancadas na porta da frente fizeram-no estremecer. Marclio levantou-se e foi abrir. Vendo Eullia e Hilda, fez-Ihes sinal para que entrassem.
    - Vi o carro de Norberto - explicou Eullia.
    Marclio fez-lhe sinal para que se calasse, tomou-as pelo brao e conduziu-as at a sala de jantar indicando as cadeiras para que se sentassem. As duas deixaram-se 
cair, olhando assustadas para Norberto e os dois em volta da mesa sem entender nada.
    
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    Marclio, voltando-se rara Norberto, tornou:
    - Voc est enganado. S queremos ajud-lo. No est cansado de tantos anos de sofrimento? Por que teima em querer voltar ao passado, se ele j acabou faz tempo? 
No percebe quanto tempo est perdendo?
    - Chega de conversa fiada. Onde est Liana? Ela  minha e tem de me obedecer!
    - Ela  livre. Aquele tempo acabou. Hoje ela  casada com outra pessoa.
    - Isso no vale nada. Ela  minha mulher! Custei a encontr-Ia. No vou perd-Ia de novo.
    Marclio levantou-se e aproximou-se de Norberto, que em p a um canto da sala, olhos fixos em um ponto indefinido, continuava mergulhado em sua obstinao, e 
colocou sua mo direita sobre a cabea dele, que estremeceu e comeou a gritar enfurecido:
    - Saia daqui. V embora. No se meta em minha vida. Voc no vai conseguir nada. Sou mais forte do que voc e do que todos os seus asseclas.
    Marclio continuou orando em silncio com a mo colocada sobre a nuca de Norberto. Depois foi at Felipe, um dos moos que estava sentado ao redor da mesa, e 
colocou a mo sobre a nuca dele, continuando em orao.
    Alguns segundos depois o corpo de Norberto amoleceu e ele caiu ao cho, enquanto o rapaz na mesa agitava-se exclamando:
    - O que est fazendo? Que truque  esse? Est tirando minhas foras! Voc vai me pagar!
    Eullia levantou-se para socorrer o marido, mas um gesto enrgico de Marclio a deteve.
    - Fique onde est! Ajude-nos com suas oraes.
    Ela se sentou novamente e desta vez comeou a rezar de fato. Marclio, com a mo direita sobre a cabea do rapaz, continuou:
    - Ao invs de querer brigar comigo, por que no aproveita este momento para melhorar sua vida? No est cansado de viver sozinho, triste, de um passado que nunca 
mais voltar, ao invs de aproveitar o que pode agora, de encontrar pessoas que gostam de voc, que s esperam que aceite as mudanas de sua vida para virem a seu 
encontro? Por que prefere a infelicidade quando j pode viver melhor e ser mais feliz?
    Com voz embargada, Felipe respondeu:
    - Voc fala isso porque no sabe o que  viver como estou vivendo. No sabe o que  vagar em busca dos que ama e nunca os encontrar.
    
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    Sentir-se sozinho sem que ningum se importe com sua dor ou com seus sofrimentos.
    - Voc est assim porque quer. Agarrou-se ao passado, recusa-se a obedecer s orientaes daqueles que tm condies de ajud-lo. Fechou-se em sua teimosia e 
recusa-se a deixar a manso, como se ainda fosse o dono dela!
    - Eu a constru. Aquela casa  minha!
    - Voc a construiu. Mas agora ela  do mundo e daqueles que a herdaram. Voc no pertence mais a este mundo. Vive em outra dimenso, onde h coisas maravilhosas 
esperando por voc, onde pessoas que o amam esperam que acorde dessa iluso e possa finalmente deixar o passado, tomando conscincia do presente e seguindo adiante 
para a conquista da felicidade.
    - Voc diz isso, mas eu sei que fui muito ruim. Cheguei ao crime, minha filha me odela! No. No acredito que haja algum que goste de mim ainda, mesmo depois 
de tudo que fiz para a minha prpria famlia.
    - Pois h. Aqui mesmo est algum que espera ansiosamente que voc saia dessa iluso para poder abra-Io e ajud-lo a buscar o caminho do equilbrio e da renovao. 
Olhe.
    Felipe remexeu-se na cadeira e depois gritou em lgrimas:
    - Me!  voc! V embora. Eu no mereo. Fui muito egosta, mau. No me abrace, me.
    O outro moo que estava ao lado disse com voz emocionada:
    - Meu filho! Descanse em meus braos, que sempre estaro abertos para receb-Io! Entregue-se a este momento de amor e venha comigo. Vou lev-Io a um lugar onde 
voc ficar sob meus cuidados. Venha. Perceba que ningum  culpado pelo que lhe aconteceu. Voc plantou e colheu de acordo com sua semeadura. Arranque todas as 
mgoas de seu corao, perdoe a todos, mas principalmente a si mesmo por ter sido to resistente.
    Felipe soluava sentidamente. O outro rapaz continuou:
    - Isso, meu filho. Extravase toda a sua mgoa. Deixe ir todas as suas dores. Descanse a cabea em meu colo. Vou lev-Io comigo.
    - Me, ajude-me a encontrar a paz! Eu quero esquecer!
    Felipe respirou fundo e estremeceu. Depois abriu os olhos, ajeitando-se na cadeira. O outro rapaz ainda disse:
    - Obrigado, amigos. Voltarei outro dia para conversarmos.
    Marclio sentou-se, fez uma prece de agradecimento a Deus. Quando terminou, levantou-se, aproximou-se de Norberto, que, estendido no cho, parecia dormir, e 
chamou:
    
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    - Acorde, Norberto. J passou.
    Ele abriu os olhos e olhou assustado para todos os presentes, como quem acorda de um pesado sono. Marclio ajudou-o a levantar-se e f-Ia sentar-se ao redor 
da mesa. Apanhou um pouco de gua e deu-lhe para beber enquanto os outros dois serviam os demais.
    Eullia e Hilda estavam mudas. No se atreviam nem a perguntar.
    Norberto recuperara seu estado normal, olhou-os admirado e perguntou: - Podem explicar-me o que estamos fazendo aqui? O que aconteceu? Marclio respondeu com 
simplicidade:
    - O esprito do coronel Firmino incorporou em voc e tivemos de esclarec-Ia. Garanto que de agora em diante ele no mais aparecer a ningum naquela casa, muito 
menos a Eurico.
    - O coronel Firmino? Estou ouvindo bem? - disse Norberto, admirado.
    Desta vez Eullia tomou coragem e interveio:
    - Pois foi. Voc ficou como louco. Foi horrvel. Se no fosse o Dr. Marclio e essas pessoas aqui, voc estaria internado em um hospcio.
    Meu Deus! Eurico estava dizendo a verdade! Por que no acreditei?
    - Ele disse muitas vezes que via espritos - lembrou Hilda.
    - Ele estava certo - esclareceu Marclio. - Esse menino tem uma sensibilidade especial. Ele v e ouve os seres de outras dimenses.
    - Mas o coronel est morto! - disse Norberto.
    - Engano seu. Ele est vivo. Quem morre neste mundo vai para outras dimenses, mas continua vivendo.
    -  difcil acreditar.
    - Para quem nunca se interessou pelo assunto, pode ser - respondeu o mdico. - Entretanto, para os que so chamados a essa realidade, o contato com quem j partiu 
 natural.
    Norberto passou a mo pelos cabelos um pouco inquieto e disse:
    - Gostaria de saber como chegaram a essa concluso. Minha prpria mulher, que nunca acreditou nisso, agora est afirmando que a alma do coronel existe mesmo.
    - Eu posso esclarecer como foi. Voc no se recorda de nada?
    - De certa forma, no perdi a lucidez.  difcil dizer. Havia momentos em que me sentia atordoado, fazia coisas desconexas, mas no conseguia parar. Era como 
se estivesse em um sonho em que as idias se embaralhavam em minha cabea. Foi horrvel!
    - Ento voc percebeu que sacudiu Eurico com violncia, assustando-o? - perguntou Eullia.
    
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    - Eu fiz isso mesmo? Houve um momento em que senti muita raiva de Eurico, tive vontade de... - Norberto parou horrorizado.
    - De acabar com ele - completou Marclio, calmo. - Nessa hora, quem sentia toda essa raiva e queria fazer isso no era voc, mas o esprito do coronel Firmino. 
Sempre que ele aparece, demonstra sentir raiva dos meninos, porque de certa forma eles atrapalharam o que ele pretendia fazer.
    - Esses sentimentos brotavam dentro de mim e chocavam-me. Eu amo meus filhos. Sempre fiz tudo para que Eurico ficasse bem, com sade.
    - Voc se chocava, sentia-se culpado por sentir isso, e o coronel conseguia domin-lo ainda mais.
    - O que me conta  incrvel! Nunca pensei que uma situao dessas acontecesse.
    - Agora experimentou. No pode mais duvidar.
    - Ainda bem que Eullia interveio. No sei o que poderia ter acontecido. O que Eurico est pensando de mim? Fui rude demais.
    - Ele sabe que no era voc. Nessa hora ele viu em seu lugar o coronel Firmino - esclareceu Marclio.
    - Como sabe?
    - Ele teve medo de que lhe acontecesse alguma coisa e pediu a Nico que viesse nos procurar e contar tudo - explicou o mdico.
    - Estou admirado! Quero saber tudo a respeito. Se ele fez isso, foi porque sabia que vocs podiam nos ajudar - disse Norberto.
    - Agora no h mais motivo para que no saibam toda a verdade.
    Esses meninos so maravilhosos. Seu filho v e at conversa com os seres de outras dimenses. Ele tem medo, mas Nico no, e o tem ajudado a enfrentar esses encontros 
com coragem e firmeza. Graas a ele, Eurico est reagindo e melhorando a cada dia.
    -  verdade - interveio Eullia. - Voc ameaou mand-lo embora. Sentia raiva dele tambm?
    - Sim. De repente parecia que ele estava me atrapalhando, que era meu inimigo.
    - Ele estava atrapalhando os planos do coronel Firmino, ajudando-nos a libertar Liana da interferncia dele - disse Marclio. Norberto assustou-se:
    - Liana? Por que ela?
    - Vocs ignoram porque vieram morar naquela casa. No foi apenas por causa da sade de Eurico. A vida trouxe-os aqui porque tinha seus motivos. Era preciso que 
vocs todos se reencontrassem, principalmente Liana com Firmino - esclareceu Marclio. - Posso contar tudo desde o comeo.
    
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    - Gostaria de entender - pediu Eullia.
    - Por favor - tornou Norberto.
            Marclio falou sobre reencarnao, sobre os laos que uniam Liana e as crianas ao esprito do coronel, a inteno dele de continuar a domin-Ia.
    Eullia no se conteve:
    - Por isso voc disse que amava Liana!
    Norberto empalideceu:
    - Eu disse isso?
    - Sim. Disse tambm que ela era sua mulher. Pensei que tivesse enlouquecido. Agora entendo... era o coronel que sentia isso!
    - Era - apressou-se a dizer Marclio. - Mas  preciso lembrar que ele se aproveitou de sua amizade por sua cunhada e por seu interesse em ajud-la levando-a 
a seu mdico de confiana.
            - . Ele dizia que ia lev-Ia ao Dr. Caldas. Tentei impedi-lo, mas no consegui. Voc estava como louco!
            Norberto remexeu-se na cadeira. Sentia-se envergonhado.
            - Isso j passou. Est se sentindo bem agora? - perguntou o mdico.
            - Sim. Apesar de assustado, estou bem. Quando vocs falam, parece que se referem a outra pessoa.
            - Era outra pessoa mesmo - confirmou Marclio.
            - S no entendo uma coisa. Vocs estavam todos aqui quando chegamos. Como sabiam? - perguntou Eullia.
    Marclio contou a razo pela qual tiraram Liana daquela casa s escondidas para o casamento, mas omitiu o fato de eles haverem se casado apenas na aparncia. 
Explicou tambm como, com a ajuda dos espritos superiores, haviam ido at l naquela tarde para esper-lo.
            - Quando ele saiu de casa como louco e no me deixou acompanh-lo, no pude suportar. Vim atrs.
            - Fez bem. Assim pde assistir a tudo que aconteceu aqui - disse o mdico.
    Eullia hesitou um pouco, depois decidiu:
    - E Liana, como est?
            - Melhor. Est no quarto, e Alberto est com ela. Pedi-lhe que ficasse em prece ao lado dela para fortalec-Ia. As energias do coronel eram fortes e 
poderiam envolv-la. Ela se encontra ainda um tanto debilitada.
    
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    A obsesso dele em domin-Ia fazia-o emitir energias controladoras que sugavam as foras dela, enfraquecendo-a.
    - Por isso ela estava sempre deprimida, aptica, sem vontade? perguntou Eullia.
    - Sim. Esse estado  prprio da subjugao espiritual. O coronel jogou energia de domnio sobre Liana e ela no reagiu. Se tivesse usado sua fora para afast-Io 
de sua aura, no teria sido to atingida.
    - Ela no sabia de nada disso - lembrou Eullia.
    - Tentei avisar. Eurico via. Ela mesma chegou a ver o coronel,         lembra-se?
    -  verdade! - concordou Eullia.
    - Quem poderia imaginar tudo isso? - comentou Norberto, perplexo.
    - E agora? - disse Eullia. - Estou com medo de voltar quela casa. Acho melhor voltarmos para So Paulo.
    - No h mais motivo para isso. Eurico deu-se bem aqui, apesar do que aconteceu. Garanto que o coronel agora no oferece mais perigo. Foi afastado. O esprito 
de sua me sofria muito vendo-o naquele estado. H muito tentava ajud-la. Agora conseguiu que ele compreendesse e resolvesse aceitar afastar-se daquela casa e receber 
tratamento. Se um dia ele voltar, estar melhor e no prejudicar mais ningum - esclareceu Marclio.
    - No sei. Essas coisas de almas do outro mundo me assustam. Antes no tinha medo porque no acreditava nelas, mas agora... - considerou Eullia.
    Marclio sorriu e respondeu:
    - Quer saber por que Eurico no se dava bem na cidade grande?
    Ele teve dificuldade em reencarnar por problemas de sua vida passada. Estava frgil e sensvel. A presso das energias negativas  muito maior na cidade, onde 
h muito mais pessoas, mais problemas, mais violncia. O acmulo de gente energeticamente representa acmulo de problemas. A sensibilidade dele sofria com isso. 
Aqui, tudo  mais calmo, as energias menos agressivas, ele pode ir aos poucos assumindo melhor a encarnao. Se ele continuar aqui por mais algum tempo, garanto 
que chegar  idade adulta saudvel e recuperado.
    -  o que eu mais desejo neste mundo! - tornou Eullia.
    -  preciso tambm cuidar da sensibilidade dele. Precisam aprender as leis que regem o campo das influncias, para que ele aprenda a viver bem com a sensibilidade 
que possui.
    
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    - Depois do que me aconteceu, no posso ignorar - disse Norberto. - Desejo saber tudo, estudar o assunto, para que no acontea novamente. Tremo s em pensar 
nessa possibilidade
    - Faz bem. Tenho estudado sem cessar e possuo em minha casa extensa biblioteca sobre o assunto. Est  sua disposio.
    - Obrigado, doutor.
    Alberto apareceu na sala e Marclio chamou-o:
    - Aproxime-se, Alberto. Como est Liana?
    - Bem. Houve momentos em que ficou inquieta, queria sair do quarto, ir embora daqui, estava apavorada. Com a mo dela entre as minhas, fiz prece e aos poucos 
ela se acalmou. Agora quer levantar-se. Ouviu vozes e eu lhe disse que era voc. Ela quer v-lo e saber se j pode se levantar.
    - Ela deve estar se sentindo muito melhor. Felizmente o coronel Firmino foi afastado. Agora ela ficar bem - disse o mdico.
    Eullia hesitou um pouco, depois disse:
    - S agora ficamos sabendo a causa da doena dela. Estou arrependida de ter sido to descrente. Ser que eu poderia conversar com ela?
    - Claro - respondeu Alberto sorrindo. - Tenho certeza de que sua visita ser para ela um excelente remdio.
    Eullia olhou para o mdico, que disse:
    - Pode ir, Dona Eullia. A alegria s faz bem.
    Eullia olhou para o marido, que decidiu:
    - V sozinha. Ser melhor. Minha presena agora pode no ser muito agradvel.
    Eullia foi at l enquanto Alberto pedia a Gislene que servisse um caf com aquele bolo gostoso que ela sabia fazer to bem.
    
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    Captulo 19
    
    
    Eullia empurrou a porta do quarto de leve, enfiando a cabea para ver se Liana estava acordada. Vendo-a, a moa teve uma exclamao de alegria:
    - Eullia! Voc veio!
    Ela entrou, aproximou-se da cama e disse:
    - Eu vim, mas fui empurrada pela vida. Agora eu sei o que se passa com voc e estou arrependida de ter sido to dura. Ser que pode perdoar-me?
    Liana sentou-se na cama, estendendo os braos:
    - Perdo-Ia? Eu  que tenho de lhe pedir perdo por haver sado de sua casa sem contar a verdade.
    Eullia abraou-a, e a emoo aflorou. Seja por ter estado tensa durante tantas horas, seja pelo reencontro com a irm que ela queria bem, ou pela realidade 
espiritual de que estava tomando conscincia naquele dia, as lgrimas apareceram e ela comeou a soluar.
    Liana abraava-a com fora, impressionada com o volume de suas emoes. No se lembrava de t-Ia visto chorar daquele jeito antes. Sempre a julgara rgida e 
indiferente, mais forte que a maioria das pessoas. Estava enganada. A mulher que a abraava era to sensvel e frgil como qualquer outra.
    Quando se acalmou, ela disse:
            - No foi s com Alberto que fui injusta, com o Dr. Marclio tambm. Pensei que Norberto estivesse enlouquecendo, fez coisas terrveis. Veio aqui disposto 
a lev-Ia com ele. No quis que o acompanhasse, mas eu vim assim mesmo. Quando cheguei, eles estavam reunidos e falando com Norberto. Ele estava possudo pela alma 
do coronel Firmino. Quando ele foi afastado, Norberto acordou como se nunca tivesse feito tudo aquilo. Compreendi a verdade. Eurico estava certo quando falava que 
via os espritos. Fiquei chocada. Pobre Eurico, vendo esses espritos sem ningum que o apoiasse. J pensou que horror?
    -  verdade. Felizmente Nico tem muita fora e Alberto entende desse assunto. Foi ele quem orientou os meninos, ajudando-os para que se defendessem e resistissem 
ao assdio do coronel Firmino.
    r
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    r- Lamento ter sido contra seu casamento. Agora percebo que ele a ama muito e fez tudo para proteg-Ia enquanto ns, sua famlia, s atrapalhamos.
    - Vocs no sabiam a verdade. Estou contente que tenham compreendido. Assim podero apoiar Eurico. Ele v mesmo os espritos!
    - Eu sei. Quem diria! Tivemos nossa lio. Norberto agora quer estudar. Ficou de ir  casa do Dr. Marclio buscar alguns livros.
    - Tanto esse mdico quanto sua esposa e todos que freqentam sua casa so maravilhosos. As sesses so verdadeiros blsamos de paz.
    - Vocs tm ido?
    - Sim.
    - Sente-se melhor?
    - Muito. Hoje, por exemplo, parece-me haver acordado de um longo pesadelo. Sinto vontade de cantar, de levantar, ver as flores de nosso jardim, ir  rua.
    - De fato, seu aspecto est muito melhor. Est at corada!
    O Dr. Marclio entrou e foi logo dizendo:
    - Como voc melhorou!
    - Ela est corada.
    - Posso levantar-me?
    - Vim busc-las para o caf com bolo de Gislene.  imperdvel. Estamos esperando as duas na sala.
    Liana levantou-se, trocou de roupa e arrumou-se. Estava renovada e feliz. Antes de sair do quarto, abraou a irm, dizendo emocionada: - Que bom que voc est 
aqui! Nunca mais me abandone.
    Ao que Eullia respondeu:
    - Nunca. De agora em diante voltaremos a ser uma famlia. O que Alberto fez por voc tocou meu corao. Sinto-me envergonhada do que fiz.
    Elas foram para a sala, e Norberto, vendo-as, no disse nada. Sentia-se constrangido pelo que fizera. Foi Liana quem se aproximou dele, dizendo:
    - Hoje  um dia feliz. Estou contente que estejam aqui. Alberto aproximou-se:
    - Tem razo. Desde que nos casamos, v-los aqui era nosso maior desejo. Liana sentiu muita falta da famlia.
    - Lamento que tenha sido dessa forma. Sinto-me envergonhado - respondeu Norberto.
    Marclio interveio:
    - No se preocupe com isso. Todos ns sabemos como a influncia desses espritos pode ser forte.
    
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    O que importa agora  conhecer as leis que interferem nesses fenmenos para saber como se defender.
    - Sinto que  hora de aprender - tornou Norberto com humildade.
    - Tem razo. Sua sensibilidade abriu-se e, se no atentar para essa realidade, o que lhe aconteceu pode se repetir.
    - Deus me livre, doutor! Nunca em minha vida fiz papel de louco como hoje. Fico arrepiado s em pensar.
    - Gostaria de conversar consigo. V em casa qualquer dia desses.
    - Se no se importar, gostaria de ir hoje mesmo. Sinto-me inseguro e preocupado. Sempre mantive completo domnio sobre meus atos.  difcil para mim admitir 
as loucuras que fiz.
    - Depois de nosso caf, conversaremos.
    O lanche decorreu alegre, e tanto Eullia quanto Liana estavam bem-dispostas. Alberto fez as honras da casa, atencioso para com todos.
    Quando o mdico se despediu, convidou Norberto para acompanh-lo. Eullia levantou-se, mas Marclio tornou:
    - Fique mais um pouco, Dona Eullia. Depois de tanto tempo, vocs tm muitas coisas para conversar. Nossa conversa ser a dois.
    - Tambm gostaria de entender do assunto. Meu filho precisa de minha compreenso - objetou ela.
    - Falaremos outro dia. Hoje quero conversar com o Dr. Norberto.
    - Nesse caso, ficarei mais um pouco. Hilda me far companhia na volta.
    Eles saram, e os trs sentaram-se na sala enquanto Hilda acompanhava Gislene na cozinha. As duas conversavam animadas, e Hilda queria a receita daquele bolo 
to gostoso que ela servira com o caf.
    Eullia foi a primeira a romper o silncio.
    - Quero pedir-lhe desculpas, Alberto. Fui intolerante e teimosa. As crianas sentiram muito sua falta. Eurico fez de tudo para que o chamasse de volta. Ficou 
impossvel.
    - Eu sei. Nico contou-me. Ele se habituou a conseguir tudo que deseja dessa forma. Sabe de sua preocupao com sua sade e explora isso.
    - J notei. Infelizmente esse  meu ponto fraco. Ele sempre deu muito trabalho. Tinha febre por qualquer coisa, no se alimentava, nunca foi igual s outras 
crianas. Amelinha sempre foi muito diferente. Eu sentia que ele era muito mais frgil, e tinha medo de perd-lo.
    - D para entender. Mas agora ele j superou essa fase. Est mais forte. Precisa aprender a se colocar de outra forma.
    
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    Eullia baixou a cabea e ficou pensativa alguns segundos. Depois disse:
    - Talvez eu seja culpada disso tambm. Sempre impus o que eu queria sem ouvir o que ele dizia. Para mim, ele era incapaz de discernir. Confundi as coisas, pensei 
isso por causa de sua debilidade fsica. Agora, com o que aconteceu, percebi que ele sabia mais que eu, pelo menos sobre essa histria de almas do outro mundo.
    - Ele ficar feliz quando souber que voc acredita nele agora - disse Liana.
    - E que vocs voltaro a freqentar nossa casa.
    Alberto, pretextando um trabalho a fazer, deixou-as a ss para que pudessem conversar  vontade.
    Marclio chegou em casa e conduziu Norberto a seu escritrio, fechando a porta. Depois que se acomodaram, o mdico tomou:
    - Fico feliz que voc tenha compreendido a verdade. Agora j vejo uma sada para os angustiantes problemas de sua famlia.
    Norberto olhou-o preocupado. O que acontecera naqueles dias aparecia em sua mente de maneira obscura. Lembrava-se de ter feito algumas coisas incontrolveis, 
mas no de tudo que dissera. Eullia contara que ele dissera amar Liana. Era isso que mais o assustava. Por pouco pusera tudo a perder. E se acontecesse de novo? 
E se ele acabasse revelando o segredo de seu amor por ela?
    - Tudo ficar bem se a alma do coronel no voltar.
    - Liana foi esposa dele em outra encarnao. Mas no teria conseguido envolv-lo daquela forma se voc no lhe desse oportunidade.
    - Eu nem acreditava na existncia dele. Voc diz que Liana foi casada com ele em outra encarnao. Para mim  difcil acreditar. Ainda agora, apesar do que aconteceu, 
estou duvidando. O coronel pode ter se enganado. Liana pode ser parecida com a esposa dele.
    - Entendo sua dificuldade. Eu afirmo: Liana foi a esposa do coronel, e digo mais. Estou informado pelos espritos superiores que Amelinha foi a filha que ele 
perseguiu, Nico o genro que ele queria matar e Eurico o neto que ele impediu de nascer.
    Norberto abriu a boca e fechou-a novamente sem encontrar palavras para dizer. O tom de Marclio era srio e firme. Ele estava afirmando, e Norberto no se sentiu 
com coragem de contradizer. O mdico continuou:
    - O esprito de Eurico teve muita dificuldade para reencarnar, por isso a infncia difcil. Mas agora a encarnao firmou-se e, com a graa de Deus e a ajuda 
de vocs, ele reconquistar o equilbrio. 
    
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    A ida de sua famlia para aquela casa no foi por acaso. Para que eles pudessem viver em paz, era preciso que o esprito do coronel Firmino se esclarecesse. 
Ele, mesmo  distncia, continuava envolvendo Eurico, que era inimigo dele de outros tempos. Enquanto ele no desistisse de procur-los e de persegui-Ios, seria 
difcil o menino manter a sade.
    Vendo que Norberto acompanhava atentamente suas palavras, continuou:
    - Liana foi a me de Amelinha e esposa do coronel. Elas sofreram muito ao lado dele e o odiavam profundamente. A vida trabalha para a harmonia do ser. Ningum 
pode ter sade fsica e mental sem limpar o corao, sem largar o passado e perdoar a ignorncia alhela.
    - Como pode ser isso? Liana no conhecia o coronel nem se lembrava dele. Como poderia odi-Io?
    - Ela reencarnou e esqueceu. Sempre que renascemos a vida apaga a conscincia de nosso passado, mas as energias continuam em nosso inconsciente. A mgoa, a raiva 
estavam l todo o tempo, e bastou que ela o reencontrasse para que tudo viesse  tona. Lembre-se que quando ela o viu perto da escada ficou apavorada.
    - Qualquer um ficaria, vendo um esprito.
    - Com ela foi pior. Sentiu pavor de que ele a dominasse energeticamente.
    - De fato, fizemos tudo e ela no reagiu. Nunca entendemos essa atitude. Liana sempre foi forte, determinada, ativa. Ficou completamente deprimida, aptica.
    - Por isso foi preciso que a tirssemos de casa daquela forma. Se ela ficasse l, no teramos como ajud-la, ainda mais que vocs no permitiam nossa presena.
    - Sinto que tenhamos sido to resistentes.
    - Quando ela se foi, ele ficou com raiva e percebeu que poderia envolver voc. Ento comeou a pression-Io para buscar Liana.
    - Ele sabia que eu no aceitei o casamento dela.
    - Ele sabia mais. Ele sabia tudo quanto voc pensava. Para os espritos desencarnados, nossos pensamentos so visveis.
    Norberto remexeu-se na cadeira inquieto.
    - Ele sabia tudo que eu pensava?
    - Tudo. Por isso, descobrindo seus sentimentos para com Liana, viu uma oportunidade de conseguir o que queria.
    Norberto baixou a cabea envergonhado. Como  que o mdico podia saber de tudo? Liana teria contado? No se conteve:
    
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    - Liana falou sobre isso?
    - Falou. Ela contou tudo que houve entre vocs. Esse  o ponto fraco que facilitou o assdio do coronel. Vive arrependida, no se perdoa pelo deslize, teme que 
a irm descubra. Liana tem a alma nobre,  muito honesta. Respeita sua famlia. Vive se atormentando com o que aconteceu.
    - s vezes tambm me arrependo. A presena de Liana enlouquece-me. Esse amor est acabando comigo. Depois, sei que Liana tambm me ama.
    - A vida separou vocs.  preciso entender que o momento no  para que fiquem juntos. Por enquanto ainda no nos foi revelado por que voc est dentro desta 
histria, que laos do passado existem unindo a famlia do coronel Firmino, voc e sua esposa. Mas, se esto juntos nesse processo, certamente atraram essa experincia 
por alguma razo. No universo nada acontece por acaso.
    - Acha isso mesmo? Teremos vivido outras vidas tambm?
    - Com certeza. O que sei  que somos responsveis por nossas atitudes. H valores essenciais que necessitamos aprender se quisermos viver melhor. Neste mundo 
somos submetidos a energias perigosas que despertam nossas paixes. Estamos aqui para aprender a domin-Ias. Ficar cada vez mais forte no bem  nossa garantia de 
equilbrio, de sade e de felicidade. Ningum pode ficar bem entregando-se s paixes. Elas exacerbam as emoes e so insaciveis, exigindo cada dia mais.  sofrimento 
o tempo todo.
    - Quanto a isso concordo. Desde que me apaixonei por Liana, minha vida tem sido um inferno. No tive mais um momento de paz.
    - A paz tem o preo da honestidade e do respeito. Voc mentiu, desrespeitou sua alma, e a conscincia de seu erro no lhe permite desfrutar de paz.
    Norberto colocou a cabea entre as mos em desespero. Aquelas palavras o emocionavam muito. Ele estava mexido, sensvel, e no suportou. As lgrimas desceram 
por seu rosto e ele rompeu em soluos.
    Marclio deixou que ele desabafasse e ficou em silncio. Intimamente orava aos amigos espirituais pedindo que o ajudassem a aliviar aquele corao aflito.
    Quando serenou, Norberto enxugou os olhos com um leno e disse: - Desculpe, doutor. No pude suportar.
    - As lgrimas s vezes lavam a alma.
    - Se elas pudessem me ajudar a sair dessa confuso em que me encontro, seria bom. Infelizmente, no tm esse poder.
    
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    - , mas Deus tem. Ele tem a magia do amor e pode no s aliviar mas tambm curar as feridas do corao.
    - Eu gostaria muito de ter essa f, de poder acreditar que um dia me libertarei desse tormento.
    - Se  isso que quer de verdade, se seu corao estiver sendo sincero, tenho certeza de que conseguir o que pretende.
    - Eu gostaria muito de viver para minha famlia. Quando pensei em me casar, procurei uma moa boa que pudesse ser a me de meus filhos. No pensava em amor, 
confesso. Nosso casamento foi uma espcie de arranjo. Mas gostei de Eullia. Ela me atraa como mulher. Mas nunca senti por ela o que sinto por Liana. Alis, nunca 
havia sentido isso por nenhuma mulher. Arrependi-me de haver casado, mas era tarde. Agora, estou perdido. Eullia tem sido boa companheira, fiel, devotada  famlia. 
Eu gostaria de am-Ia como merece. Liana est casada, sinto que no devo mais infelicitar sua vida. Sei que ela ainda me ama, e  isso que me tira o sossego. Ela 
no pode amar o marido. Era a mim que ela amava!
    - Voc est enganado. Liana ama o marido. Eles foram feitos um para o outro. Deixe-os viver em paz.
    - Se isso  verdade, eu gostaria de esquecer. Mas como? 
    - Feche os olhos e vamos pedir a ajuda de Deus. Neste momento, procure esquecer esse problema. Pense que voc est cansado e que agora no precisa tomar nenhuma 
deciso. Entregue-se  paz. Deixe que a luz da harmonia brilhe  sua volta, e pea que Deus o proteja e oriente. Voc deseja o bem e s o bem. Vamos orar.
    Marclio proferiu comovida orao e aos poucos Norberto sentiu-se mais calmo.
    - O desabafo fez-me bem. Obrigado por ter-me escutado.
    - Vou emprestar-lhe alguns livros que estudam os fenmenos de influncia e como manter a sade mental protegendo-se das investidas dos espritos perturbadores.
    - Vou ler com ateno. Nunca mais quero passar por isso outra vez. Marclio olhou srio para ele e disse com naturalidade:
    - Voc vai saber como  o processo, mas o importante  descobrir como voc est atraindo essas influncias. Assim como nossa sociedade tem leis para preservar 
o prprio equilbrio, a vida estabeleceu os valores verdadeiros do esprito eterno. Criou leis csmicas que funcionam naturalmente, respondendo a cada um de acordo 
com suas atitudes. E, se as leis humanas se modificam conforme a humanidade progride, as leis csmicas nunca se alteram, porque representam a verdade absoluta.
    
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    Por isso, quem quer gozar de sade fsica, mental, espiritual, ter felicidade, paz, alegria de viver, precisa estudar a vida, entender como ela funciona. Assim, 
quanto mais verdadeiro voc for dentro dos valores da espiritualidade, mais equilibrado e feliz ser.
    - A religio est sempre pregando moral, mas tenho visto que mesmo os que cumprem os preceitos de sua religio sofrem muito neste mundo.
    - No estou me referindo s religies nem  moral humana. Elas esto chelas de preconceitos e inverteram quase todos os valores. Estou falando do que a vida 
quer, de como ela reage acionando o progresso humano provocando o desenvolvimento da conscincia.
    - Como posso saber o que a vida quer? Sempre cumpri com meus deveres de cidado, de esposo e pai. Como foi acontecer comigo essa paixo que no pedi e que est 
infelicitando toda a nossa famlia?
    - Eis o que voc precisa descobrir. Consulte seu corao, pea a Deus para mostrar-lhe a verdade. Jogue fora a culpa. Ela deturpa os fatos e enfraquece o esprito.
    - Mas  o que eu mais sinto. Culpa. Por minha causa Liana est sofrendo e estamos nessa confuso.
    - Como pode se culpar se reconhece que essa paixo brotou em seu peito sem que planejasse?
    - , foi. Mas agi de forma errada.
    - Deixou-se dominar pelas emoes. E o que era atrao acabou tomando-se paixo. Assim voc acabou descobrindo que, quando no controlamos as emoes, elas acabam 
por nos controlar. Quando no pisamos no freio, o carro se desgoverna e acabamos por nos machucar.
    - E como!
    - Voc agora est mais forte que antes. Quando sentir atrao por algum, vai dominar-se, porque j sabe a que sofrimentos as emoes descontroladas podem conduzir.
    - Concordo, doutor. Nunca mais quero me envolver com ningum dessa forma.
    - Se est decidido a preservar sua paz, no se culpe mais. Reconhea que foi imprudente mas que agora, mais experiente, saber agir melhor daqui para a frente.
    - Suas palavras tm o dom de me acalmar. Sinto como se tivesse tirado um peso enorme de cima de mim.
    
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    - A culpa pesa. Liberte-se dela. Voc tem uma famlia linda, est bem financeiramente, agradea a Deus essa felicidade. No perca tempo alimentando iluses que 
s trazem dores, sofrimentos.
            Norberto baixou a cabea pensativo e ficou calado por alguns instantes. Depois disse:
    - Obrigado por haver me mostrado a verdade. Assim como estou tirando o peso da culpa do corao, gostaria que me ajudasse a tirar essa paixo do peito.
    - Infelizmente no tenho esse poder.
    - Nem eu. Confesso que tenho tentado.
            - Amar Liana no  proibido. O amor  e sempre ser uma bno. Se no consegue tirar esse sentimento de seu corao, transforme-o em alguma coisa elevada. 
Liberte-a definitivamente. No interfira mais em sua vida, deixe que ela encontre seu verdadeiro destino. A vida separou-os e deve ter seus motivos. Ela sempre faz 
tudo certo.
    - Liana  a mulher da minha vida. Tenho certeza disso.
            - No momento esto em lugares opostos, cada um cumprindo seus compromissos. Quem garante que sua felicidade seja ao lado dela? Voc gosta de sua mulher. 
No estar ao lado de sua famlia a melhor oportunidade de uma vida mais proveitosa e feliz? So consideraes para voc pensar.
            Norberto suspirou fundo. Sentia que naquele momento era incapaz de decidir qualquer coisa. O mdico levantou-se, dizendo:
            - Vou apanhar os livros.
            Norberto meneou a cabea, concordando. Pensou que soubesse muito sobre a vida, mas agora percebia que havia ainda muito a aprender.
    Quando deixou a casa do Dr. Marclio, Norberto sentia que precisava reconquistar a paz. As palavras do mdico fizeram-no refletir sobre seus sentimentos. Ele 
amava Liana, mas no queria que Eullia descobrisse que fora trada.
    Ao pensar nisso, sentia um aperto no peito e sua inquietao aumentava. Se ela descobrisse tudo, saberia que ele fora um fraco, que no soubera controlar as 
emoes dentro de sua prpria casa.
    Ela o julgava um homem correto, admirava-o e respeitava-o. O pensamento de aparecer diante dela como um mau-carter deixava-o apavorado. Teve de reconhecer que 
o apoio, a considerao, o carinho de Eullia eram muito importantes em sua vida.
    Recordou-se do namoro, do casamento, do nascimento dos filhos, dos problemas que haviam dividido nos doze anos de convivncia, e sentiu que no queria mais separar-se 
da famlia.
    
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    Recordando-se que propusera fugir com Liana, sentia-se nervoso. Felizmente ela tivera o bom senso de no aceitar. Quanto mais pensava, mais se arrependia de 
ter se envolvido nessa aventura.
    Agora ela estava casada e ele poderia esquecer a culpa de a ter deflorado. Se Alberto a aceitara mesmo assim, se eles se amavam como o mdico afirmara, ele, 
Norberto, no tinha mais nenhuma responsabilidade pelo futuro dela.
    Essa idia o preocupava. A perda da virgindade era motivo at de anulao do casamento. Pensando melhor, reconhecia que o casamento de Liana, ao contrrio do 
que pensara, viera em auxlio deles, porquanto o obrigava a controlar a atrao que sentia por ela.
    Depois do que acontecera, eles freqentariam sua casa novamente. Teria de conviver com ela. Como se sentiria? Conseguiria controlar suas emoes?
    Eullia voltou para casa e, enquanto Hilda ia dar as ordens para o jantar, ela reuniu as crianas na sala. Depois de verificar que haviam estudado e tomado banho, 
disse:
    - Sentem-se e vamos conversar.
    Eles se olharam admirados. Ela nunca se dirigira a eles nesses termos. Parecia at que estava falando com visitas. Acomodaram-se logo. Ela continuou:
    - Eu sei de tudo.
    Eles se olharam e continuaram em silncio  espera de que ela prosseguisse.
    - No precisam ter medo. Hoje descobri a verdade. A alma do coronel Firmino tomou conta de Norberto e obrigou-o a fazer coisas que ele no queria.
    Eurico suspirou aliviado:
    - Puxa!! At que enfim! A senhora tambm o viu?
    - No fisicamente. Mas vi como seu pai mudou, fez loucuras, parecia outra pessoa. Cheguei a pensar que tivesse enlouquecido, mas o Dr. Marclio conversou com 
ele como se fosse com o coronel, e ele respondeu tudo. Depois rezamos e ele acabou se arrependendo e concordando em ir embora. No sei como  isso, mas parece que 
veio uma outra alma busc-lo.
    - Eu sei - disse Eurico. - Foi aquela mulher bonita que, sempre, que ele estava em meu quarto e eu rezava, aparecia e o levava embora.
    Eullia admirou-se:
    
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    - Voc a viu tambm?
    - Vi. Ela  muito bonita e sorri para mim. Quando ele est me amolando e ela chega, ele fica como que esquecido de tudo e ela pega no brao dele e o leva.
    - Por isso voc sentia tanto medo! - considerou Eullia. - Sinto muito, meu filho, por no ter acreditado no que voc dizia. Nunca pensei que isso pudesse ser 
verdade. Se soubesse, no teria vindo morar aqui.
    - No ia adiantar. Eu o via na outra casa tambm.
    - Como assim? No foi depois que nos mudamos para c que ele comeou a aparecer para voc?
    - No. Desde pequeno que ele me persegue.
    - Acho que agora ele no vai voltar mais - tornou Nico.
    - Como  que voc sabe? - perguntou Amelinha.
    - Minha me sempre dizia que as almas do outro mundo aparecem quando se sentem infelizes e precisam de alguma coisa. Se ns rezamos, conversamos com elas para 
saber o que desejam, elas vo embora e nunca mais voltam - garantiu Nico.
            - Tem certeza? - tornou Eurico. - Voc conversou com a alma do coronel muitas vezes e ele sempre voltava.
    - Eu conversei, mas ele no me levou a srio. Acho que  porque sou criana. Agora, com o Dr. Marclio, que entende dessas coisas, vai ser diferente. Acho que 
estamos livres dele.
            - Tomara. Fico arrepiado s em lembrar a cara dele!
            Eullia levantou-se e abraou o filho penalizada. As crianas haviam enfrentado tudo isso sozinhas e com muita coragem. Reconheceu que Nico era um menino 
especial.
    Norberto entrou, colocou os livros sobre a mesinha e disse:
    - Posso saber qual  o motivo dessa reunio?
    - Eurico est me contando como ele via o coronel - respondeu Eullia. - Eles conversavam com ele e tentavam fazer o que o Dr. Marclio fez.
    Norberto admirou-se:
    - Expliquem como  isso. Ele respondia?
    - Respondia, sim, papai - confirmou Eurico.
    Nico interveio:
    - Bom, Sr. Norberto, o Eurico o via, ficava com medo, cobria a cabea com o lenol, mas continuava vendo assim mesmo. Me chamava, contava o que ele estava lhe 
dizendo e eu tentava conversar para ver se ele desistia de assustar o Eurico.
    
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    - Ele s ia embora quando aquela mulher aparecia e o levava. - Vocs foram muito corajosos.
    - Eu tinha muito medo - lembrou Amelinha.
    - Eu tambm - afirmou Eurico.
    - Eu no. Minha me sempre diz que as almas do outro mundo no podem nos fazer mal. Basta rezar e pedir a ajuda de Jesus, que somos protegidos.
    Norberto e Eullia entreolharam-se. Estavam assustados mas ao mesmo tempo interessados em saber mais. A certeza de que depois da morte as pessoas continuavam 
a viver em outros mundos, de onde podem interferir na vida dos que ficaram, modificava todos os seus conceitos antigos. Indagaes novas surgiam e eles queriam respostas. 
Havia muito que aprender nesse novo caminho, mas uma coisa era certa: as crianas falavam a verdade e, por mais incrvel que pudesse parecer, eles acreditavam.
    
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    Captulo 20
    
    
    Sentados ao redor da mesa, na casa do Dr. Marclio, Norberto, Eullia, Liana e Alberto, juntamente com os freqentadores habituais, oravam na sala iluminada 
por pequena lmpada azul.
    Depois do que acontecera, Norberto e Eullia iam  casa do mdico duas vezes por semana assistir s sesses, de onde saam cada vez mais interessados. Ele aproveitara 
aqueles dias de frias para ler os livros que Marclio lhes emprestara, e, se a princpio o fez movido pelo receio do que lhe acontecera, acabou descobrindo que 
atrs dos fenmenos que tanto o assustaram havia uma verdade maior revelando segredos da vida que ele nunca supusera possveis, descortinando toda a perfeio do 
universo, fazendo-o refletir e compreender sua grandeza.
    Estudando a reencarnao, encontrou respostas para todas as suas indagaes com relao s aparentes injustias das desigualdades sociais. Sentiu-se mais respeitoso 
para com o que ainda no podia compreender, entendeu que as pessoas podiam ser diferentes umas das outras, cada uma dentro do prprio processo de desenvolvimento 
espiritual.
    Era sexta-feira, e no domingo ele teria de voltar a So Paulo. Suas frias haviam terminado. Era com pesar que regressaria  capital. As longas conversas que 
ele e Eullia mantiveram com o mdico durante aquele perodo haviam esclarecido muito. Eles estavam cada vez mais desejosos de saber detalhes da vida astral, captao 
de energias, reencarnao, influncias dos espritos desencarnados, etc.
    Marclio sorria observando a euforia deles, comum a todos os que passam pelas primeiras experincias da mediunidade e obtm provas da vida aps a morte. Ele 
respondia o que podia com pacincia, alertando para o uso do bom senso no trato com os desencarnados, com os quais  necessrio ter os mesmos cuidados que se tm 
com as pessoas  nossa volta.
    - No podemos esquecer que nem todos os que esto vivendo na outra dimenso so pessoas elevadas. Os embusteiros, os maldosos que viveram aqui esto l e continuam 
iguais ao que eram. A morte do corpo no modifica o nvel de ningum. Cada um continua sendo o que .
    - No devemos evocar espritos? - indagou Norberto.
    - Nunca. A no ser quando chamamos os que sabemos superiores. No estou me referindo a parentes nossos, mas a espritos de alto nvel, como Jesus, Maria, S. 
Francisco de Assis. Esses podemos evocar, a eles podemos nos ligar e pedir ajuda.
    
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    - Estava pensando em evocar a alma de minha me - disse Eullia. - Por que ela nunca veio s nossas sesses?
    - O que sei  que, se lhe fosse permitido vir, ela teria vindo sem que a evocssemos.
    Quando a manifestao de algum que amamos  espontnea, vem acompanhada de sinais que provam sua autenticidade. Quando evocamos, nem sempre podemos afirmar 
que foi a prpria pessoa quem compareceu. Depois, nossa evocao pode perturb-Ia se estiver em recuperao, em fase de reencarnao ou mesmo j tendo reencarnado. 
O que acontecer se pedirmos a ajuda de um parente desencarnado e ele estiver sem condies de nos atender? Ficar em conflito, sofrer, algumas vezes at tentar 
nos socorrer e acabar por atrapalhar mais. Por isso,  preciso ter f.. Confiar. O importante  saber que a vida continua, que cada um  responsvel por suas atitudes 
e atrair para si fatos e pessoas em sua vida, conforme acredita e faz. O resto vai por conta de nossa insegurana, sempre esperando que os outros nos digam como 
proceder.
    - Compreendo o que deseja dizer. No basta saber,  preciso viver de acordo com o que acreditamos, seno estaremos apenas intelectualizando e no assimilando.
    Marclio sorriu satisfeito:
    - Nada como falar com pessoas inteligentes. Voc disse em poucas palavras o que eu quis dizer com toda essa conversa.
    Sentado ao redor da mesa, Norberto pedia a ajuda de Deus para que ele pudesse encontrar a paz do corao. Naqueles dias em que haviam reatado as relaes com 
Liana e Alberto, vendo-os juntos, muitas vezes ele sentira o corao apertado. Nessa hora se controlava pensando que Liana era feliz e ele desejava viver para sua 
famlia dali para a frente.
    Depois do que acontecera, Eullia aproximara-se mais dele, interessada em estudar a medi unidade para poder apoiar Eurico. Estava lendo os livros que o Dr. Marclio 
emprestara e os dois ficavam horas conversando sobre o assunto.
    Norberto surpreendeu-se com a lucidez de Eullia, sua postura firme, interpretando o que liam com inteligncia e perspiccia, muitas vezes esclarecendo suas 
dvidas com certa facilidade e brilho. Se antes a admirava como esposa, passou a admir-Ia como pessoa.
    Cada dia que passava, mais e mais se arrependia de haver se deixado levar pela paixo a ponto de perder a paz e pr em risco o futuro de sua famlia.
    
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    Amava os filhos, queria que eles o amassem e respeitassem. Comeou a pensar que havia sido um erro ele ter ficado separado da esposa. Enquanto estiveram sempre 
juntos, ele no sentira nada por Liana. Pela primeira vez comeou a duvidar da veracidade do amor que pensava sentir por ela.
    Seria bom se ele pudesse ficar ao lado de Eullia o tempo todo. Mas tinha receio de pedir-lhe que voltasse a viver na cidade. E se Eurico piorasse novamente? 
Ele parecia to bem! No se lembrava de t-Io visto assim to disposto. Por outro lado, ele no podia abandonar os negcios e ir viver na manso.
    Naquele instante, Norberto pediu a Deus que o ajudasse. Estava arrependido e com vontade de viver em paz.
    - Boa noite, amigos! - disse um dos mdiuns presentes. - Venho novamente hoje agradecer a ajuda que recebemos de vocs. Finalmente Firmino est aceitando a verdade. 
Esse est sendo um importante passo para que vocs se libertem do passado e possam seguir adiante. Eu j relatei como comeou esta histria e hoje quero esclarecer 
mais alguns pontos. Eu s contei que Liana, que se chamava Mariquita quando se casou com Firmino, era uma jovem de rara beleza e vivia com seus pais e uma irm um 
ano mais nova. Foram educadas com muita severidade. Ins, a irm, no era to bonita como Mariquita e sofria muito, ouvindo desde cedo as pessoas dizerem que elas 
nem pareciam irms. Sentia muita inveja e fazia o que podia para infelicitar Mariquita. Quando Ins descobriu que o jovem Gilberto estava apaixonado por sua irm 
e lhe enviava bilhetes amorosos, pensou logo em conquist-Io. Se ela o tirasse de Mariquita, certamente ningum mais diria que ela era mais fela ou menos inteligente.
    Para isso arquitetou um plano. Sabia que Firmino, filho de abastada famlia, estava apaixonado por Mariquita e que ela no o queria. Procurou o pai e contou-lhe 
que vira a irm aos beijos com Firmino, dando a entender que tinham intimidade.
    Furioso, o pai procurou o rapaz e exigiu uma explicao, e ele, em comum acordo com Ins, aproveitou e pediu a mo de Mariquita. De nada valeu Mariquita chorar, 
implorar, pedir. Nada demoveu seus pais, e acabaram se casando.
    Ins fingiu-se amiga de Gilberto, que estava inconsolvel pela perda de Mariquita, e acabou finalmente se envolvendo com ele. Casaram-se. Ela o amava de verdade. 
Entretanto, sentia que agira errado e, insegura, exigia cada vez mais ateno do marido, querendo que ele provasse constantemente seu amor e sua fidelidade.
    
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    A vida deles tornou-se um inferno. O cime dela era doentio. Ele queria filhos, mas ela o queria s para si. No desejava dividir seu amor com os filhos. Foram 
infelizes, desencarnaram frustrados e angustiados.
    Ao se encontrarem no astral depois da morte, souberam de todos os sofrimentos pelos quais Mariquita passara com o marido. Ins sentiu-se culpada pelos sofrimentos 
da irm. Foi procurar Gilberto e contou-lhe toda a verdade. Choraram juntos.
    - Se voc ainda a ama - disse Ins -, estou disposta a ajud-la a reconquist-Ia.
    Quando ele se foi disposto a procurar Mariquita, Ins sentiu-se muito s. Pela primeira vez lamentou-se por no ter filhos. Seus conhecidos tinham pessoas na 
Terra que eles amavam. Ela no tinha ningum. Arrependida, lamentou o tempo perdido.
    O tempo havia passado, mas Gilberto no havia esquecido o primeiro amor de sua juventude. Foi procurar Mariquita. Ela o recebeu com carinho. Porm, quando ele 
lhe falou do antigo amor, ela respondeu:
    - Sei que est sendo sincero. Mas eu mudei. Depois de tudo que passei, no sou mais a mesma. Aqui, conheci uma pessoa que me tem ajudado a atravessar os desafios 
que a vida me enviou e me ensinado coisas novas. Eu o amo e  com ele que desejo ficar. Perdoe-me. Tenho certeza de que no sou eu a mulher de sua vida.
    -  definitivo?
    - . Devo reencarnar em breve, terei ainda alguns desafios nessa encarnao. Ele vai nascer antes de mim e, quando chegar o momento, estar comigo para ajudar-me. 
Estou certa de que vamos vencer.
    - E eu?
    - No se deixe envolver por uma iluso. Ns nem sequer chegamos a nos conhecer melhor. Como sabe que nosso relacionamento daria certo? Depois, Ins ainda o ama. 
Por que no tenta entender-se com ela?
    - Viver com ela foi difcil e frustrante. No desejo viver aquilo tudo novamente. Depois, como pode dizer isso? Ela foi a causa de. sua infelicidade. Fez tudo 
para nos separar, e voc ainda a defende?
    - No a culpo por minha infelicidade com Firmino. Se eu no tivesse necessidade de passar por essa experincia, nem sequer teria me casado com ele. Ela no teria 
conseguido nada.
    - O que quer dizer com isso?
    - Que eu precisava aprender essa dura lio, e ningum a poderia evitar.
    
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    - Ela a invejava.
    - Ela me amava e admirava tanto que gostaria de ser igual a mim.
    S que ela no acreditava no prprio valor, e por isso queria o impossvel, que era ter o meu. Eu sei que ela  uma alma divina e que dentro dela h um ser maravilhoso, 
cheio de luz e beleza. Quando ela descobrir isso, nunca mais sentir inveja de ningum. Ser feliz e espalhar a felicidade. Por que no tenta ajud-la a descobrir 
sua riqueza interior?
    Gilberto saiu de l encantado com o que ouvira. Procurou por Ins para contar-lhe que fora recusado e Mariquita estava amando outro. E finalizou:
    - Como v, fui derrotado duas vezes. Ela garante que no  a mulher de minha vida.
    A partir daquele dia eles se tomaram inseparveis amigos. Ins procurara a irm sem constrangimento e abraaram-se com carinho.
    Ins foi chamada e disseram-lhe que ia reencarnar. Ela alegou que estava arrependida do que fizera  irm e desejava ajud-la de alguma forma. Queria ter muitos 
filhos. Foi informada de que Mariquita seria sua irm mais nova. Ela se casaria novamente com Gilberto e receberiam como seus filhos Mariinha e o filho dela que 
no chegou a nascer por causa do atentado que ela sofreu quando estava grvida. Naquele tempo, ela se recuperou, mas no pde ter filhos. Esse esprito estava em 
um processo difcil e com muita dificuldade de nascer. Por atitudes que agora no vale a pena mencionar, ele havia lesado seu corpo astral. Por isso deu tanto trabalho 
desde que nasceu. Mas graas  dedicao de todos, ele melhorou muito e j conseguiu reequilibrar-se.
    Temos certeza de que, de agora em diante, sua reencarnao se firmar. S queremos que ele se dedique  mediunidade. Trouxe essa capacidade e o compromisso de 
libertar-se atravs do trabalho em favor dos que sofrem. Doando amor e energias, ele finalmente conseguir o que tanto deseja: sade e alegria.
    Agradecemos a ajuda e queremos que continuem na f em Deus e no caminho do bem.
    A mdium calou-se. Marclio fez comovida prece de agradecimento e encerrou a sesso. Quando as luzes se acenderam, ningum comentou. Todos estavam comovidos 
e pensativos.
    Eullia via-se na pele de Ins, a irm invejosa; Norberto sentia-se como Gilberto. Todos sabiam que o menino doente era Eurico.
    Norberto criou coragem e pediu para falar com o Dr. Marclio em particular, ao que Eullia indagou:
    - Posso ir tambm?
    
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            - Claro - respondeu Norberto. - Venha. O que quero falar interessa tambm a voc.
            Foram para outra sala, acomodaram-se e Norberto comeou:
            - Estou muito emocionado, doutor. Esta noite tivemos revelaes muito importantes.
            -  verdade. Raramente podemos contar com tanta clareza. Se o fizeram,  porque vocs j tm esclarecimento para saber a verdade.
            - Est claro que falavam de ns - disse Eullia. - Tenho certeza de que eu fui Ins.
    - E eu Gilberto. Isso me explicou muitas coisas. At a doena de Eurico. Nunca havia entendido por que ele nasceu to diferente de Amelinha.
            - Agora j sabem. Sabem tambm que ele est recuperado e daqui para a frente gozar de boa sade.
            -  sobre isso que desejo falar. Estou me sentindo muito s na capital.
            - No  bom para um homem ficar sozinho.
            - Concordo, doutor. Eullia me faz muita falta. Porm estava disposto ao sacrifcio por causa de Eurico. Mas agora. ..
            - Depois do que ouvimos hoje, acho que j podem voltar para a capital.
    Eullia sentiu-se emocionada com as palavras do marido. Norberto nunca lhe dissera que sentia sua falta. Ela tambm queria ficar ao lado dele.
            - Eu gostaria muito de estarmos todos juntos. Ser que Eurico no vai se ressentir?
            - Penso que no. Acho que agora est na hora de ter vida normal, de ir para a escola como todos os meninos de sua idade.
            - S h um problema: Nico. Ele no vai querer separar-se dele lembrou Eullia.
    -  verdade. Eu tambm gosto muito desse menino - esclareceu Norberto. - Ele  to bom, ajudou tanto Eurico. s vezes diz coisas que esto muito alm do que 
dizem os meninos de sua idade.
            - Trata-se de um esprito carismtico. De um grande artista, esqueceram?
            - Como sabe? - indagou Eullia.
            Marclio contou-lhes o que lhes fora revelado anteriormente sobre a vida de todos eles e finalizou:
            - Por que no o levam para a cidade e financiam seus estudos?
    
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    Acho que ele merece e vai aproveitar. Seus pais so muito pobres, como sabem. Ele nunca ter chance ficando aqui.
    -  uma boa idia - concordou Eullia, satisfeita. - Ele  muito apegado  me. Ser que vai aceitar?
    - Ela vai aceitar - garantiu Norberto. - Ama o menino, e  o futuro dele que est em jogo. Depois, continuaremos a vir para c e ele poder ir ver a famlia.
    - Nesse caso penso que Eurico vai querer ir - concluiu Eullia.
    Liana e Alberto saram da casa do mdico em silncio, sem esperar pelos demais. Cada um ia imerso nos prprios pensamentos, sem coragem para abordar o assunto.
    Por fim Alberto disse:
    - Esta noite pudemos compreender muitas coisas.
    -  verdade.
    - Deu para saber que seu antigo apaixonado de outros tempos conserva no corao o mesmo amor. Est claro que se trata de Norberto. Ela baixou a cabea, pensativa. 
Chegaram em casa pouco depois. - Vou preparar um ch. Voc quer?
    Ele concordou e ela foi  cozinha, enquanto ele se sentou na sala pensativo. Por que Liana havia recusado o amor de Norberto antes de reencarnar e depois se 
apaixonara por ele? A quem ela se referira ao dizer que estava amando outra pessoa? Ao pensar nisso seu corao se descompassava. Teria sido ele? Teriam estado juntos 
no astral e combinado o casamento? Teria sido por amor?
    Ele sempre se sentira atrado por Liana. Fizera grande esforo para banir esses pensamentos, porque no queria mais se envolver com ningum por amor depois da 
experincia desastrosa que tivera com o casamento.
    A idia de se casar com Liana para ajud-la teria sido sincera ou apenas um ardil que inconscientemente usara para enganar-se e mergulhar sem medo nesse casamento? 
Se fosse com outra pessoa, teria se casado?
    Estava confuso. No conseguia encontrar as respostas com clareza. Liana chamou-o para tomar o ch com biscoitos. Ele se sentou  mesa e serviu-se em silncio. 
Foi Liana quem falou:
            - No consigo esquecer o que ouvimos esta noite. Deu voltas  minha cabea. Parece que  sua tambm.
            - Confesso que sim. H muitas perguntas sem resposta circulando dentro de mim.
            Ela pensou alguns instantes, depois respondeu;
    
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    - Comigo ocorreu o contrrio. Encontrei respostas para muitas coisas que me aconteceram nesta vida.
    - Quais, por exemplo?
    - Por que Norberto se interessou por mim.
    - Ele gostava de voc e continua gostando. Mas e voc? Por que o recusou l e o amou aqui?
    - No sei. O fato  que saber tudo me deu calma. Pela primeira vez comecei a pensar que meu amor por ele no passou de uma iluso. Devo confessar: depois de 
nossa reconciliao, quando voltamos a freqentar sua casa, ele me pareceu outra pessoa. Percebi atitudes e particularidades nele que antes no havia observado. 
Algumas vezes cheguei a questionar meus sentimentos, percebendo claramente que ele no tinha nada para me atrair. Mas eu recusava aceitar esse pensamento. Se no 
era amor, eu me entregara a ele por atrao fsica. Eu no quero aceitar que posso ser venal.
    - Muitas vezes fiquei com receio de que, voltando a conviver com ele, ficasse mais difcil para voc esquec-Io. Se por um lado gostei que fizesse as pazes com 
sua famlia, por outro senti muito medo. Cheguei a desejar que as frias dele acabassem e que ele fosse embora.
    Liana olhou-o nos olhos e tomou:
    - Voc sabe o quanto estou arrependida daquela fraqueza. Nunca mais quero passar por isso. Eullia e as crianas merecem respeito. Se eles soubessem a verdade, 
eu morreria de vergonha. Por haver fraquejado, quase enlouqueci. Minha conscincia no suporta uma atitude como essa. Pode ter certeza de que estou imunizada definitivamente. 
Se fui capaz de resistir ao assdio de Norberto mesmo quando me julgava apaixonada, agora que percebi meu engano posso ficar com ele a ss em qualquer lugar sem 
que me sinta tentada a nada.
    Alberto segurou a mo de Liana, apertando-a com fora, e perguntou: - Tem certeza de que no o ama mais?
    - Tenho. Esta noite, quando aquele esprito relatou que ele me havia procurado e eu no o aceitara dizendo que amava outro, tudo ficou claro em minha cabea. 
Sei que ele no  o homem de minha vida!
    Pode imaginar como me sinto feliz? O pensamento de que eu estava roubando o marido de Eullia me esmagava. Agora estou livre. Eu o havia devolvido a ela antes 
e estou contente porque mesmo sem me lembrar de nada eu me recusei a fugir com ele e a aceitar seu amor. Tenho me sentido muito bem ultimamente. Nossas conversas, 
seu apoio, seu carinho, sua proteo devolveram-me a alegria de viver.
    
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    A ajuda espiritual, o Dr. Marclio, os amigos tm sido uma bno que nunca poderei pagar. E esta noite completou minha cura. No me sinto mais culpada pelo 
que aconteceu com Norberto. Foi ocasional. Ele estava longe da esposa; eu, carente de afeto.
    - Mas ele continua amando voc.
    - No creio. Reparou como ele e Eullia conversam e esto sempre juntos?
    -  verdade.
    - Isso no acontecia antigamente. Penso que eles foram feitos um para o outro e esto descobrindo isso. O casamento deles foi um arranjo em que o amor ficou 
em segundo plano. Sinto que esto mudando. - Pode ser. Desejo sinceramente que eles se entendam e se amem.
    - Eu tambm.
    No domingo, Eullia convidou-os para almoar na manso. Norberto iria embora no fim da tarde. As crianas estavam agitadas, e, assim que Alberto chegou com Liana, 
j os esperavam no jardim.
    Foi Amelinha quem falou primeiro:
    - Tenho uma novidade, tia...
    - Lngua comprida! Deixe que eu falo! - gritou Eurico, tentando empurr-Ia para trs.
    - Calma - pediu Liana. - Cada um fala por sua vez!
    - Eu sou primeira!
    - Ns vamos voltar a morar na cidade! - disse Eurico, eufrico. - Est vendo, tia? Ele no tem educao mesmo. Nem me deixou falar.
    -  verdade? - indagou Alberto.
    -  - disse Amelinha rapidamente, antes que Eurico respondesse. - E Nico tambm vai!
    - Voc tinha de falar, sua linguaruda!
    -  verdade, Nico? Voc vai para a cidade com eles?
    - Vou, Liana. A Dona Eullia foi pedir  minha me para eu ir morar com ela na cidade para estudar com o Eurico. Ela deixou.
    - Que bom, Nico! - tornou Alberto, contente. - J resolveu que carreira vai seguir?
    - Ainda no sei. Mas estou um pouco nervoso. A vida da cidade  diferente.
    - . Mas  muito boa tambm - explicou Alberto. - Voc vai gostar, tenho certeza.
    
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    Depois do almoo, enquanto as crianas brincavam no jardim, eles foram tomar o caf na sala de estar, e Eullia comentou:
    - Ns vamos voltar a morar em So Paulo.
    - As crianas j nos contaram as novidades - disse Liana.
    - Norberto sente-se muito s. Est com saudade da famlia. Falamos com o Dr. Marclio, que nos garantiu que Eurico j est forte o bastante para levar vida normal. 
Alis, ele precisa ir  escola como os outros meninos.
    -  verdade - disse o professor. - Ele  muito inteligente e aprender depressa.  s vocs no entrarem no jogo dele e tudo ir bem.
    - Esse eu conheo bem. Ele se aproveitava de sua debilidade fsica para nos chantagear. Conseguia porque naquele tempo estava doente mesmo, passava mal, mas 
agora est saudvel. Acabou aquela anemia. No conseguir mais nada.
    - Eurico  um bom menino. Basta valorizar suas qualidades reais e no dar importncia s manifestaes de seu mimo - garantiu Alberto.
    - No posso esquecer que foi voc quem o ensinou a gostar de aprender. Voc e Nico. Esse menino vale ouro - reconheceu Eullia.
    - Se depender de mim, pretendo ajud-lo a progredir na vida interveio Norberto. - Sou muito reconhecido a ele.
    - Alm de bondoso, tem inteligncia acima dos meninos de sua idade. Vrias vezes me surpreendeu com suas palavras - tornou Alberto.
    - A me dele  uma mulher maravilhosa - aventou Eullia.
    Adora Nico. Ele sempre foi seu companheiro dedicado. O marido  um intil e nenhum de seus outros filhos  como Nico.  com ele que ela costuma conversar mais. 
Mas, quando lhe pedi para deix-Io mudar-se conosco para So Paulo, ela concordou. Em seus olhos brilhava uma lgrima, mas ela garantiu que a felicidade dele e seu 
futuro estavam em primeiro lugar. Disse que ele gostava muito de ns e ela tinha certeza de que ele seria muito feliz em nossa casa.
    - Comove o amor dessa mulher pela famlia. Enquanto o marido  um encostado, ela trabalha duro para mant-Ios. Sem revolta, at com alegria, vai vivendo sua 
vida - declarou Norberto.
    Eullia interveio:
    - No sei se vocs sabem, mas, quando ajustei Nico para fazer companhia a Eurico, ele trabalhava para ajudar a me. Fiz um trato com ele, dando-lhe um pequeno 
salrio para que sua me no sentisse falta da ajuda que ele lhe dava. Era um valor insignificante. mas ele o aceitou com dignidade e s assim concordou em ficar 
aqui.
    
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    Agora que ele vai conosco, Norberto resolveu mandar uma mesada a Dona Ernestina. Assim ela no precisar trabalhar tanto.
    - Vou sentir falta de vocs, principalmente das crianas - disse Liana.
    - Por que no voltam a morar em So Paulo? Gostaria muito de ter vocs por perto - sugeriu Eullia.
    Foi Alberto quem respondeu:
    - Eu gosto daqui. Por enquanto no pensamos em nos mudar.
    -  verdade. Agora que estou melhor sinto vontade. de voltar a lecionar.
    - No desejo ser indelicada - tornou Eullia -, mas gostaria de perguntar uma coisa a voc, Alberto.
    - Pergunte o que quiser.
    - Quando voc veio para c, disseram-nos que voc aceitou dar aulas para as crianas como um complemento de sua renda mensal. Desde que interrompemos essas aulas, 
esse dinheiro no lhe tem feito falta?
    - Felizmente no. Tenho trabalhado para revistas e jornais, que pagam pelos artigos.
    - No seria melhor voc voltar a trabalhar em So Paulo? - indagou Norberto. - Tenho certeza de que ganharia muito mais.
    - Mas gastaria muito mais.
    - Pretende se enterrar aqui para sempre? - perguntou Eullia.
    - Gosto deste lugar. Pode ser que amanh eu mude, mas no momento a calma, a simplicidade, a paz daqui tm sido inspiradoras. Sinto que estou mais perto de mim 
mesmo, de meus sentimentos.
    - E voc, Liana o que diz? - perguntou Eullia.
    - Tambm gosto daqui. Estou me recuperando e essa calma tambm tem me ajudado a recolocar a cabea no lugar.
    Era noite quando eles se despediram. No trajeto de volta, Alberto no se conteve e perguntou:
    - Voc gosta mesmo de ficar morando aqui? Agora que a crise passou, no deseja ir viver na cidade, retomar o fio de sua vida normal?
    - No sei se estou pronta para retomar alguma coisa em minha vida. Tenho sentido vontade de voltar a lecionar, de me ocupar. Sempre fui pessoa ativa. Depois, 
estou sendo pesada a voc. Alm de me ajudar, tem pago todas as despesas da casa. No  justo.
    - Se  por isso que deseja retomar as aulas, no precisa. O que ganho d e sobra para as nossas despesas.
    
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    - No  s por isso. Voc tem sido bom demais. No quero abusar. Depois, estava habituada a ter meu prprio dinheiro, a pagar minhas despesas. J fez muito por 
mim. Nunca poderei pagar o bem que me fez.
    Alberto calou-se.
    Chegaram em casa. Ele apanhou um livro e sentou-se no escritrio para ler. Porm nem sequer o abriu. Permaneceu assim em silncio at que Liana o procurou:
    - Voc quer alguma coisa, um ch ou um caf?
    - No, obrigado.
    - J vou dormir. Boa noite.
    Ele a olhou srio, depois disse:
    - Talvez esteja na hora de conversarmos sobre as nossas vidas. - O que quer dizer?
    - Combinamos que, quando tudo estivesse resolvido, ns nos separaramos.
    Ela estremeceu ligeiramente:
    - Acha que j est na hora?
    - No sei. Fiquei pensando em suas palavras de h pouco. No desejo que se sinta tolhida em sua liberdade. Se deseja voltar a So Paulo, recomear a vida de 
outra forma, lecionar, no se prenda por nada. Esse foi o nosso trato. Quando quiser romper, basta falar.  justo que deseje cuidar de seus interesses.
    - No estou aqui me sentindo presa. Ao contrrio. A seu lado tenho me sentido livre como nunca havia sido. Antes eu vivia sob os olhos de Eullia, que  muito 
boa, mas, desde que nossa me morreu, assumiu que devia cuidar de mim e tomou conta de minha vida. Depois, vivi esmagada pelo peso da culpa. Voc me ensinou a perceber 
melhor as coisas. Respeitou-me e deu-me toda a liberdade.
    - Se  assim, est bem. Quando resolvi cooperar com voc, foi de corao. S no quero que se sinta no dever de ficar a meu lado por gratido. Quero deixar claro 
que, quando desejar ir embora,  s falar.
    - Talvez esteja na hora de eu ir mesmo. Acho que j lhe dei trabalho demais. Voc tem o direito de viver sua vida sem se ocupar com meus problemas. Vou pensar 
e resolver o que fazer.
    - Acho que no entendeu. Gosto de sua companhia. Tenho prazer em que fique aqui para sempre. Estou pensando apenas em voc. Desejo que se sinta livre para escolher 
seu futuro. Agora voc pode.
    - Vou pensar. Boa noite.
    - Boa noite.
    
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    Alberto sentiu um aperto no corao, mas controlou-se. Por que tocara naquele assunto? E se ela resolvesse partir?
    Percebeu que no queria que ela se fosse. O que faria de sua vida quando ela o deixasse? Estava acostumado a seu sorriso pela manh, a seu olhar confiante e 
carinhoso, s conversas inteligentes no aconchego da sala de leitura, onde trocavam idias a respeito da vida e de tudo.
    Reconhecia que sua presena trouxera encanto nas pequeninas coisas, dera-lhe motivao para ornamentar o jardim, a casa, olhar a vida de forma mais otimista, 
interessar-se pela prpria aparncia. Quando saa, desejava voltar logo para casa para sentar-se a seu lado, naqueles momentos de intimidade na cozinha, tomando 
ch e conversando.
    Percebeu que uma lgrima caa, e ele a deixou fluir. Liana havia se tomado indispensvel em sua vida. Ela era a mulher que sempre desejara ter a seu lado. Lembrou-se 
com clareza da fora que precisava fazer para controlar o desejo de abra-Ia, de beijar-lhe os lbios, de se entregar quele amor que descobria agora em toda a 
sua plenitude.
    Ele amava Liana! Sempre a amara, desde o dia em que a vira pela primeira vez. Como pde ser to cego? Como pde confundir o amor com uma simples atrao fsica 
e banal?
    Ele no podia demonstrar o que sentia. Ela era muito bondosa. Estava frgil e sensibilizada pelas emoes que passara. Se lhe contasse a verdade, ela o aceitaria 
por gratido.
    Ficou ali, pensando. Se ela o amasse, seria a glria. Mas nunca notara nela nenhum trao desse sentimento. Ele era apenas o amigo que a ajudara no momento difcil. 
Por isso decidiu: ela nunca saberia de seus verdadeiros sentimentos.
    Ouviu o rudo de alguns troves, a chuva despencou l fora com fora, lavando a poeira dos telhados e das ruas. Ele deixou tambm que as lgrimas lavassem sua 
alma naquele momento de descoberta e de amor.
    
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    Captulo 21
    
    
    Liana entrou em casa satisfeita procurando Alberto. Ele estava no escritrio trabalhando um artigo para o jornal. Vendo-o, ela foi logo dizendo:
    - Comeo a trabalhar na segunda-feira. Consegui.
    - Como voc queria?
    - Isso. Ficarei como substituta por pouco tempo. Logo reassumirei a cadeira.
    Ele a fixou srio e perguntou:
    - Tem certeza de que prefere lecionar em Ribeiro Preto? Se desejar, pode pedir transferncia para So Paulo.
    Ela se aproximou dele sustentando o olhar:
    - Voc quer que eu faa isso? Ultimamente tem sugerido que eu mude para l. Tenho impresso de que deseja retomar sua privacidade.
    Se for assim, pode dizer que irei embora. 
    Ele se levantou e colocou a mo no brao dela sem desviar os olhos: - Ao contrrio. Se for embora, sentirei muito sua falta. Mas no se trata de mim. s vezes 
penso que voc fica aqui comigo por gratido. Notou que gosto de sua companhia, quer cuidar de sua vida, mas fica s para me agradar.
    - Voc est enganado. Sou grata a voc, sim, mas se desejasse ir embora iria. Voc me ensinou a viver. A seu lado encontrei carinho, respeito, dedicao. No 
penso em ir embora, no. Para onde iria? - Os olhos dela encheram-se de lgrimas, e ela continuou com voz trmula: - No consigo imaginar minha vida sem voc. Pode 
parecer egosmo, mas esta casa, nossas conversas, as sesses na casa do Dr. Marclio tornaram-se indispensveis. Gosto de ficar cuidando de minhas coisas sabendo 
que voc est aqui, trabalhando. Que a qualquer momento vai me chamar para trocar idias, contar-me alguma coisa boa ou para tomarmos um caf juntos...
    Ela parou, tentando conter as lgrimas. Alberto olhava-a sustendo a respirao, descobrindo no s em suas palavras mas na emoo que percebia em seus olhos 
que seu amor tinha chance de ser correspondido.
    Abraou-a, apertando-a de encontro ao peito, sentindo seu corao bater mais forte. Procurou seus lbios e beijou-a, extravasando toda a emoo de seu amor reprimido.
    
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    Sentindo que ela correspondia, ele a beijou repetidas vezes.
    - Eu amo voc, Liana! Muito, muito!
    Ela o apertou com fora, dizendo baixinho:
    - Quanto desejei este momento! Se estiver sonhando, no quero acordar!
    Beijaram-se muitas vezes. Alberto puxou-a para o sof:
    - Diga que tambm me ama! Que deseja viver para sempre a meu lado!
    - Amo! Amo! Amo! Tanto que estava difcil ficar perto de voc sem o tocar.
    - Quando descobriu que gostava de mim?
    - Logo depois que Norberto se libertou do esprito do coronel Firmino, comecei a notar que quando voc estava ausente eu ficava ansiosa esperando sua volta. 
Quando voc ficava muito prximo ou me tocava de alguma forma, minhas pernas tremiam, meu corao acelerava e eu queria ficarmais perto. Imaginava como seriam seus 
beijos, e estremecia s em pensar nisso. E voc, desde quando soube que me amava?
    - Senti-me atrado por voc desde que a vi, mas julgava que fosse apenas uma atrao fsica. Voc  bonita, inteligente, agradvel. Lutei muito para vencer essa 
atrao. Voc amava outro homem e eu no queria misturar as coisas. Voc estava muito machucada e eu no queria me aproveitar de suas fraquezas.
    - Nunca notei seu interesse. S amizade.
    - Fiz tudo para que fosse assim. Depois da mudana de Norberto, quando ele reassumiu a famlia, seu problema estava resolvido. Ele nunca mais a incomodaria e 
Eullia nunca desconfiaria de nada. Havamos alcanado nossos objetivos e voc no precisaria mais ficar comigo, estava livre para ir embora. Ento descobri que 
a amava de verdade. Talvez a tenha amado desde o primeiro dia. Se olhar bem no fundo do meu corao, talvez possa at dizer que por trs de minha proposta de casamento 
j havia a esperana de vir um dia a conquistar seu amor. S que no confessava nem a mim mesmo.
    - Eu quero falar de meus sentimentos.
    - H uma pergunta que sempre tive medo de lhe fazer. Voc ainda sente alguma coisa por Norberto?
    Ela sacudiu a cabea negativamente:
    - No. O que eu sentia por ele no era amor. Foi mera atrao. Ficamos os dois sozinhos na mesma casa durante algum tempo. Ele longe da esposa e eu sonhando 
com um amor, querendo descobrir a vida. No estou querendo justificar minhas fraquezas.
    
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    Eu errei e paguei um preo alto por meus erros. Mas hoje j posso compreender como nos deixamos levar em um jogo perigoso e traioeiro. Envolvemo-nos em uma 
paixo que nos tornou infelizes enquanto durou.
    - Aconteceu o mesmo comigo e Eugnia. S que ramos livres e casei-me com ela, para arrepender-me em seguida. Foi paixo, e a paixo provoca sofrimento enquanto 
dura.
    - Senti-me aliviada quando percebi que Norberto havia mudado. No me olhava mais com aquele fogo de antes, mas at com certa reserva, como querendo dizer-me 
que no sentia mais por mim nenhuma atrao, que eu podia ficar em paz porque ele no iria mais me perturbar.
    - Notei isso tambm. Tanto que s vezes me pergunto at que ponto o que houve entre vocs dois teria sido provocado pelo esprito do coronel Firmino.
    - Voc acha possvel?
    - No quero com isso tirar a responsabilidade que lhes cabe nos fatos. Claro que poderiam no ter se deixado envolver pelas energias dele. Mas ele sabendo que 
Norberto em outra vida havia se interessado por voc pode t-Io envolvido para conseguir seus propsitos. Quando ele finalmente foi afastado, Norberto voltou ao 
normal, desejando dedicar-se  sua famlia.
    - Voc pode estar certo. Norberto mudou completamente depois que o coronel foi afastado. Voltou a ser como era quando se casou com Eullia. Pelo menos da parte 
dela, no foi por amor, mas agora acho que ela aprendeu a gostar dele.
    - Apesar do que houve, no h como negar que ele tem muitas qualidades.
    - Uma famlia! V-los bem  meu maior desejo.
    - Agora falemos de ns. Preciso saber o que voc pensa, se quer ser minha esposa de verdade e ficar comigo pelo resto da vida.
    Liana passou as mos ao redor do pescoo dele e beijou-o nos lbios com amor. Depois disse:
    - Quero ficar com voc para sempre, seja onde for. 
    Emocionado, Alberto apertou-a de encontro ao peito, beijando-a nos lbios. Depois se levantou, tomou-a nos braos e levou-a para o quarto de casal, onde ela 
durante todos os meses de casamento dormira sozinha.
    Deitou-a sobre a cama, dizendo emocionado:
    - Hoje  o dia mais feliz de minha vida!
    
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    Ela o puxou para si e esqueceram tudo o mais, entregando-se completamente aos sentimentos que os uniam, assustados diante da profundidade e do volume das emoes 
que nunca haviam experimentado antes, percebendo a importncia daquele amor em suas vidas.
    As semanas que se seguiram foram de encantamento. Estavam felizes e radiosos. O Dr. Marclio notou a mudana, e, quando eles lhe contaram o que acontecera, comentou:
    - Eu sabia que vocs se amavam. Vocs foram feitos um para o outro. Sero muito felizes.
    Fazia apenas um ms que Eullia havia voltado com a famlia para So Paulo e mandava notcias regularmente.
    Apesar de estarem no segundo semestre, as crianas haviam conseguido matricular-se em um bom colgio e estavam acompanhando regularmente as aulas.
    Tudo para eles era novidade. Principalmente para Nico, sempre entusiasmado com tudo que via. Sua inteligncia, alegria, disposio, boa vontade encantavam professores 
e at colegas. Claro que havia os que o invejavam e tentavam aproveitar-se dele, percebendo tratar-se de um menino do interior que nunca havia estado em uma grande 
cidade. Mas, apesar de encantado com as novidades, ele era muito arguto, tinha bom senso e no se deixava enganar. Acabava levando a melhor.
    Os trs eram inseparveis. Eurico no fazia nada sem ele e s vezes ficava com cime dos colegas que, atrados por seu carisma, estavam sempre  sua volta convidando-o 
para jogos ou brincadeiras.
    Mas Nico no dava importncia ao mau humor de Eurico nesses momentos. Ao contrrio, conversava com ele, fazendo com que participasse tambm, colocasse para fora 
suas idias, e ficava feliz quando ele conseguia mostrar-se inteligente e criativo.
    Eullia sentia-se realizada. Finalmente seu filho estava levando vida normal.  noite, depois que as crianas se recolhiam, Eullia ficava conversando com Norberto.
    Falavam dos filhos, dos livros espiritualistas que estavam lendo, comentavam o que lhes acontecera, e Norberto surpreendia-se com a lucidez da esposa. Ela tinha 
idias prticas, objetivas e claras. Reconhecendo isso, aos poucos ele comeou a conversar com ela sobre seus negcios.
    Obteve dela colaborao eficiente, e isso o deixou orgulhoso e agradecido. Nesses momentos, arrependia-se amargamente do que fizera. Tendo a seu lado uma mulher 
to maravilhosa como Eullia, por que se deixara iludir, envolvendo-se naquela paixo terrvel?
    Nesses momentos, olhando-a to segura, confiante e fiel a seu lado, to companheira, sentia terrvel remorso.
    
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    Prometia a si mesmo que nunca mais a trairia.
    Uma noite em que ele estava pensando no assunto, Eullia aproximou-se dizendo:
    - H momentos em que me pergunto para onde vai seu pensamento. Voc fica to distante!
    - Impresso sua.
    - Agora que temos conversado mais, posso dizer que muitas vezes cheguei a pensar que voc se arrependeu de haver se casado comigo.
    Ele a olhou admirado. Durante todos aqueles anos de casamento, Eullia nunca havia levado a conversa para o lado pessoal. Teria percebido alguma coisa?
    - Por que diz isso? Sempre fui dedicado a voc e  famlia.
    - No estou me queixando de nada. Mudemos de assunto.
    - No. Sinto que precisamos conversar sobre nossos sentimentos.
    Nunca falamos sobre eles.
    -  difcil para mim.
    - Posso compreender. Voc foi educada de maneira antiquada e muito rgida. Notando isso, nunca toquei no assunto.
    - Nem sei por que comecei a falar de ns. Voc tem sido um marido muito dedicado e no quero que pense que estou insatisfeita com alguma coisa. O nico problema 
que tnhamos era a sade de Eurico. Graas a Deus vencemos. Ele est bem.
    Norberto aproximou-se dela, segurou sua mo e disse:
    - Embora voc nunca me tenha dito, sei que se casou comigo sem amor, apenas para obedecer a seus pais.
    - . De fato. Eu era muito nova, tinha a cabea chela de iluses, fazia do amor alguma coisa distante. No pode considerar isso. Eu no sabia o que queria. Penso 
que meus pais sabiam o que era melhor e fizeram a escolha certa.
    - Eu preferia que tivesse sido diferente.
    - Diferente como?
    - Que voc me tivesse amado desde o princpio. Que houvesse se casado comigo por amor, conforme seus pais me disseram.
    - Por qu? Eu no o conhecia como agora. No podia am-lo. Era tmida e minha me nunca falou comigo sobre o amor, a no ser de maneira superficial durante nosso 
noivado.
    - Alguma vez gostou de algum, antes de me conhecer?
    Eullia corou um pouco mas sustentou o olhar.
    
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    - No. Mas desde que minha me falou comigo sobre como deveria ser uma boa esposa, tenho me esforado para no o decepcionar. Do jeito que fala, voc d a entender 
que esperava mais... - calou-se, um pouco embaraada.
    - No nego que tinha minhas iluses. Sonhava ser amado com paixo. Sabe como , fantasias da mocidade.
    - Eu no sabia.
    - Voc no me amava mesmo. Percebi logo no incio de nosso casamento.
    - Sempre o tratei com carinho e ateno.
    - Eu sei. Mas faltava o fogo do amor.
    Eullia olhava-o surpresa. Na educao rgida que recebera, sua me sempre dizia que a paixo carnal era pecado. Que a mulher precisava preservar sua pureza 
mesmo no casamento para ser digna da famlia e dos filhos.
    Eullia nunca se permitira qualquer gesto que pudesse revelar seus desejos de contato e relacionamento sexual. Nunca tivera qualquer iniciativa nesse sentido. 
Esperava que o marido a procurasse e entregava-se a ele preocupada que ele se sentisse satisfeito e feliz.
    - Esperava isso de mim?
    - No incio. Mas no era do seu temperamento.
    - Sempre pensei que estivesse sendo uma boa esposa...
    - E . Nem sei por que estou falando isso. Voc tem sido excelente me, boa esposa e companheira. Talvez melhor do que eu merea. Estou feliz com a famlia que 
construmos.
    Eullia no respondeu. Mas a partir daquele dia no podia esquecer aquelas palavras. Norberto estava mudado. Ela sentia. De vez em quando percebia em seus olhos 
um brilho emotivo diferente do habitual. E pensava: se ela no fora a mulher que ele desejava, ficara decepcionado. Como seria a mulher que ele idealizara? O que 
ele esperava de uma mulher que o amasse?
    Mas ela sentia que amava o marido e o quanto ele era importante em sua vida. Mas seria amor mesmo ou apenas convivncia, hbito, apoio?
    Eullia, que antes nunca questionara seus sentimentos, que sempre aceitara resignada o que a vida lhe dera, comeou a prestar ateno s suas emoes, tentando 
entender o que o marido dissera.
    Tinha vontade de conversar com algum que pudesse ajud-la a esclarecer seus sentimentos. Mas no se sentia com coragem de abrir-se.
    Antes do Natal eles decidiram passar frias na manso.
    
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    Estavam satisfeitos, porquanto as crianas finalmente haviam conseguido completar o quarto ano primrio e preparavam-se para o ginsio.
    Foi com alegria que se prepararam para essas frias. Liana, que durante esse tempo supervisava os trabalhos dos caseiros da manso, sentiu-se feliz com a vinda 
deles.
    Foi com alegria que avisou a me de Nico e cuidou de tudo para que eles fossem recebidos com carinho.
    No dia da chegada, Liana mandou preparar um bom jantar na manso e colocou arranjos de flores pela casa. Desde cedo ela e Alberto haviam ido l cuidar dos preparativos.
    Quando os dois carros chegaram com a famlia, os criados e as malas, eles estavam na porta esperando.
    Abraaram-se contentes. As crianas falavam sem parar, querendo saber como estava tudo, fazendo tanto rudo que Eullia lhes pediu que sassem e fossem conferir 
pessoalmente o jardim, os passarinhos, as plantas.
    Liana acompanhou Eullia at o quarto, onde as malas j estavam, e, uma vez l, cobriu a irm de perguntas, sobre a escola, as crianas.
    Eullia contava feliz os progressos dos filhos, dizendo que sua melhor deciso foi colocar Nico ao lado deles. A certa altura, ela perguntou: - E voc, como 
vai? Estou vendo que est muito bem de sade. -  verdade. Estou feliz.
    - Olhando para voc posso perceber. H uma luz em seus olhos que eu gostaria muito de ter.
    - Noto que h uma ponta de tristeza em sua voz. O que foi, no se sente feliz?
    - Reclamar seria at pecado. Tudo est bem em nossa vida agora. - Ento o que ?
    Eullia hesitou um pouco, depois respondeu:
    - Ultimamente venho questionando muito meus sentimentos.
    Sinto-me angustiada, insegura.
    - Voc? Sempre foi uma pessoa prtica, que sabe o que quer.
    - No  bem assim. Sou ignorante em questes de amor. - Seu rosto cobriu-se de rubor e ela continuou: - Viu? S em falar nisso fico encabulada. No sei mais 
o que  certo e o que  errado. No tenho sido para Norberto a esposa que ele esperava.
    Liana sobressaltou-se. Segurou a mo da irm e disse:
    - De onde tirou essa idia? Voc  uma mulher maravilhosa.
    - Norberto deu a entender que ficou decepcionado comigo porque eu no o amava como ele deseja.
    
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    - Ele no pode dizer isso... Voc tem se dedicado exclusivamente a ele. Est sendo injusto.
    - Ele no reclamou, e foi isso que mais me impressionou. Ele se conformou em viver com uma mulher que no tem, como ele disse, "o fogo do amor" que ele desejava 
quando se casou.
    - Ele disse que voc  uma mulher fria?  isso que ele pensa? - No disse assim, mas deixou transparecer.
    - Pois eu penso o contrrio. Voc era uma menina tmida e inexperiente quando casou. Ele  quem precisava saber despertar esse fogo de amor que desejava.
    Eullia meneou a cabea negativamente:
    - No sei o que dizer. Ele pode estar certo. Venho tentando descobrir se um dia eu seria capaz de amar da forma como ele gostaria. -  difcil querer ser como 
os outros desejam.
    - Nesse assunto me sinto perdida. Eu mesma no sei como eu sou. - Ningum pode saber isso se no experimentar.
    - Fica difcil. No teria coragem para tentar uma experincia dessas.
    - Por que no?
    - Teria vergonha. Ele pode pensar que sou uma mulher vulgar. - Voc  ingnua, Eullia. Alm de tudo, preconceituosa. Norberto  seu marido. Entre vocs o amor 
deve ser livre. No tenha vergonha de mostrar seus sentimentos.
    - A vida inteira no me permiti sentir. Quando ele me beija, fico tentando no desagrad-Io. Nunca digo o que sinto.
    - Quando ele no a procura, nunca sentiu vontade de fazer amor?
    - Bem, j. Mas controlo. No fica bem a uma mulher procurar. O papel da mulher  ser passiva.
    Liana olhou admirada para ela e pensou: se Eullia houvesse sido diferente, o incidente entre Norberto e ela teria acontecido?
    - Voc est enganada, Eullia. O amor no existe de um lado s.
     uma parceria em que os dois se descobrem e trocam experincias. - No sei se saberia amar dessa forma.
    Liana sorriu:
    - Voc est longe de ser uma mulher fria. Antigamente eu pensava que voc fosse equilibrada, controlada. Mas descobri que  uma mulher forte, chela de vida e 
de vontade. Dentro de voc h uma fogueira que j comea a arder. Quando ela emergir, no poder segurar.
    - No diga isso. No quero fazer nada errado.
    
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    - A nica coisa errada no amor  tentar impedir sua manifestao.
    - No sei como fazer isso sem ir contra meus princpios.
    -  hora de entender seus sentimentos, no de agarrar-se em princpios e regras que a educao errada colocou em sua cabea.
    Eullia baixou os olhos pensativa e Liana continuou:
    - O mais importante  saber se voc ama Norberto.
    - Claro que amo. No poderia viver sem ele.
    - Estou falando de amor, no de companheirismo ou de convivncia. Precisa observar o que voc sente quando ele a toca, que emoes surgem quando ele a acaricia. 
No dar ouvidos aos pensamentos que passam por sua cabea, mas ao que seu corao est sentindo, o que seu corpo quer nessa hora. Se fizer isso, saber diferenciar 
amor de amizade.  isso que precisa descobrir.
    - E se for s amizade, e se eu no for capaz de amar?
    - Por que se precipita? No pense nada. Experimente apenas. Sinta. Observe.
    - . Talvez possa fazer isso. Ele nem vai notar.
    Liana sorriu ao responder:
    - Vamos ver o que acontece. Experincia  experincia. No deixe que a cabea interfira. Nessa hora, deixe-se apenas sentir e abra mo de qualquer controle. 
Permita-se fazer apenas o que sente.
    - No me parece to fcil como voc diz. s vezes percebo que estou dividida em duas. Sempre que estou fazendo alguma coisa, tomando alguma atitude, h um lado 
meu observando, criticando, julgando, dando opinio. Mame costumava dizer que em tudo precisvamos ter discernimento. Analisar para evitar erros.
    - Eu me lembro. Ela dizia que os olhos de Deus estavam sempre nos observando, conhecendo nossos pensamentos mais ntimos. Durante anos me senti como voc, dividida 
entre o certo e o errado, entre o bem e o mal, entre a crtica e a aprovao.
    - Ento pode entender como me sinto.
    - Entendo e sei que essa maneira de pensar impede nosso progresso como pessoa, apaga nossa luz natural, anula a ousadia, a criatividade, e nos transforma em 
pobres prisioneiros de nosso prprio juiz. Um juiz severo que a pretexto de evitar erros e sofrimentos futuros nos deixa parados no tempo, fracos e sem coragem de 
viver.
    - Voc me assusta.
    - Mas  verdade. Eu era assim como voc, hoje mudei. Alberto abriu-me os olhos. Por isso me maravilhei quando li seus livros. 
    
    306
    
    Eles me libertaram dessa priso. A vida  muito diferente dos acanhados e limitantes conceitos que nos ensinaram na infncia.
    - , voc mudou! Seus olhos brilham, vem de voc uma alegria gostosa e uma calma que me encanta. Sua mudana foi como um milagre. Voc renasceu!
    - Sou feliz. A felicidade  uma bno. Sei que voc tambm pode transformar sua vida para melhor. D para notar que voc, apesar de ser mais velha que eu, ser 
me e haver experimentado coisas que nunca experimentei, continua presa s regras aprendidas. Desconhece sua verdadeira natureza e o manancial de foras que esto 
adormecidas dentro de voc.
    - Gostaria muito de comear a aprender. Acha que posso?
    - Claro. Vou emprestar-lhe um dos livros de Alberto. Far a voc o mesmo bem que me fez. Mostrar com clareza tudo que j pode saber sobre si mesma.
    - Lerei com ateno.
    - No basta ler com ateno,  preciso questionar os conceitos, experimentar. Voc se surpreender com os resultados.
    Enquanto elas conversavam no quarto, Norberto j havia descido e estava na sala com Alberto. Apesar de haver mantido contato  distncia, era a primeira vez 
que se encontravam depois que eles havia se mudado para a capital.
    Agora, depois do tempo decorrido, Norberto se sentia um pouco tenso tendo de enfrentar novamente o antigo problema que tanto o perturbara.
    Bastou um olhar para perceber o quanto Liana mudara. Estava radiante. No teve mais dvida de que ela encontrara o amor.
    Enquanto esperavam, ele e Alberto conversaram sobre outros assuntos, mas nenhum dos dois conseguia deixar de pensar no passado.
    Apesar da tenso, uma coisa estava clara para Norberto. Ele se sentia aliviado com o rumo que os acontecimentos haviam tomado. A nica coisa que ainda o incomodava 
era o receio de voltar a sentir a atrao pela cunhada e o cime que tanto o perturbara. Estava inseguro, com medo da prpria reao.
    Elas desceram sorridentes e alegres, e a conversa fluiu com naturalidade. As crianas estavam entusiasmadas e o jantar decorreu agradvel. Eles foram para a 
sala tomar caf e as crianas subiram para o quarto.
    Passava das dez quando Liana e Alberto se despediram. Depois que eles saram, Eullia ficou pensativa.
    
    307
    
    - O que foi? - indagou Norberto.
    - Estava pensando em Liana. Estou contente com a melhora dela. - De fato. Ela voltou a ser como antigamente.
    - Est melhor do que antes, muito melhor. Irradia felicidade.
    Norberto sorriu bem-disposto ao perceber que a felicidade de Liana e Alberto no o incomodava. Ao contrrio, dava-lhe uma sensao de alvio, de liberdade. Um 
pensamento de euforia passou em sua mente. Estaria curado daquela insana paixo? Teria vencido para sempre aquela fraqueza?
    Ainda era cedo para dizer, mas ele comeava j a acreditar que havia conseguido. Disse apenas:
    - Alberto era o marido certo para ela.
    - Tem razo. Lamento ter demorado para descobrir isso.
    - Cada pessoa tem o direito de decidir e escolher o prprio caminho. Nosso erro foi querer decidir por ela.
    - Fui criada assim. Achava que os mais velhos tm mais experincia e por isso podem intervir para ajudar a felicidade dos filhos. Como mais velha, habituei-me 
a ver Liana como uma filha. Hoje percebi o quanto estava errada.
    - Por que hoje?
    - Porque conversando com ela aprendi algumas coisas. Ela est mais amadurecida, mais segura de si mesma. Gostaria de ter a mesma clareza de idias que ela tem.
    - No diga isso, Eullia. Voc  uma mulher inteligente, lcida, prtica, segura. Tem me ajudado at nos negcios.
    Ela levantou para ele os olhos, que tinham um brilho diferente quando respondeu:
    - Falar, elaborar teorias e idias nunca foi difcil. Mas olhar para dentro de mim e me situar, saber como eu sou de verdade, nunca me pareceu to difcil.
    - Tenho notado que voc tem mudado. Eu tambm mudei. O tempo passa e ns amadurecemos. Houve um tempo em que eu tambm no sabia analisar meus sentimentos. Esse 
tempo passou. Agora j me conheo melhor e sei o que desejo da vida.
    - Claro que eu desejo a felicidade de nossa famlia, mas eu, pessoa, s vezes me sinto incapaz de escolher, sabe, pequenas coisas. De sentir prazer com elas 
ou de no gostar e dizer no. Parece uma coisa boba, difcil de explicar, mas que ultimamente vem me incomodando. Tenho a sensao de que a vida est passando e 
estou perdendo alguma coisa importante.
    
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    - J me senti assim. Parece que a sensibilidade desaparece.  como se fssemos um boneco sem sentimentos passando pela vida, obedecendo s regras estabelecidas.
    Ela se levantou:
    - Vamos subir. Quero ver se as crianas j se deitaram. Se deixar, eles ficam conversando at tarde.
    Norberto aproximou-se dela e passou o brao sobre seus ombros com naturalidade. Ele no tinha o hbito de abra-Ia dessa forma. Eullia estremeceu.
    Foram subindo as escadas abraados e conversando. Ela sentia a proximidade, e o calor que vinha dele acelerava as batidas de seu corao. Teve medo. Sentiu vontade 
de esquivar-se, porm lembrou-se das palavras de Liana e controlou-se.
    Parou no quarto de Eurico e conforme previra os trs estavam juntos na mesma cama conversando animadamente.
    - Est na hora de dormir. Vamos. Amanh vocs tm todo o tempo livre para brincar.
    A custo conseguiu que obedecessem. Quando viu cada um em seu quarto, foi ter com Norberto. A sensao de momentos antes perturbava-a. E se ele a abraasse de 
novo, o que faria?
    Ele j havia vestido o pijama e preparava-se para deitar. Silenciosamente, Eullia procurou sua camisola e foi ao banheiro para se trocar. Ela nunca tirava a 
roupa na frente do marido. Quando voltou, ele j se havia deitado. Ela se deitou e, vendo que ele no apagava a luz do abajur, perguntou:
    - O que foi, est sem sono?
    - Estou pensando no que conversamos. Voc tem razo.
    - Em qu?
    - Na dificuldade de discernir nossas emoes.  que elas muitas vezes fogem completamente ao que espervamos.
    - Explique melhor.
    - Ns formamos opinio dizendo que diante deste ou daquele fato faramos isto ou aquilo. A acontece alguma coisa e agimos muito diferentemente do que havamos 
pensado. Quando acontece, d para notar o quanto ainda ignoramos a nosso respeito.
    Eullia suspirou conformada:
    - Ainda bem que no sou apenas eu quem se sente assim. Liana vai emprestar-me um livro de Alberto. Disse que ele  especialista em comportamento e que ela aprendeu 
muito com ele.
    
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    - O que no me surpreende. Lembra-se como ele conseguiu que as crianas tomassem gosto com os estudos? Acho que vou ler tambm. Vamos dormir. Boa noite.
    - Boa noite - respondeu ela, satisfeita com o que ele dissera.
    Norberto apagou a luz e acomodou-se virando de lado para dormir.
    Eullia, sentindo o calor que vinha do corpo dele, teve vontade de encostar-se, de abra-Io, mas no se moveu. Ficou ali, do lado, sentindo esse desejo, lutando 
para conter-se at que, cansada, virou-se para o outro lado e conseguiu finalmente adormecer.
    
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    Capitulo 22
    
    
    Eullia queria que Liana e Alberto fossem almoar todos os dias com eles para passarem juntos o maior espao de tempo. Eles aceitaram ir no dia seguinte e no 
domingo, quando teriam tambm a companhia do Dr. Marclio e de Adlia.
    No domingo, Norberto acordou alegre, bem-disposto, interessando-se at pelas brincadeiras das crianas, entretendo-se com eles como nunca fizera. Apesar de ser 
um pai responsvel e dedicado, habitualmente era formal com os filhos.
    Fora criado com disciplina. Na casa de seus pais as crianas no podiam conversar durante as refeies e ningum lhes dirigia a palavra, a no ser o mnimo indispensvel.
    Seu pai chamava isso de respeito. Para ele, criana no tinha querer nem opinio. Qualquer manifestao de vontade era considerada rebeldia. Por isso, a figura 
do pai para Norberto era sisuda, sria, disciplinar. Jamais participava das brincadeiras com os filhos. Conversava pouco com eles e deixava para Eullia participar 
mais da vida deles. Essa era a parte da mulher. Ela podia transigir algumas vezes, mas ele no. Tinha de manter o respeito e a disciplina em famlia.
    Eullia, vendo-o conversar animadamente com Alberto e as crianas no caramancho, interessando-se pela opinio delas, trocando idias, participando, surpreendeu-se 
muito. Comentou com Liana:
            - Norberto est mudado. Veja como ele conversa com as crianas.
    Est at brincando com elas.
            -  que a alegria deles  contagiante. Alberto adora entreter-se com eles. Norberto est descobrindo esse prazer.
    - Sabe que  verdade? s vezes eles tambm me surpreendem. Falam cada coisa. Bom, com Nico no estranho. Esse menino sempre foi assim, inteligente, criativo. 
Mas Eurico voc nem imagina. Est cada dia mais surpreendente.
    - Ele agora est bem e comeando a revelar sua verdadeira personalidade. Vocs ainda vo se orgulhar dele. Alberto sempre diz isso. Um brilho de prazer passou 
pelos olhos de Eullia:
    - Eurico est curado. Esse foi o maior presente que a vida me deu. O mdico chegou com a esposa e eles os receberam com alegria. A conversa fluiu agradvel.
    
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    Depois do almoo foram conversar no caramancho. Uma brisa fresca soprava, apesar do sol de vero. As crianas brincavam do lado de fora.
    De repente, Liana levantou-se e foi at a entrada do caramancho. Alberto notou que ela empalidecera. Imediatamente foi ter com ela, indagando:
    - O que foi? No se sente bem?
    - Fiquei tonta e pensei que fosse desmaiar.
    - Dr. Marclio, Liana no est bem...
    O mdico levantou-se e tomou-lhe o pulso.
    - Est passando. Acho que foi o calor... - disse ela.
    - Voc est plida - tomou Eullia, preocupada.
    - Vamos entrar - props o mdico. - Quero examin-Ia.
    As crianas haviam se aproximado, e Eurico disse assustado:
    - Ele voltou! A alma do coronel voltou!  ele quem est ao lado dela! Eullia empalideceu. Norberto sobressaltou-se. Liana olhou para o mdico aterrorizada.
            - Calma - pediu ele. - No h o que temer. Vamos l para dentro.
    Uma vez na sala, Marclio examinou Liana cuidadosamente e disse: - Ela no tem nada. Est tudo bem.
    - Mas e o coronel? - indagou Eullia, inquieta.
    - Acalme-se. Ele no nos pode fazer mal. Chame as crianas, por favor.
            Os trs estavam do lado de fora da porta tentando ouvir o que se passava l dentro. Eurico dizia:
    - Eu vi. Era ele de novo! O que vamos fazer agora?
    - Calma, Eurico. Ele no vai fazer nada. Calma.
    Assim que Alberto abriu a porta, eles entraram. Marclio, dirigindo-se a Eurico, perguntou:
    - Voc viu o coronel Firmino?
    - Vi, doutor. Ele ainda est a, ao lado dela.
    - Vamos descobrir o que ele deseja. Enquanto conversamos com ele, vocs procurem nos ajudar fazendo uma orao.
    Vendo que eles fechavam os olhos e rezavam, Marclio disse:
    - Coronel Firmino, por que voc voltou?
    - Ele est triste - disse Eurico. - Acho at que est com medo. - Ele est diferente do que era?
    - Sim. No me olha mais com raiva. Parece pedir alguma coisa.
    
    312
    
    - Estamos aqui, coronel Firmino. Pode falar. Por que voltou? - Ele disse que foi para pedir perdo. Est arrependido de tudo que fez. Precisa muito do perdo 
de tia Liana.
    - Se ela o perdoar, ele ir embora? - tornou o mdico.
    - Vou repetir as palavras dele: "Depende".
    - Do qu?
    - De ela me perdoar de corao e no para se ver livre de mim. - E voc, Liana, o que diz? - tornou Marclio. - Sente-se capaz de perdoar?
    - Sim - respondeu ela. - Quero esquecer. No lhe desejo mal.
    Quero que me deixe em paz.
    - Eu preciso de mais. Todas as portas se fecharam para mim. Ningum mais quer me ajudar. Apesar de tudo que eu fiz e de voc haver me rejeitado a vida inteira, 
ainda a amo. Reconheo meus erros, sofro muito por saber que nunca poder ser minha esposa outra vez. Seu destino  outro. Mas apesar disso quero provar que estou 
mudado. Tenho aprendido muito. Por favor, no me negue a oportunidade que lhe peo.
    - Ela disse que o perdoa - interveio Marclio. - O que mais quer? - Preciso voltar! Quero nascer! Por favor, Liana, no feche a porta de seu corao para mim. 
Voc foi me amorosa, cuidou de nossa filha com carinho. J que no posso ter voc como mulher, acolha-me em seu corao e permita que seja seu filho!
    Grande emoo acometeu os presentes e Eurico disse com voz embargada:
    - Aquela senhora veio e o levou! Ele j foi embora.
    Marclio fez comovida prece de agradecimento. Quando se calou, Liana soluava nos braos de Alberto, as crianas tinham lgrimas nos olhos, Eullia e Norberto 
entreolhavam-se admirados. A segurana de Eurico transmitindo as palavras do coronel Firmino, o assunto inesperado, deixou-os emudecidos.
    Marclio disse srio:
    - O esprito do coronel Firmino deseja uma oportunidade para reencarnar. Compete aos futuros pais decidirem.
    - Liana  quem vai decidir. De minha parte, no fao objeo.
    - Apesar do que ele disse, ainda sinto medo. Como conviver com ele se sua proximidade j me fez mal? Como t-Io a meu lado, unido a mim gerando um corpo em minhas 
entranhas se a simples lembrana de seu nome me aterroriza?
    Eurico aproximou-se de Liana, colocando a mo em seu brao:
    
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    - Tia, posso falar?
    - Fale.
    - Eu tambm sentia muito medo dele. Mas hoje, quando vi como est mudado, triste, senti pena. Est abatido, eu queria que voc o tivesse visto. Nem parece o 
mesmo. Estava com os olhos cheios de lgrimas. Ele mudou, tia, mudou muito.
    - Ele tomou conscincia da verdade. Arrependeu-se. Apesar disso,  voc quem precisa decidir se concorda ou no em t-lo como filho - esclareceu Marclio.
    Liana olhou-o indecisa:
    - No precisa resolver nada agora. Reflita, oua seu corao e decida.
    - O senhor no acha arriscado ela o ter como filho sabendo de seu temperamento, das coisas que ele fez no passado?
    - Se ela se sentir capaz de receb-lo como um necessitado que precisa de ajuda e o amar de verdade, esquecendo o passado, ajudando-o em sua reeducao, passando-lhe 
os verdadeiros valores do esprito que ela j possui, s ter a ganhar. Porm, se no conseguir perdoar de verdade, esquecer a multido dos pecados que ele cometeu, 
ento ser melhor adiar esse reajuste para quando se sentir mais forte.
    - Da forma como fala, doutor, o senhor acredita que a unio entre eles ser inevitvel. Hoje ela poder protelar mas um dia ter de acontecer.  isso? - interveio 
Norberto.
    - Os relacionamentos inacabados sempre voltam para que os laos de ligao se desfaam e os envolvidos se libertem.
    - Quer dizer que apesar de ele ter ido embora, de certa forma seu esprito continua ligado a ela. Nesse caso - reconheceu Alberto -, ser melhor enfrentar logo 
do que protelar.
    - Enfrentar os medos  o caminho dos vencedores. Pense, Liana. Sinta seu corao. No se obrigue a fazer nada, mas fique atenta a seus sentimentos. Estou certo 
de que saber escolher o melhor a fazer agora - esclareceu o mdico.
    Eullia abraou o filho, dizendo comovida:
    - Meu filho! Voc viu a alma do coronel, conversou com ele! Portou-se como um homem. Muitos no teriam sua coragem.
    - Graas a ele pudemos mais uma vez contribuir para a harmonizao desta famlia. Ento, Liana, sente-se melhor?
    - Sim, doutor. Estou bem. S um pouco assustada. Pensei que nunca mais teria esses achaques.
    
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    - Amanh v a meu consultrio. Desejo fazer alguns exames. - Irei, pode esperar.
    Eullia mandou servir um caf com bolo e as crianas foram  copa tomar um lanche. Eurico estava pensativo. Amelinha tomou:
    - O que foi agora? Voc ficou quieto de repente. Est vendo alguma coisa?
    - No. Estou pensando.
    - No qu?
    - No que o coronel disse.
    - Ele quer nascer outra vez - esclareceu Nico.
    - E o pior  que ele quer ser nosso primo. J pensou?  isso que est me preocupando.
    - Ele vai ser criana de novo? - indagou Amelinha.
    - Claro. Voc sabe o que  reencarnao - disse Eurico e continuou: - Ele vai dar trabalho, vai querer mandar em tudo.
    - Bobagem, Eurico. Ns  que vamos mandar nele. Somos mais velhos. Quando ele tiver nossa idade, j seremos adultos, e as crianas precisam obedecer aos mais 
velhos. No  isso que nos ensinam todos os dias?
    -  mesmo! Vai ser divertido ns mandarmos nele - concordou Amelinha.
    - Bom, pensando bem, ns no podemos fazer isso. Os pais  que vo ter que mandar nele. Os primos e os amigos no. Depois, ele vai nascer e esquecer o passado. 
No vai saber quem ns somos. Lembra que o professor ensinou que quando reencarnamos nos esquecemos de tudo?
    -  mesmo! Eu no lembro nada de minha encarnao anterior concordou Eurico.
    - Nem eu - concluiu Amelinha.
    - Em todo caso,  bom saber que quando ele tiver nossa idade j seremos adultos, e ele, mesmo que queira ser mando, no vai poder fazer nada - afirmou Nico, 
satisfeito.
    - Ser que tia Liana vai concordar em ser a me dele? - indagou Amelinha. - Eu no aceitaria.
    - Eu tinha medo dele, mas agora no tenho mais - tomou Eurico.
    - Voc fala, mas quando ele apareceu ficou tremendo - lembrou Amelinha.
    - Fiquei, mas no foi de medo.  que quando vejo uma alma do outro mundo me d arrepio. At com aquela senhora bonita eu sinto isso. Eu me alegro quando a vejo, 
mas me arrepio.
    - Voc ficou com pena do coronel - observou Nico.
    
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    - Fiquei, sim. Ele me olhou pedindo ajuda. Estava acabrunhado, humilde, ele mudou muito. Pensando bem, acho at que, se ele nascer, no vai querer mais mandar 
em ningum.
    - No sei, no, Eurico. Se ele vai esquecer o passado, pode esquecer tambm por que tudo deu errado em sua vida e comear de novo ajuntou Nico.
    - Vamos perguntar ao professor o que ele pensa de tudo isso - sugeriu Eurico, ao que Nico respondeu:
    -  bom, mas vamos deixar para quando ele vier conversar conosco. Ele est cuidando da Liana.
    Apesar de sentir-se melhor, Liana no conseguia esconder a preocupao. Alberto, atencioso, cercava-a de carinho, e os demais no tocaram mais no assunto, porm 
todos se sentiam um tanto inquietos.
    S o Dr. Marclio e Adlia se sentiam serenos e, compreendendo o que se passava com os amigos, contavam casos alegres procurando aliviar-lhes a tenso.
     noite, quando Liana voltou para casa, foi logo dizendo:
    - Convidei-os para vir almoar aqui amanh. No me sinto com coragem de voltar quela casa.
    - Voc est nervosa. Vai passar.
    - Eu estava muito bem. Foi s comear a ir l que o esprito do coronel Firmino voltou. Acho at que ele nunca saiu de l!
    - No foi isso que o Dr. Marclio falou. Depois, Eurico constatou que ele est mudado. No deseja mais obrig-Ia a nada. No precisa ter medo.
    - Sempre desejei ter filhos, mas agora no quero mais. S em pensar que ele ficaria muito tempo ligado a mim, fico toda arrepiada. No posso. No estou pronta. 
No quero.
    - Est bem. Faremos como voc decidir. Se no quer, no teremos filhos e pronto. O que eu desejo  v-la feliz. Vamos esquecer esta histria.
    - Dr. Marclio disse que posso escolher. J escolhi.
    - Tudo bem. Acho que devemos tomar nosso ch e retomarmos nossa paz.
    Alberto foi  cozinha, esquentou a gua, preparou tudo e chamou-a. Liana sentou-se  sua frente em silncio. Alberto serviu-a e tentou conversar. Porm Liana 
no estava prestando ateno ao que ele dizia.
    A certa altura, rompeu em soluos e Alberto levantou-se, abraando-a preocupado:
    - O que foi, Liana?
    
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    - Estou sendo vingativa, maldosa. Ele pediu perdo e eu perdoei, mas estou me sentindo culpada. No foi de corao.
    - Por que se atormenta dessa forma? Sei que, apesar do que ele fez, voc no lhe deseja nenhum mal. Mas tem o direito de preservar sua intimidade se sua presena 
lhe  penosa. Voc ainda no superou o medo que sente dele.
    - Mas ele disse que eu sou a nica porta para que possa nascer. Terei o direito de fech-Ia?
    - Seu compromisso maior  com o prprio bem-estar. De nada valer aceitar uma situao e fazer dela um inferno para ambos. Marclio foi bem claro. Precisa consultar 
seu corao e aceitar a incumbncia se perceber que pode desempenh-Ia com serenidade. Enquanto sentir medo, horror  simples presena do coronel, no conseguir 
ajud-lo e com certeza estar infelicitando-se tambm.
    - Eu queria que ele me esquecesse, que nunca mais me procurasse. Que fosse feliz longe de mim.
    Alberto passou a mo carinhosamente pelos cabelos de Liana, acariciando-a:
    - Ele a ama.  sua maneira,  verdade, mas ama. Essa talvez seja a nica porta para abrir o corao dele e faz-Io mudar. O amor tem muita fora. Talvez seja 
por isso que.a vida o esteja colocando novamente em nosso caminho.
    - Eu gostaria de poder fazer isso, mas est muito difcil.
    - Voc no tem de resolver nada agora. Vamos dar tempo ao tempo. No quero que adoea novamente. Eu estou aqui e a amo mais que tudo no mundo. Depois, lembre-se 
que, quando no podemos resolver alguma coisa, Deus pode. Entregue o assunto nas mos dele e acalme seu corao. Tenho certeza de que a vida j tem uma boa soluo 
para o problema. Vamos guardar serenidade e esperar que ela se manifeste.
    Liana abraou-o um tanto aliviada.
    - Bendita hora em que voc apareceu em minha vida!
    Ele riu bem-humorado e retrucou:
    - Eu no disse que a vida faz tudo certo? Juntou-nos para sermos felizes. No acha que merece um crdito de confiana?
    Liana assentiu e sorriu. A crise havia passado. Mas no fundo ambos sabiam que, quando fosse o momento, o assunto voltaria e teriam de decidir.
    Nos dias que se seguiram, Liana no quis voltar  manso. Eullia estava inconformada.
    
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    - Liana, pensei que amos ficar juntas todos os dias e aproveitar esses momentos. Compreendo o que aconteceu, mas no  bom voc alimentar esse medo de ir  
nossa casa.
    - Foi l que ele apareceu de novo - justificou-se ela.
    - Pelo que tenho aprendido nos livros, os espritos podem ir a toda parte. Ele pode estar aqui sem que ns saibamos.
    - No diga isso. Se ele estivesse, eu sentiria. Depois, Eurico teria visto. Ele gosta  de ficar l, e eu no desejo encontr-la.
     noite, reuniram-se na casa de Marclio para a sesso costumeira, e Eullia voltou ao assunto:
    - Dr. Marclio, Liana no quer mais ir  minha casa com medo do coronel Firmino. No acho que seja uma boa atitude. Afinal ns estamos l todo o tempo, inclusive 
Eurico, a quem ele costumava perturbar, e ele no tem aparecido.
    - Se eu for, ele pode voltar.
    - Voc sabe que o coronel Firmino mudou. Sofreu. Arrependeu-se. Aprendeu. Tornou-se mais humilde. J no  mais violento e aproximou-se para lhe dizer isso. 
No creio que sua presena possa fazer-lhe mal.
    - Mas eu me sinto. Pensei que fosse desfalecer quando se aproximou de mim.
    - O que est lhe fazendo mal no  a presena do esprito do coronel mas as lembranas desagradveis que ele desperta em voc. Apesar do tempo decorrido, de 
haver esquecido detalhes de sua vida passada, as energias acumuladas naqueles dias ainda esto a provocando desequilbrio e dor. Voc tambm aprendeu, sofreu, est 
agora desfrutando de uma tima oportunidade de progresso, mas esses bloqueios energticos a impedem de alcanar o equilbrio. Por isso a vida est lhe trazendo a 
chance de limpar esses resduos e libertar-se para poder progredir.
    - Poderia explicar melhor, doutor? - pediu Liana.
    - Quando voc foi esposa de Firmino, ele foi violento, arrogante impiedoso. Era sua maneira de ser na poca. Voc talvez pudesse ter escapado, como fez sua filha, 
mas, seja pelo que for, no o fez. Ele a dominava pela fora fsica, ento voc, sentindo-se impotente diante dele, acovardou-se, no assumiu a prpria fora.
    - Como poderia? Ele era mais forte...
    - No falo da fora fsica, mas da fora interior que com certeza a faria encontrar uma forma de escapar. Voc se acovardou, colocou-se na postura de vtima 
indefesa, alimentando o dio como nica forma de vingana.
    
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    No era dio, mas mgoa.
    - Se no fosse dio, no estaria agora vivenciando essa experincia. Reconhea isso, mas no se culpe. Voc reagiu como sabia naquela poca. Precisa saber que 
os pensamentos cultivados durante certo tempo, aos quais damos fora, nos quais colocamos grande dose de emoo, tomam forma, materializam-se no mundo astral. Ficam 
colados em nosso corpo astral e interferem em nosso dia-a-dia.
    - Est falando das formas-pensamentos? - indagou Norberto com interesse.
    - Isso mesmo. Nas sesses espritas, muitas vezes os mdiuns julgam estar incorporando espritos de pessoas desencarnadas que perturbam os presentes, mas esto 
recebendo apenas as formas-pensamentos dessas pessoas.
    - Como podemos perceber quando isso acontece? - perguntou Eullia.
    - Se prestar ateno, perceber a diferena. Um esprito desencarnado reage diferentemente. Tem mais personalidade. As formas-pensamentos revelam problemas emocionais 
armazenados durante certo tempo. So resistentes e repetitivas.
    - Interessante - tomou Alberto. - Nesse caso, um bom psiclogo tambm pode ajudar.
    - Pode, e a recproca  verdadeira. Quantas vezes o psiclogo acredita estar trabalhando no paciente seus problemas emocionais e est doutrinando um esprito? 
Nenhum profissional das reas humanas pode ser eficiente se desconhecer essas variveis, porque elas interferem no processo.
    -  o meu caso? - indagou Liana.
    - . A causa de seu mal-estar est em voc, no na presena do esprito do coronel Firmino. Ele pode evoluir, ficar muito bem, espiritualizar-se, mas, se voc 
no acabar com essas formas-pensamentos, sempre se sentir mal com a presena dele.
    - Mas eu no desejo conservar essas lembranas. Quero esquecer. - Voc deseja, mas continua a aliment-Ias, ainda que inconscientemente.
    - No. Eu no as alimento.
    - Voc se sentia agredida. Ao invs de reagir e libertar-se, cultivou o medo, e  ele que ainda as est alimentando. Sempre que o coronel Firmino se aproxima, 
o medo reaparece tal qual era naqueles tempos, reforando as formas-pensamentos que criou. No momento em que enfrentar o passado, vencer esse medo que a paralisa, 
voc as estar destruindo para sempre, libertando-se.
    
    319
    
    Ento poder olhar para o passado sem se sentir mal e para Firmino sem dio.
    Liana, pensativa, baixou a cabea por alguns instantes, depois disse: - Eu no sinto que o odeio. S desejo livrar-me dele. No haver outra maneira de fazer 
isso?
    - No. Ele j foi embora, mas voc ainda est presa a ele.
    -  injusto. Se tudo isso aconteceu mesmo, eu fui a vtima. No deveria ser punida duas vezes.
    - Voc se engana, Liana. Ningum  vtima. Se a vida a colocou ao lado de um marido dspota e cruel, foi porque voc precisava dessa experincia.
            - Para qu? S consegui sofrer e carregar at hoje esse peso.
    - Voc colheu os resultados de suas atitudes. Foi o melhor que conseguiu fazer naquele momento. Entretanto, a vida  perfeita e no joga para perder. Se ela 
a colocou ao lado de um homem como Firmino, foi porque voc j tinha elementos no s para enfrent-Io, mas tambm para ajud-lo a tomar-se mais humano, puxando 
para fora seu lado melhor. Entretanto tal no aconteceu. Voc se acovardou, no usou todo o seu poder interior, no acreditou na prpria fora. Por isso o relacionamento 
entre vocs continua inacabado. Ainda h muitas coisas que um pode ensinar ao outro at que se libertem. O mais importante agora  que voc pense em tudo que conversamos. 
Faa mais: pea a ajuda de Deus para que consiga ver claro e decidir.
    -  o que farei. Alberto me ajudar, estou certa.
    Ele a abraou com carinho, beijando-a na face.
    - Pode contar comigo. Estarei sempre a seu lado.
    - Lembre-se que essas formas-pensamentos que voc criou impedem que possa discernir com lucidez. Firmino mudou, mas voc continua vendo-o como ele foi naquele 
tempo. Quando se livrar delas, conseguir v-lo como ele  agora e tomar uma deciso mais clara. Vamos nos acomodar, est na hora de nossa reunio.
            Sentaram-se ao redor da mesa orando em silncio. Marclio fez uma orao comovida e depois disse:
            - Hoje no vamos fazer os estudos de costume. Nossos amigos espirituais j esto presentes.
    Na penumbra da sala iluminada apenas por suave luz azul, eles permaneceram em silncio por alguns instantes. Depois, um dos presentes remexeu-se na cadeira inquieto 
e comeou a falar:
            - Hoje eu vim com a permisso dos amigos que esto me ajudando nesta casa.
    
    320
    
    Por isso peo que me escutem.  difcil encarar a verdade. H momentos em que minha cabea roda e tudo se embaralha de tal sorte que tenho receio de enlouquecer. 
Estou doente. Meu corpo est desgovernado e h momentos em que no consigo control-Io. Ento, sinto-me inquieto. Vejo-me novamente em minha casa com minha famlia, 
sinto seu desprezo, Mariquita, e isso me fere fundo. Eu a amei desde o dia em que a vi. Em meu desespero, sinto medo de perd-Ia e novamente a amarro no leito  
noite para que no escape. Voc chorava e me punia com seu dio e eu sofria. E quanto mais sofria, quanto mais a dor me atormentava, mais eu a fazia sofrer, porque 
no era justo que eu, que desejava dar-lhe todo o meu amor, fosse to machucado.
    Ele interrompeu o discurso, porquanto os soluos o impediam de continuar. Depois de alguns-instantes ele prosseguiu:
    - Mas tudo que fiz foi doloroso e intil. Atormentou voc, aumentou meu sofrimento, mergulhei na loucura. Passei anos dementado circulando pela casa que foi 
nossa, vendo-a em todos os cantos, sofrida e odiando-me cada vez mais. s vezes, quando tinha momentos de lucidez, sentia sua falta, sabia que havamos morrido, 
mas ficava ali, na esperana de que um dia voc reaparecesse. Sempre ouvi dizer que quem morre descansa. Comigo no foi assim. Descobri que continuava vivo depois 
de meu corpo haver sido rodo pelos vermes e que os sofrimentos continuavam.
    Estou falando isso no para que voc sinta pena de mim, mas para que possa saber que estou pagando caro por meus erros.
    Quando voc reapareceu em nossa casa, exultei. Tentei conversar, mas voc no me ouvia. Com voc, todos os outros vieram e me enfrentaram, apesar de estarem 
em um corpo de criana ainda. Eu no sabia bem o que estava acontecendo. Acreditava que todos se haviam disfarado em outros corpos para poderem se vingar.
    Havia momentos em que eu mergulhava no passado e acreditava que ainda estvamos vivendo naqueles tempos. Quando minha loucura estava no mximo, minha me aparecia, 
falava comigo e me acalmava. Eu dormia algum tempo, mas, quando acordava, o inferno recomeava.
    Depois que resolvi aceitar a ajuda que me ofereceram, fui recolhido a um hospital, e l tenho sido tratado com considerao e carinho. Entretanto, meu tormento 
continua. Minha loucura reaparece e perco a noo da realidade. Quando o tratamento que recebo me tira desse estado e tenho como agora momentos de lucidez, sou orientado 
e procuro obedecer. Quero melhorar, sair desse estado de dependncia mental que criei. No culpo mais ningum pelo que estou passando.
    
    321
    
    Sei que a responsabilidade  s minha. Eu escolhi esse caminho e desequilibrei minha vida. Disseram-me que s a reencarnao pode abreviar esse tormento, oferecendo-me 
um corpo novo, um crebro virgem para registrar e aprender novos valores para quando eu, aos doze ou treze anos, reassumir de todo minha personalidade anterior, 
j tenha desenvolvido elementos para reagir de outra forma aos desafios que a vida vai me trazer.
    Firmino fez ligeira pausa, depois prosseguiu:
    - Terei uma boa chance se voc, Mariquita, me aceitar como seu filho. Sei que desfruta agora de uma vida feliz e mais equilibrada ao lado de quem voc ama. Eu 
mudei. Reconheo que no posso mandar em seu corao. Se me aceitarem, serei muito agradecido. Minha maior felicidade ser apagar o mal que lhe fiz e conseguir sua 
estima. Agora preciso ir. J abusei demais da bondade de vocs. Eu lhe peo: me d a chance de voltar para aprender.
    As lgrimas desciam pelas faces de Liana e ela estremecia de vez em quando, tentando conter os soluos que teimavam em querer sair.
    No mesmo instante uma senhora ao redor da mesa comeou a falar:
    - Boa noite, amigos. Vim agradecer de corao toda a ajuda que temos recebido. Gostaria de esclarecer algumas coisas com relao ao que est se passando aqui.
    - Pode falar - disse Marclio. - Todos desejamos aprender. Ela continuou:
    - Firmino, como tantas pessoas ainda pensam, acreditava que a morte fosse o eterno descanso ou o eterno tormento no inferno. Posso adiantar que no  nem uma 
coisa nem outra. O progresso, a conquista da sabedoria trazem a serenidade e  ela quem leva  conquista de um estado de paz interior que muitos chamam de estado 
de graa, de elevao espiritual. S alguns j alcanaram esse bem-estar; para a maioria, o estado de tormento  o mais comum. A morte do corpo muda o cenrio externo 
e torna mais vivo o mundo interior. Entretanto, o mais importante e que poucos sabem  que tanto um quanto outro estado de esprito  criado pela prpria pessoa.
    Suas atitudes, suas crenas, sua maneira de olhar os fatos do dia-a-dia,  medida que vo se tornando importantes para a pessoa, vo sendo materializadas em 
seu mundo mental, criando formas que tm vida astral e conservam as emoes e idias que as caracterizam. Damos a isso o nome de formas-pensamentos. Todas as pessoas 
que vivem no mundo as tm alimentado e a maioria infelizmente tornou-se prisioneira delas.
    
    322
    
    So responsveis por muitos desacertos humanos, e depois da morte do corpo elas continuam a atormentar seu criador, que muitas vezes consome larga cota de tempo 
no umbral, lutando com elas, acreditando que sejam seres astrais, sem saber que est em suas mos modific-Ias, substituindo-as por outras mais otimistas, melhorando 
sua qualidade de vida.
    Por isso aconselhamos os exerccios de pensamentos positivos, os bons pensamentos e a crena no bem maior.
    Essa  a causa da loucura de Firmino. Ele criou, alimentou tantas iluses, e agora vive prisioneiro delas. J sabe a verdade, mas ainda no consegue fazer a 
mudana. O medo  um elemento destrutivo e muito forte que o impede de libertar-se.
    Devo esclarecer que essas formas esto materializadas no mundo astral e precisam ser desfeitas. S a prpria pessoa pode fazer isso. Claro que nossos terapeutas 
ajudam e nossos benfeitores espirituais cooperam mandando energias de sustentao e auxlio. Mas  s o que podem fazer.
    Cada um precisa aprender a lidar com as energias e descobrir como a vida funciona. Por isso ningum faz a parte que lhe cabe. Apenas ajudam, esperando que a 
prpria pessoa a faa. Est na hora de falarmos sobre isso. Agora tenho de ir. Se tiverem alguma pergunta, na prxima reunio tragam-na, que procuraremos responder. 
At breve.
    Marclio fez ligeira prece de agradecimento e encerrou a sesso. Enquanto tomavam seu copo com gua, os presentes comentavam com interesse os ensinamentos.
    Havia muita curiosidade. J tinham ouvido falar das formas-pensamentos, mas no sabiam que podiam ser to importantes e que influenciavam tanto a vida de cada 
um.
    Liana estava calada e pensativa. As palavras de Firmino haviam-na impressionado muito. Teria sido ele mesmo quem falara? Parecia-lhe to diferente do Firmino 
que ela conhecia, sempre ameaador e agressivo. Comentou com Marclio:
    - Foi o esprito do coronel Firmino que se comunicou mesmo? O senhor o viu?
    - Sim. Foi ele. Qual  a dvida?
    -  que ele veio to humilde, diferente. No se parece nada com o coronel que conhecemos.
    - Com o coronel que voc tem em sua mente - esclareceu Marclio. - Pense em tudo quanto ouviu esta noite. Ele mudou, mas voc ainda o v como ele era. Sua reao 
 esclarecedora. Fique atenta e vai perceber o que est acontecendo.
    Liana calou-se. Depois do caf com bolo costumeiro, despediram-se.
    
    323
    
    Enquanto Eullia e Norberto conversavam sobre as revelaes e os ensinamentos daquela noite, Liana seguiu com o marido para casa, calada. Alberto, por sua vez, 
impressionado com tudo que ouvira, no sentia vontade de comentar. Queria observar melhor, experimentar, saber o que havia de verdade em tudo aquilo.
    
    
    Captulo 23
    
    
    O tempo correu rpido e as frias da famlia estavam terminando. Encorajada pelo marido e por Eullia, Liana voltou a freqentar a manso. A princpio temerosa, 
mas notando que nada de novo acontecia, foi ficando mais  vontade.
    Havia tambm Norberto, cuja atitude para com ela se modificara inteiramente. Nunca mais o surpreendeu olhando-a como antigamente. Tratava-a com respeito e amizade, 
e ela notava com satisfao que ele estava se dedicando mais  esposa e aos filhos, interessando-se mais em participar da vida familiar. Contente, comentou com Alberto, 
que concordou:
    - Tenho observado tambm que Eullia mudou bastante. Eles conversam muito mais que antes. Esto mais unidos. Notou como ele a ouve com satisfao? Troca idias 
com ela at sobre seus negcios. Pelo que observei deles, no era assim antes.
    No mesmo. Sempre foi atencioso, cuidou da famlia, mas eu sentia que entre eles havia certa distncia. Talvez porque ele soubesse que Eullia se casou sem amor, 
apenas para obedecer aos pais.
    - Quero crer que muitas coisas aconteceram tambm por influncia do coronel Firmino.
    - Falando assim, d a impresso de que ns no fomos culpados.
    Isso no  verdade.
    - Cada um tem sua parcela de responsabilidade. Contudo vocs no entendiam nada sobre espiritualidade. Nem sequer acreditavam na possibilidade de serem influenciados 
por um esprito desencarnado. Isso fez com que ele pudesse envolv-los sem ser notado, o que o colocou em vantagem. Norberto sentia-se atrado por voc, Firmino 
aproveitava-se transferindo para ele sua paixo, deixando-o enlouquecido. Ele sentia e acreditava que esse sentimento fosse dele.
    - Acha mesmo que foi isso?
    - Acho. Ele mudou depois que Firmino foi afastado. Quer prova maior?
    - Tem razo. Agora percebo que o que houve entre ns foi uma grande iluso. Felizmente consegui reagir. Tenho pensado muito nisso. A cada dia que passa fico 
consciente de como somos diferentes. Ele no  o tipo de homem por quem eu me apaixonaria.
    
    325
    
    - E eu, tenho chance de ser esse homem?
    Liana abraou-o, beijando-o nos lbios com amor.
    - Voc  exatamente o meu tipo.
    Alberto apertou-a nos braos, sentindo que ela estava dizendo a verdade. A cada dia, mais eles notavam o quanto se queriam.
    No sbado eles foram cedo para a manso. Eullia queria passar o dia inteiro com eles.
    -  nosso ltimo fim de semana aqui. Segunda-feira voltamos para So Paulo. As aulas das crianas comearo logo. Temos de preparar tudo para a volta  escola 
- pedira Eullia.
    O dia estava bonito e eles passaram momentos agradveis. As crianas brincaram no jardim o dia inteiro. No fim da tarde, entraram contrariadas para tomar banho 
enquanto Hilda insistia para que se apressassem.
    Liana comentou contente:
    - Veja s, Eullia, Eurico est incansvel. Estou admirada. O dia inteiro correu, brincou sem se cansar. Comeu de tudo com apetite. Olhando-o agora, no d para 
acreditar que tenha sido to doente.
    - Todos os dias agradeo a Deus sua cura. De vez em quando ele ainda tenta me comover fingindo-se de doente. Olho seu rosto corado, e percebo logo sua inteno. 
No me deixo influenciar e ele acaba se traindo. Depois, Nico e Amelinha caoam tanto que ele acaba rindo e acaba o mimo. O jantar decorreu alegre. As crianas recolheram-se 
cedo. Pretendiam aproveitar ao mximo o domingo, j que era o ltimo dia de frias. Nico acomodou-se e dormiu logo. Acordou com Eurico sacudindo-o: - Nico! Nico! 
Acorde!
    Sonolento, ele balbuciou:
    - O que foi? O que aconteceu?
    - Ele voltou, Nico. Acorde. Mande-o ir embora.
    - Ele quem? O que foi?
    - O coronel Firmino.
    - De novo? Perguntou o que ele quer agora?
    - Eu? No. Sem voc no falo com ele.
    Nico sentou-se na cama:
    - Onde ele est?
    - Aqui. Olhe, nos ps de sua cama. Vou deitar com voc...
    Ele pulou na cama e cobriu a cabea com o lenol.
    - Deixe de ser medroso. Voc no disse que ele est mudado e que no sentia mais medo dele?
    - Eu disse, mas agora estou sentindo...
    
    326
    
    Nico olhou para os ps da cama e, embora no visse nada, disse srio: - Por que voc voltou? O que quer?
    Como Eurico no dissesse nada, Nico tornou:
    - Ento, Eurico, o que foi que ele respondeu?
    - Ele no disse nada. Est muito triste e abatido. Parece doente. - O senhor no est bem? Ns podemos ajudar em alguma coisa? - indagou Nico.
    - Ele pede para rezarmos por ele. Agora aquela senhora bonita chegou. Est do lado dele e sorri para mim.
    - Ns vamos rezar por voc, coronel Firmino. A senhora pode nos dizer alguma coisa?
    - Ela abraou o coronel com carinho e disse:
    - Precisamos da ajuda de vocs.
    - O que podemos fazer?
    - Dar um recado meu a Liana.
    - Pode falar.
    - Ela quer que voc escreva.
    Nico acendeu a luz do abajur, procurou papel e lpis, sentou-se na cama e descobriu a cabea de Eurico:
    - Voc disse que no tem medo dela.
    - Ela me deixa sentir muito bem. Parece que estou flutuando.
    Alm disso, tem um perfume agradvel. Est sentindo?
    Nico aspirou o ar e disse alegre:
    - Estou. Parece de jasmim.
    - Isso mesmo. Ela est sorrindo.  linda! Voc no est vendo? - No. Mas estou sentindo o perfume.
    - Escreva: "Querida Liana. Preciso muito de sua ajuda. Vou procur-Ia durante o sono para conversarmos. Tenho certeza de que juntas venceremos. Um beijo da amiga 
de sempre, Amlia".
    Eurico fez silncio por alguns instantes, depois continuou:
    - Ela est abraando voc. Puxa, como ela  linda! Seu rosto parece de porcelana. 
    Ele se calou e de repente comeou a chorar. Assustado, Nico abraou-o perguntando:
    - O que foi, Eurico? Por que est chorando?
    Ele no respondeu logo. Continuou soluando e Nico olhava-o preocupado. Quando ele se acalmou, disse:
    -  que ela me abraou, beijou a testa e eu senti uma emoo muito forte. No sei explicar. No consegui segurar.
    Nico respondeu comovido:
    
    327
    
    - Eu tambm senti. Parecia que eu estava flutuando, como voc disse. Nunca senti isso antes. Puxa, que mulher!
    -  mesmo. Ela desapareceu e levou o coronel. Precisamos contar para tia Liana. Que horas so?
    -  tarde. Passa da uma. Amanh entregamos o bilhete.  melhor irmos dormir.
    - Ainda me sinto flutuando. Acho que no vou conseguir dormir logo. Fiquei muito emocionado.
    - Eu tambm. Vamos ficar conversando. Quando vier o sono, voc vai para sua cama e pronto.
    - s vezes fico pensando: como ser a vida no outro mundo? 
    - O professor disse que h muitos mundos e cada pessoa vai para
    O lugar que precisa. Acho que o mundo onde vive essa mulher deve ser muito lindo, cheio de flores e perfumes. Se ela aparecer de novo, vamos perguntar como  
l. Ser que ela conta?
    - Acho que sim. Ela parece to boa. D vontade de ficar ao lado dela. - Mas voc estava com medo.
    - No era bem medo.  que eu comeo a tremer, sinto arrepios, no sei explicar. J o mundo do coronel deve ser triste. Ele parece to deprimido. Est acabado. 
Olhos tristes, rosto abatido. Queria que voc visse como ele est diferente.
    - Voc lembra que o professor explicou que quem morre vai viver no mundo que ele mesmo fez durante a vida? Se fez muitas coisas ruins, est triste, doente, assim 
ser o mundo em que ir viver. Se foi alegre, ficou no bem e viveu contente, viver em um mundo onde as pessoas tambm so assim.
    - Ainda bem que eu sarei. Vou me esforar para ser sempre alegre e ficar no bem.
    - Eu tambm.
    - Acha que vou conseguir? 
    - Tenho certeza. Principalmente se deixar de fingir de doente para enganar sua me. J pensou se a doena volta?
    - Deus me livre! Agora posso brincar, ir  escola como qualquer um. Nunca mais vou fingir de doente.
    Nico riu e considerou:
    - Veja bem o que est dizendo. Se esquecer, farei tudo para voc se lembrar.
    Na manh seguinte eles acordaram com Amelinha batendo na porta do quarto de Eurico:
    
    328
    
    - Abra a porta, Eurico.  tarde.
    Foi Nico quem acordou primeiro e ouviu. Eurico ainda estava em sua cama, dormindo.
    - Acorde, Eurico. Amelinha est chamando.
    Ele abriu os olhos e fechou-os novamente:
    - Estou com sono. Ontem custei a dormir.
    - Eu sei. E voc nem foi para sua cama. J pensou se a Dona Eullia souber? Trate de acordar e v para o seu quarto.
            Ele se levantou contrariado, e como Amelinha insistisse, batendo em sua porta, foi abrir:
            - O que voc quer cedo desse jeito?
            - Passa das nove. O dia est lindo. Hoje  nosso ltimo dia aqui. 
    Precisamos aproveitar. Depois, mame mandou chamar vocs dois. A mesa do caf no pode ficar posta o dia inteiro esperando.
            - Est bem... eu vou. Pode ir agora.
            Amelinha no foi. Ficou esperando at que ele estivesse pronto para descer. Nico entrou no quarto, dizendo:
    - No esquea o bilhete para a Liana.
            - Que bilhete? - indagou Amelinha.
    - Como voc  curiosa! Vai saber quando chegar a hora.
    - Foi um recado daquela mulher bonita que aparece com o esprito do coronel Firmino. Ela quer que entreguemos para Liana - esclareceu Nico.
            - Por que no me chamaram? Vocs ficaram conversando e no fiquei sabendo de nada!
            - No era com voc que ela queria falar. Vamos descer, que mame est esperando,
    - Vamos. Depois eu mostro a voc.
    Eles desceram e Eullia j os esperava.
    - Pensei que fossem se levantar mais cedo para aproveitar o dia. O sol est alto. Acho que ficaram conversando no quarto at tarde.
            - No, Dona.Eullia. Ns dormimos cedo. Estvamos cansados.  que no meio da noite recebemos visitas - respondeu Nico.
    Eullia olhou-os surpreendida:
    - Visitas? Como assim?
    - O coronel Firmino voltou - disse Eurico.
    - Por que no nos chamaram? Ele tentou algo contra vocs? Eles relataram o que havia acontecido e mostraram o bilhete que Nico escrevera para Liana.
    
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    Quando Liana e Alberto chegaram, eles j os esperavam no jardim para contar a novidade. Com mos trmulas, Liana apanhou o bilhete e leu. - Amlia!  esse o 
nome dela! Que estranho.
    - Voc se emocionou. Ela  sua conhecida? - indagou Alberto. - No. Mas ao ler esse bilhete senti que ela me  muito familiar. Parece-me haver retomado alguma 
coisa de minha vida, mas no sei o que .. - Tudo indica que seja sua amiga de outras vidas.
    - Ela  to linda! Quando ela conversar com voc, ver como ela . Alm disso, tem um perfume delicioso. Nico tambm sentiu disse Eurico.
    - Senti. Parecia de jasmim. Fiquei emocionado.
    - Ser que ela  uma santa? - indagou Amelinha. - Eu tambm queria ver!
    - Deve ser um esprito bom e iluminado - esclareceu Alberto. - Iluminada ela era -lembrou Eurico. - Em volta dela havia muita claridade e seus olhos eram brilhantes 
como estrelas. Nunca vi ningum assim.
    - Isso nos deixa felizes - tornou Alberto. - A proximidade de um ser como esse traz energias superiores que nos fortalecem e ajudam.
    Liana ouvia calada. Depois considerou:
    - Ela disse que vai me procurar durante o sono. Ser que vou me lembrar de nossa conversa quando acordar?
    - No sei. A maior parte das experincias que temos quando nosso esprito se desliga durante o sono se apagam de nossa conscincia quando retomamos o corpo fsico, 
porm ficam registradas em nosso inconsciente, de onde continuam nos influenciando.  comum pretender mos resolver algum assunto de certa forma e no dia seguinte 
acordar com uma idia completamente diferente da anterior.
    -Se ela vier mesmo conversar comigo, gostaria de estar consciente e me lembrar de tudo.
    - s vezes isso acontece. Vamos esperar para ver.
    As crianas foram brincar e eles entraram na casa onde Norberto e Eullia j os esperavam. Claro que a conversa girou em torno do bilhete de Amlia e de como 
seria possvel o encontro dela com Liana.
     tarde, quando o Dr. Marclio e Adlia chegaram para o ch de despedida com os amigos, foram logo informados do que acontecera. Com naturalidade ele comentou:
    - Vocs tm muita ajuda espiritual, Liana. Com essa proteo, tenho certeza de que vencero todos os problemas do passado.
    
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    - Gostaria de ter essa certeza - respondeu Liana. - H momentos em que me sinto to insegura.
    - s vezes voc no acredita na prpria fora e sente-se fraca. Essa  sua maior iluso. Por haver se enganado em algumas escolhas que fez em sua vida, julga-se 
errada e culpa-se. Da se ilude acreditando-se incapaz e fraca, o que no  verdade. Coloca-se na posio de vtima da prpria incapacidade e subestima suas qualidades 
reais. Vem o medo, a insegurana, a infelicidade.  preciso sair disso, Liana. A vida est escolhendo voc e dizendo que  hora de enfrentar seus medos. Ela no 
joga para perder. Sabe que voc  forte e capaz de vencer todos esses desafios. Por que no confia no que ela est lhe pedindo?
    - Ser que estou pronta para fazer isso? No estarei sendo provada para ver se consigo melhorar?
    - A vida no est testando voc. Ela sabe que  capaz. Quer apenas que voc perceba isso, o que s vai acontecer quando decidir enfrentar todas as coisas, guiando-se 
apenas pelo seu bom senso e pela sua confiana em Deus. Voc j possui conhecimento espiritual suficiente para viver melhor.
    - No penso assim. Faz to pouco tempo que estou estudando esse assunto!
    - No falo de conhecimento tcnico, nem do que se pode conhecer atravs dos livros e das experincias de outros, mas da sabedoria da alma. Voc j possui conhecimento 
do que  bom ou mau para voc. Sente quando est agindo bem ou no. Voc est to consciente da tica espiritual que qualquer deslize a incomoda terrivelmente. Isso 
demonstra o grau de lucidez que seu esprito j tem. Voc  completamente capaz de levar a bom termo toda a sua misso terrena, por mais difcil que ela lhe parea 
agora.
    - O senhor se refere ao caso do coronel Firmino?
    - Falo de um modo geral. No pretendo induzi-Ia a tomar nenhuma deciso. S desejo que tome conscincia de sua prpria fora e no se julgue menos do que .
    Norberto ouvia calado e recordava-se de como Liana fora mais forte do que ele naqueles momentos de desequilbrio que tinham vivido. Sentia horror s em pensar 
o que teria sido de suas vidas se ela houvesse aceitado fugir com ele. Fora a fora dela que os salvara. Embora ela tenha fraquejado, sua conscincia reta, seu bom 
senso fizeram-na recuar a tempo de evitar um mal maior.
    
    331
    
    Agora, havendo modificado sua forma de ver, estava convencido de que ela sempre estivera certa, e agradecia a Deus por isso. Ele era um homem que valorizava 
a famlia. Adorava os filhos. Queria ser respeitado por eles. Gostava de desfrutar da calma familiar. Odiava escndalos e situaes dbias. Alm disso, descobrira 
outras qualidades em Eullia e at no acreditava muito que ela houvesse se casado com ele sem amor.
    Ela era tmida. Fora educada com rigor, por isso encobria seus sentimentos. Sentia vergonha de mostr-Ios. Foi lhe ensinado que a mulher precisava manter-se 
controlada para no parecer vulgar e leviana.
    Olhou para ela, que, sentada ao lado de Liana, prestava ateno ao que o mdico e ela conversavam. Lbios entreabertos, olhos brilhantes, postura firme, rosto 
expressivo, toda a sua aparncia revelava que ela no era uma mulher fria.
    E se ele a provocasse? E se ele tentasse penetrar e conhecer as profundidades daquele corao? Sempre respeitara sua intimidade agindo de acordo com a postura 
dela. Mas agora se perguntava se isso fora bom. Ele precisava faz-Ia sentir o calor de um relacionamento mais verdadeiro, sem mscaras nem fingimentos.
    Ele era um homem ardente. Desde jovem aprendera que no trato com as mulheres precisava manter diferentes posturas, conforme a posio delas. Com a esposa no 
podia ser venal como com as amantes. Uma era a me dos filhos, a mulher de famlia. Com as outras ele poderia dar vazo a todas as fantasias amorosas.
    Entretanto, Norberto descobrira que o que o fazia feliz seria realizar com a mulher escolhida um relacionamento franco, sem papis sociais ou preconceitos. Nunca 
havia sido feliz levando vida dupla. Se por um lado com a esposa continha seus impulsos amorosos com receio de ofend-Ia, com as outras no se sentia bem. Quase 
sempre, depois de alguns encontros, acabava indiferente e entediado, com raiva de si mesmo.
    Depois da experincia com Liana, do sofrimento daquela desastrada paixo, havia decidido renunciar para sempre esse seu desejo secreto de uma vida regular e 
plena com uma mulher. Acreditara ser impossvel em uma sociedade falsa e to conturbada realizar esse sonho.
    Diante disso havia decidido viver para a famlia e aceitar os limites da relao ntima com a esposa. Mas o fato  que a descoberta do mundo espiritual, os acontecimentos 
que os envolveram, os aproximaram muito, tornando-os mais ntimos. Com isso descobriram um no outro qualidades e atitudes que no tinham observado antes. Passaram 
a sentir prazer em conversar, em estar juntos.
    
    332
    
    Para Norberto, Eullia havia se tornado uma nova mulher, mais natural e atraente. Haviam modificado a forma quase cerimoniosa com a qual se tratavam at na intimidade. 
Havia momentos em que ele chegava a esquecer como ela era antes e a abraava com prazer.
            Depois que todos se foram, havendo combinado que Liana e Alberto voltariam na segunda-feira para despedir-se, Norberto comentou:
            - Gostaria de poder ficar mais um pouco por aqui.
            - Eu tambm. Sentirei saudade de Liana, apesar de ela estar muito feliz com o marido e no precisar mais de mim.
            - Ela valoriza muito sua companhia.
            - Eu sei. Gostaria que ela fosse morar mais perto de ns. Mas parece que ambos gostam daqui e no pretendem voltar  capital.
            -  compreensvel. Isto aqui  um paraso. Depois, Alberto  um escritor. Pode viver em qualquer lugar.
    Depois de verificar se tudo estava fechado, Eullia perguntou: 
    - Voc quer alguma coisa antes de subir?
    - No, obrigado.
            Ele se levantou e ficou ao p da escada esperando. Quando ela se aproximou, ele passou o brao sobre seu ombro para subirem juntos. Eullia estremeceu 
e ele notou que seu rosto se ruborizou.
    Norberto no controlou a curiosidade e pensou: como seria Eullia sem o rgido controle de sempre? Que tipo de mulher se ocultaria atrs daquela postura habitual? 
Estava decidido a descobrir.
            Assim que entraram no quarto, Norberto fechou a porta e, aproximando-se dela, apanhou sua mo e puxou-a apertando-a de encontro ao peito.
    Ele notou que ela estava trmula e sua respirao agitada. Ela sentiu que ele estava diferente. Em seus olhos havia um brilho que ela nunca vira antes. Seu corao 
descompassou.
    Seu relacionamento ntimo com o marido sempre fora embaixo dos lenis, na escurido do quarto, e ela ficava o tempo todo esforando-se para controlar as emoes, 
preocupada em no o desagradar e no ser vulgar.
    Norberto procurou os lbios dela beijando-a com ardor vrias vezes. Depois, apertando-a de encontro ao peito, beijou com carinho todo o seu rosto, seu pescoo, 
como nunca fizeram antes.
    Eullia sentiu calor pelo corpo, enquanto uma emoo antes nunca sentida a invadia impedindo-a de raciocinar. S sabia que queria que ele continuasse a apert-Ia 
em seus braos e a beij-Ia.
    Sem pensar em mais nada, entregou-se  emoo.
    
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    Quando ela o apertou em seus braos tomada de paixo, Norberto sentiu que naquele momento ela estava se revelando, sem reservas, mostrando seus verdadeiros sentimentos 
de amor.
    Ento, inesperadamente ele foi tomado de deliciosa sensao. Ela era sua mulher e eles eram livres para amar. Entusiasmado, ele murmurou em seu ouvido:
    - Eullia, meu amor.  assim que sonhei ver voc.  assim que eu quero que seja em meus braos.
    lnebriada de felicidade, Eullia deixou-se conduzir para a cama, encantada com o carinho que ele demonstrava, cobrindo-a de beijos, despertando seus sonhos adormecidos 
e suas mais loucas fantasias de felicidade.
    Naquela noite, finalmente, os dois se conheceram intimamente e se encontraram.
    No dia seguinte, quando Liana e Alberto chegaram para as despedidas, notaram que eles estavam diferentes. Havia um brilho novo nos olhos de Eullia, e Norberto 
rodeava-a de pequenas atenes, o que no era de seu feitio.
    Vendo-se a ss com Eullia enquanto ela arrumava as malas no quarto, Liana comentou:
    - Voc hoje est diferente. O que foi?
    - Nada. Est tudo bem.
    - H um brilho novo em seus olhos. No sei o que , mas voc est radiosa. Est contente porque vai nos deixar?
    - No diga isso nem de brincadeira. Sabe que eu gostaria que vocs fossem morar bem do nosso lado. Vamos sentir saudade, isso sim.
    - Eu tambm. Adoro essas crianas. Nunca vi ningum como eles.
    Mas, se no  a viagem de volta que a deixou alegre, o que ?
    Eullia sentou-se na cama e deu profundo suspiro. Vendo que Liana a olhava curiosa, esclareceu:
    - Para voc posso contar. Norberto ontem estava particularmente carinhoso. Nunca o vi assim. Vou confessar uma coisa. Eu amo meu marido. Amo muito. Agora entendo 
por que voc saiu de casa para casar com Alberto. Se sentiu o que eu senti esta noite, no dava para segurar.
    Liana sorriu com satisfao. Sentia-se aliviada em saber que Norberto finalmente se dera conta do amor que sentia pela esposa. Seu pesadelo havia finalmente 
acabado para sempre.
    - No h nada que se compare a uma noite plena de amor. Percebi logo ao chegar que Vocs estavam iluminados.
    - Eu ouvia falar de amor, imaginava que fosse fantasia. Mas eu senti a fora desse sentimento e vi que ele tambm sentia. Foi maravilhoso. Ele me parece outro 
homem.
    
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    - E voc  outra mulher. Mais humana, mais experiente. Que Deus a conserve sempre feliz como hoje.
    - E vocs tambm. Que sejam sempre felizes como at agora.
    Norberto estava chamando e perguntando se podia mandar apanhar as malas. Eullia apressou-se a responder.
    As crianas faziam mil recomendaes ao caseiro para cuidar dos passarinhos, no lhes deixando faltar gua com acar que eles se habituaram a procurar no caramancho 
e comida para que se fartassem.
    Chegou a hora das despedidas. Abraando a irm, Eullia tinha lgrimas nos olhos quando disse baixinho a seu ouvido:
    - Vou sentir sua falta. Voc me ajudou a perceber muitas coisas e a aprender a ser feliz sem medo. Sua coragem de defender seu amor por Alberto impressionou-me 
muito, confesso.
    - Tambm sentirei saudade. Desejo que seja sempre feliz. No tenha medo de amar, de mostrar seus sentimentos. Vocs se amam. Aproveite as alegrias do amor correspondido 
- murmurou Liana emocionada.
    Norberto aproximou-se dela, abraando-a e murmurando:
    - Obrigado, Liana. Voc me ajudou a encontrar a verdadeira felicidade. Sempre lhe serei grato. Que Deus a abenoe.
    Ela no respondeu. A emoo era grande e no encontrou palavras. Quando os carros sumiram na curva da rua, Alberto abraou-a com carinho.
    - Voc se emocionou. Vamos sentir falta deles.
    - Estou feliz. Finalmente eles compreenderam que se amam e esto felizes. Agora posso ficar em paz.
    - Eu notei que eles estavam diferentes. Norberto estava mais falante, seus olhos brilhavam e estavam sempre procurando por Eullia. Voc est certa. Ele descobriu 
seu amor pela esposa e ela correspondeu. Que bom.
    - Apesar de ter percebido que o interesse dele por mim havia terminado, de vez em quando eu ainda me sentia culpada pensando que por minha causa, por haver despertado 
essa louca paixo no corao dele, eu havia roubado algo de minha irm.. Hoje, ao despedir-se, ele murmurou palavras a meu ouvido que me devolveram a paz.
    - O que ele disse?
    - Agradeceu e abenoou-me. Disse que eu o ajudei a encontrar a verdadeira felicidade. Eu compreendi. Senti que ele percebeu a loucura que estava cometendo quando 
quis deixar a famlia e fugir comigo. Como eu o repudiei com firmeza, ele agora percebe o quanto foi boa minha atitude. Ele estava descontrolado. Eu consegui colocar 
cada coisa em seu verdadeiro lugar. Eles esto bem, graas a Deus.
    
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    - A Deus e a voc. Ele est certo. Voc, apesar de perturbada, teve o bom senso de reagir. Hoje ele sabe que, se continua a ter uma vida familiar tranqila, 
foi graas a voc.
    - E  ajuda espiritual, no se esquea.
    - Nunca vou esquecer. Sem falar que eu fui o maior beneficiado.
    Se voc no tivesse vivido aquela situao em casa, talvez nunca viesse a aceitar-me para marido.
    Ela riu com gosto.
    - Voc teria conseguido de qualquer jeito. Ns estvamos destinados um para o outro. No foi o que os espritos disseram?
    - Ainda bem. O que seria de minha vida sem voc?
    Abraados e alegres, eles foram para o carro conversando com animao. O momento era de calma e de paz, eles queriam aproveitar.
    
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    Captulo 24
    
    
    Liana acordou indisposta.
    - O que foi? - indagou Alberto, preocupado com a palidez de seu rosto.
    - No sei. Acho que comi alguma coisa que me fez mal.
    - Melhor irmos ver o Dr. Marclio. Voc comeu o mesmo que eu.
    No havia nada pesado.
    - Isso no  nada. Vai passar logo.
    Ela se levantou e foi ao banheiro lavar-se. Era o primeiro domingo de maio. A manh estava fresca, agradvel. Quando ela se sentou  mesa para o caf, Alberto 
notou que as cores haviam voltado a seu rosto e sorriu.
    - Sente-se melhor?
    - Sim.
    - Em todo caso, falaremos com o Dr. Marclio.
    - No  preciso. Estou muito bem. O cheiro do po fresco despertou meu apetite.
    Comeu com disposio, porm nos dias que se seguiram ela acordava sentindo-se enjoada. Alberto convenceu-a a procurar o mdico. Ele a examinou cuidadosamente 
e indagou:
    - Acorda indisposta, mas logo depois passa?
    - .
    - Voc est muito bem de sade. Mas preciso fazer um exame. - Exame? - estranhou ela.
    - Sim. Acho que est grvida.
    Liana levantou-se assustada:
    - Grvida? Acho que no. Minha menstruao no est atrasada. Marclio sorriu e respondeu:
    - H mulheres muito sensveis que podem sentir a gravidez no momento da fertilizao do vulo.
    Liana olhou para Alberto indecisa. Sempre desejara ter filhos, mas, depois que soubera do pedido do coronel Firmino para reencarnar atravs dela, evitara pensar 
no assunto.
    Alberto abraou-a emocionado. Ele no tivera filhos do primeiro casamento.
    
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    O mdico olhou-os com satisfao e esclareceu:
    - Compreendo a emoo de vocs. J presenciei muitos nascimentos, mas o milagre da vida sempre me emociona. Voc me parece preocupada. No est feliz?
    - Sempre desejei ser me. Contudo, nestas circunstncias, sinto receio.
    - Voc est muito bem de sade e na idade boa para ser me. Do que tem medo?
    Ela hesitou um pouco e depois respondeu:
    - Do coronel Firmino. Ser que  ele que vai nascer?
    -  cedo para saber - disse o mdico.
    - No deve preocupar-se com isso, Liana. Deus sempre faz tudo certo - interveio Alberto.
    - Bem, no pensei que fosse acontecer assim, de repente. Os espritos disseram que ele s nasceria se eu o aceitasse. Nunca sonhei com ele, no me recordo de 
havermos conversado e de haver concordado em ser sua me.
    - Nesse caso, pode no ser o esprito dele que vai nascer. No acha, Dr. Marclio?
    - Pode ser. Entretanto, o mais importante  reconhecer que a vida no erra. Se ela programou esse nascimento, tudo est certo e voc no deve preocupar-se. Vamos 
fazer o exame e confirmar a gravidez. Depois,  cuidar-se bem e esperar o beb com alegria. Isso  o que importa agora. No caminho de volta para casa, Alberto no 
escondia o entusiasmo.
    Vendo sua alegria, Liana animou-se.
    - Vou telefonar para Eullia. Ela ser a primeira a saber.
    - Estou pensando na casa. Vamos precisar de mais um quarto. O que acha de procurarmos uma maior?
    - No sei. Gosto tanto de nossa casa... Vamos esperar um pouco mais para decidir.
    Eullia vibrou com a notcia!
    - Que maravilha! Como se sente?
    - Por enquanto bem. Um pouco enjoada de vez em quando. -  natural. Meu primeiro sobrinho! Fao questo de comprar um enxoval completo para ele. O mais lindo 
que encontrar.
    - Ainda  muito cedo, Eullia.
    - Qual nada. O tempo passa depressa.
    - Alberto quer procurar uma casa maior, mas eu gosto tanto da nossa que ainda no decidi.
    
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    - Voc vai precisar de companhia. Eu gostaria de estar a seu lado agora. Por que no voltam a morar aqui?
    - Ns gostamos da calma do interior. No nos habituaramos mais com a cidade.
    - Nesse caso, por que no se mudam para a manso?
    Liana teve um sobressalto:
    - Que idia, Eullia...
    - Por que no?  uma casa linda, com conforto. Mesmo que morem l, h espao para nos acolher quando resolvermos passar frias a. Alm de economizarem o aluguel, 
ficariam mais bem instalados.
    - Obrigada, Eullia, mas no podemos aceitar. O que Norberto iria dizer?
    - Ficaria muito contente. Em nossas conversas, muitas vezes lamentamos que uma casa to boa, to bonita, permanea fechada tanto tempo. Vocs cuidariam bem de 
tudo e nos fariam muito felizes.
    - Agradeo, mas voc sabe: eu no gostaria de voltar a morar l, por causa do esprito do coronel Firmino. J pensou se ele me aparecesse de novo?
    - Qual nada! Ele j se foi. A casa agora est livre. Converse com Alberto. Prometa pensar no assunto.
    - Est bem. Direi a ele. Gosto da casa,  linda, mas no me sinto com coragem de morar l de novo.
    Assim que desligou o telefone, Liana comentou com Alberto, que disse apenas:
    - A casa  tima, mas, se voc se sente assim, no vamos aceitar. Quero que se sinta feliz, alegre. Vamos escrever uma carta a eles agradecendo e pronto.
    No falaram mais no assunto. Nos dias que se seguiram, Liana fez todos os exames necessrios e o Dr. Marclio concluiu satisfeito que ela estava muito bem.
    No mesmo dia em que soube da novidade, Eullia participou s crianas a chegada do sobrinho.
    -  o esprito do coronel Firmino - afirmou Eurico.
    - Como  que voc sabe? - interveio Amelinha curiosa.
    - Isso mesmo - comentou Eullia. - Ningum sabe. A natureza tem seus segredos.
    - Claro que  ele. Estava louco para nascer. Pediu muito, chorou.
    Agora conseguiu.
    
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    - Isso  voc que est concluindo - disse Eullia. - Liana no falou nada a esse respeito. Portanto  melhor no ficar afirmando isso. Ela pode ficar nervosa 
se achar que  o esprito dele.
    - Quem mais pode ser? Ele  que estava querendo... - lembrou Eurico.
    - Nem tudo que ele quer pode ter. No lugar onde ele vive agora h disciplina. Para nascer, ele precisaria de permisso superior.
    - Acha que ele no conseguiu? - perguntou Nico com interesse. 
     No sei.  provvel que no. Em todo caso, no acho prudente desde j acreditar que seja ele.
    - Mas e se for? - teimou Eurico.
    - Se for, um dia saberemos. Tenho estudado sobre a reencarnao e aprendido que no devemos fantasiar sobre o assunto. O esprito que nasce esquece o passado 
e isso evita problemas, ajuda seu progresso. No quero que falem com Liana sobre isso. Ela pode ficar nervosa, e no  bom para sua sade.
    Eles prometeram no comentar com a tia, mas quando se viram sozinhos Eurico no se conformou:
    - Tenho certeza de que  ele.
    - Pensando bem, voc pode ter razo - concordou Nico.
    - E se for ele, o que faremos? - volveu Amelinha.
    - Nada, ora. O que podemos fazer? - respondeu Eurico.
    - Se for ele, deve estar do lado dela e voc pode ver -lembrou Nico. - . Mas eu no quero ver nada. Eu posso me assustar e dar com a lngua nos dentes. J pensou 
se tia Liana passar mal por causa disso? - A no ser que ela j saiba - aduziu Nico.
    - Pelo que mame disse, no. Depois, ela no o queria, lembra? tornou Eurico.
    - Ela pode ter mudado de idia. Ter visto como ele est diferente - sugeriu Nico.
    - Mame disse que iremos at l no fim da outra semana. Poderemos perguntar a ela - disse Amelinha.
    - Eu  que no vou perguntar nada - garantiu Eurico.- Logo agora que tudo est to sossegado.
    - Voc tem dormido bem. No me chamou mais durante a noite.
    - Eles me deixaram em paz. No quero que voltem. Mame tem razo. Vamos esquecer esta histria.
    - Se for ele, vai aparecer de novo mesmo - concordou Nico.
    - Ser que ele vai aparecer como nen? Isto , se ele for nascer? - perguntou Amelinha.
    
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    - O professor disse que ele pode ser visto como ele era ou como ele vai ser. Depende.
    - Chi!!! Nico, voc agora est confundindo minha cabea - tornou Amelinha. - Como pode ser isso?
    - Ora, na outra dimenso o tempo  diferente. Quem v os espritos est olhando para a outra dimenso. Pode ver o que j aconteceu, o que est acontecendo e 
o que vai acontecer.
    -  isso mesmo - concordou Eurico. - J aconteceu comigo.
    Uma vez eu vi tia Liana como ela era quando foi esposa do coronel. 
    - Como  isso? - indagou Amelinha.
    - Ora, eu olhava para ela, e ela estava com outra cara. Parecia outra pessoa. Uma vez olhei para Nico quando ele dormiu do meu lado, e no era ele. Era um moo 
bonito, de cabelos castanhos, e que, engraado, no estava dormindo. Olhou para mim e sorriu. Quase morri de medo! - Como sabe que era eu? Podia ser um esprito 
que estivesse do meu lado.
    - No. Naquela hora eu sabia que era voc. No d para explicar. - Puxa! E eu? Voc nunca viu como eu era na outra encarnao? - Vi. Voc era fela e faladeira. 
Como agora. Sempre dando palpites em tudo.
    -  mentira! No acredito. Voc est querendo debochar de mim - reclamou ela chorosa.
    - Ele no viu voc - disse Nico com voz conciliadora. - Tenho certeza que voc foi uma moa muito bonita e agradvel.
    Eurico olhou para eles e disse srio:
    - Voc deve saber mesmo. Naquele tempo andava sempre agarrado a ela!
    Os dois olharam-no admirados.
    - Por que est dizendo isso? - perguntou Nico.
    - No sei. De repente pareceu-me v-los adultos e abraados. - Voc sabe que s vezes eu tambm me sinto assim, moo e ao lado de Amelinha? Ser que j nos conhecemos 
de outra vida?
    - Acho que de tanto andar juntos acabamos por imaginar coisas. -  mesmo.  melhor deixar esse assunto de lado. No vamos poder saber ao certo mesmo - concluiu 
Nico, e os outros dois concordaram.
    Quinze dias depois, eles foram passar o fim de semana na manso. Eullia estava ansiosa para ver a irm. Comprara j algumas coisas para o enxoval do beb e 
no falava em outra coisa.
    
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    Norberto, ao saber a notcia, ficara pensativo. Sentiu receio de descobrir que havia dentro de si um pouco do antigo sentimento que nutrira pela cunhada. Mais 
tarde, sozinho no quarto, resolveu analisar melhor o que ia dentro de seu corao.
    Ele e Eullia estavam vivendo uma vida feliz. Ela a cada dia revelava-se a companheira perfeita. Tendo descoberto o amor, tornara-se ardente, apaixonada, e Norberto 
sentia que a amava mais a cada dia.
    Era com ela que ele sentia mais afinidade. Analisando melhor seus sentimentos, ele se sentiu aliviado, e todo o receio desapareceu. A gravidez de Liana no despertara 
nele nenhum cime ou desagrado. Ao contrrio, sentia-se alegre, desejava que tanto ela como Alberto encontrassem a felicidade, formando uma famlia como a que ele 
possua.
    Foi, pois, com disposio e prazer que participou da alegria de Eullia, ouvindo-a discorrer sobre o que comprara para presentear o futuro sobrinho, elogiando 
seu bom gosto.
            Pouco depois de chegarem  manso, Liana e Alberto apareceram para abra-Ios. O ambiente estava alegre e eles conversavam animadamente.
    As crianas estavam entusiasmadas com as roupinhas do beb que Eullia levara e faziam perguntas querendo saber quando ele chegaria, se ele iria dormir no quarto 
do casal, como seria o bero.
            Estavam tomando o caf da tarde quando Maria informou Nico que seu irmo o procurava, muito agitado. Nico atendeu-o imediatamente:
            - O que foi, Z?
            - Ainda bem que voc veio! O pai teve um ataque e a me mandou chamar voc. Est muito nervosa.
    - O pai? O que  que ele tem?  melhor chamar o Dr. Marclio. - Ele est l agora. Acho melhor voc ir comigo l.
    - Eu vou. Espere um pouco.
    - Eu vou com voc - disse Eurico, que ouvira tudo.
    - Eu tambm quero ir - ajuntou Amelinha.
    - Sua me no vai deixar. Vou falar com ela.
    Nico foi at a sala acompanhado dos outros dois.
    - O que foi, Nico? - indagou Eullia.
    - O Z veio me chamar. Meu pai sofreu um ataque e o Dr. Marclio est l. Preciso ir.
    - Eu vou com ele! - decidiu Eurico.
    - Eu tambm - tornou Amelinha.
    - No  preciso. O mdico est cuidando dele. Pode ser que j esteja bem.
    
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    - Vou mandar o motorista lev-lo para ir mais rpido - determinou Norberto.
    - Obrigado.
    - Vocs dois ficam aqui - resolveu Eullia. - Nico vai sozinho.
    O Dr. Marclio est l cuidando. Em todo caso, Nico, pode contar com nossa ajuda. Se precisar, telefone.
    Depois que os dois irmos saram, Alberto considerou:
    - Fiquei com vontade de ir com eles.
    - Podemos passar l quando sairmos - sugeriu Liana.
    - Faremos isso.
    Ao passarem pela casa de Ernestina, viram o Dr. Marclio chegando tambm. Ficaram sabendo que Jacinto havia sofrido um derrame, cuja extenso s um exame especializado 
poderia informar. O Dr. Marclio medicou-o e ficou l observando a evoluo da doena. Depois que ele deu ligeiro sinal de melhora, o mdico foi at sua casa apanhar 
alguns medicamentos e voltou para reexamin-lo.
    Nico estava conversando com os irmos na cozinha e aproximou-se de Alberto e Liana quando entraram na sala.
    - O Dr. Marclio est tratando dele. Vai ficar bom - disse Liana notando o ar preocupado do menino.
    - Ele  um grande mdico. Vamos confiar - tornou Alberto. - Eu sei disso - respondeu Nico
    - Seus irmos esto assustados e voc inquieto, angustiado. Acalme-se. Sua me vai precisar de sua ajuda. Como fazer isso se no se acalmar? - lembrou Liana.
    - Minha me tinha medo que um dia isso fosse acontecer.
    - Como assim, Nico? - perguntou Liana.
    Ernestina aproximou-se e pediu:
    - Nico, vai com as crianas conversar l fora. - Enquanto o menino obedecia saindo com os irmos, ela se voltou para o casal e continuou:- Vamos sentar, por 
favor.
    - A senhora est ocupada, no queremos incomodar - respondeu Liana.
    - S viemos saber como ele est e dizer que podem contar com nossa ajuda em tudo que precisar - completou Alberto.        
    - Obrigada. Sei que so nossos amigos. O doutor est com o Jacinto e pediu que eu sasse.  at bom nessa hora ter com quem conversar.
    - Sentem, por favor.
     Eles se sentaram e Alberto perguntou:
    
    343
    
    - Nico disse que a senhora previu que seu marido iria adoecer. Por qu? Ele j havia tido alguns sintomas?
    Ela fez um gesto vago e respondeu:
    - No. Mas eu deduzi que ia acabar assim Veja: ele sempre foi muito forte e saudvel. Tinha apetite, bons braos, pernas geis, mas nunca os usou bem. No  
pessoa m, mas nunca foi disposto pra trabalhar. Vivia se encostando, sentado, tudo pra ele era trabalhoso. Ento eu pensei: Deus d bons braos e pernas, sade, 
fora pra gente usar. A vida  muito prtica e no gosta de coisas inteis. Tudo na natureza se movimenta, trabalha, produz. Pode ver: a gua parada apodrece e cria 
bicho; se voc pe gesso na perna ou no brao, quando tira, no pode movimentar como antes. Leva tempo, precisa exerccio pra voltar a ficar bom. Tudo  assim. A 
vida tem sua linguagem e, quando observamos, podemos sentir o que ela vai fazer com as pessoas que no se importam em usar os bens que ela lhes d. Com o Jacinto 
eu sabia que ele no ia ter bons resultados dessa sua atitude. O Dr. Marclio est l. O Jacinto acordou, mas no est conseguindo mexer o lado direito do corpo. 
O brao e a perna esto paralisados.
    - Mas hoje em dia a medicina est muito adiantada. O Dr. Marclio  um mdico excelente. Tenho certeza de que o Sr. Jacinto aos poucos vai melhorar - interveio 
Liana.
    - Com a ajuda de Deus, e eu desejo isso. Mas no fundo do meu corao eu sinto que vai ser difcil. Ele sempre gostou de viver parado, a vida est dando a ele 
o remdio que ele sempre pediu.
    Ernestina falava com naturalidade e Alberto olhou admirado para Liana, que comovida abraou Ernestina, dizendo:
    - Vamos esperar que ele se recupere, porque pode ser justo para ele, mas no o ser para a senhora, que j luta com tanto trabalho e ter agora de ficar cuidando 
dele.
    - Estou pronta pra fazer o que puder. Ele  meu marido. Tem seus defeitos assim como eu os meus, mas, se ele no se recuperar e eu precisar ajud-lo, farei de 
corao. Ele  o pai dos meus filhos e o meu companheiro.
    O Dr. Marclio saiu do quarto e Ernestina voltou-se para ele:
    - Como ele est, doutor?
    - Na mesma. Amanh vou conseguir uma ambulncia para lev-lo ao hospital em Ribeiro Preto para fazer alguns exames. Depois poderei falar melhor sobre o caso.
    - Vou ficar ao lado dele.
    
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    - J dei o remdio e ele vai dormir um pouco. Vou explicar-lhe como dar os medicamentos. Venha.
    Eles foram para o quarto e Alberto comentou:
    - Que mulher extraordinria!
    -  admirvel. Acho que Nico vai querer passar a noite aqui a fim de confort-la.
            -  possvel. Vamos esperar o Dr. Marclio. Quero me informar melhor sobre o caso.
    Quando o mdico voltou, eles se despediram e saram juntos. Nico pediu a Liana que telefonasse para Eullia e dissesse que ele iria ficar com a famlia naquela 
noite.
            Uma vez l fora, Alberto conversou com Marclio sobre o estado de Jacinto.
            - Sua presso arterial est descompassada. O processo ainda no se estabilizou. No se pode prever como vai reagir.
    - O derrame pode repetir-se? - indagou Alberto.
    - Esse  meu receio.
    - Nesse caso ento seria melhor intern-lo imediatamente?
    - A medicao que ele tomaria no hospital, j lhe apliquei. Remov-lo nesse estado pode deix-lo mais assustado do que j est e provocar exatamente o que desejo 
evitar. Amanh faremos a internao com calma, sem nenhum prejuzo para ele e a famlia.
    - Ns desejamos ajudar para que ele tenha todo o atendimento necessrio. Norberto tambm quer colaborar. Portanto, informe-nos o montante das despesas.
    - Deixe comigo. Nada faltar a ele, pode ter certeza. Quanto s despesas, depois falaremos. De minha parte tudo farei para que ele seja bem atendido.
            Ao chegarem em casa, Liana ligou para Eullia e informou-a sobre a doena de Jacinto e finalizou:
    - Nico pediu-me para avis-la que vai ficar esta noite com a famlia. Quer confortar a me e ajud-la. Se tudo correr bem, amanh ele volta.
    - Est bem. S espero que ele no queira ficar aqui mais tempo. Amanh teremos de voltar para So Paulo. Ele no pode perder aula. Alm disso, se ele ficar, 
Eurico vai me dar trabalho. Nunca vi coisa igual. Eles no se largam. Os trs. Aonde um vai, os outros dois vo.
    
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    -  verdade. Nico  muito amoroso e preocupado com a me, mas ela tem bom senso. No vai permitir que ele se prejudique por causa da doena do pai.  uma mulher 
prtica e inteligente. Olhe, amanh o Dr. Marclio vai levar Jacinto a Ribeiro Preto para fazer alguns exames. Tenho certeza de que Ernestina vai convencer Nico 
a voltar com vocs para So Paulo.
    - Espero que sim. Esse menino j faz parte de nossa famlia. s vezes chego a esquecer que ele no  nosso filho. At Norberto costuma conversar com Nico sobre 
os assuntos de famlia e muitas vezes j o vi fazer as coisas exatamente como ele sugeriu. No  surpreendente?
    - Se fosse com outro menino, eu diria que . Mas Nico  um menino especial. Sempre percebi isso.  um lder natural. Os outros dois tambm acabam fazendo o que 
ele diz. Ainda bem que ele os influencia para melhor. Por isso vocs o estimam.
    - De fato. Se depender de ns, ele ficar conosco para sempre. Liana desligou o telefone e comentou com o marido:
    - Decididamente Nico j conquistou toda a famlia. Eullia est com medo de que ele deseje ficar mais tempo com os pais.
    - A me no vai permitir. Ela sabe o que quer.
    Liana sorriu e meneou a cabea, concordando. Estava se preparando para deitar quando disse:
    - Sabe, aquela idia de ir morar na manso no  to disparatada assim. Hoje, quando estava l, observei como aquela casa  bonita. D gosto ver.
    -  verdade. Por mim, no tenho objeo. Voc  que no gosta de l.
    - No sei onde eu estava com a cabea quando disse isso. Por causa de uma bobagem eu estou me privando de ir viver em um lugar espaoso e bonito como aquele. 
Afinal, o coronel j foi embora e nunca mais voltar. No foi isso que o Dr. Marclio disse?
    Alberto, apesar de surpreso, respondeu:
    - Foi.
    - H um quarto que pode ser muito bem adaptado para nosso beb.
    Fica logo ao lado do quarto de hspedes, que seria nosso se nos mudssemos para l.
    - Pelo jeito voc esteve pensando nisso.
    - . Hoje me senti bem naquela casa. Acho que as ms influncias foram embora.
    - Ainda bem. Finalmente voc se sente livre. Isso  o que importa. s sete da manh seguinte, a ambulncia chegou para buscar Jacinto, e Ernestina queria acompanhar 
o marido.
    
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    Vou ver se a Dona Ana pode tomar conta das crianas at eu voltar.
    - Pode ir, me. Eu fico aqui com eles.
    - Voc precisa voltar para a manso, Nico. Dona Eullia est esperando.
    - No agora. Voc vai e eu fico com eles. A Dona Ana tem muitos filhos e o marido dela  abusado, vai ficar brigando com ela. Deixa que eu fico.
    - Est bem. No sei quanto tempo seu pai vai ficar l. Mas, se ele estiver bem, eu volto e voc poder ir.
    - Eu quero ficar com voc. Sei que vai precisar de mim. Ernestina passou a mo de leve na cabea do filho:
    - Nada disso. Acha que no sou suficiente para tomar conta da minha famlia? Voc no pode perder aula. Seu pai est bem assistido. O Dr. Marclio vai fazer 
tudo, que puder por ele. Depois, tem o professor Alberto. Ele tambm vai nos ajudar.
    -  meu pai,  minha famlia. Eu  que tenho que ficar.
    - Vamos fazer os exames e seu pai vai ficar bem. Voc vai poder voltar pra So Paulo.
    - E se ele piorar e eu estiver longe?
    - Se ele piorar e eu precisar de voc, telefono chamando.
    - Promete?
    - Prometo. Agora tenho que ir. A ambulncia j vai sair. Depois que eles se foram, Nico chamou Jos.
    - Senta a. Precisamos conversar.
    - Acha que o pai vai morrer?
    - No sei. Mas voc  o filho mais velho. Se o pai est doente,  voc quem tem que cuidar da famlia.
    - Eu?! A me nunca me d ouvidos. Ela s fala no queridinho dela, que  voc. Agora que as coisas esto complicando, eu  que tenho que pagar o pato?
    Nico levantou-se e aproximando-se do irmo olhou-o firme nos olhos e disse srio:
    - Voc j fez treze anos. O que quer da vida? Acha que vai levar tudo assim, jogando bola, sem estudar nem trabalhar? Est na hora de comear a ajudar a me 
e a sua famlia. Viu o que aconteceu com o pai?
    - Vi. Mas no foi por minha causa.
    - No? Eu ouvi a me falando que o pai ficou doente porque vivia muito parado.
    
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    - Isso  bobagem. Ele teve um derrame.
    - Mas ficou sem poder mexer o brao e a perna. Se no melhorar, no vai mais poder andar. J pensou nisso?
    Jos baixou a cabea e no respondeu, Nico continuou:
    - A me est certa. Se voc observar, tudo se movimenta na natureza. E  isso que garante a vida. A gua corre para o rio, o rio corre para o mar, o sol nasce 
e se pe, at a Terra gira em volta do sol. O vento movimenta as rvores, tudo se move. Quem fica parado emperra. J pensou se o sol resolvesse parar e no voltar 
no outro dia? Se as guas no corressem para os rios e o sol, parado no cu, secasse tudo? Em pouco tempo todos ns morreramos. A vida se sustenta porque cada coisa, 
cada ser vivo, cada pessoa faz a sua parte. Voc recebeu de Deus o dom da vida, precisa fazer a sua parte, contribuir para que a vida seja melhor a cada dia e tudo 
continue existindo. Esse  o preo que voc tem que pagar por estar vivo. Jos olhou o irmo admirado. Nunca havia pensado nisso. No se deu por achado:
    - Eu no pedi pra viver. Deus me fez nascer porque quis.
    - Mas voc nasceu, est vivo e com sade. O que voc fez em favor da vida?
    - Que idia! No preciso fazer nada. Eu quero viver, fazer o que eu gosto. No sou como voc, que vive puxando o saco dos outros.
    - Mas enquanto eu estou estudando, me preparando para viver melhor, voc est a cada dia mais preguioso. No ajuda a me, no estuda, no trabalha. Como pensa 
que ser a sua vida quando crescer?
    - Quando chegar a hora vou pensar nisso. Agora sou criana.
    - Quando for grande, vai ter que pegar o cabo de enxada se quiser comer. Por enquanto a me trabalha e voc tem comida todos os dias. Mas, quando ela ficar velha 
e voc tiver que comprar a prpria comida, como vai fazer isso?
    - Voc sempre foi o queridinho dela. Eu sempre fui rejeitado. Voc aparece aqui vestido como gente rica, mora na cidade, anda de carro, e ainda se d o luxo 
de me chamar de preguioso?
    Nico colocou as mos nos ombros do irmo e sacudiu-o com fora: - Viu o que est fazendo com voc? Voc nunca foi rejeitado por ningum. O que a me me ensinou 
tambm ensinou a voc. S que eu ouvi os conselhos dela, e voc no. No foi ela quem rejeitou voc, foi voc quem rejeitou o amor e os conselhos dela. Agora fica 
dando uma de coitado, mas eu sei que voc no  nada disso, que  um menino inteligente, que tem sade, que se quisesse poderia ser muito mais do que eu e conseguir 
tudo que precisasse para progredir na vida. Mas prefere dar-se ares de superioridade, de revoltado, no obedece  me, no ajuda, no faz nada. Acha que est se 
beneficiando com isso? Acha que est lucrando? No, voc est se enterrando, se acabando, se tornando um vagabundo.  isso que quer?
    
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    Jos sacudiu o corpo e escapou dele, dizendo:
    - Me deixa em paz. Voc no manda em mim. O pai fala que eu sou criana para pensar na vida, que quem  esperto no precisa se matar de trabalhar pra viver.
    - Voc d ouvidos ao que ele fala e vai acabar como ele, vivendo s custas da mulher e entravado em uma cama.  isso que quer?
    - No fica agourando. Voc no tem nada com a minha vida. Dizendo isso, saiu. Nilce, que observava da porta, aproximou-se: - Voc est perdendo tempo. A me 
d tantos conselhos a ele, mas nunca ouve. Esse no tem jeito mesmo.
    - Apesar de tudo, ele  um menino inteligente. Um dia vai compreender e mudar.
    - A me tambm fala isso. Mas eu duvido. Vem tomar caf, Nico.
    Eu fiz e tem bolo de milho. O Jaime e a Neusinha j comeram.
    - E o Z?
    - Deve estar no quarto. Vou chamar.
    Pouco depois ela voltou admirada.
    - Ele saiu. No est em nenhum lugar. Ele  sempre o primeiro a tomar caf. Saiu sem comer. Aonde ter ido?
    - Foi esfriar a cabea, mas volta logo, ainda mais que no tomou caf. Vamos ns.
    Abraando a irm, Nico conduziu-a para a cozinha e sentou-se esperando que ela colocasse o bule na mesa. Felizmente Nilce estava crescida e tinha boa disposio 
para ajudar a me nos trabalhos da casa.
    Se seu pai estivesse melhor, ele poderia voltar para So Paulo na tarde daquele mesmo dia.
    No fim da tarde, Ernestina voltou informando que o marido ficara internado para mais alguns exames, mas que o estado dele havia estabilizado, o que afastava 
temporariamente a possibilidade de repetio do derrame. Assim, Nico podia voltar para So Paulo com Dona Eullia.
    Ele concordou, um pouco hesitante, mas Ernestina insistiu e ele finalmente aceitou ir.
    Entretanto, antes de ir embora, aproveitou quando todos estavam tomando um lanche na cozinha e disse:
    
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    - Eu vou, mas, agora que o pai no est, o Z  que tem que tomar conta da famlia.  o homem da casa.
    Todos o olharam admirados. Ernestina olhou para Nico depois para Jos, e respondeu com voz calma:
    - Ainda bem que Deus no me deixou sozinha nesta hora.  bom ter um homem dentro de casa pra me apoiar.
    Jos estremeceu, endireitou o corpo, levantando a cabea, mas no disse nada. Ernestina continuou tranqilamente tomando seu caf, conversando com os filhos 
com naturalidade.
    Quando acabaram, Nico beijou as crianas e despediu-se da me, fazendo-a prometer que o chamaria se precisasse dele. Ao sair, disse para Jos:
    - Eu gostaria de ficar, mas no posso. Confio que voc vai ajud-los mais do que eu. Vamos rezar para que o pai sare logo.
    Jos no disse nada, e Nico apressou-se em ir para a manso. Eullia havia mandado avisar que partiriam s seis, e ele teria tempo apenas de arrumar suas coisas 
para a viagem de volta.
    
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    Captulo 25
    
    
    Jacinto ficou internado no hospital durante uma semana. O Dr. Marclio achou melhor que ele ficasse l para poupar um pouco Ernestina e dar uma assistncia intensiva. 
Seu estado havia se estabilizado, porm no conseguia movimentar os membros do lado direito nem pronunciar as palavras com facilidade, o que o deixava mais nervoso.
    Ernestina informava-se do estado do marido pelo Dr. Marclio. - Amanh ele vai deixar o hospital e voltar para casa. Por enquanto no consegue andar, mas vou 
ver se consigo que Nelsinho venha cuidar dele.
    Ernestina olhou sria para o mdico:
    - Ele vai ficar bom? Isto , vai se recuperar e voltar a ser como era? - A fisioterapia vai ajud-lo. Vamos ver como reage. Ele est nervoso e rebelde. Tem dado 
um pouco de trabalho. Mas tenho certeza de que voc vai conseguir convenc-Io a fazer tudo direito.  preciso que ele saiba que esses exerccios representam sua 
oportunidade de cura. Se ele         no reagir, se no fizer esse esforo, nunca mais vai andar.
    - Deixe comigo. Ele vai ter que fazer.
    - Vou ver se consigo tambm uma cadeira de rodas, pelo menos enquanto ele est assim.
    - Isso deve ser caro, doutor. No sei se terei como pagar.
    - No se preocupe, Dona Ernestina. A senhora tem muitos amigos. O Dr. Norberto e o professor j se prontificaram a pagar o tratamento. Jacinto vai ter tudo que 
for preciso para ficar bom. O importante agora  fazer com que ele se esforce para aproveitar.
    Jacinto voltou para casa no dia seguinte. Alberto e Liana foram visit-Io. Ernestina recebeu-os com carinho, informando-os sobre o estado do marido, e finalizou:
    - O Dr. Marclio tem sido bom demais. Sem falar de vocs, que vo pagar o Nelsinho. Amanh o Jacinto vai comear os exerccios. Nem sei como agradecer tudo que 
tm feito pelo Nico e agora por ns. S Deus pode lhes pagar.
    - No se preocupe com isso, Dona Ernestina. Vamos rezar para ele ficar bom - respondeu Alberto.
    
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    - Pode contar sempre com nossa amizade - ajuntou Liana. - Nico  muito querido por todos ns. Eullia no esquece que ele contribuiu muito para que Eurico ficasse 
bom. Eu mesma devo a ele muitos favores. Seu filho  maravilhoso.
    Os olhos de Ernestina brilharam emocionados quando ela sorriu e disse:
    - De fato. Ele sempre foi a luz que Deus colocou em meu caminho.
     um bom menino e merece ser feliz.
    Depois de passar ligeiramente pelo quarto do doente e desejar-lhe breve recuperao, despediram-se, oferecendo-se uma vez mais para ajudar Dona Ernestina no 
que precisasse. Ao sair, viram Jos sentado em um canto do jardim, pensativo. Alberto aproximou-se:
    - Como vai, Z?
    O menino levantou os olhos e Alberto notou que ele havia chorado. - No fique triste. Tenha f. Seu pai vai melhorar.
    Jos no respondeu. Limitou-se a baixar a cabea novamente. Alberto fez um sinal para Liana, que se afastou discretamente, indo esper-lo do lado de fora. Depois, 
Alberto abaixou-se e colocou a mo no ombro do menino, dizendo:
    - Est sendo difcil para voc suportar esse momento. Sei como , porque j passei por isso tambm. Gostaria de ser seu amigo e dizer que pode contar comigo 
para o que precisar.
    Um soluo sacudiu o corpo do menino. Ele tentou se conter, levantou os olhos chios de lgrimas e respondeu com voz emocionada:
    - Desculpa, professor. Eu no sou um fraco. Meu pai sempre me ensinou que chorar  coisa de mulher.
    - No  verdade, Z. H momentos em nossa vida em que chorar alivia a alma. Eu mesmo j chorei muitas vezes. Deixe sair a sua dor.
    Chore, se tem vontade.
    O menino no conseguiu mais conter o pranto. Seu corpo foi sacudido pelos soluos enquanto as lgrimas lavavam suas faces e, embora ele com as mos tentasse 
limp-Ias, no paravam de cair.
    Alberto tirou um leno do bolso e deu-o a ele. Quando o viu mais calmo, disse:
    - Agora enxugue os olhos e no se deixe abater. Seu pai vai melhorar. Voc pode ajud-lo no o deixando perceber sua tristeza. Sua me e seus irmos tambm precisam 
de seu apoio.
    Jos suspirou, enxugou os olhos e depois tornou envergonhado:
    - Eu no sirvo pra nada, professor. No sei ler nem trabalhar, como o Nico. No posso ajudar ningum.
    
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    - No diga isso, Z. Tudo que Nico faz voc tambm pode fazer.  s querer aprender.
    - Estou muito grande para ir na escola. Tenho vergonha. Depois, estou com muito medo.
    - Medo? Por causa da doena de seu pai?
    - Por tudo. Eu tenho medo de ficar como ele, .sem poder andar. O pai nem pode mais falar direito. No quero ficar como ele...
    - Voc no vai ficar como ele. No precisa ter medo.
    - O Nico disse que sou vagabundo, que no gosto de trabalhar.
    Quem fica parado acaba assim, como o pai. Quando eu vi ele desse jeito, pensei que o Nico podia ter razo. Eu no quero ficar assim. Eu ouvi o Dr. Marclio dizer 
que no sabe se ele vai ficar bom como era. Eu no ouvia os conselhos da me, s os dele. Agora sei que ele estava errado. E eu estou grande demais pra aprender. 
Estou com medo. O que vai acontecer comigo?
    Alberto, penalizado, passou a mo pelos cabelos do menino.
    - No vai acontecer nada de mau. Voc ainda  criana. Reconhece que no estava agindo da melhor maneira. Mas tem tempo de aprender.
    - No quero ir pra escola com os pirralhinhos. Estou muito grande. - Eu tenho a soluo. Se tem mesmo vontade de estudar, posso ensin-Io.
    Jos levantou para ele os olhos brilhantes de emoo:
    - O senhor  professor. Faria isso por mim?
    - Farei, se est mesmo disposto a estudar. Posso ensin-Io e recuperar o tempo perdido.
    - No tenho dinheiro pra pagar.
    - Eu exijo pagamento. S que no precisa ser em dinheiro.
    - Como, ento?
    - Sou pessoa ocupada e no posso perder tempo. Tem de aproveitar bem as aulas, prestando ateno, e estudar de fato. Depois, vai aprender a cuidar do meu jardim.
    Jos coou a cabea preocupado:
    - Eu quero, s que no sei como se cuida de um jardim. Nunca fiz isso.
    - No importa. Vai aprender. Ento, o que me diz?
    Ele se levantou e olhando nos olhos de Alberto disse:
    
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    - Acha mesmo que posso aprender? Que no sou muito burro? - Tenho certeza. Voc pode fazer tudo que eu fao, ou que Nico faz. Basta querer. Podemos comear amanh. 
Aparea l em casa s duas da tarde.
    - Sim, senhor! Pode esperar!
    Alberto apertou a mo dele, tentando esconder a emoo. Procurou por Liana, que o esperava do lado de fora.
    - O que houve com ele? - indagou ela.
    - Um milagre. A doena do pai, alguma coisa que Nico disse, no sei bem o que foi, tocou a alma dele e parece disposto a mudar, a estudar e at trabalhar.
    - Que bom. Ernestina vai ficar muito contente. Sempre se preocupou com o futuro dele.
    - Vamos ver. Vou dar-lhe aulas. Comeamos amanh.
    Liana abraou o marido e sorriu:
    - Tenho certeza de que ele vai aprender tudo. Voc nasceu para ensinar.
    No dia seguinte, Jos apareceu na casa do professor antes da hora marcada. Havia tomado banho, penteado os cabelos e vestido sua melhor roupa.
    Antes do almoo ele j estava pronto e Ernestina, vendo-o limpo e calado, o que no era seu costume, admirou-se:
    - Voc vai a algum lugar?
    Ele hesitou. No queria contar que ia comear a estudar. E se no conseguisse aprender? No queria que os irmos soubessem e o chamassem de burro.
    - Depois eu conto - respondeu olhando para Nilce, que estava ajudando a me com o almoo.
    Ernestina notou seu embarao e disse com naturalidade:
    - Nilce, vai recolher a roupa do varal. O sol est forte e se secar muito vai ficar ruim pra passar.
    Depois que a filha saiu, Ernestina tornou:
    - Se  segredo, j pode falar. Estamos sozinhos.
    -  que ontem eu estava pensando... isto ... o professor Alberto falou comigo e pediu pra eu ir trabalhar no jardim da sua casa. Disse que me ensina.
    - Que bom.
    - Se eu limpar bem o jardim, ele vai me ensinar a ler e escrever. Ernestina abraou o filho com carinho.
    - Fico feliz que tenha decidido cuidar do seu futuro. Pode contar comigo pro que precisar: cadernos, lpis, tudo. Acho que vou comprar mais duas mudas de roupas. 
Vai precisar. Por que no contou isso na frente da sua irm? Ela sempre quis que voc fosse estudar na escola dela.
    
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    - No quero que ningum saiba. O pai nem os irmos. E se eu no conseguir aprender?
    - Voc sempre foi um menino inteligente. Vai aprender tudo muito depressa. O que faltava era s vontade.
    - No sou inteligente como o Nico ou a Nilce. Se eu fosse, no tinha fugido da escola e dado ouvidos s conversas do pai.
    - Qualquer pessoa, mesmo sendo inteligente, pode escolher errado. Foi o que aconteceu com voc. O importante  que agora voc percebeu e quer mudar. O seu sucesso 
vai depender da vontade que tem de melhorar a sua vida. Aprender coisas  alargar o seu mundo. Tenho certeza de que voc vai adorar estudar com o professor Alberto. 
O Nico adorava.
    Gislene fez Jos entrar e Alberto conduziu-o para o escritrio. Notou que o menino estava acanhado e respondendo por monosslabos. F-lo sentar-se no sof e 
sentou-se a seu lado, dizendo:
    - Vamos conversar. Se vamos trabalhar juntos, precisamos nos conhecer melhor. Voc j completou treze anos?
    - J.
    - Qual  o dia de seu aniversrio?
    - Dois de setembro.
    - O que voc mais gosta de fazer?
    - Bom... eu acho que... eu gostava de jogar bola, mas agora tenho que mudar.
    - Voc pode continuar a jogar bola.  um excelente esporte.
    - Mas  s o que eu fazia, e por causa disso no fui mais na escola. - No h nada de errado em gostar de fazer algum esporte, ou se divertir fazendo o que gosta. 
 uma questo de saber organizar sua vida com inteligncia. Se fizer isso, ter tempo para estudar, para trabalhar e para se divertir jogando bola, fazer qualquer 
outra coisa que lhe d prazer, ou at no fazer nada.
    Jos arregalou os olhos:
    - Ser? Eu levantava cedo e s pensava em jogar bola.
    - Na vida todos precisamos aprender disciplina. Sabe o que  isso?
    - Sei.  ter que fazer tudo que voc no gosta.
    Alberto riu bem-humorado.
    - Quem disse isso a voc?
    O menino enrubesceu e disse baixinho:
    
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    - Foi meu pai... mas agora acho que ele no estava certo.
    - Com certeza seu pai no teve quem lhe ensinasse isso. Vamos comear nosso estudo por a.
    Alberto apanhou um livro de gravuras sobre a natureza e os fenmenos do universo e sentou-se novamente ao lado do menino, dizendo:
    - Vou chamar voc de Jos.  esse seu nome. Veja esta gravura.  um retrato da Terra, o planeta onde ns vivemos.
    Alberto comeou a contar ao menino toda a histria da dimenso do universo, das galxias, da formao dos planetas e de seus movimentos em torno do sol.
    Ia mostrando no livro e falando do equilbrio dos planetas e da prpria Terra, de como nasce o dia e como o sol se pe.
    A certa altura o menino no se conteve:
    - Quer dizer que ns estamos em cima dessa bola que gira sem cair? Como pode ser isso?
    -  que o planeta Terra tem uma fora de atrao que nos puxa para ela. Por isso no camos de sua superfcie.  por isso que, quando voc joga a bola para cima, 
ela cai.
    -  essa fora da Terra que puxa ela?
    - . Isso  uma lei da natureza.
    - O que  uma lei?
    -  uma fora natural a que tudo e todos estamos sujeitos. Essa fora a que me referi  prpria da natureza e ns a chamamos de lei da gravidade.
    - Puxa, professor! Nunca pensei que fosse assim.
    - O universo  maravilhoso. H muito mais.
    Alberto descrevia e Jos ouvia deslumbrado, esquecido de tudo que no fosse o brilho das estrelas, a imensido dos cus e os mistrios insondveis dos mundos 
distantes.
    - Desejo que voc perceba que Deus fez tudo isso, mas colocou cada coisa em seu devido lugar. Tudo  organizado, tudo se movimenta perfeitamente, dentro de uma 
ordem sem que os planetas se choquem. Cada coisa cumpre sua funo e tudo acontece dentro do plano de Deus. Isso  disciplina, organizao. J pensou se as coisas 
fossem ao acaso e no houvesse um rumo para elas?
    - Ia dar confuso. Os planetas podiam se chocar, ia morrer todo mundo.
    -  verdade. Mas a sabedoria de Deus criou o universo e um sistema disciplinar para que ele funcione.
    
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    - Deus foi inteligente.
    - Isso mesmo. Voc acaba de dizer que usar a disciplina  ser inteligente. E eu digo mais: que a disciplina com inteligncia serve para facilitar nossa vida.
    - Como assim?
    - Se ns seguirmos certas normas, embora elas requeiram certo esforo, no fim vo facilitar muito e contribuir para melhorar nossa vida. - O estudo  uma disciplina?
    - . Voc percebeu bem. s vezes voc pode achar que  melhor passar o dia inteiro jogando bola, ao invs de dividir se tempo estudando, trabalhando, jogando 
bola. Mas o estudo vai lhe dar condies de conhecer mais como as coisas funcionam, de trabalhar melhor, de ser mais til e ter mais realizao. Alm disso, quem 
sabe fazer coisas pode obter melhor salrio. Quando for jogar bola, estar feliz, com dinheiro para poder comprar o que quiser, ajudar sua famlia, sentir-se realizado. 
No acha que vale a pena aprender a ser disciplinado?
    - Acho.
    - Todas as coisas que voc desejar fazer tm um caminho que voc precisa percorrer para chegar aonde pretende. A disciplina  o jeito inteligente de encontrar 
o caminho mais curto.
    - Qualquer um pode aprender a fazer isso?
    - Pode, se tiver vontade e for observador.
    - Observador como?
    - Prestar ateno em como a vida funciona. A vida  a maior professora.
    - Como eu posso saber que  ela quem est me ensinando?
    - Quando uma coisa complica, pode ter certeza de que est errada.  melhor parar e tentar perceber onde voc errou e recomear de outra forma. A vida gosta da 
simplicidade, do jeito prtico, fcil.
    - O caso do meu pai est complicado, mas agora ele no pode voltar atrs. O mdico disse que no sabe se ele vai voltar a ser como antes.
    - Ele precisava aprender a enxergar o valor do trabalho, da disciplina. Teve certo tempo para que ele fizesse isso. Como ele no o fez, a vida resolveu aplicar 
um remdio para cur-Io de vez.
    - No foi remdio, foi doena.
    - Para ele a doena  o remdio. Por meio dela ele vai compreender o valor da disciplina e do esforo prprio.
    - E se ele no sarar, do que vai adiantar essa doena?
    
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    -  bom voc saber que a vida no existe s enquanto estamos vivendo neste mundo. Ela continua depois da morte.
    - O Nico fala de esprito, mas eu tenho medo.
    - Se conhecer a verdade, o medo vai embora.  bom saber que a vida continua. Seu pai vai continuar vivendo mesmo depois que o corpo dele morrer. E, ento, ele 
ter aprendido o que a vida deseja lhe ensinar. Sabe, Jos, a vida sempre ensina pensando na alma, que  eterna.
    - Quer dizer que se eu morrer vou continuar vivendo em outro lugar?
    - Vai. Seu esprito  eterno. A vida no tem fim. Voc no sente que nunca vai morrer?
    - . Eu sinto. Apesar de ver o cemitrio cheio de tmulos, dentro de mim eu acredito que nunca vou morrer.
    -  porque o esprito nunca morre. Voc j viveu outras vidas antes dessa e ainda viver outras depois.
    - Eu no me lembro de nada antes de agora.
    -  assim mesmo. Ns nascemos e esquecemos, mas guardamos em nosso esprito todas as vidas passadas. Quando voltamos para o mundo de onde viemos, recordamos 
tudo. Assim, de vida em vida vamos aprendendo, experimentando, crescendo.
    - Minha av era muito boa. Fiquei triste quando ela morreu. Quer dizer que ela est viva em outro lugar?
    - Est. A morte  apenas uma mudana, uma viagem.
    Liana apareceu na porta:
    - Vocs esto a h mais de duas horas. Est na hora do lanche. - J? - indagou Jos.
    - Vamos parar. Voc j tem muito material para pensar. Amanh continuaremos - resolveu Alberto. - Venha, vamos tomar nosso caf. Jos levantou-se um pouco acanhado. 
Liana adiantou-se:
    - Venha, Jos. Vou lev-Io para lavar as mos.
    Ele a acompanhou at o banheiro e quando saiu Alberto esperava-o e conduziu-o  copa, onde a mesa posta e o gostoso cheiro do caf os esperavam.
    - Sente-se, Jos - pediu Liana.
    Percebendo o acanhamento do menino, Alberto disse com naturalidade:
    - Amanh gostaria que voc viesse cedo. A que horas levanta? - A hora que for preciso. A que horas posso vir?
    
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    - s nove.
    - Eu trouxe caderno e lpis. Minha me disse que compra o que for preciso pra que eu faa as lies.
    - Por enquanto no vai precisar. Eu tenho aqui algum material. Quero que venha de manh para trabalhar no jardim e  tarde para estudar. Voc concorda?
    - Sim, senhor. Ns combinamos que eu devo trabalhar em troca das aulas.
    - Isso mesmo.
    Jos remexeu-se na cadeira.
    - O que foi, Jos?
    -  que eu no sei lidar no jardim. Est cheio de flores e eu tenho medo de estragar alguma coisa.
    - Vou ensinar como voc vai cuidar de tudo. No se preocupe.
    Vamos fazer juntos.
    Ele respirou aliviado.
    - Tome seu caf, Jos - convidou Liana. - Experimente o bolo.
     a especialidade de Gislene. Hoje ela fez em sua homenagem.
    Jos endireitou o corpo, olhou para Gislene, que colocava uma generosa fatia do bolo em seu prato, sorriu e disse:
    - Muito obrigado, Gislene. Nunca ningum fez um bolo em minha homenagem.
    - Um menino que trabalha e estuda merece. Eu admiro voc disse ela satisfeita.
    Quando saiu da casa mela hora depois, Jos sentia-se muito feliz. Nunca fora tratado com tanto carinho e respeito. Chegou em casa alegre, e Nilce foi logo perguntando:
    - E ento, como foi?
    - Muito bem. Aprendi tudo que o professor ensinou.
    - Ele no passou lio de casa?
    - Ainda no.
    Ernestina entrou na cozinha carregando uma pilha de roupas que recolhera do varal.
    - Est com fome, Z? Tem caf no bule e po no armrio.
    - Obrigado, me, mas j comi. Sabe que na casa do professor a Gislene fez um bolo em minha homenagem?
    - Puxa! E voc comeu? - interveio Nilce.
    - Claro que comi. Dois pedaos. Estava uma delcia.
    - Espero que voc tenha agradecido e no tenha abusado.
    
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    - No, me. Pode ficar sossegada. Eles so muito educados e eu vou aprender a ser como eles.
    - Isso mesmo, meu filho.  preciso respeitar as pessoas para ser respeitado. No quero que nenhum filho meu seja malcriado. Ns somos pobres mas dignos.
    Quando comeou a escurecer, Jos sentou-se no degrau da escada do jardim, perdido em seus prprios pensamentos. Olhava o cu, onde as primeiras estrelas j apareciam, 
e dava largas  imaginao.
    Nunca havia reparado na beleza do cu estrelado. Notou que algumas estrelas eram maiores e brilhavam mais do que as outras. Estariam mais perto ou seriam maiores? 
No dia seguinte perguntaria ao professor.
    Ficou ali contemplando o cu at que Ernestina o chamou:
    - Est na hora de entrar, Z. Vamos dormir.
    Ele entrou e ajudou a me a fechar as janelas. Depois disse:
    - Amanh vou levantar cedo. Preciso estar na casa do professor s nove horas pra trabalhar no jardim. No quero perder a hora. J que eu vou levantar mesmo, 
posso ir at a padaria buscar o po.
    Ernestina concordou. Nilce, que passava pela sala e ouviu as palavras dele, comentou:
    - Uma alma se salvou agora. Os milagres podem acontecer! Voc se oferecendo pra ir buscar po?!
    - O que  que tem? Eu vou porque quero. Voc no tem nada com isso.
    Ernestina interveio:
    - Ei, vocs dois! Vamos parar com isso. Voc deveria agradecer a boa vontade do seu irmo. Se ele no se oferecesse, voc  que tinha que ir. - No est mais 
aqui quem falou, me. O Z est mudado mesmo. - Isso  s o comeo. Voc ainda no viu nada.
    - Hum... pelo jeito est resolvido mesmo. S quero ver at quando...
    - Deixa ele, Nilce, e vai ver se a Neusinha escovou os dentes. Ela comeu broa, tomou caf com leite e foi direto pro quarto. Acho que j se deitou.
    Nilce foi para o quarto e Jos disse srio:
    - Me, a Nilce no acredita, mas eu estou mudado mesmo. Ainda hoje, l na casa do professor, eu senti que era isso que eu queria da vida. Eles me chamaram de 
Jos, me trataram to bem que me senti importante. Estou resolvido, me. O Nico est certo em querer ser gente. Eu tambm quero ter uma vida melhor.
    
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    Ernestina sorriu e seus olhos brilhavam de felicidade quando ela respondeu:
    - Filho, estou muito contente que tenha decidido isso. Eu sabia que um menino inteligente e esperto como voc no ia ficar toda a vida se contentando em viver 
na misria e na inutilidade. No me enganei e estou orgulhosa de voc. Estou certa que daqui pra frente voc vai melhorar a cada dia.
    - Obrigado, me. Vou mostrar pra todo mundo do que sou capaz. - Isso mesmo, meu filho. Que Deus o abenoe.
    Depois que ele foi para o quarto, Ernestina foi ver se os filhos j estavam deitados e se o marido estava bem. Depois, quando viu tudo em silncio, dirigiu-se 
a uma imagem de Nossa Senhora colocada em cima da cmoda, acendeu a lamparina como fazia todas as noites e comeou a rezar.
    Agradeceu a mudana do filho; pediu a ajuda para o marido, que, inconformado com a doena, se tornara irascvel e revoltado; pediu proteo para sua famlia 
e, por fim, foras para conseguir cuidar de todas as suas obrigaes com alegria e coragem.
    Para no incomodar o marido, Ernestina colocara um colcho no cho, ao lado da cama do casal, e era l que dormia desde que ele adoecera. Apagou a luz e deitou-se.
    A noite era clara e ela ficou olhando a luz que entrava pelas frestas da veneziana e pensando. O que seria de sua vida se o marido nunca mais pudesse andar?
    Nelsinho tentara de todas as formas que Jacinto fizesse alguns exerccios mas ele se recusava. No queria sentir dor nem fazer nenhum esforo. No queria cooperar, 
alegando que isso no iria valer de nada. Dizia que o mdico no era bom e exigia que lhe dessem um remdio que o curasse.
    Ao sair, depois de muitas tentativas, Nelsinho comentara:
    - D. Ernestina, se o Sr. Jacinto no cooperar, no vai se recuperar. - Ele est revoltado. Nunca tinha ficado doente antes. Sabe como , no tem pacincia. Mas 
temos que insistir. O Dr. Marclio disse que  preciso.
    - Ele tem razo. Por isso, em benefcio dele mesmo, vou precisar ser mais duro.
    - Coitado. Est to sofrido!
    - Ficar com pena s vai piorar o estado dele. O que ele precisa  tomar conscincia de que, se no se mexer, no sara.
    
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    Depende dele melhorar ou ficar para sempre naquela cama.  isso que ele precisa saber e eu vou dizer-lhe. A senhora no repare se eu falar firme com ele. Faz 
parte da cura.
    - Eu entendo. O Jacinto sempre foi muito teimoso. Faa o que for preciso.
    Ernestina suspirou resignada. O dia seguinte ia ser trabalhoso. Jacinto, quando acordado, chamava-a insistentemente por qualquer coisa e muitas vezes ela s 
podia dar conta do trabalho nos momentos em que ele dormia.
    Ela sentia as costas doendo e o corpo cansado. Mas, apesar disso, estava contente com a atitude de Jos.. Se ele se dispusesse ao trabalho e conseguisse ganhar 
algum dinheiro para as despesas, ela poderia trabalhar menos e dispor de mais tempo para cuidar do marido.
    Agradecia a Deus essa ajuda. Virou-se para o lado e, como estava cansada, logo adormeceu.
    
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    Captulo 26
    
    O tempo varreu os acontecimentos e dez anos depois vamos encontrar Liana feliz e alegre na manso preparando tudo para receber Eullia e a famlia, que l iriam 
passar as festas do fim de ano, como sempre faziam.
    Eles haviam se mudado para a antiga casa do coronel Firmino, dois meses antes do nascimento de seu primeiro filho. Liana, que a princpio no gostara da idia, 
com o passar do tempo comeou a sentir uma predileo especial por aquela casa, sentindo prazer em ir l, em cuidar para que tudo ficasse sempre bem arrumado.
    Certa ocasio, Eullia voltou ao assunto, alegando a dificuldade de se encontrar uma casa to confortvel na pequena cidade:
    - Fico penalizada de ver uma casa to espaosa e bonita vazia quase o ano inteiro. Nosso maior desejo  que vocs se mudem para l. Assim, em nossas frias ficaremos 
todos juntos.
    - Seria bom. Mas teramos de fazer algumas mudanas para nos instalarmos e eu no gostaria de tirar o conforto de vocs.
    - Est resolvido, Liana. A casa  grande o bastante para todos ns. Como aparecemos de vez em quando, vocs continuaro tendo toda a privacidade.
    - Vou pensar.
    Uma vez a ss com Alberto, conversaram e resolveram aceitar. A alegria de Eullia deixou-os  vontade. Juntos cuidaram das mudanas necessrias.
    Joo Alberto nasceu dois meses depois, e seu choro forte encheu a casa, causando euforia at nos criados. Era um menino robusto e bonito. Imediatamente Alberto 
telefonou para Norberto comunicando o nascimento.
    No fim de semana eles chegaram para conhecer o novo membro da famlia, trazendo inmeros presentes.
    Os meninos estavam curiosos, e alvoroados subiram para o quarto onde ele dormia tranqilo. Liana acompanhou-os recomendando silncio para que no o acordassem.
    - Tia, eu quero peg-lo no colo - pediu Amelinha. - Olhem que lindo! To pequenininho!
    
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    - Deixe-o acordar e eu o colocarei em seu colo um pouco.
    - Como pode ser to pequeno? - indagou Eurico, admirado. - Vocs tambm j foram assim - comentou Eullia, que os acompanhara.
    Amelinha quis ver todas as roupinhas enquanto os meninos corriam para ver o caramancho e os ninhos de passarinhos.
    A certa altura, Eurico ficou pensativo e Nico indagou:
    - O que foi, aconteceu alguma coisa?
    - A tia Liana no sabe, mas o coronel voltou.
    - L vem voc de novo...
    -  ele, sim. Est pequeno, nasceu com outra cara, mas  ele mesmo.
    - Voc quer dizer que o menino  ele?
    -.
    - Voc pode estar enganado, cismado.
    - No estou, no. Eu vi direitinho.
    - Viu o qu?
    - Eu olhava para o rosto do beb, via a carinha dele, mas atrs da cabecinha dele eu via o coronel Firmino.
    - Ele pode estar do lado do menino.
    - No. Ele saa e entrava no rosto dele.
    - Chi!!... Voc est complicando.
    - No estou, no.  difcil explicar. Ele sumia, parecia que se transformava no rosto do nen. Depois, ele saa e voltava a ser o coronel de novo. Eu senti que 
ele e o menino eram a mesma pessoa.
    - Acho bom no contar nada para sua tia. Ela pode ficar com medo. Logo agora que ela j esqueceu e at mora aqui na casa.
    - Foi ele quem quis morar aqui. Ela sentiu a vontade dele. Comeou a gostar da casa depois que ele encarnou.
    - Ela se mudou antes do nascimento dele.
    - , mas ele j estava dentro da barriga dela.
    - Puxa!  verdade. Vamos perguntar para o Dr. Marclio sem que a sua tia saiba.
    No domingo, quando o mdico apareceu para visit-Ios, os meninos chamaram-no de um lado e contaram o que acontecera.
    - O senhor acha que precisamos contar para a tia Liana?
    - Eu penso que no - interveio Nico.
    -  melhor no - concordou o mdico.
    - Nesse caso ela nunca vai saber que  ele? - indagou Eurico.
    
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    - Nesses casos, precisamos dar tempo ao tempo. Voc viu isso e acredita que o menino seja o esprito do coronel Firmino reencarnado. Eu tambm acho que . Entretanto, 
a vida deixou-o esquecer o passado, e ela faz tudo certo. Ns no temos o direito de interferir.
    - Nesse caso, no direi nada.
    - Ser que  ele mesmo? - perguntou Nico.
    - Bem, ns no vamos comentar para no interferir na vida dele, mas podemos observar para nosso conhecimento.
    - Como assim? - indagou Nico.
    - Embora Firmino esteja esquecido do passado e tenha aprendido algumas coisas e se modificado, seu temperamento, sua personalidade ainda so os mesmos.
    - Eu sei - interveio Eurico. - Se for ele, vai ser mando e vai querer comandar tudo.
    - No se precipite - disse o mdico sorrindo. - Voc o conheceu muito pouco. Ele deve ter qualidades que voc no teve tempo de perceber. No se esquea de que 
ele estava desequilibrado, sofrendo muito.
    - Duvido que ele tenha qualidades boas - disse Eurico.
    - Talvez seja por isso que a vida o colocou em sua famlia, para que vocs aprendam a conhecer os outros lados dele.
    - . Eu acho que foi isso mesmo. Puxa! Eu nunca pensei nele quando era criana ou moo - comentou Nico.
    - Veja o que aconteceu com seu irmo. Ele mudou muito em pouco tempo. Tem ajudado sua me, trabalhado e j sabe ler corretamente.
    - Quem diria! Voc dizia que ele era um vagabundo! - lembrou Eurico.
    - , ele era. Mas agora criou vergonha. Ainda bem.
    - Bom, se ele criou vergonha e mudou, o esprito do coronel Firmino pode ter feito o mesmo - lembrou o doutor.
    Os meninos concordaram e no falaram mais no assunto.
    Dois anos depois, Liana deu  luz uma menina a quem chamaram de Rosa Maria, em homenagem  av materna. Era linda e saudvel como seu irmo. Mas desde cedo revelou 
um temperamento diferente do dele. Enquanto ele era barulhento e ativo, ela se mostrava doce e tranqila. Seu sorriso encantava a todos e seu jeitinho carinhoso 
tornava-a muito querida no s por todos os membros da famlia mas tambm pelos amigos.
    Em So Paulo, Nico, Eurico e Amelinha continuavam inseparveis, embora revelando diferentes inclinaes. Enquanto Nico revelava sua paixo pelo desenho e pela 
pintura, Amelinha interessava-se pelo bal e pelo teatro. Eurico preferia matemtica e as cincias exatas.
    
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    Ao contrrio dos outros dois, que em suas horas de lazer procuravam na msica e nas artes seu entretenimento, Eurico se sentia inclinado aos estudos da fsica. 
Apesar disso, andavam sempre juntos. Enquanto Amelinha, que se matriculara em uma escola de bal, ouvia msica clssica, calava suas sapatilhas e rodopiava pelo 
salo de festas de sua casa, local onde eles passavam suas horas de lazer, Nico manejava pincis e tintas nas telas que comprara, e Eurico estudava as leis da gravidade, 
fazia clculos imaginativos dos astros e ficava horas manejando alguns instrumentos de medio que conseguira ganhar do pai, anotando tudo e fazendo experincias 
curiosas com objetos, plantas, etc.
    Embora tivessem amigos no colgio, eles passavam a maior parte do tempo entretidos em casa, longe dos divertimentos comuns. Apesar disso, mantinham boas relaes 
com os demais. Recebiam muitos convites para festas, aceitavam alguns, mas o que eles mais gostavam mesmo era de ficar em casa juntos, cada um exercendo as atividades 
de sua predileo.
    Todos sabiam que Nico no pertencia  famlia dos dois irmos. Ele nunca escondeu sua procedncia humilde e, com dignidade, oferecera-se para dar aulas aos alunos 
em dificuldade, e assim ganhava algum dinheiro para suas despesas pessoais.
    Certa vez uma colega fora at a casa deles em busca de uma matria cuja aula perdera, e, ao ser conduzida ao salo onde eles se reuniam, encantou-se com uma 
tela que Nico pintara, oferecendo-se para compr-Ia. Ele a deu de presente.
    A me da menina ficou encantada e procurou-o para ver seu trabalho. A partir desse dia ele comeou a ser procurado por algumas mes de seus colegas interessadas 
em adquirir suas telas e ele, animado por Amelinha e Eurico, que vibravam com o sucesso do amigo, estipulava os preos e mostrava os trabalhos.
    Assim, ele comeou a ganhar mais, a ter dinheiro para comprar material melhor e em maior quantidade, e do dinheiro que sobrava at mandava algum para ajudar 
a me, apesar de Eullia continuar dando a ela uma mesada.
    Seus professores interessaram-se por sua pintura, aconselhando-o a cursar uma escola de belas-artes. Ele, porm, no se decidia. Para ele, pintar era fcil e 
natural, mas, quando pensava em fazer disso profisso, sentia medo, tristeza e vontade de largar tudo.
    
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    No momento de escolher uma carreira, Norberto reuniu-os para uma conversa. Amelinha queria ser bailarina e fazer escola de arte dramtica. Mas o pai tentou faz-Ia 
mudar de idia. Como ela insistisse, ele props:
    - Voc pode continuar no bal, cursar a escola de arte dramtica se quiser, mas, como isso no  profisso, ter de escolher outra coisa tambm. Ser professora, 
dentista, mdica, vocs precisam se preparar para a vida. Arte  um hobby. Faz bem para a alma, mas  s.
    Nico abanou a cabea, dizendo:
    - Dr. Norberto, eu no sei o que escolher. Pintar para mim  como o ar que respiro. Nunca aprendi, mas sempre soube. Mas penso que o senhor tem razo. No quero 
fazer disso profisso.
    - Ainda bem, Nico. Voc pode ser professor, como Alberto. Como eu disse, arte  s para passar o tempo. Por isso, acho bom os trs pensarem no assunto e resolver. 
O ano est no fim e no podemos esperar mais.
    Quando ele se foi, os trs sentaram-se no salo em meio aos objetos de costume e trocaram idias sem chegar a nenhuma concluso.
    - O Z j escolheu o que ele quer ser -lembrou Nico.
    - Eu sei, ele disse que vai ser agrnomo. Mas sem fazer faculdade.
    S prtico. Estudando nos livros e experimentando. Depois do que ele j fez nas terras de sua me, acho que vai dar muito certo - tornou Eurico.
    -  mesmo. Aquilo est uma beleza! Minha me disse que ele tem uma mo! Tudo que ele planta d. Ela nem est comprando mais feijo.
    - Eu vi o que ele fez no jardim da manso. Est lindo! - interveio Amelinha.
    - O professor ensinou e deu muitos livros a ele. Agora tem at um ajudante.
    - Ele j escolheu, mas ns, o que faremos? - indagou Amelinha. - O que eu gostaria mesmo  de ser artista. Mas j sei que papai no vai deixar. Terei de escolher 
outra coisa. Mas o qu?
    - Escolha alguma coisa bem fcil, e assim voc vai poder ter tempo de fazer a escola de arte - sugeriu Eurico. - Eu gosto de fazer minhas experincias. Quero 
escolher uma profisso que me permita fazer isso.
    - Eu quero pintar; gosto tambm de pegar no barro e fazer coisas. Mas isso no  profisso. Professor eu no sei... ser que eu podia ensinar pintura?
    - Claro que no, Nico. Se pintar quadros no  profisso, quem vai querer aprender? S se voc se tornar pintor de paredes - disse Eurico.
    - No  desse tipo de pintura que eu gosto.
    
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    - Voc pode fazer arquitetura. Tem de desenhar e criar coisas sugeriu Amelinha.
    - . Talvez. Vamos ver. Amanh vou conversar com a psicloga da escola. Ela disse que pode nos ajudar a encontrar nossa vocao profissional.
    -  uma boa idia, Nico. Irei com voc.
    - Eu tambm - concordou Eurico.
    Assim, Amelinha resolveu fazer pedagogia, Eurico engenharia qumica e Nico psicologia. Apesar de haverem escolhido carreiras diferentes, eles continuavam a estudar 
juntos.
    Eurico conseguira montar um pequeno laboratrio de pesquisas nos fundos da casa, onde realizava suas experincias, nem sempre bem-sucedidas, o que provocava 
o riso dos outros dois e alguma preocupao de Eullia.
    Estavam satisfeitos com os cursos que escolheram, mas nas horas vagas continuavam, Eurico com as experincias, Nico com a pintura, Amelinha com o bal.
    Nico granjeara fama no bairro. Certa vez ele pintou o retrato de Amelinha vestida de bailarina para oferecer a Eullia como presente de aniversrio.
    Eullia notava o movimento que Nico fazia com seus quadros, mas tanto ela como Norberto viam isso como um passatempo e nunca se interessaram em examinar com 
ateno o que ele fazia.
    Porm o retrato de Amelinha impressionou-os. Era leo sobre tela e era difcil imaginar que ele houvesse sido feito por um jovem que nunca freqentara nenhum 
curso de pintura.
    No dia do aniversrio, ele a procurara e lhe entregara o quadro, dizendo srio:
    - Dona Eullia, quero que a senhora saiba o quanto lhe sou grato por tudo que tem feito por mim e pela minha famlia. Sempre desejei dar-lhe um presente, mas 
a senhora tem tudo e eu queria oferecer alguma coisa que viesse do meu corao. Ento, pensei, o amor de me  sagrado, e fiz este trabalho. Quero que saiba que 
sinto um amor muito grande pela senhora, por Amelinha especialmente, sem falar do meu irmo Eurico e do Dr. Norberto.
    Comovida, Eullia abraou-o e beijou-o na face:
    - Obrigada, meu filho. Eu gosto de voc como um filho e estou muito orgulhosa por voc ter feito um trabalho para mim.
  
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    Quando ela retirou as folhas de papel de seda com o qual ele embrulhara o quadro, olhou-o impressionada. Era uma tela de oitenta por setenta centmetros, e parecia 
haver sido pintada por um mestre.
    - Nico,  uma beleza! Vou pr uma bela moldura e colocar em destaque em nossa sala de estar. Voc realmente tem talento. No sei se foi uma boa idia estudar 
psicologia em vez de pintura.
    - Pintura eu no preciso estudar, Dona Eullia. Nasci sabendo. Agora, psicologia sim. Eu precisava aprender a lidar com minhas emoes. O Dr. Marclio sempre 
diz que a vida nos leva para o que precisamos aprender.
Ela olhou sria para ele. Aquele menino sempre a surpreendia com sua maneira nica de dizer as coisas.
    Quando ela se foi, interessada em mostrar a tela a Norberto, Nico sentou-se pensativo. Na verdade, nos ltimos tempos ele andava preocupado e desejoso de entender 
o que se passava em seu corao.
    Estava terminando o curso e habituara-se a examinar o teor de seus pensamentos para entender melhor seus sentimentos, mas, nos ltimos tempos, emoes fortes 
e imperiosas acometiam-no, e ele no conseguia encontrar, no que aprendera, uma soluo.
    O que estava acontecendo com ele? Estava com vinte e trs anos e prestes a receber seu diploma de psiclogo. Deveria sentir-se realizado. Conseguira estudar, 
fazer uma universidade, ser respeitado, querido. Uma vez formado, poderia melhorar a vida de sua famlia, como sempre desejara, ter sua prpria casa, comprar o que 
quisesse.
    Ele vencera. Por que ento, quando pensava em sua formatura dali a dois meses, sentia um aperto no corao?
    A figura bonita de Amelinha surgiu em sua mente e ele se levantou inquieto. Ela se tornara muito bonita. Onde aparecia era sempre requesitada, elogiada. Os rapazes 
andavam  sua volta como abelhas no mel. Isso o irritava. Ele a vigiava constantemente. Comentava com Eurico:
- Precisamos tomar conta de Amelinha.
Eurico sacudia os ombros e dizia:
- Qual nada! Ela j  grandinha e sabe se conduzir. No vou perder tempo com isso.
- Mas voc no v o perigo? Aquele malandro do Clvis estava rodeando. Claro que com m inteno. Ele  o maior cafajeste do clube.
- Ele , mas Amelinha no vai entrar na dele.
Mas Nico no se conformava. Onde ela andava ele a perseguia com os olhos e quando os rapazes se aproximavam dela Nico encontrava um jeito de intervir, procurando 
atrair sua ateno para outras coisas.

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Ele desejava terminar os estudos, mas ao pensar nisso sentia um aperto no corao. Um dia descobriu o que o angustiava: sentia que, depois de formado, no teria 
mais motivos para continuar vivendo na casa de Eullia.
    Teria de ir embora, cuidar de sua vida. Eles j haviam feito demais. No seria direito aproveitar-se dessa proteo. Depois, pensava na famlia, principalmente 
em sua me.
    Apesar de seu pai continuar invlido e requisitar muito sua ateno, Ernestina agora j no precisava trabalhar tanto. Jos tomara-se trabalhador e contribua 
para o sustento da famlia, no s plantando feijo, milho, criando galinhas, que negociava na cooperativa trocando por outros alimentos, mas tambm cultivando mudas 
de flores e frutas que vendia a bom preo.
    Jaime interessara-se pelo trabalho do irmo e ajudava-o na lavoura, enquanto Nilce e at Neusinha aliviavam o trabalho caseiro de Ernestina, que dispunha de 
mais tempo para cuidar do marido. Ela continuava a lavar roupas para fora, mas agora ficara apenas com os melhores clientes.
    Apesar disso, Nico no esquecera o antigo sonho de oferecer  me e a toda famlia um padro de vida melhor, em que ela no precisasse mais trabalhar para ningum 
e at tivesse uma empregada para cuidar dos servios domsticos. Alm disso, queria que os irmos continuassem estudando e pudessem tanto quanto ele mesmo desfrutar 
de uma vida melhor.
    H algum tempo vinha guardando dinheiro para montar um consultrio quando se formasse. Seus quadros eram muito procurados e nos ltimos tempos havia muitas encomendas, 
o que possibilitou que ele pudesse ao se formar fazer isso com recursos prprios.
    Se por um lado isso era o que sempre sonhara, por outro deixar a casa de Eullia significava perder a convivncia diria com Eurico e Amelinha, que j faziam 
parte de sua vida.
    No podia deixar de pensar nisso, e um dia, quando viu Amelinha deixar a companhia dos dois e sair de mo dada com um rapaz, compreendeu o que o angustiava. 
Era dela que ele no queria separar-se. Era a presena dela que o fazia sentir-se alegre. Era sua proximidade que o fazia estremecer e seu corao se descompassar.
    Claro que ele havia tido algumas namoradas, mas nenhuma delas conseguira faz-lo sentir-se tocado. s vezes saa com elas apenas para fazer companhia a Eurico, 
que sempre arrumava um jeito de sair com alguma moa e o convidava para acompanhar a amiga dela.
    
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    A descoberta de que estava apaixonado por Amelinha deixou-o angustiado e nervoso. Ele se tornara seu confidente. Cada vez que algum rapaz se interessava por 
ela, Amelinha lhe contava, olhos brilhantes de prazer, mas at ento no amara ningum. Esquivava-se, dizia que no pretendia namorar ainda, queria dedicar-se aos 
estudos.
    At ento Nico sentira-se seguro, mas naquela tarde, vendo-a sair para ir a um cinema de mo dada com Raul, irmo de um colega dela, ficou preocupado. A dvida 
assaltou-o e ele pensou: ser que ela est apaixonada por ele?
Foi para casa e no quis sair, pretextando dor de cabea. Esperou ansiosamente que Amelinha voltasse. Quando a viu entrar, no se conteve:
- E ento?
- E ento o qu?
- Esse moo com quem voc saiu. Voc gosta dele?
-  muito atraente, simptico e culto.
- O que ele faz?
-  engenheiro e tem uma construtora.
Nico mordeu os lbios nervoso. Alm de formado, ele deveria ser rico.
Baixou a cabea pensativo.
- O que foi, aconteceu alguma coisa? - perguntou ela.
- No. Nada. Estava pensando.
-Em qu?
- Bem, temos vivido juntos ns trs todos estes anos e logo teremos de nos separar.
- Separar? Como assim?
- . No somos mais crianas. Logo mais cada um ir para um lado e no ser mais como at agora.
Amelinha colocou a mo no brao dele, dizendo inquieta:
- No diga isso! Ns nunca nos separaremos. Viveremos sempre juntos.
Nico suspirou triste:
- Gostaria que isso fosse verdade. Mas veja: quando me formar, terei de me mudar, trabalhar e levar minha vida. No posso mais viver s expensas de sua famlia, 
que j fez muito por mim. Voc logo vai encontrar um rapaz rico, de sua classe social, que a amar. Vai se apaixonar, casar e ir viver sua vida. Eurico far o mesmo.
- Isso no  verdade - disse ela sacudindo a cabea negativamente, balanando os anis de seus cabelos dourados que lhe caam pelas espduas, emoldurando seu rosto 
bonito. - Voc nunca vai nos deixar. Vai trabalhar, ganhar dinheiro, ajudar os seus, mas ficar para sempre aqui.
    
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Os olhos dela brilhavam emocionados e Nico sentiu seu corao disparar, encantado com a beleza lrica daquele rosto que ele amava.
- Voc sabe que vou montar consultrio. Posso me sustentar, e no desejo ser pesado  sua famlia.
Ela o abraou, dizendo emocionada:
- No vou deixar voc ir. Falarei com papai, ele no vai permitir. - Voc diz isso agora, mas logo vai se apaixonar e ento nem vai sentir minha falta.
- Eu no vou me apaixonar por ningum, e voc no vai embora.
- E o moo com quem voc foi ao cinema esta tarde? Disse que ele era atraente, cheio de qualidades e, alm de tudo, rico. Acho at que est se apaixonando por ele.
    - Quem disse isso? Ele pode ser tudo isso, mas quando me deu um beijo senti vontade de sair correndo do cinema. Acho que nunca mais quero sair com ele. Gostou? 
Acha que sabe tudo e pensa que vou me deixar levar pelo primeiro que aparece? No  isso que eu quero na vida.
    Nico, sentindo a proximidade dela, teve vontade de beij-Ia, mas conteve-se. Ele no podia demonstrar o que ia em seu corao. Apesar de haver sido criado com 
eles, sempre entendera a distncia social que os separava e no queria que pensassem que estava abusando da bondade deles. Faria tudo para que ningum nunca soubesse 
de seu amor por Amelinha.
No se conteve e indagou: - O que voc quer da vida?
- Quero viver, danar, aprender coisas que embelezem minha vida.
No penso em ser igual  minha me, que se conformou com o horizonte estreito em que vive e nunca desejou mais. Eu nunca me conformaria em tornar-me uma matrona 
dentro de casa, criando filhos e mais nada.
- E o amor? Toda mulher sonha com o amor, os filhos, uma famlia. - O amor  um sentimento natural, vai acontecer como o ar que respiro, vai me trazer alegria e 
vida, prazer e felicidade. Quando aparecer, saberei. Tenho certeza de que no vou precisar das regras da sociedade para ser feliz.
- Do que voc precisa?
- Da cumplicidade na intimidade, do prazer de conviver com naturalidade, do companheirismo, da troca de idias e de atitudes que alimentem a alma.  isso que eu 
quero. S assim valer a pena amar.

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- Voc se esqueceu do contato fsico.
- Tambm,  claro. Como  possvel intimidade com algum sem isso? Tenho observado que as pessoas se entregam quando sentem atrao fsica e no questionam outros 
elementos importantes para um relacionamento bom. Para mim  preciso mais que isso.  preciso uma ligao de alma.
-  difcil achar algum que seja igual a voc.
- Voc no entendeu. No pretendo isso. Sei que cada um  um e no existem duas pessoas iguais. Mas o que eu sinto  que no companheirismo, na troca de intimidades, 
na ligao de almas, existe o respeito, o carinho, a compreenso, a admirao. Onde existe tudo isso, no h manipulao, mentiras ou competio. Apenas amor, troca 
afetiva, sustentao, paz.
Nico respirou fundo, sentindo-se emocionado. Disse simplesmente: - Puxa, Amelinha, eu gostaria muito de sentir um amor assim.
- Voc? Com tantas garotas suspirando por voc, nunca o vi interessado em ningum. Como pode ser to frio? Eurico j se apaixonou vrias vezes, enquanto voc no. 
s vezes penso que  to controlado que nunca ser capaz de amar. Vai planejar tudo nos mnimos detalhes, como tem feito com esse seu plano de deixar esta casa quando 
se formar.
- As aparncias enganam.
- Pois eu gostaria que se apaixonasse perdidamente a ponto de perder um pouco essa sua compostura bem-comportada.
- O que ganharia com isso?
- Teria certeza de que voc no  indiferente, mas de carne e osso, como todo mundo.
- No diga isso. Sou mais frgil do que supe.
- Pois no parece. Sempre faz tudo certo,  calmo, muito diferente de mim e de Eurico. Tem sempre a resposta sensata e por isso acaba sempre nos convencendo a fazer 
do seu jeito.
- Nunca pretendi ensinar nada.
- Mas ensina. Sua segurana torna-o mais lcido que ns.
- Isso no  verdade. Talvez por eu ser pobre e ter tido desde cedo de lutar para sobreviver, eu possua certa experincia que vocs, que nunca precisaram preocupar-se 
em ganhar a vida, no tm. Mas, ainda agora, quando voc chegou, eu estava mais inseguro que nunca, pensando em nossa separao.
- Pois no pense. Tenho certeza de que nunca nos separaremos. Ele a olhou nos olhos e respondeu:

373

- Gostaria que isso fosse verdade. No posso pensar em viver sem voc... sem Eurico - emendou.
- Nem eu. Nunca me separarei de voc.
-  o que voc quer?
-.
Os olhos dela brilhavam emocionados e Nico sentiu mais que nunca vontade de apert-Ia de encontro ao peito e dizer o que lhe ia na alma. No podia fazer isso. Controlou-se 
e procurou disfarar.
    - Quando voc se casar com um moo rico e bem-posto, no se lembrar mais de mim.
    - Nico! Estou falando srio. Nem pense em se mudar de nossa casa. Abra seu consultrio, faa at uma clnica de psicologia depois que se formar, mas continuar 
morando aqui. No abro mo disso. Tenho certeza de que o resto da famlia tambm no. O que seria de ns sem voc? Eurico no saberia o que fazer da vida; e eu, 
quem ir me apoiar quando eu resolver ser bailarina? Est decidido. Voc no ir embora. No vou deixar.
    Nico sorriu. A veemncia com que ela desejava que ele continuasse na casa emocionava-o. No tocaram mais no assunto, porm apesar disso a sombra da separao 
rondava os pensamentos de Nico, inquietando-o, fazendo com que ele chegasse a desejar que o tempo no passasse para que esse dia nunca chegasse.

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Captulo 27


Amelinha entrou em casa eufrica procurando por Nico. A empregada informou que ele no chegara ainda.
- Vou tomar um banho. Assim que ele chegar, avise-me. No v esquecer!
Quando ele entrou, Maria deu o recado.
- Est bem. Vou falar com ela.
Fazia seis meses que ele havia se formado, ficara uma semana com a famlia no interior e voltara a So Paulo para comear a trabalhar.
    Alugara duas salas e montara seu consultrio, onde j tinha alguns clientes, e o movimento melhorava a cada dia. Comeou a ganhar mais, vestia-se melhor. Pensou 
em mudar-se da casa de Eullia, mas tanto ela quanto Norberto insistiram para que ele ficasse.
    Alegavam que o tinham como um filho e no queriam privar-se de sua companhia.
    - Enquanto voc for solteiro, no o deixaremos sair. Eu s abriria mo se fosse para voc morar com sua me. Mas sua famlia no deseja morar em So Paulo e 
voc pretende trabalhar aqui. Portanto s vai se mudar quando se casar, isso se quiser.
    - Obrigado, Dona Eullia. Mas vocs j fizeram muito por mim. No desejo abusar.
    - Fizemos uma troca maravilhosa, e nessa troca tivemos mais lucro do que voc. S a recuperao de Eurico vale tudo. E no  apenas isso. Conheo meu filho. 
 um menino bom, inteligente, mas um tanto fraco. Sem sua constante presena e seu bom senso, talvez ele hoje no estivesse to bem. Tenho certeza de que tanto ele 
quanto Amelinha sofreriam muito se voc nos deixasse. Por isso, peo-lhe que continue conosco.
    - Est bem, Dona Eullia. Para dizer a verdade, eu deveria me sustentar, agora que ganho meu prprio dinheiro, mas sofreria muito se precisasse deixar vocs.
- Ainda bem, meu filho. Fico aliviada. No se fala mais nisso. Nico tomara-se um moo elegante, bonito, fino. Vestia-se bem e estava economizando. Desejava comprar 
uma bela casa para a famlia.
Subiu para o quarto, trocou de roupa, passou pelo quarto de Eurico, que ainda no havia chegado. Ele ainda tinha mais dois anos de faculdade.
Bateu no quarto de Amelinha, que imediatamente abriu:

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- Nico, temos de conversar! Aconteceu uma coisa maravilhosa! - O que foi?
- A pea na faculdade. Hoje foi l aquele diretor de que eu falei.
Ele  profissional mesmo. J dirigiu muitas peas. Lembra aquela que fomos ver no ms passado?
- Lembro.
- Foi dirigida por ele! O diretor da faculdade contratou-o para nos dirigir. Nem acreditei! Estvamos ensaiando quando ele apareceu, sentou-se l calado. Ningum 
sabia quem ele era. Quando paramos, o Sr. Gabriel nos chamou e apresentou-o.
- Que bom! Essa pea vai ser um sucesso.
- E no  s! Entre e sente.
Amelinha arrastou-o para dentro do quarto e forou-o a sentar-se. - O que foi? Voc me assusta!
- No via a hora de lhe contar. Sabe o que ele fez? Disse que j havia lido a pea e que eu fui escolhida para o papel principal. Fiquei muda. Minhas pernas tremiam, 
pensei que fosse desmaiar.
- "Voc acha que serei capaz?" - eu disse trmula.
- Voc  perfeita para o papel - respondeu ele.
- A me perguntou se eu estava disposta a estudar muito. Disse que eu estava muito crua e precisava treinar bastante. Se eu realmente quisesse me dedicar, ele me 
ajudaria ensinando o que pudesse. Marcou j um ensaio para amanh. J pensou, Nico?
- Parabns. Esse diretor deve ser muito bom. Viu logo que voc tem talento.
- Voc acha?
- Claro. Ele no perderia tempo com voc se no fosse isso.
- Puxa, Nico. Vou fazer o papel da protagonista. Eu, que me contentaria com uma ponta. Parece um sonho. Trouxe o roteiro para estudar. Voc pode me ajudar?
- Claro. Quando quer comear?
- Agora mesmo. Vamos para o salo.
    Seu rosto corado e o brilho de seus olhos tomavam-na mais encantadora, e Nico precisou se controlar para no beijar aquele rosto que tanto amava.
A cada dia ficava mais difcil para ele controlar seus sentimentos.

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A proximidade dela, sua espontaneidade abraando-o, segurando seu brao, confidenciando seus pensamentos ntimos atraam-no cada dia mais.
    Dizia para si mesmo que Amelinha o queria como a um irmo e no deveria alimentar nenhuma esperana. Acreditava que, se ela viesse a descobrir o que ele sentia, 
se afastaria. A esse pensamento, Nico estremecia de pavor.
    Ele haveria de sepultar esse amor no corao, porque s assim poderia continuar a desfrutar no s do carinho dela mas tambm da amizade de toda a famlia.
    A partir daquele dia eles comearam os ensaios. Ela ia para a faculdade de manh, almoava l mesmo e ficava para os ensaios com o diretor e com o elenco. Depois 
do jantar, ela e Nico iam para o salo de festas da casa e ensaiavam.
    Eurico divertia-se vendo-os representar, porque, enquanto Amelinha fazia somente a protagonista, Nico era forado a fazer todos os outros personagens, inclusive 
os femininos.
A princpio eles haviam insistido para que Eurico participasse, mas ele recusara:
- No tenho pacincia para esses salamaleques de teatro. Estou ocupado com um teste importante que ocupa todo o meu tempo disponvel.
- Mas voc tem algumas noites livres - disse Nico.
    - Voc disse bem. Eu tenho algumas noites livres e no vou gast-Ias dessa forma. Prefiro a companhia de Elvira. Alis, esta noite vamos ao cinema e Dalva ir 
com ela. Eu contava que voc fosse conosco. Afinal ningum gosta de segurar vela!
- Nada disso - protestou Amelinha. - Nico vai ficar comigo ensaiando.
- Veja como ela fala! E voc deixa? Ela manda e voc no reage? - provocou Eurico.
    - No estou mandando. Acontece que Nico combinou comigo de ensaiar sempre que ele pudesse. Depois, se fosse para sair com algum interessante eu entenderia, 
mas com Dalva...
    - O que  que tem Dalva?  bonita e educada. Alm de tudo, EIvira disse-me que ela est caidinha por Nico.  sopa no mel!
- No acredito que ele se interesse por aquela lambisgia. Eurico sacudiu os ombros e tentou ignorar as palavras dela:
- E ento, voc vem comigo?
- No, Eurico. Eu prometi ensaiar com ela. No temos muito tempo. Falta apenas um ms para a estria.

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Fingindo no perceber o olhar triunfante da irm, Eurico comentou: - Puxa! At parece que  voc quem vai trabalhar na pea! Por que no fala com o diretor? Pode 
ser que ele o deixe fazer uma ponta.
Sem se aborrecer com o tom maldoso dele, Nico tornou:
- No fique zangado comigo. Explique a Dalva que hoje no poderei ir. Irei outro dia.
- Nesse caso tambm no vou. Telefonarei para Elvira.
Nico colocou as mos nos ombros de Eurico, olhando-o nos olhos enquanto dizia:
    - Comigo no pega. Conheo muito bem esse seu jeito de coitado. No vou me sentir culpado de nada. Por isso,  melhor no entrar nessa. V com elas ao cinema, 
divirta-se e pronto. No vou sair com voc apenas para que no perca sua noite.  voc quem deve se dar ao prazer de fazer o que gosta. No eu.
    Eurico comeou a rir, depois comentou:
Sei porque gosto de sair com voc. Depois, Dalva vai ficar decepcionada.
    - Agora voc quer que eu me sinta culpado e fique com pena dela. No temos nenhum compromisso, nem sequer a convidei para sair. E se ela ficar frustrada  porque 
criou expectativas sem fundamentos. Eu vou ensaiar com Amelinha e est decidido.
    - Est bem. Pelo que estou vendo, voc leva esse negcio de teatro a srio mesmo. Nesse caso, vou indo.
    Ele saiu e os dois continuaram ensaiando. A estria da pea no teatro da faculdade foi um sucesso, a tal ponto que o grmio decidiu repetir o espetculo vrios 
sbados seguidos. Por causa disso, comearam a pensar em levar a pea a outras faculdades.
Amelinha no pensava em outra coisa, e perdeu completamente o interesse pelos estudos.
    - O que eu quero mesmo  ser atriz! - confidenciou a Nico entusiasmada. - Voc no sabe o que  pisar naquele palco, representar, sentir o interesse da platia, 
seus aplausos.
Nico coava a cabea e dizia:
- Pelo menos termine a faculdade. Assim seu pai no ficar to contra.
- Ele pode ficar contra, mas sei o que quero!

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Nico olhava e no respondia. Por um lado no queria que Norberto se aborrecesse e implicasse com a vocao dela, mas por outro, quando a via representando com naturalidade, 
como se sempre houvesse feito isso, vivendo seu papel com brilho e capacidade, olhos brilhantes de excitao ao colher os aplausos entusiasmados da platia, sentia 
que essa era sua vocao. Sabia que chegaria um dia em que ela seguiria esse caminho e que ningum a deteria.
    O problema apareceu no fim do ano, quando ela no conseguiu aprovao e o pai descobriu o quanto ela havia faltado s aulas. Irritado, chamou-a para uma conversa 
na qual tentou faz-Ia compreender a necessidade de terminar os estudos.
    Amelinha, entretanto, havia tomado uma deciso. Recebera um convite para ingressar no teatro profissional. O diretor reservara-lhe um papel que no era o principal, 
mas tinha boas possibilidades, e ela, entusiasmada, aceitara-o. No disse nada aos pais, na tentativa de retardar o conflito que sentia inevitvel, mas aproveitou 
a ocasio para se colocar.
    - Papai, vou deixar a faculdade. Desejo ser atriz.
- Nada disso, Amelinha! Voc vai terminar os estudos. Se tivesse estudado, teria apenas mais um ano para conclu-Io. Mas, como foi reprovada, ter dois.
    - No adianta, papai. No sinto vontade de estudar. No tenho vocao para lecionar. Escolhi essa carreira s para fazer a vontade de vocs, mas a cada dia percebo 
que no  isso que desejo fazer.
    - Ser educadora  uma nobre profisso, muito diferente do que ser uma atriz de segunda categoria de teatro.
    -  uma nobre profisso para a qual no tenho nenhuma inclinao. Eu tenho alma de artista, papai. Sempre senti desejo de trabalhar as emoes, de transmitir 
sentimentos, de entender os problemas de relacionamento, de experimentar situaes como se fossem minhas, de compreender como a vida funciona.
Norberto olhou-a admirado com sua veemncia. Mas foi irredutvel: - Voc no vai abandonar os estudos.
- Papai,  intil gastar mais dinheiro com essa faculdade. Eu aceitei um convite para ingressar no teatro profissional, j tenho os documentos.  minha vocao e 
preciso dedicar todo o meu tempo a ela. No terei condies de estudar nem de freqentar as aulas.
- Eu a probo de fazer isso.
- Sinto que no aprove, papai, mas eu j o fiz.
Norberto tentou de todas as formas convenc-Ia, inutilmente. Inconformado, procurou Eullia, para quem apelou a fim de conseguir o que pretendia. Amelinha estava 
decidida e no voltou atrs.

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Norberto, nervoso, pretendia impedi-Ia a todo custo, mas Eullia conseguiu contornar, afirmando que era um capricho da filha. Era uma carreira difcil e so raros 
os que conseguem sucesso. Por isso achava melhor dar tempo a que ela compreendesse e voltasse atrs. Quando percebesse que o sucesso no vinha, certamente perderia 
o entusiasmo e essa iluso passaria.
    Mas no passou. Amelinha dedicou-se inteiramente ao trabalho, freqentando cursos com grandes atores, levando muito a srio sua carreira. Levantava cedo, ia 
para o curso de dana. Quando no estava no teatro ensaiando, estava estudando no s suas falas na pea mas tambm a vida dos grandes atores, seus sucessos e fracassos.
    Nico era seu companheiro habitual. Eurico ia com eles de vez em quando, mas preferia dedicar-se a outros entretenimentos.
    Bonita, com talento e carisma, ela brilhou nos palcos e o sucesso apareceu, ao contrrio do que seus pais esperavam. Surgiram viagens, contratos, fotos em revistas 
da moda, e Amelinha viu-se envolvida em muitos compromissos.
    Por causa disso, aos poucos foi se afastando no s da famlia mas tambm de Nico, que vibrava com cada sucesso dela, mas sentia muita falta de sua companhia.
    Ele estava indo bem no trabalho, era muito procurado como psiclogo. Nos dois anos de formado, ele economizara mas ainda no juntara o suficiente para comprar 
a to sonhada casa para a me.
    Amelinha ausentava-se, e ele se sentia sozinho. Eurico convidava-o para sair, mas ele recusava. No encontrava prazer longe de Amelinha, e sofria em silncio 
seu amor inconfessado.
    Fechava-se no salo, onde costumavam estudar juntos, montava o cavalete, escolhia tintas, pincis e passava o tempo pintando. Era a forma de extravasar suas 
emoes, e suas telas ganhavam expresso, luz e fora.
    Estavam no fim do ano e Eurico conseguiu formar-se. Alberto, Liana e os dois filhos chegaram para a solenidade. Amelinha, em viagem pela Argentina, onde estava 
se apresentando com a companhia, telefonara dizendo que ia fazer o possvel para estar presente no grande dia.
Nico colocou seus quadros em um canto e cobriu-os com panos.
Deixou espao livre para Joo Alberto e Rosa Maria brincarem.
Alberto interessou-se em v-los e no conteve sua admirao. Chamou Liana e comentou:
- Veja que maravilha! Ele  um gnio. Como pode pintar um quadro assim sem nunca haver aprendido?
Liana lembrou:

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- Voc sabe que ele foi pintor famoso em outra vida. Isso confirma as informaes que temos.
-  verdade. Isso no pode ficar oculto. Vou conversar com um amigo do jornal e vamos ver o que acontece.
    Alberto conversou com o colega, que foi at l e ficou to impressionado que em seguida levou um especialista, dono de uma galeria de arte, para v-los. Depois 
de conversar com Nico, ele o convidou a fazer uma exposio.
Para surpresa de todos, Nico hesitou.
- No sei se vale a pena. Para isso eu teria de me dedicar mais, talvez estudar um pouco. Acho que no estou pronto.
    - Nada disso. Voc est mais do que maduro. H muitos pintores formados em escolas de belas-artes que no tm sua fora. Fao questo de organizar uma exposio.
Ele ainda hesitava.
- Eu terei de pintar mais alguns, e pintura para mim no  obrigao. No sei se quero fazer isso.
    - Faamos uma coisa. Daqui a quinze dias tenho uma exposio em que apresentarei vrios artistas. Se me permitir, podemos expor alguns de seus trabalhos e vamos 
ver como o pblico vai receb-Ios.
- Est bem. Se insiste... Escolha os que quiser e pode levar. Depois que eles se foram, Alberto considerou:
- Pensei que voc fosse ficar contente em fazer uma exposio. Entretanto, notei que ficou hesitante. Por qu? No confia em sua arte?
    - No sei. Mas ao pensar em expor meus quadros sinto um aperto no corao! Pintar para mim  to natural como respirar. Sempre que olho as coisas  minha volta, 
at as pessoas, vejo-as retratadas em cores, como se ganhassem forma, fora, colorido, expresso. A pintura para mim  um canal para extravasar meus sentimentos, 
minhas emoes. Se estou alegre, eu pinto; se estou triste, eu pinto tambm. E dessa forma. consigo equilibrar meu esprito.
- Talvez voc tenha muito de sua intimidade nessas telas e no deseje que os outros .as vejam.
- Pode ser.
- Voc  alegre, bem-disposto, nunca o vi queixar-se, mas reconheo que nunca fala de seus sentimentos.  fechado. No troca confidncias, como Eurico ou Amelinha.
- No acredito que algum sinta interesse em saber o que vai em meu corao.

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    Alberto colocou a mo em seu ombro e, olhando-o nos olhos, respondeu:
    - Eu sinto, Nico. Saiba que o admiro muito. Queria que soubesse que tudo quanto se relaciona  sua felicidade me interessa de verdade. E vrias vezes tenho sentido 
que h alguma coisa dentro de voc que coloca um brilho triste em seus olhos. O que ?
Nico baixou a cabea pensativo, ficou calado por alguns segundos, depois considerou:
- Est dando para notar?
- Voc disfara bem, mas eu o conheo muito.
- , deixar de ser criana tem seu preo.
- Voc  um vencedor. Nasceu em uma famlia pobre e conseguiu subir na vida graas a seu esforo, seu trabalho, sua determinao e coragem. Voc s tem motivos para 
alegrar-se. Alm disso,  estimado e respeitado.
    - Eu sei. Todos os dias agradeo a Deus e a todos vocs que me ajudaram a conseguir o que possuo. Saiba que sou muito agradecido  vida, que me deu muito mais 
do que mereo.
- Se no  isso, o que ?
Pelos olhos de Nico passou um brilho de emoo.
- Minha me sempre dizia que, quando o mal no tem remdio, remediado est. Portanto, no adianta falar sobre isso.
    - Sua me  sbia e sabe o que diz. Contudo, ns nos enganamos muitas vezes quando acreditamos que um mal no tem remdio. E nisso  que reside o perigo. Eu 
j vi muitos doentes desenganados curarem-se enquanto outros aparentemente saudveis morriam de repente.
Nico sorriu:
- Eis a nosso querido professor que assume a antiga posio. - No fuja do assunto, nem queira me confundir. Habituei-me a ler voc como um livro aberto, e nunca 
vai poder me esconder nada.
- Agradeo seu interesse, mas, crela, estou bem e no precisa preocupar-se.
    - Est bem. No deseja falar, eu respeito. Mas saiba que estarei sempre aqui do seu lado para o que der e vier. Quando quiser conversar, serei todo ouvidos.
    O dono da galeria escolheu cinco quadros, mandou colocar neles luxuosas molduras e os exps. O sucesso foi absoluto. Alguns crticos que a princpio haviam ignorado 
o novo pintor comearam a interessar-se.
    
    382
    
    Houve um dos quadros que saiu em importante magazine e, desde ento, Nico no teve muito tempo para trabalhar em seu consultrio. As encomendas sucediam-se e, 
por fim, ele achou que estava abusando fazendo o salo da casa de Eullia de ateli e alugou uma pequena casa para onde levou seu material de pintura.
    Nesse tempo, absorveu-se inteiramente pela pintura, porque, enquanto pintava, sentia-se relaxado, esquecia o resto do mundo e tambm seu amor por Amelinha.
    Ela voltara a So Paulo e continuava cada dia mais conhecida como atriz. Foi folheando uma revista de moda na casa de Eullia que Nico foi tomado de pnico. 
Havia uma foto de Amelinha ao lado de um ator famoso e a notcia dizia que eles estavam apaixonados.
    O que ele sempre temera acabou acontecendo. Procurou controlar-se. Sabia que um dia ela se apaixonaria e ele teria de se conformar. Mas, apesar de seu esforo, 
no se conformou.
    Da janela de seu quarto viu quando ela chegou, depois da mela-noite, acompanhada pelo moo do retrato. Ele abriu a porta para ela descer, abraaram-se e beijaram-se. 
Nico pensou que fosse desmaiar de angstia. Afastou-se da janela tentando acalmar-se. Sentiu vontade de ir falar com ela, dizer que ela no podia amar outro homem, 
que era a ele que ela pertencia.
    Passou a mo pelos cabelos tentando controlar-se. Ouviu os passos dela na escada e o barulho da porta de seu quarto fechando. Respirou fundo, resolveu deitar-se. 
Mas ficou revirando-se na cama.
    Eram duas da madrugada quando Nico, insone, nervoso, se levantou e foi  cozinha para tomar gua. Sentia o peito oprimido e a respirao agitada.
    Apanhou o copo, encheu-o e sentou-se na copa tomando a gua devagar, respirando fundo. A dor era muito grande. Ele percebeu que no poderia suportar ver sua 
amada nos braos de outro. Ento resolveu afastar-se, ir embora dali. J economizara o suficiente para construir uma nova casa para a famlia no terreno que possuam.
    Iria para Sertozinho. No pretendia morar com a famlia. Estava disposto a viver sua vida a seu modo, manter sua privacidade. L, no sossego da pequena cidade 
onde nascera, continuaria pintando seus quadros, mandando-os para a galeria em So Paulo.
    Ficar longe de Amelinha seria um sacrifcio doloroso, mas v-la nos braos de outro seria um tormento maior. No se sentia com foras para enfrentar isso.
    
    383
    
Ouviu passos, e Amelinha envolta em um robe apareceu na copa. Vendo-o, assustou-se:
- Puxa!  voc? O que est fazendo a, sentado no escuro?
- Tomando gua e pensando na vida.
A claridade que vinha do jardim entrava pelo vitr e ela no acendeu a luz.
- Tambm senti sede.
Apanhou um copo de gua, sentou-se ao lado dele e continuou: - Foi bom encontr-Io. Quero conversar. Preciso tomar uma deciso.
Nico estremeceu. Tentou desviar o assunto:
-  tarde.  melhor irmos dormir.
- Estou sem sono. E, pelo jeito, voc tambm. Faz tempo que no conversamos. Tenho sentido saudade.
    Ela havia colocado a mo sobre o brao dele e aproximado seu rosto a tal ponto que ele podia sentir seu hlito. Falava baixinho para no acordar o resto da famlia.
    - Eu tambm. Pensei que fosse s eu a sentir falta de estarmos juntos. Voc tem andado to ocupada...
    - Voc tambm.  bom estarmos aqui, na penumbra, conversando como antigamente. Voc se lembra quando amos conversar no quarto de Eurico l na manso?
    - Foram os melhores dias de minha vida. Nunca esquecerei. Gostaria que o tempo no houvesse passado e fssemos crianas ainda.
    - Pois eu no. Gosto de ser adulta, independente. Por mais saudade que tenha, agora estou fazendo o que quero, consegui seguir a carreira que sempre sonhei e 
meus pais esto conformados. Eu seria uma pssima professora. Do jeito que voc falou, deu-me a impresso de que se sentia mais feliz naqueles tempos do que agora.
-  verdade.
- No entendo. Voc  um vencedor. Est ficando famoso. Tenho ouvido comentrios elogiosos sobre suas telas. Voc  um bom psiclogo, mas como pintor  um gnio. 
No est contente?
- Estou.  que, quando me recordo de nossa infncia, sinto saudade.  s.
- Voc estava pensando na vida. Fazendo projetos para o futuro? - . Decidi voltar para Sertozinho.
- Voc?! No momento em que est conquistando fama e reconhecimento quer enterrar-se no interior? Pensei que planejasse viajar, ir para a Europa, ver o mundo como 
sempre sonhou, e voc quer fazer o contrrio? No acredito. Alguma coisa errada est acontecendo. O que ?

384

    - No est acontecendo nada. Estou um pouco cansado da cidade. Creio que no interior terei mais inspirao para trabalhar. Vamos falar de voc. At quando a 
pea ficar em cartaz? Li que est nos ltimos dias. 
    - Ficaremos mais duas semanas. Para dizer a verdade, tambm ando um pouco cansada. Gostaria de tirar umas frias. Mas no para ir ao interior. Gostaria de ir 
para um lugar calmo e em boa companhia.
Nico estremeceu. Ela prosseguiu:
- Hoje Wilson me pediu em casamento. Faz algum tempo que estamos saindo juntos. Ele sugeriu aproveitarmos essas frias para firmarmos nosso compromisso. Quer aproximar-se 
da famlia e convidou a todos para irmos a uma fazenda de seu pai.
    Nico ficou calado. Tinha receio de que, se falasse, ela notasse sua emoo. No conseguindo dominar a presso, levantou-se de repente e ela fez o mesmo dizendo 
admirada:
- O que foi? Est sentindo alguma coisa?
Nico sentiu um n na garganta, e, seja pela cumplicidade da penumbra ou pela proximidade dela, no conseguiu conter-se. Abraou-a com fora, beijando-a apaixonadamente 
nos lbios. Ela estremeceu, e ele, sentindo toda a fora de sua paixo contida, beijou-a diversas vezes apertando-a de encontro ao peito.
    Ela se surpreendeu, mas no o repeliu. Ao contrrio, correspondeu, e Nico, sentindo-a trmula em seus braos, esqueceu todos os receios e ponderaes a que se 
habituara.
Quando conseguiu acalmar-se, largou-a dizendo baixinho:
- Desculpe, mas no pude conter-me. Eu amo voc, sempre amei.
Sei que  impossvel. Reconheo a distncia que nos separa. Mas, quando voc falou que ia casar-se, no pude controlar-me.
Amelinha aproximou-se dizendo com doura:
- Nico, por que nunca me disse? Por que deixou que eu pensasse que ramos como irmos?
    - Porque  como voc me v. Sei que no me ama. Nunca percebi nada que pudesse fazer-me acreditar que isso fosse possvel. Mas fique tranqila. Irei embora e 
nunca mais a incomodarei com meus sentimentos.
    - Nico, eu disse que fui pedida em casamento, mas no que havia respondido sim. Gosto de Wilson, ele  atencioso, agradvel, carinhoso.

385

Mas, amor, no sinto por ele. Por isso hesitava em aceitar seu pedido. No quero que v embora por minha causa. Agora sei que no vou aceitar esse casamento.
- No confunda seus sentimentos, Amelinha. Minha falta de controle perturbou-a.
Ela se aproximou ainda mais dele, olhando-o nos olhos e dizendo:
    - Nico, j tive alguns namorados, j me entusiasmei e pensei at estar apaixonada algumas vezes. Fui beijada, mas nunca senti com nenhum deles a emoo que seu 
beijo despertou. Ainda no sei o que , mas foi como se uma fora maior me arrebatasse e eu queria que nunca acabasse.
    Ele a abraou novamente e a beijou com paixo. Naquele momento esqueceram-se de tudo que no fosse aquele calor no corpo, transbordando, o corao batendo forte 
e descompassado e a vontade de que aquele momento fosse eterno.
    Ento Amelinha puxou Nico pela mo e levou-o at seu quarto. Fechou a porta e l se entregaram inebriados s emoes que os uniam.
    O dia estava amanhecendo quando Nico abriu os olhos. Amelinha, cabea encostada em seu peito, estava adormecida e ele ficou alguns minutos prendendo a respirao, 
comovido com a proximidade dela, olhando o rosto que amava, sem se mexer, com receio de acord-Ia e acabar com aquele encantamento.
    Recordando-se do que acontecera, sentiu uma onda de pavor. Ele sucumbira e arrastara Amelinha com sua paixo. O que diria ela quando acordasse e se desse conta 
do que acontecera?
    Eles haviam se amado com paixo, mas ele temia que quando o entusiasmo do momento passasse ela o odiasse. Por que no pde controlar-se? Ele fora recebido naquela 
casa como um filho e estava traindo a confiana das pessoas que tanto amava.
    Remexeu-se inquieto, e Amelinha ainda adormecida abraou-o com carinho, apertando-o de encontro ao peito. Emocionado, Nico beijou seus cabelos com amor, depois 
delicadamente a afastou, ela se virou para o outro lado e continuou dormindo.
    Com cuidado, Nico levantou-se e foi para seu quarto. Sentia-se culpado, mas ao mesmo tempo as lembranas dos momentos de amor que haviam vivido emocionavam-no.
    O que faria quando todos acordassem? No se sentia com coragem de aparecer diante de Norberto e Eullia depois do que havia feito. O melhor era ir embora.
    
    386
    
    Escreveria uma carta a Dona Eullia avisando que fora at Sertozinho ver a famlia. Era o melhor a fazer, porque dali para a frente no se sentia com foras 
de conviver com Eurico como um irmo, nem com Amelinha.
    Agoniado, sentindo o peito oprimido, Nico arrumou uma mala, escreveu a carta, colocou-a sobre a mesa da sala de jantar. Depois apanhou a mala e saiu sem fazer 
rudo, levando a tristeza e o remorso no corao.
    
    387
    
Captulo 28


    Nico levantou-se e foi at a janela. O jardim da manso estava lindo como sempre e ele se recordou quando pela primeira vez havia entrado l, com o corao cheio 
de curiosidade, desejoso de conhecer o interior da casa.
    Fazia um ms que ele estava hospedado l a convite de Liana e AIberto, que no o deixaram procurar outro lugar para ficar.
    Nico falara de sua inteno de morar em Sertozinho durante algum tempo e de alugar um lugar para montar seu ateli. Agradecia o convite e o aceitaria enquanto 
procurava um espao s seu. Agora que tinha recursos, desejava realizar esse sonho.
    Sua me no quisera mudar-se das terras da famlia e Nico construra graciosa casa j em fase de acabamento, e eles estavam muito contentes. Cada filho teria 
seu quarto, e eles no viam a hora em que a casa ficasse pronta.
    Depois que deixou So Paulo, Nico nunca mais viu Amelinha. A princpio esperava que ela desse notcias, que o procurasse, ainda que fosse para reprovar sua atitude, 
mas ela no fez nada, nem um telefonema, nem um bilhete.
    Seu silncio aumentava sua sensao de culpa, tornando-o triste e calado. Diante dos outros fazia o possvel para esconder seus sentimentos, e, se conseguia 
diante de algumas pessoas, no enganava sua me.
    Uma noite em que no conseguira conciliar o sono, ao ouvir o galo cantar levantou-se e foi at a casa da me. Queria sentar-se mais uma vez a seu lado em baixo 
da mangueira, naquele caixo tosco que continuava no mesmo lugar, tomar aquele caf gostoso e conversar com ela como nos tempos de infncia.
    Como foram bons aqueles momentos de intimidade e confidncia, s os dois no silncio da manh que despontava, ouvindo o chilrear dos pssaros e o cacarejar das 
galinhas, deixando o pensamento fluir, sonhando com o futuro.
    O futuro havia chegado, ele conseguira realizar muitas coisas com as quais havia sonhado. Entretanto, embora elas fossem boas, no haviam conseguido dar-lhe 
a felicidade que acreditaria obter com elas.
 que ele no pensara no amor, nem como esse sentimento o deixaria vulnervel, estabelecendo outros objetivos que se tornariam importantes para a conquista da felicidade. 
Agora ele sabia, mas no via possibilidades de realizar o que sonhava.

388

    Chegou  casa da me sentindo o cheiro do caf que vinha da cozinha. Entrou, beijou-a e, como fazia antigamente, apanhou uma caneca, serviu-se direto do coador 
e foi sentar-se em seu lugar preferido.
    Ficou l, sorvendo pequenos goles de caf, observando os primeiros raios de sol que coloriam o cu e as ltimas estrelas que desapareciam conforme a claridade 
aumentava.
    Ernestina logo foi sentar-se a seu lado, e ali, juntos como antigamente, Nico no teve receio de falar sobre o amor que tumultuava seu corao, os motivos que 
o fizeram voltar para sua cidade e o que ele pensava fazer no futuro.
    Ela escutou em silncio, olhando-o com carinho, sem perder uma palavra. Quando ele terminou, disse apenas:
    - Voc estudou, melhorou de vida, tem diploma de faculdade,  um artista de nome, mas ainda no deixou de ser aquele menino pobre que ia na porta da venda do 
Seu Nicolau  espera de carregar alguma compra e ganhar alguns nqueis. Na verdade, Nico, voc nunca saiu daqui.
- Por que est dizendo isso?
- Porque essa  a verdade. Embora voc hoje parea outra pessoa, seja instrudo, ganhe dinheiro, se vista como um doutor, nunca deixou de ser o Nico, o menino pobre, 
cuja me  lavadeira e o pai um incapaz. Ento eu pergunto: de que te serviu tanto esforo? De que te serviu trabalhar tanto se o teu corao continua o mesmo?
- Me, no estou entendendo.
- Est, sim. Voc fez tudo pensando em nos ajudar, em conquistar o respeito dos outros, e conseguiu. Mostrou que  inteligente, capaz, honesto e trabalhador. Mas 
se esqueceu de ver todas essas qualidades em voc. O tempo todo ficou se sentindo menos do que o Eurico ou a Amelinha, pensando que estava com eles de favor.
    - Mas essa  a verdade. Eles foram muito bons comigo, me respeitam e me estimam.
    - No estou dizendo o contrrio. Eles so maravilhosos. Durante anos me ajudaram com uma mesada generosa que aliviou o sofrimento da nossa famlia. Sou eternamente 
grata a eles por isso e considero eles amigos de corao. Entretanto, voc s v esse lado. Esquece como retribuiu ajudando o Eurico a recuperar a sade, sendo sempre 
sincero e amigo. Meu filho, o teu orgulho est te cegando, e isso  que est te infelicitando.
    
    389
    
    - Orgulho?! No, pelo contrrio. Estou considerando minha real posio.
    - Qual  a tua real posio? Voc  ainda aquele menino pobre, sem estudos, precisando da ajuda dos outros? Claro que no. Voc hoje  um psiclogo, tem diploma 
universitrio,  um artista de nome. Talvez at mais nome do que a Amelinha, que est lutando pra conquistar um lugar de atriz, mas que apesar de ser relativamente 
conhecida ainda no atingiu fama igual  tua como pintor.
- No  tanto assim.
- , sim. Tenho acompanhado pelos jornais e revistas. O Dr. Marclio sempre me traz as reportagens sobre voc. No que eu d importncia a isso, porque a fama  
uma iluso passageira, mas voc est se colocando no lado oposto, como se fosse um fracassado, e isso no  verdade. Voc  um vencedor e  digno de se casar com 
a mulher que ama, se ela te quiser.
- Est falando como me.
- No, meu filho. Voc sabe que eu sempre digo a verdade. Nunca menti pra voc. Repito, o teu orgulho est te confundindo. Voc no  mais o Nico daqueles tempos, 
voc agora  o Antnio Juventino dos Santos, psiclogo, pintor famoso. Est construindo uma casa pra tua famlia. Essa  a realidade. Mas, enquanto fica se depreciando, 
com medo de assumir aquilo que , de deixar ir embora aquele menino pobre que voc foi, no merece conquistar a felicidade. Vai ficar aqui, enterrado nessa pequena 
cidade, sofrendo, se machucando, perdendo tudo que conquistou. Voc conseguiu progredir, isso pode acontecer a qualquer um, com esforo, perseverana e trabalho, 
mas manter esse progresso s ser possvel quando aceitar no teu corao que voc  to bom como qualquer pessoa.
- Talvez tenha razo, mas para a famlia de Amelinha sempre serei Nico, o menino que eles ajudaram por caridade.
Ernestina colocou a mo no brao do filho ao responder:
-  voc quem est se colocando nessa posio. Pensando dessa forma, nunca chegar a ocupar o lugar que gostaria naquela famlia. Nunca te ocorreu que eles podem 
te ver de outra forma? Que no fariam objeo e at se sentiriam felizes em casar a filha com voc?
Nico sobressaltou-se:
- Eles nunca consentiriam.
- O preconceito  teu. Como pode saber se nunca perguntou pra eles? Nem sequer teve coragem pra se abrir com o Eurico, que  mais do que um irmo pra voc.

390

- No teria coragem de tocar nesse assunto com ele.
- Por qu? Onde est a tua sinceridade?
- Depois, Amelinha no me ama. De que serviria falar sobre meus sentimentos?
- Voc me decepciona. Nunca pensei que fosse covarde.
Nico endireitou-se no banco. Ela continuou:
- Por que ser que essa moa se entregou a voc depois de alguns beijos? Ser que ela  assim to fcil?
- Claro que no! - objetou ele. - Eu fui o primeiro... E  isso que me est atormentando.
Ernestina foi  cozinha e voltou logo em seguida com mais caf na caneca.
- Quer mais um pouco?
Como ele fez que sim com a cabea, ela despejou um pouco na caneca dele.
    - Tem bastante acar.  bom pra acalmar. Ento essa moa, que nunca tinha tido um homem, se entregou a voc. Por que ser? No  curioso?
    - Acho que a perturbei com meus beijos, ela me tem amizade, ficou confusa...
- E arrastou voc pro quarto em seguida. Pelo que contou, foi ela quem te levou l, no foi?
- Foi.
Ernestina suspirou. Meneou a cabea negativamente vrias vezes, depois tomou:
- Voc gosta mesmo dela?
- Gosto. Sem ela a vida no tem mais valor.
- Custo a acreditar.
- Eu a amo mais que tudo neste mundo. Por que diz isso?
- Porque se amasse mesmo no tinha desistido sem ao menos tentar. Fica aqui perdendo tempo sem saber a verdade. Fugindo como se tivesse praticado um crime.
- O que posso fazer? No tenho coragem para olhar Dona Eullia e o Dr. Norberto. Se souberem o que eu fiz, vo ficar furiosos.
- Mais furiosos ficaro se descobrirem atravs de outras pessoas.
- Ningum sabe, a no ser ela e eu.
- E se ela contar?
- No se atreveria. Teria vergonha.
- No sei. Ela pode ser mais corajosa do que voc.

391

Nico remexeu-se no banco, inquieto.
- Ela teria coragem?
- No sei. O que sei  que voc gosta da Amelinha, dormiu com ela. Ao invs de fugir, o mais decente era pedir a moa em casamento pros pais.
- No teria coragem.
- Pois ia ser o mais digno.
- Ela no me ama.
- Tenho minhas dvidas. Mas o correto era pedir a moa em casamento. Se ela no aceitar, no vai ser culpa tua. Eles no vo ficar magoados com voc.
- Isso  verdade. Estou comeando a pensar que tem razo.
- Pensa, meu filho. Vai pra casa e reflete em tudo que eu disse. Consulta o teu corao e no fica com medo de fazer o que tem vontade. A sinceridade  sempre a 
melhor escolha. Quantas vezes perdemos a chance de felicidade com medo de enfrentar algumas dificuldades? Voc ama a Amelinha. Desejar casar com ela  natural.
- Ela vai recusar...
- Se recusar, pelo menos voc tentou. No fugiu nem perdeu por omisso.
Nico deu um beijo no rosto da me e levantou-se:
- Vou pensar. Prometo.
Ele mal dormiu naquela noite, mas, quando voltou para a manso, no sentiu sono, ficou pensando em tudo quanto Ernestina lhe tinha dito. Reconheceu que era verdade. 
Apesar das conquistas que fizera na vida, no fundo continuava vendo-se como o menino pobre e desvalido que precisava da ajuda dos outros para sobreviver.
    Reconheceu que estava vivendo um momento decisivo: ou assumia e via-se como uma pessoa que subira na vida e poderia ainda progredir mais, ou continuaria a julgar-se 
socialmente inferior. Nesse caso, sua me tinha razo: de nada lhe valera ter conquistado o diploma e o sucesso.
    As palavras dela continuavam se repetindo em seus ouvidos e ele no conseguia esquec-Ias. Por fim decidiu. Voltaria a So Paulo e falaria com Amelinha.
    Afinal, havia se afastado sem nenhuma palavra sobre o que acontecera entre eles. Ela deveria estar magoada. Poderia estar pensando que ele desejava escapar  
responsabilidade. A esse pensamento, sentiu-se inquieto. Sim, ele precisava voltar e enfrentar as conseqncias do que fizera.
    
    392
    
Preparou a bagagem, despediu-se de Liana e Alberto e passou pela casa de Ernestina para contar-lhe sua resoluo.
- Estou contente que tenha decidido enfrentar a situao. No  bom deixar mal resolvido um assunto to importante como o teu.
    - . Foi o que pensei. A senhora estava certa. Sei que Amelinha no me ama, acredito que Dona Eullia e o Dr. Norberto no gostariam que ela se casasse comigo, 
mas diante do que aconteceu, tenho de me posicionar. Primeiro, falarei com ela para dizer que no pretendo fugir  minha responsabilidade. Vou pedi-Ia em casamento. 
Desejo saber tambm o que ela pensa sobre o que aconteceu entre ns, se devo confessar a seus pais ou se ela prefere manter em segredo.
- Voc fala como se ela j tivesse recusado o teu pedido de casamento. E se ela aceitar? Se disser que gosta de voc?
Nico passou a mo pelos cabelos inquieto e suspirou fundo.
- Claro que ela vai recusar. Durante tantos anos de convivncia sempre me viu como um irmo. Ningum deseja casar-se com um irmo.
Ernestina sorriu.
- Se eu fosse voc, Nico, no tinha tanta certeza. As mulheres so imprevisveis.
    - Nesse caso acho difcil. Apesar disso, estou disposto a enfrentar seja o que for. Afinal, acontea o que acontecer, pelo menos as coisas se definem,  melhor 
do que ficar aqui me culpando.
- Vai com Deus, meu filho.
- Obrigado, me.
Beijou Ernestina e saiu. Dirigindo seu carro de volta  capital, Nico ia pensando no que poderia estar acontecendo na casa de Eullia. Eurico ligara quase todas 
as noites contando as novidades e perguntando quando ele voltaria. Chegaria de surpresa.
    Passava das duas da tarde quando Nico chegou. Foi recebido com alegria por Eullia, que comentou:
    - Ainda bem que voltou. Espero que resolva ficar, porque Eurico anda impossvel. Fala em voc o tempo todo. "Porque vou ligar para Nico e contar isso... Vou 
perguntar quando ele estar de volta..." Vivia me pedindo para ir buscar voc. Quanto a Amelinha, parece uma sombra. No sei que bicho a mordeu. Anda de mau humor, 
quieta, o que no  seu costume. Ando desconfiada de que  alguma coisa de namorado.
- Vai ver que brigou com ele.
- Pode ser. Ele no tem aparecido para busc-la. Acho que sua presena poder ajud-la. Comigo ela nunca se abre. Com voc sempre foi diferente. Sei que conta todos 
os seus segredos. Por isso lhe peo: veja se consegue saber o que est acontecendo com ela. No agento mais v-la to aptica, distrada e triste.

393

Tentando esconder a preocupao, Nico respondeu:
- Conversarei com ela quando chegar.
- Ela est no salo. Devia ter ido ensaiar, mas disse que no estava muito bem e queria descansar um pouco. Isso me deixou mais desconfiada de que algo no vai bem 
com ela.
- Vou levar a bagagem para o quarto e depois falarei com ela.
- Isso, meu filho. Voc tem feito muita falta aqui em casa, viu? Todos sentimos saudade dos tempos em que estvamos todos juntos.
- Eu tambm sinto saudade. Foi um tempo bom.
- Foi, sim. Agora v, meu filho. Deve estar cansado da viagem, com fome. Deixe a mala no quarto e venha tomar um lanche antes de falar com Amelinha.
- Obrigado, mas eu comi na estrada. Estou bem. No se preocupe. Nico subiu, deixou a mala, lavou-se, trocou a camisa um tanto suada e empoeirada da viagem e procurou 
Amelinha no salo.
Abriu a porta e espiou. Ela estava deitada no sof tendo ao colo um mao de papis, olhos fechados. Estaria dormindo?
Ele entrou e aproximou-se dela, chamando:
- Amelinha.
Ela abriu os olhos e disse:
- Voc! Voc voltou!
Colocou os papis sobre a mesinha e sentou-se olhando para ele.
- Voltei porque precisamos conversar.
Ele se sentou ao lado dela no sof.
- Por que foi embora sem dizer nada?
Sem desviar os olhos dos dela, que o fitavam firmes, ele respondeu:
- Porque estava com medo. Senti-me culpado. Por no haver controlado minhas emoes, arrastei voc a uma situao delicada. Devo-lhe desculpas por isso.
-  s o que tem para me dizer? Que est arrependido?
- No. Vim para dizer-lhe que, se me aceitar, poderemos nos casar, embora seus pais possam se opor.
- Por que se oporiam?
- Voc sabe. No perteno  mesma classe social que vocs.
- E isso lhe d o direito de decidir por ns? Voc disse que me amava. Beijou-me com paixo. Est arrependido disso tambm?

394

Nico colocou a mo sobre o brao dela, dizendo nervoso:
- Sabe, Amelinha, seus pais receberam-me nesta casa como um filho, e vocs me trataram como um irmo. Eu no tinha o direito de trair essa confiana.
    - Desde quando o amor acontece de acordo com as regras convencionais? Desde quando o amor entre duas pessoas livres e adultas  proibido? Se reconhece que o 
queramos como se fosse da famlia, porque ocultou seus sentimentos e agora se envergonha deles? Ser que esse amor no  uma iluso? Ser que no est confundindo 
nossa proximidade, nosso carinho, com amor?
    - Voc est sendo cruel comigo. Eu gostaria de sentir por voc apenas um carinho de irmo, mas o que fazer se quando me aproximo de voc meu corpo treme, sinto 
desejo de abra-la, de beij-la, de guard-la em meus braos para sempre? Como posso explicar o que sinto e como me foi difcil ocultar esses sentimentos por perceber 
que voc no sentia a mesma coisa?
As lgrimas corriam pelo rosto de Amelinha, e Nico passou a mo pelo rosto dela como querendo enxug-Ias e continuou:
- Estou fazendo voc sofrer. No queria isso.
Ela o fitou com os olhos molhados e rompeu em soluos. Nico no esperava por isso. Nervoso, abraou-a dizendo:
- No chore mais, por favor. No posso v-la assim.
Ela encostou a cabea em seu peito e continuou soluando. Ele alisava seus cabelos tentando acalm-Ia. Por fim, Amelinha passou as mos em seu pescoo, levantou 
sua cabea e beijou os lbios dele, que inebriado retribuiu apertando-a de encontro ao peito, sentindo novamente dentro de si aquele turbilho de emoes.
    Beijaram-se vrias vezes. Nico estava trmulo, emocionado. Notou que Amelinha, tanto quanto ele, no conseguia falar. Fez um esforo, tentou acalmar-se. Quando 
serenou um pouco, disse:
    - Eu amo voc, Amelinha. No  pela proximidade, nem pelo fato de estarmos sempre juntos.  amor de verdade. Faz tempo que descobri isso. Mas me contive porque 
voc nunca demonstrou sentir atrao por mim.
    -  que eu no sabia. Naquela noite, quando voc me beijou, tudo ficou claro. Senti que o amava e foi por isso que o levei para meu quarto. Foi por amor!
    - No est confundindo seus sentimentos, o carinho de irmo, a afinidade espiritual que sempre tivemos, com amor?
    
    395
    
    - Por que duvida de mim? J lhe dei a maior prova que uma mulher pode dar. Depois, quando eu estava feliz, sonhando com nosso futuro, voc foi embora sem uma 
palavra. Fiquei triste, chela de dvidas. Por que fez isso?
    - Senti-me culpado. Achei que a tinha induzido a fazer o que fez. Pensei na bondade e na confiana de seus pais que eu tinha trado. Fui embora com o corao 
partido. Sofri muito todo esse tempo.
- E agora, por que voltou?
- Porque resolvi deixar de ser aquele menino pobre que sempre fui e assumir o que sou hoje. Como pessoa que tem um diploma, uma profisso, que conseguiu realizar 
seu sonho proporcionando conforto e bem-estar  sua famlia, que tem, alm de muito amor e carinho, condies de formar uma famlia e sustent-la. Vim para pleitear 
a conquista mais importante de todas. Casar-me com voc.
    Amelinha passou novamente os braos em torno do pescoo dele e beijou-o nos lbios com carinho. Depois se afastou um pouco e disse alegre:
    - Agora est falando verdade. Sempre admirei sua postura firme, sua lucidez, sabendo o que queria da vida, trabalhando para conquistar seus objetivos de maneira 
clara. Por isso, quando se colocou abaixo de mim, falou de diferena de classes, no entendi. O importante  o que voc , o que conquistou, com esforo, trabalho, 
perseverana e boa vontade.
- Voc se casaria comigo?
- Depende.
- Do qu?
- De ver como encara esse casamento. Se for por amor, para ficarmos juntos toda vida, eu aceitaria; mas, se for apenas por causa do que aconteceu naquela noite, 
s para "reparar um erro", eu sofreria, mas diria no.
Nico abraou-a, beijando delicadamente seus lbios.
- Passar o resto da vida com voc  meu maior sonho.
- Tem certeza?
- Tenho.
- Nesse caso, se me pedir, eu aceito.
Beijaram-se longamente. Depois ele disse:
- Bom, e agora? Terei de falar com seus pais.
-  o primeiro passo.
- Voc acha que me aceitaro?
- Vai ter de descobrir. - Vendo que ele franziu o cenho preocupado, ela sorriu e continuou: - Do jeito que eles gostam de voc, ser fcil.

396

A porta do salo abriu-se e Eullia entrou. Vendo-os abraados, parou surpresa. Foi Amelinha quem falou primeiro:
- Mame, Nico pediu-me em casamento e eu aceitei.
Eullia abriu a boca e fechou-a de novo sem saber o que dizer. Nico interveio:
    - Dona Eullia, ns nos amamos. Descobrimos isso h algum tempo. Por isso fui embora. Pensei que estava abusando da confiana que tanto a senhora quanto o Dr. 
Norberto depositaram em mim. Mas, l longe, sozinho, sofrendo, resolvi lutar por esse amor. Por isso voltei. Estou aqui. Conversamos, e Amelinha garantiu que tambm 
me ama. Pretendia conversar com a senhora e o Dr. Norberto juntos e falar de meus sentimentos e do que eu posso oferecer para a mulher que for minha esposa. Porm, 
j que fomos surpreendidos, acho melhor abrir meu corao.
    Eullia aproximou-se, olhando-os com interesse. Seus olhos brilhavam emocionados. Quando Nico se calou, ela disse:
    - Fez muito bem, meu filho, em voltar. Se vocs se amam de verdade, se pensam em casar-se, tm todo o meu apoio. Para ser bem sincera, ultimamente o futuro de 
Amelinha tem me preocupado. Ela foi sempre ajuizada, mas o ambiente onde trabalha  muito liberal. H pessoas de todos os tipos. Vrias vezes Norberto e eu conversamos 
sobre isso, sentindo receio de que um dia ela se apaixonasse pela pessoa errada e viesse a sofrer. Ns a amamos muito. Ela  nosso raio de sol, com sua alegria e 
beleza. Deix-la com voc, a quem amamos e confiamos,  para mim uma grande alegria e at certo alvio.
    Nico esforou-se por segurar as lgrimas que estavam prestes a cair, mas no conseguiu. Elas lhe desceram pelas faces. Eullia abraou-os com carinho.
    - Sejam felizes, meus filhos. Tenho certeza de que Norberto vai concordar comigo.
    - Obrigado, Dona Eullia. Depois de tudo quanto recebi da senhora nestes anos todos, ainda tenho este presente. S Deus pode pagar o que tem feito por mim. Desde 
j tem minha promessa de que tudo farei pela felicidade de Amelinha. Eu a amo muito.
    - Eu sei, meu filho. Para dizer a verdade, estou me sentindo muito feliz.
- Hoje, quando o Dr. Norberto chegar, farei o pedido.
- Vou mandar fazer um jantar especial. Tenho certeza de que teremos muito a comemorar. Espere at Eurico saber! Ele vai ficar muito feliz. Estava reclamando tanto 
sua ausncia.

397

- Tambm sinto falta dele.
- Vamos tomar um caf na copa. Quero saber tudo exatamente como aconteceu.
Abraados e alegres, eles foram at a copa, sentaram-se ao redor da mesa, trocando idias, planejando o futuro.

398

Captulo 29


    O dia amanheceu lindo e todos na manso acordaram cedo. Os empregados iam e vinham cuidando dos preparativos. Era o grande dia do casamento de Amelinha e Nico.
Eles haviam decidido casar-se na igreja de Sertozinho e depois a recepo seria na manso. O ambiente era alegre e a expectativa grande.
    Norberto e a famlia haviam chegado na vspera. Os preparativos foram feitos por Alberto e Liana. Nico chegara dois dias antes e hospedara-se na casa de sua 
famlia.
    A casa que Nico mandara construir era espaosa, arejada, mobiliada com conforto. Ernestina no lavava mais roupa para fora, mas no havia parado de trabalhar. 
Fazia doces to gostosos que em pouco tempo sua fama ultrapassou os limites da pequena cidade e vrias pessoas que passavam por Sertozinho paravam em sua casa para 
compr-Ios.
    Nico mandava-lhe dinheiro todos os meses e Jos havia tomado gosto pela plantao e pela criao de galinhas, ganhava dinheiro e contribua para as despesas.
Vendo a me s voltas com os doces na cozinha, Nico meneava a cabea e dizia:
- Voc j trabalhou muito. Agora  hora de descansar.
Ao que ela respondia:
- Deus me livre de ficar preguiosa! No  do meu feitio. Depois, o Jaime j ajuda o Z, mas a Nilce e a Neusinha no podem crescer sem trabalhar. Precisam aprender 
para valorizar a vida que tm. Voc viu como elas j sabem fazer de tudo na cozinha? A Neusinha tem um gosto pra enfeitar os potes de doce que voc precisa ver!
    Nico sorria feliz. Ele sabia que Ernestina nunca iria ficar sem trabalhar. O nico que no havia mudado era Jacinto. Preso  sua cadeira de rodas, continuava 
mais do que nunca pendurado na famlia.
    A princpio, mostrara-se revoltado com a nova situao e com a dieta que o Dr. Marclio o obrigara a fazer. Reclamava de tudo, dizendo-se vtima da fatalidade.
    Ernestina, entretanto, no se deixou impressionar pelas lamrias do marido. Traou para ele frrea disciplina no cumprimento do tratamento mdico e, sempre que 
ele se queixava, ela argumentava:
    
    399
    
    - Queixar-se no vai melhorar o teu estado. A culpa do que te aconteceu  s tua. No movimentava o corpo, comia muita gordura, e estragou a sade. Depois, no 
quis fazer os exerccios que o mdico mandou. Se tivesse feito tudo direito, teria voltado a andar.
- No tenho nimo. Estou sofrendo muito.
- E se continuar assim vai continuar sofrendo. No se esfora para melhorar!
- Voc no tem pena de mim.
- No tenho mesmo. Voc escolheu a tua vida. Nunca me ouviu.
Agora me diga: por que eu tenho que ficar ouvindo as tuas queixas todo dia? Faz o favor de parar com isso! De agora em diante, toda vez que se queixar, deixo voc 
sozinho. Cuido de voc, mas no vou ficar me aborrecendo com as tuas reclamaes. Eu e as crianas temos o direito de viver alegres dentro de casa.
    Ela disse e fez. Aos poucos, Jacinto deixou de se queixar e nos ltimos tempos chegava a participar das brincadeiras e da alegria dos filhos. Jaime tocava violo 
e os outros cantavam.
Nico sentia-se feliz observando o progresso dos irmos e a alegria que reinava em sua famlia.
Na manso, Eurico conversava com Alberto, dizendo de sua satisfao de ter Nico como cunhado.
    - Para mim foi natural. Os dois no se largavam. Depois, Nico sempre teve uma queda por ela. Quando ramos crianas e brigvamos, ele sempre a defendia. Eu ficava 
louco de raiva.
    - Eles estavam destinados um para o outro. Anos atrs tivemos uma revelao sobre o passado de sua famlia. Eles se amavam desde aqueles tempos.
- Puxa! Nunca ningum me contou isso.
- Temos de ser discretos com as revelaes de nossas vidas passadas. H de se ter bom senso e no fantasiar. As pessoas costumam exagerar esses fatos e acabam desiludidas 
quando as coisas no acontecem como elas esperavam.
- No se pode confiar nessas revelaes? 
- No se trata disso. Ocorre que elas registram parte de alguns fatos do passado. Querer adivinhar o futuro  iluso. No presente as coisas mudaram, as pessoas mudaram, 
as oportunidades so outras, alm de haver o livre-arbtrio de cada um, escolhendo a todo momento.
    - Mas voc disse que estavam destinados um para o outro. Poderia ter se enganado.
    
    400

- Poderia. Por isso nunca toquei no assunto. Mas, j que aconteceu, tenho certeza de que sero felizes.
Liana entrou na sala acompanhada de Joo Alberto.
- Vocs esto com fome? Vou mandar preparar um lanche. Alberto segurou-a pelo brao:
- No v ainda. Sente-se um pouco conosco. Descanse. Est andando de um lado para o outro desde cedo.
Ela se sentou no sof ao lado do marido e Joo Alberto ficou em p do lado dela.
- Por que no vai brincar com Rosa Maria? - indagou Liana - Quero ajudar voc.
- J ajudou. Agora v brincar. Vou descansar um pouco conversando com eles.
- Por que no conversa comigo? Eles estavam conversando muito bem.
Liana franziu o cenho.
- Joo Alberto, chega de ficar colado em mim. Acho que est na hora de tomar banho e se aprontar para o casamento. Aproveite que agora o banheiro est vazio.
- S se voc for comigo para escolher a roupa que vou vestir.
- Voc est grande e sabe muito bem que vai vestir a roupa que compramos para o casamento.
- Eu s vou se voc for comigo.
Liana levantou-se, dizendo:
- Vou com ele at l em cima, mas volto logo.
Quando eles saram, Eurico estava srio.
- O que foi? - indagou Alberto.
- O coronel Firmino. Continua o mesmo.
Alberto sobressaltou-se:
- Como assim? Voc o viu?
- Sim. Hoje ficou bem claro.
- O qu?
Eurico respondeu:
- Ele agora se chama Joo Alberto, mas continua apegado a Liana. Seu filho  o coronel Firmino reencarnado. Penso que vocs j sabem disso.
    - J. Mas com o tempo nos esquecemos. Voc tem razo: ele  muito apegado a Liana e tem muito cime dela. Tanto que evitamos nos abraar sempre que ele est 
perto. 
    
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    Quando ele era menor e nos via abraados, chorava, tinha crises, suava frio.
    Por causa disso, diante dele temos evitado manifestaes de carinho.
- A reencarnao  um fato. Tenho estudado esses fenmenos e freqentado uma sesso de estudos na casa de um professor meu.
-  bom ouvir isso. Ns tambm continuamos estudando e freqentando as sesses do Dr. Marclio.
- Gostaria de ir tambm, antes de voltar a So Paulo.
- Boa idia. Ele vai ficar muito feliz. E voc, no pensa em se casar? - Por enquanto no. Quem sabe um dia, se aparecer algum que valha a pena...
    Alberto sorriu malicioso. Eurico havia se tornado um rapaz bonito e simptico. J havia notado que as mulheres olhavam para ele com interesse.
            - Vai aparecer, estou certo. Est quase na hora. Acho que vou subir para me preparar.
- Eu tambm.
Quando Nico desceu do carro em frente  igreja da cidade, j o povo se aglomerava  espera.
    Ele estava bonito, muito elegante, e os que o haviam conhecido desde criana olhavam-no com entusiasmo, admirao e respeito. Ele entrou procurando a sacristia. 
Minutos depois Eurico apareceu abraando-o emocionado.
    Aquele casamento era o acontecimento importante da cidade e o povo se comprimia lotando a igreja, olhando com curiosidade e alegria a beleza dos arranjos de 
flores dispostos em profuso e os candelabros com todas as velas acesas. Os convidados haviam chegado e lotavam os lugares que lhes foram reservados.
Nico olhava o relgio com certa impacincia e comentou:
- Espero que Amelinha no atrase.
- O que  isso? Nunca vi voc to ansioso. Calma. Ela vir. Acha que o deixaria escapar? Est louquinha para agarrar voc.
    Logo depois Nico foi convidado para dirigir-se ao altar, onde o padre j se encontrava. Nico sentia-se muito feliz. Parecia um sonho, e intimamente ele agradecia 
a Deus tanta felicidade.
    A msica tocou, as portas principais abriram-se e Amelinha, de braos dados com o pai, entrou dirigindo-se a passos lentos at o altar, onde os membros das duas 
famlias j se encontravam.
Nico aproximou-se para receber a noiva e os dois postaram-se diante do padre, que imediatamente iniciou a cerimnia.

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        A tarde estava linda e os presentes assistiam emocionados, vibrando pela felicidade do jovem casal.
    Em um canto da igreja, um casal assistia emocionado, sem que ningum os pudesse ver. Era o esprito de Anita, acompanhada por seu amigo Neves.
            Quando a cerimnia terminou, os dois acompanharam os noivos at entrarem no carro que os levaria de volta  manso. Neves perguntou:
- Voc deseja ir at l?
        - No. Temos de voltar. Estou contente e aliviada. Sei que eles desfrutaro de um perodo de tranqilidade e progresso. Finalmente conseguimos nossos objetivos. 
Helena est feliz em companhia de Amadeo e no h nada que os possa atrapalhar. Sou muito grata a voc e ao grupo de Marclio. Sem vocs, teria demorado mais e o 
sofrimento deles teria sido maior.
    - Voc sabe, Anita, como  o processo. Depende exclusivamente do esforo de cada um. Deus espera que as pessoas amaduream para dar-lhes a felicidade. Ns os 
protegemos sugerindo bons pensamentos, idias do bem, mas estamos proibidos de fazer a parte que lhes cabe.
    Anita sorriu, seus olhos brilharam emocionados e ela respondeu com voz suave:
    - Eu sei, Neves. Embora a felicidade seja nosso objetivo maior, ainda no sabemos distinguir o falso do verdadeiro. Criamos iluses, perseguimos objetivos falsos 
e colhemos sofrimentos. Mas  por meio deles que aprendemos a conhecer a vida, a melhorar atitudes.  possvel que venhamos a nos enganar outras vezes. Esse  o 
preo do progresso. Apesar disso, meu corao est em paz por saber que, acima de todas as nossas falhas e at de nosso livre-arbtrio, est a vida nos protegendo, 
conduzindo nossos passos para o bem maior.
- A ansiedade atrapalha. As pessoas esto to voltadas ao mundo material, no tm pacincia de esperar, querem fazer tudo sozinhas. No se ligam com a fonte de vida. 
Nem sequer percebem que um objetivo no alcanado, ao invs de ser um fracasso, pode ser uma ajuda. Em tudo s os valores verdadeiros permanecem. Assim,  preciso 
no esmorecer, fazer sempre o melhor que souber, confiar na sabedoria divina e esperar.
    - Essa  a lio que estou aprendendo agora. H muito deixei a ansiedade. Decidi servir  vida, libertar minha alma das prises do passado. Hoje consegui uma 
grande vitria.
    - Voc mereceu, no se desesperou. Esforou-se, trabalhou, soube esperar.
    
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-  que eu sei que quem decide  a sabedoria divina, e ela, meu amigo, s faz acontecer quando chega a hora!
Neves sorriu, colocou o brao dela no seu e disse:
- Vamos embora. 
Os dois deslizaram para cima, desaparecendo na distncia. No cu, as primeiras estrelas comeavam a brilhar, iluminando a Terra e revelando a grandiosidade do universo 
e o poder de Deus.

Fim


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